L’Incs Extraordinário

L’INCS EXTRORDINÁRIO: CINEMA E LIVROS SOBRE OS EIXOS!!!

EIXO 1: A REALIDADE DO INCONSCIENTE É SEXUAL

Filme :Her (Ela)

Direção: Spike Jonze – 2013.

Trailler: https://www.youtube.com/watch?v=a7psv01LXEM

“Ora, na perspectiva do gozo, a relação com o Outro aparece, pelo contrário, como problemática e como derivada. É sobre esse fundamento que se justifica a proposição: a relação sexual não existe, é a partir daí que ela se torna, de algum modo, inevitável. […] A relação sexual não existe quer dizer que, no fundo, o gozo é idiota e solitário.” (Miller, 2012, p.47)

Em um futuro não muito distante, onde a tecnologia ocupa cada vez mais espaço na cultura, assistimos ao enredo de “Her”, filme que possui roteiro e direção de Spike Jonze. O filme retrata a história de Theodore, um homem que sofre com as consequências de um rompimento matrimonial bastante doloroso. Theodore trabalha nabelascartasmanuscritas.com, empresa especializada no ramo de compor cartas para pessoas que terceirizaram essa função. Ele é bastante reconhecido em seu trabalho, chegando a ser qualificado por seu editor chefe como “meio homem, meio mulher”, devido à sensibilidade de sua escrita.

Theodore passa grande parte de seu tempo livre sozinho, ora jogando vídeo-game, ora em chats virtuais. Pode-se dizer, até mesmo, que a solidão é algo que fisga esse personagem, tendo em vista que, nas salas de bate papo, um critério importante para a escolha de uma parceira para conversa era justamente esse: o de encontrar alguém que precise de companhia.

Preocupados com o estado de Theodore, seus amigos promovem um encontro para ele com uma mulher. Nesse encontro, Theodore deixa algo de si escapar, ao contar sobre o jogo de videogame que tem jogado: “Quero que um alienígena me ajude a achar a minha nave para eu sair do planeta e ir para casa. Mas ele é um filho da puta e eu quero matá-lo! Mas, ao mesmo tempo, eu o amo. Ele é solitário. Ele não tem pais ou alguém para cuidar dele…”. Essa revelação gera em sua acompanhante uma comoção contrária ao que ele esperava, pois, ao ouvi-la, ela lhe diz: “Uau! Você é um filhotinho de cachorro!”. Nada satisfeito, ele retruca: “Não quero ser um filhotinho, é um pouco patético… Eu quero ser um dragão. Posso te fazer em pedaços, mas não vou…”. Não é, contudo, pela ótica de um dragão que esse sujeito vê o mundo. Ao contrário, seu posicionamento mais se parece com o de um filhotinho, como lhe foi apontado.

No futuro retratado, um software surge como a nova promessa em termos de inteligência artificial. A propaganda veiculada para esse novo sistema operacional apresenta pessoas em um deserto, desbussoladas, esbarrando umas nas outras sem qualquer tipo de conexão. Nesse contexto, o novo software é descrito como “uma entidade intuitiva que escuta você, que entende você e que te conhece”.

Em sua casa, ao instalar o programa, Theodore é recepcionado por uma voz que lhe faz perguntas básicas a fim de que o funcionamento do programa esteja voltado para as suas necessidades: “Você é social ou anti-social?” “Você gostaria que o seu programa tenha uma voz feminina ou masculina?”. Ao responder que preferiria que o programa tivesse uma voz feminina, surge uma última pergunta: “Como você descreveria sua relação com sua mãe?” Ele responde: “Acho que boa… O frustrante com a minha mãe é que, se eu contar o que está acontecendo comigo, a reação dela é sempre sobre ela mesma”. Nesse momento, a voz do programa o interrompe e inicia a programação do que seria o sistema perfeito para aquele sujeito, talhado segundo suas necessidades.

A partir de então conhecemos Samantha, essa voz feminina que seria sua parceira “ideal”, que o faria companhia, que o ajudaria em suas atividades, que se interessaria por suas piadas, que o lembraria de suas reuniões, etc. Em outras palavras, alguém feito sob medida para esse ser falante. Na perspectiva do parlêtre, o que significaria isso? É que, para viver sua ficção, o ser precisa de um parceiro, a fim de poder realizar sua fantasia. Talvez por esse motivo a parceria estabelecida com Samantha tenha funcionado tão bem e por tanto tempo durante o filme. Por mais que fosse um Sistema Operacional, junto a ela Theodore recobria algo de sua falta, o que Lacan chamou de hiância central, a ausência não se fazia presente: a parceira “sob medida” estava sempre disponível para o seu gozo. Com ela, ele se sentia como um dragão.

No entanto nem tudo são flores e, mesmo na relação com um Sistema Operacional feito sob medida, o mal-entendido fundamental da linguagem pode se fazer presente. Uma das cenas que ilustra tal questão: após um desentendimento, Samantha passou a demonstrar interesse por outros Sistemas Operacionais, não estando tão disponível quanto antes. Uma hiância é aberta, deixando sua marca naquilo que se apresentava como uma relação “perfeita”.

Ainda que na era dos gadgets a promessa da felicidade seja a tônica, o mal-entendido da linguagem demonstra que não há relação. A solidão do sujeito com seu gozo, que pode ser daí deduzida, é ilustrada no filme não apenas a partir da relação que Theodore mantém com Samantha, mas igualmente na relação que outros tantos personagens desenvolvem junto a seus respectivos parceiros, Sistemas Operacionais ou humanos.

Lacan vai dizer que na “relação entre os homens e as mulheres, o que chamamos coletividade, a coisa não vai” (Lacan, 1972-1973/1985, p. 46). Essa disjunção não deixa de aludir ao que a apresentação do Eixo 1, que orienta a XXI Jornada, nos recorda, pois, “conforme Lacan, o sujeito (homem ou mulher) ‘é feliz’, ou seja, é-lhe dada a felicidade do bom agouro, o que não lhe evitará a servidão da singularidade do gozo que lhe deixa a não relação, que pode ser o fálico ou o não-todo fálico”. Trata-se daquilo que Miller (2012) indica em Os seis paradigmas do gozo, isto é, que a não-relação sexual diz respeito à “disjunção do gozo e do Outro, disjunção do homem e da mulher” (p. 39) e o que ela evidencia é que só “há gozo” (p. 41).

Como ressalta Miller (2012): “Trata-se de redescobrir, na própria psicanálise, o que triunfa hoje no laço social, o que se chama, sem que se pense muito nisso, de individualismo moderno e que torna, de fato, problemático tudo o que é relação e comunidade, até mesmo o laço conjugal (…)” ( p. 44). Nessa direção, o filme “Her” nos convida a apreciar a solidão do modo de gozo de cada um, bem como as invenções e percalços que cada sujeito esbarra no encontro sexual.

Referências

Lacan, J. (1985). O Seminário, livro 20: mais, ainda (2a ed., M. D. Magno, trad.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original proferido em 1972-1973)

Miller, J.-A. (2012). Os seis paradigmas do gozo. Opção Lacaniana online nova série, n.7. Disponível em: http://www.opcaolacaniana.com.br/nranterior/numero7/texto1.html

Michelle Santos Sena de Oliveira
 Samir Tadeu Honorato Marques

EIXO 2: A DIFERENÇA SEXUAL FAZ SINTOMA HOJE?

Filme: O Império dos sentidos

Diretor: Nagisa Oshima – 1976.

Link para o trailer: https://www.youtube.com/watch?v=zt52aHulpcQ

Duas interrogações da ementa desse eixo, qual seja: “Quando cada um reivindica o direito ao gozo? Quando a sexualidade pluralizada esgarça-se até o limite da implosão?”, remeteu-me a um filme: O império dos sentidos.

Lacan, em seu seminário O Sinthoma, comenta O império dos Sentidos, no capítulo “Do sentido, do sexo e do real”. Quando do lançamento do filme na França, assiste-o em sessão especial, fechada, junto a convidados da sua Escola, escolhidos por ele, que imagina terem ficado tão “embasbacado” com o filme como ele próprio ficara. Espanta-se porque não espera que um filme japonês pudesse abordar o erotismo feminino da forma como o faz. Essa frase demarca a diferença dos modos eróticos entre os sexos. A partir de então, declara, com certa ironia a meu ver, ter começado a “compreender o poder das japonesas” (1975-1976/2007, p. 122). E qual seria esse, se existe um?

O filme exibe o erotismo feminino ao extremo, e esse extremo, é, para Lacan (1975-1976/2007), a fantasia, de “nem mais, nem menos, matar um homem. Mas mesmo isso não basta. (…).”  (p. 122).  Tem mais.

Considerado um quase pornográfico, mas filmado com um rigor cinematográfico e requinte de fotografia, é capaz de não banalizar o sexo e exibir estranha beleza. L’empire des sens, classificado como drama erótico, é um filme francojaponês, inspirado em um caso real que chocou o Japão em 1936, com a história de dois amantes pela busca incessante de prazer, em que o sem limite do gozo invade a atmosfera sensual. Trata-se do envolvimento de uma ex-prostituta com o dono da casa em que ela é uma criada, que se inicia com uma cena de voyeurismo dessa mulher, vendo-o pela primeira, enquanto ele transa com sua esposa. Seu olhar pousa sobre o pênis. O relacionamento é transformado em uma tórrida paixão – entre o fora de controle da loucura feminina de poder e ciúmes, e o excesso e bizarro das experiências sexuais-, na plenitude de gozo que custa a vida do protagonista masculino, através de uma passagem ao ato da mulher que, no ápice dos jogos eróticos, a asfixiofilia – asfixia erótica-, o mata e depois que corta-lhe o pênis. Na cena, uma satisfação enlouquecida produz um corte e, literalmente, ela é vista depois de passar quatro dias andando segurando o pênis do amante junto ao corpo, embrulhado em um pedaço de seda vermelho. Corta e carrega consigo o pedaço de real, envelopado?

Eis o que faz enigma para Lacan(1975-1976/2007): “É uma amante mulher, que corta o pau de seu parceiro. É assim que isso chama. Nós nos perguntamos por que ela não o cortou antes” (p. 122). Por quê o faz depois de matá-lo?

A afirmação lacaniana é de que a fantasia não é a castração, a fantasia extrema é matar e não castrar. Da pergunta freudiana sobre o que quer uma mulher, “Lacan avançou na zona em que elas querem atingir o homem e seu objeto de louco apaixonamento”, comenta Laurent (em “Lacan analisante”, Opção lacaniana online, n. 03). O Homem “faz amor com seu inconsciente, e nada mais”, quanto ao que fantasia a mulher, pelo olhar do filme, Lacan diz ser algo que impede o encontro. Assim, a mulher japonesa do filme pode cortar e carregar, o verdadeiro objeto da sua adoração do corpo do amante, após colocar uma barra, “atravessando o grande A, essa barra que diz que não há Outro que responda como parceiro” (Lacan, 1975-1976/2007, p. 123). No império dos sentidos, a inexistência da relação sexual é revelada na exigência de atingir a plenitude e seu fim trágico, através da forma com que os parceiros, homem e mulher, lidam com o  império do gozo.

Curiosidades: O filme, desde o lançamento em Cannes, fez tanto sucesso, quanto causou escândalo, no Brasil foi censurado por 04 anos, e depois passou a ser o primeiro filme liberado em salas comerciais, para maiores de 18 anos, com cenas de sexo explícito.

Cristiane Barreto
(Membro AMP/EBP-MG)

EIXO 3: PSICOSE, ENIGMA E SEXUALIDADE

Filme : A Garota Dinamarquesa – (The Danish Girl).

Direção: Tom Hooper – 2016.

Link para o trailer:  https://www.youtube.com/watch?v=vjq2FgjpXow

 

“Todo o ser humano é um estranho ímpar”. Carlos Drummond de Andrade  (última frase do poema Igual-Desigual, em A Paixão Medida).

A Garota Dinamarquesa é um filme de delicadeza brutal! O filme, a partir de um romance homônimo, é baseado na história da pintora dinamarquesa trans, Lili Elbe (1882-1931), das primeiras pessoas a se submeter à cirurgia de mudança de sexo. Lili foi o pintor bem sucedido, Einar Wegener, que submeteu-se ao procedimento considerado “primitivo” em 1930: “a ciência não estava preparada para casos como o de Lili”. As três primeiras cirurgias às quais se submeteu foram bem sucedidas, contudo, um “mais, ainda” em se fazer mulher se impõe: decide-se pela quarta cirurgia em dois anos, um transplante de útero, pois queria ter filhos, que termina em óbito. No filme, contudo, a cena da morte, da frágil e decidida Lili, acontece no período inicial da recuperação da cirurgia para mudança de sexo.

Película é também pele fina, membrana que reveste os órgãos do corpo, e o filme parece revestido por algo dessa espessura, delgada e quase transparente, tão delicada e frágil como a personagem que deslinda-se em tela. O filme mostra o desenrolar desencadeado por uma contingência, uma experiência de gozo.: o tecido do vestido toca a pele de Einar, que faz posse feminina para que sua mulher retrate o corpo de uma mulher, em uma tela inacabada. Toque de seda suficiente para que ele, ao final do ensaio, que a partir da insistência da mulher substitui uma modelo que se ausentou, faz vir à flor da pele a dúvida de que, talvez, não seja um homem. Dúvida que desvela uma certeza vivenciada no real do corpo.

O casal belo, jovem e boêmio, diverte-se nos bailes de seu tempo, eventos sociais glamourosos, em que Einar fingi ser Lili, uma prima estrangeira da mulher –ficção que engendrou quando posava para a esposa. Do inominável do gozo surge Lili, um nome que ele passa a habitar. Esse nome aparece aqui, como Freud se refere ao nomes, convocando uma frase de Goethe, em A Interpretação dos Sonhos (vol. 4, p. 220): “parece termos crescido para dentro deles como a nossa própria pele.” Em um movimento crescente dramático, percebe que é o oposto que o guia: Lili é mais verdadeira que o personagem que viveu até ali. Mesmo a sua arte passa a não importar, não é mais uma solução para o sujeito, pois Lili passa a ser sua obra, definitiva e em construção. O trama subjetivo e o consequente desenlace sintomático do casal ganha corpo. Lili é sua obra prima – obra-mestra -, do pintor Einar que faz do seu corpo tela, e se perde, morre imerso a um gozo opaco do que faz nascer.

Lili percorre uma particular aventura no mundo, em busca da completude entre a imagem do corpo e seu ser de gozo; casa-se com um homem, quer ter filhos. Gerda, artista a frente do seu tempo, apoia essa transformação, mesmo dilacerada pela perda, segue com suas pinturas eróticas, de mulheres nuas em cenas masturbatórias, e pintando retratos de Lili pelo resto da vida. Na vida real, vive o declínio da sua pintura que perde vivacidade com a morte de Lili; alcóolatra, com a carreira obsoleta, separada do segundo marido. A devastação vivida por essa mulher, contudo, não é incluída no roteiro do filme, que opta por terminar com uma imagem mostrando, em outra direção, a fluidez do echarpe de Lili, que enlaçava o pescoço de Gerda, soltando-se e voando numa dança pela paisagem vasta da infância de Lili.

No filme, antes de morrer, Lili relata à Gerda, um sonho, carregado de nostálgica melancolia e lindo, que aponta o endereço de Lili e sua interpretação do desejo materno – remete ao enigma insondável ou à inexistência do desejo materno que diferenciaria seu sexo-, e faz surgir no olhar e na voz da mãe a nomeação que a acalenta: “ontem a noite eu tive o sonho mais lindo, eu sonhei que eu era um bebê, nos braços da minha mãe, ela olhou para mim e me chamou de Lili.” Nasceu assim, já prestes a morrer, na realização do desejo do sonho: Lili – A garota dinamarquesa-, um dos nomes do empuxo À mulher?

Curiosidades: A Dinamarca, dos países mais progressistas do mundo, foi o primeiro país a legalizar a pornografia, em 1969, e a introduzir o casamento igualitário (entre pessoas do mesmo sexo), em 1989.

Cristiane Barreto
(Membro AMP/EBP-MG)

Eixo 04: LIGAÇÕES INCONSCIENTES – QUAL O LUGAR PARA O AMOR ?

Filme: Amor (Amour)

Direção:Michael Haneke – 2012.

Link para o trailer: https://www.youtube.com/watch?v=bOAvhM7HAnk

O cinema propicia que roteiros subjetivos, comparados ao desenrolar das imagens nos sonhos e à exuberância tortuosas das fantasias, as mais íntimas, sejam partilhados. A captura do olhar através da tela, se dá como a que ocorre frente a uma pintura, com a diferença de que é quadro em movimento, tem voz e contém silêncio. Um filme pode ser visto a dois, com direito a pipoca, em meio a rotinas interrompidas ou complacentes domingos, mas é também exemplo da impossibilidade de dois fazerem Um: assiste-se a um filme sempre em solidão. Trilha, luz, direção em que cada vidente pode ver passar, na tela, nuances da sua própria fantasia, ou traços do seu gozo.

Dirigido pelo Austríaco Michael Haneke, e estrelado por ícones do cinema francês – Emmanuelle Riva, 85 anos, e Jean-Louis Trintignant, 81 anos, que protagonizam um casal de professores de música aposentados.Amour é daqueles filmes inigualáveis para abordar uma relação amorosa que não se abala com as cicatrizes do tempo, a deterioração dos corpos e a proximidade da morte. Ganhador, dentre outros inúmeros prêmios, da Palma de Outro em 2012 e do Oscar de melhor diretor de 2013, conta a história de um casal que envelhece em um drama comovente, em cenas que conjugam requinte e crueza da construção a dois. O filme impõe um ritmo lento, da mobilidade que tipifica a velhice, vivenciados pela personagem da esposa que pouco a pouco experimenta a degradação da sua capacidade física após sofrer um enfarte, e pelos sentimentos do marido que se dedica a ela, fazendo do cuidar um imperativo. Isolados, e unidos pelo amor. A doença exacerba o sofrimento, e ele acaba sufocando a parceira da vida inteira com um travesseiro. Assistir este filme é, frente ao seu irremediável final, indagar-se sobre o que perdura das ligações inconscientes nos destinos de um amor solidificado pela vida inteira, na época em que prevalece os amores líquidos.

Cristiane Barreto
(Membro AMP/EBP-MG)

EIXO 5: O INCONSCIENTE É A POLÍTICA

Filme : A Onda (Die Welle)

Direção: Dennis Gansel – 2008.

Link para o trailler: https://www.youtube.com/watch?v=brnEKSEvtZg

“Contra o que podemos nos revoltar hoje em dia?

Todos procuram por uma grande causa, uma ideia, e quando ela surgir…

Todos irão se unir!”

Baseado em um evento real, ocorrido em 1967, numa escola em Palo Alto na Califórnia (EUA), o filme A Onda, retrata os mecanismos de identificação presentes nas formações de grupos e também seus efeitos de segregação. Tudo se passa em uma escola de ensino médio, na qual são ofertadas duas disciplinas eletivas: anarquia e autocracia. O professor Rainer Wanger é escalado para dar aulas sobre autocracia, contra sua vontade. Os adolescentes, em busca de algo para fundamentar sua oposição às normas sociais, se interessam pela disciplina de anarquia, porém por ser ministrada por um professor conservador, decidem pela disciplina de autocracia, ministrada pelo jovem professor Wanger.

Para ensiná-los sobre esse regime, Wanger propõe que construam um governo autocrático em sala de aula. Os alunos se empolgam com a ideia, criam uniformes, saudações, e nomeiam o movimento “A Onda”. As condições de nascimento de um regime autocrático são descritas pelos alunos: ideologia do grupo, mecanismos de controle e vigilância, insatisfação popular, injustiça social, necessidade de uma figura de liderança, e, é claro, a implementação de uma “disciplina”.

Em busca da igualdade, são propostas ordens com base em uma “média”: o lugar dos alunos será decidido pelas suas notas, o aluno com notas mais baixas sentará ao lado do aluno com notas mais altas. As garantias da unidade do grupo são a igualdade e a uniformidade! A experiência caminha a partir do apagamento das diferenças ao impor um modo de gozo único, localizando os corpos no laço social pelo ideal do “poder e disciplina”. O grupo passa a proteger seus membros, acolher novos interessados, desenvolve saudações, uma marca, um modo único de vestir. A segregação logo vem à tona, trazendo consigo uma onda de violência que não se deteve aos muros da sala de aula, tomando a cidade e deixando sua marca vermelha por onde o grupo passava. A onda se alastrou e ao contrário do que o professor previu, fugiu ao seu controle, fazendo do encontro com a diferença um choque. Brigas violentas entre grupos, ameaças e coação figuram como os desdobramentos desse modo reducionista e perigoso de tratar o real da adolescência. “A Onda é minha vida”, diz o adolescente Tim quando o professor tenta pôr fim ao movimento.

O mecanismo de formação de grupos está no cerne do social, o que se evidencia principalmente na lógica das identificações na adolescência. Assim como Freud trabalhou em Psicologia das massas e análise do eu, o inconsciente tem relações com a organização social governada por um ideal que serviria como uma espécie de regulador de gozo, inscrevendo uma perda necessária à vida em sociedade. Na contemporaneidade, estamos diante da destituição dos grandes ideais, que outrora também fracassaram na garantia do bem comum. Sem a consistência de um Outro cultural, político ou religioso para constituir contornos simbólicos, somos convocados a gozar cada um por si.

O discurso do mestre moderno, científico e capitalista, propõe novos ideais baseados em um saber proveniente dos objetos, os gadgets. A aspiração igualitária é apropriada pelo discurso capitalista ao tentar extinguir as diferenças, homogeneizar os corpos e os gozos, culminando no sujeito consumidor. O consumidor se torna, assim, a fundação precária sobre a qual se erigem os modos de gozo que, ainda que assumam formas diversas e pulverizadas, realçando diferenças, permanecem na direção de apagá-las. E é justamente na adolescência, quando o real do sexo convoca o sujeito a se posicionar a partir de sua diferença no mundo, que os apelos do consumo e do imperativo do mais gozar se tornam mais atraentes, esculpindo respostas prêt-à-porter,como vimos no filme.

A Onda, assim, nos coloca de frente para a torção que o discurso capitalista realiza no ideal igualitário, ao desenhar o laço social projetando-o em uma unidade onde prevalece Um modo de gozo tirânico e maciço, do qual cada sujeito fará sua apropriação. Quando o professor Wanger questiona os alunos sobre a possibilidade da existência de uma nova ditadura na Alemanha e eles respondem: “de forma alguma. Já superamos isso. Somos educados demais”, rapidamente verificamos o contrário.

O racismo permanece no discurso contemporâneo, ainda que com novas vestimentas. Deparamo-nos cotidianamente com uma intolerância crescente à diferença, onde as ideias que poderiam nos vestir como referências simbólicas quase artesanalmente tecidas, são vendidas pelo mercado e pela mídia como modo de gozo, dando origem às diversas modas tão disseminadas nas redes. Logo, ao mesmo tempo em que é mais possível encontrar um lugar no mundo nas variadas ondas que se propagam, é preciso estarmos atentos à segregação para produzir matizes que possibilitem um mundo onde possamos viver juntos.

Michelle Santos Sena de Oliveira
Lisley Braun Toniolo

Referências Bibliográficas Comentada para a XXI Jornada da EBP-MG [27.7.17]

Eixo 1:

LACAN, Jacques. Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos Escritos. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003 

O gozo sexual no trabalho de ciframento do inconsciente faz obstáculo à relação sexual, no sentido de que ela não se escreve. Como afirma Lacan, “a linguagem jamais deixa dela (relação sexual) outro vestígio senão a de uma chicana infinita”.

LACAN, Jacques. A significação do falo. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998

Lacan logo no início do texto faz da castração um ponto nodal do inconsciente. Como não é possível ao ser falante ser homem ou mulher no sentido biológico devido à captura do corpo pelo significante, só lhe resta como solução parecer homem ou mulher, sendo o falo uma peça-chave nisso.

MILLER, Jacques-Alain. Uma partilha sexual. In Clique, Revista dos Institutos Brasileiros de Psicanálise do Campo Freudiano. O sexo e seus furos, n. 2, agosto/2003, Belo Horizonte.

Nesse texto Miller especifica a diferença entre o gozo fálico e o gozo não-todo fálico. A diferença sexual vista pela perspectiva da partilha dos gozos.

BRODSKY, Graciela. A escolha do sexo. In Clique, Revista dos Institutos Brasileiros de Psicanálise do Campo Freudiano. O sexo e seus furos, n. 2, agosto/2003, Belo Horizonte.

Nesse texto, Graciela Brodsky trabalha os elementos que determinam a inscrição de cada um na sexuação. A autora afirma que a sexuação é um assunto do corpo, no sentido que “é o encontro do corpo com o significante fálico”.

TARRAB, Maurício. Inconsciente Real. In: MACHADO, Ondina; RIBEIRO, Vera Avelar (org.). Scilicet, Um real para o século XXI. Belo Horizonte: Scriptum, 2014

Esse texto trabalha as duas noções de inconsciente, uma enquanto Outra cena fundamentada pelo Nome do Pai e pelo sentido sexual e a outra ao inconsciente ligado à contingência do encontro de alíngua com o corpo.

Eixo 2:

Ansermet, F. Elegir el propio sexo: Usos contemporáneos de la diferencia sexual. In: Virtualia, n.29 (Revista digital de la Eol). http://www.revistavirtualia.com

Por meio do relato de algumas vinhetas clínicas, o autor discute as diversas possibilidades de respostas subjetivas frente ao encontro com a diferença sexual. Em alguns casos estamos diante de uma certeza absoluta quanto ao sexo, o que nos permite descartar a problemática da escolha, claramente marcada pelo enigma, pela dúvida e pelo conflito inconsciente.

FALBO,Gisele. Sexualidade, Gênero e corpo. IN: Opção Lacaniana Online. Ano7.N.20 julho 2016.

O artigo estabelece algumas reflexões de Lacan e Freud sobre os problemas postos pela diferença sexual, bem como a sexuação em sua relação com o corpo,  situando o lugar do corpo na  incidência da diferença sexua e indicando sua articulação com o gozo.

SANTOS, T.C. ZUCCHI, M. A ex-sistência do real, a diferença sexual e a dissimetria dos gozos. IN: Latusa Digital. Ano3. N.22 maio2006

O presente artigo aborda a partir da diferença sexual e do gozo as perspectivas do sintoma. Primeira como mensagem escrita no fantasma, permitindo o sujeito reencontrar sua própria posição de gozo, e também como uma resposta real à inexistência da relação sexual.

Zucchi, M.A. O real do sexo e o inconsciente nos sintomas contemporâneos – (Revista Asephallus. N.4)

A autora explora a relação entre os novos sintomas e o Inconsciente Real, tal como desenvolvido por Lacan em seu último ensino. Pergunta-se sobre os efeitos sintomáticos na vida sexual de alguns sujeitos que, diante do impossível da relação sexual, não podem contar com a mediação da ordem fálica para se enlaçar ao Outro sexo. Destaca, nesse sentido, uma posição de recuo, indiferença e alijamento em relação ao corpo sexuado, enquanto solução possível em alguns casos.

Eixo 3:

ANDRE, S. O que  quer uma mulher?  Rio de Janeiro: Zahar, 1991.

Partindo de um órgão do corpo, Fliess, médico e interlocutor de Freud nos primórdios da psicanálise, construiu uma teoria universal sobre o feminino e a diferença sexual. Tendo o nariz e os fluidos do corpo como fundamento,  ele criou uma metáfora delirante do falo, fundando uma construção paranóica da relação sexual.

BORIE, JACQUES. Uma version de la vida sexual sin el falo. InEl Amor en las psicosisDirigido por Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2008.

O autor aborda a importância, no tratamento de uma jovem psicótica, da invenção de um dispositivo produzido por ela a partir de seu poder criativo que lhe permite ocupar o lugar de objeto do gozo sexual de seu parceiro, sem que isso lhe retorne como um  sacrifício mortífero  ao gozo do Outro.

GUÉGUEN, P.G. Una decepción precozInEl Amor en las psicosisDirigido por Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2008.

Trata-se do relato do tratamento de uma criança psicótica no qual o autor privilegia a sua leitura sobre o lugar do analista, especialmente, no que diz respeito à maneira pela qual uma criança pode se ver frente “a necessidade de dar a sua posição de gozo na transferência”. Para Guéguen, o amor que ai se instaura é marcado por um matiz erotomaníaco desta menina que busca encontrar no Outro os signos do amor, ainda que, nesse  caso,  estes signos não lhe retornem como um gozo ameaçador.

GUEY, N. Una Logica del Celibato. InEl Amor en las psicosisDirigido por Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2008

O caso apresentado e discutido na conversação que se segue, aborda a questão do encontro amoroso na psicose.  O encontro com o Outro sexo constitui para o sujeito um enigma e ele busca a análise visando resolvê-lo. Ao tomar a palavra, produz uma primeira tentativa de resposta, mediante uma solução delirante.

LAURENT, È. Vigencia de três exigencias deducidas de las enseñanzas de Lacan acerca de las psicosis. In: Estabilizaciones em las psicosis. Buenos Aires: Manantial, 1991

Laurent chama a atenção para a erotomania de transferência no tratamento das psicoses como resultado da articulação entre o amor e um gozo que transborda e que pode ser localizado no analista.

Eixo 4:

ALVARENGA, Elisa. O maior amor do mundo. In: Opção Lacaniana Online. n.4. Abril 2007

Elisa Alvarenga, destaca como pode um sujeito se desembrulhar com o aquém do ideal. Só a partir da entrada em cena da causa do desejo foi possível para Antônio, personagem destacado por Elisa, inscrever-se no campo do desejo e encontrar para si um pai. Toca-se, ali, no absolutamente só de Antônio, que instaura a possibilidade de uma vida, mesmo que num átimo.

GORSKI, Glacy Gonzales. Erotomania: Uma forma de amar. Opção Lacaniana Impressa. N.48. Março 2007.

O conceito de erotomania é parte do legado da clínica psiquiátrica e nesse campo foi utilizado especificamente para referir-se à existência desse fenômeno na psicose. Lacan, no entanto, lança mão desse conceito para aprofundar as reflexões de Freud sobre o modo masculino e feminino de amar.

LAURENT, Eric. A disparidade no amor. In: Curinga n.24 – Os nomes do amor. Junho 2007.

Éric Laurent localiza em algumas histórias literárias a dissimetria existente entre a maneira como as mulheres e os homens falam do amor. Ao passo que o homem se orienta no amor pela fantasia, há uma literatura que situa o feminino valendo-se da experiência mítica.

MILLER, Jacques-Alain. Uma Conversa sobre o amor. In: Opção Lacaniana Online. Ano1. n.2 Julho 2010.

O tema do amor é princeps para a psicanálise, tanto porque nela se trata do amor como se trata pelo amor. Em “Uma conversa sobre o amor”, o autor nos presenteia com um comentário vivo e atual das contribuições de Freud à vida amorosa.

SANTIAGO, Jésus. O engodo viril. In: opção Lacaniana impressa. n.68/69. Dezembro 2014.

No que tange ao “amor possível”, Jésus Santigo demonstra neste testemunho, como na abertura ao não todo feminino, no seu caso, o viril deixa de ser uma defesa contra as repercussões do feminino e, sobretudo, de se tornar o lado avesso do feminino. Essa abertura, segundo ele, revela-se distinta do efeito feminizante gerado pelo gozo sacrificial da fantasia, levando-o a concluir que no final de sua análise, o que conta é a resposta amorosa, contingencialmente, que se apresenta como separada do engodo viril.

Eixo 5:

Aguiar, A. (2006) “O Outro que não existe, existe? (a psiquiatria, a psicanálise e o declínio do pai)”. Latusa Digital, ano 3, Nº 25. Disponível em: http://www.latusa.com.br/pdf_latusa_digital_25_a1.pdf

Parte-se da afirmação de Miller de que a psicanálise mudou o mundo. Não o fez por meio de uma influência direta sobre a política propriamente dita (partidos, sindicatos, etc.), mas pela via de uma transformação dos costumes e dos valores morais. Algo do recalque foi levantado em escala social. A apropriação que o capitalismo fará dessa “liberação”, para fazer dela uma biopolítica, é algo que deve nos interessar se quisermos compreender os dias de hoje.

Brousse, M-H. (2003) O inconsciente é a política. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise.

A autora desdobra o sintagma “o inconsciente é a política” a partir da ideia de que o inconsciente tem a ver com o laço social justamente porque não existe relação sexual. Se inicialmente, para Lacan, o inconsciente se produz na relação do sujeito com o Outro, ao final de seu ensino, se produzirá no encontro do sujeito com o Outro sexo.

Laurent, É. (2016) O avesso da biopolítica. Uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: Contra Capa.

Laurent percorre o último ensino de Lacan e se vale do horizonte indicado por Jacques -Alain Miller acerca do empenho lacaniano em substituir o inconsciente freudiano por um novo termo, o falasser, para dar corpo ao que se revela no avesso da biopolítica.

Macêdo, L. F. (2014) “Notas sobre a biopolítica e política da psicanálise”. Disponível em: https://blogdasubversos.wordpress.com/2014/06/22/notas-sobre-biopolitica-e-politica-da-psicanalise-1/

Com a banalização do espetáculo sexual estamos em outro regime da sexualidade, e quanto a isso, o aparelho conceitual freudiano, fundado no interdito, no recalque, na repressão, e na falta, permanece alinhado com a época disciplinar. No mundo globalizado, a função do pai, ligada à estrutura do todo, que Lacan reconheceu na sexualidade masculina, cedeu àquela do não-todo, que reporta à sexuação feminina, e não há mais nada que esteja em posição de interdito.

Miller, J-A. (2011). Intuições milanesas I. Opção Lacaniana online nova série, ano 2, n. 5. Disponível em:http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_5/Intui%C3%A7%C3%B5es_milanesas.pdf

Tomando como ponto de partida uma proposição de Lacan retirada do seu Seminário A lógica da fantasia -“Não digo ‘a política é o inconsciente’, mas simplesmente ‘o inconsciente é a política‘”-, Miller propõe uma série de reflexões, em que trabalha conceitos como o inconsciente, a política, a cidade, o gozo.

Miller, J-A. (2004). “Lacan e a política.” Opção lacaniana 40.

Evocando Freud e Lacan, Miller comenta o impacto e os avanços de suas formulações extremamente atuais, no que concerne às questões da contemporaneidade, e particularmente àquelas relativas ao gozo.

Rennó Lima, C. (2014) “O inconsciente é a política.” Disponível em: http://clinicalacaniana.blogspot.com.br/2014/05/o-inconsciente-e-politica.html

Como a globalização colocou em questão as hierarquias e a tradição em nome do sempre novo, a psicanálise, com Lacan, pode restabelecer uma nova lógica, a partir mesmo da questão do feminino e inverteu o clássico: “não havendo exceção não há todo”, para estabelecer que “não havendo exceção há o não-todo”.

Blog da XXI Jornada da EBP-MG