" A direção do tratamento no século XXI": Um seminário de Francisco Paes Barreto

” A direção do tratamento no século XXI”: Um seminário de Francisco Paes Barreto

Por: Francisco Matheus Machado de Barros

No início deste ano, Francisco Paes Barreto, em uma parceria da Escola Brasileira de Psicanálise Seção Minas Gerais (EBP-MG) e o Instituto Raul Soares (IRS), iniciou o seminário mensal “A direção do tratamento no século XXI”.

No segundo semestre do seminário, em um primeiro encontro, Barreto apresentou um panorama do ensino de Lacan: as suas principais modificações, desde o estádio do espelho até o seu derradeiro ensino. Propôs ainda uma discussão em relação à problemática da contradição na psicanálise e o binarismo clínico “psicose x neurose”.

Dando continuidade aos trabalhos, no segundo encontro o psicanalista trabalhou as principais modificações ao longo do ensino de Lacan sobre “o modo de ação do psicanalista”, a saber: a interpretação.

 Os paradoxos da interpretação

A questão da interpretação se modifica radicalmente ao longo do ensino de Lacan. Essa modificação ocorre principalmente em função da mudança do conceito de real e sua relação com o sentido.

Em um primeiro momento, à luz da linguística saussuriana, a interpretação tinha como objetivo a descoberta de um sentido latente e o real estava mais próximo da realidade. Já no ultimíssimo ensino, o real é sem lei, vazio de sentido. Entretanto, o próprio Lacan interroga essa formulação de real, já que defini-lo dessa maneira já é lhe conferir um sentido.

Se a via da psicanálise é a via do significante – e isso não se modificou ao longo de todo o ensino – como abordar o real se ele é exatamente aquilo que escapa ao significante? Como fica a questão da interpretação se ela opera a partir do significante?

Na tentativa de nos elucidar esse paradoxo, Barreto percorreu a interpretação desde o primeiro ensino até o que ele nos esclarece como a solução para esse impasse: a interpretação borromeana.

Da revelação do sentido oculto ao limite do sentido

A psicanálise enquanto prática opera com o sentido, mas ela o faz de diferentes maneiras. Por exemplo, a interpretação é uma fala do analista que busca decifrar a mensagem cifrada pelo sintoma. Nesse momento, a prática se orientava como se fosse possível recobrir o real pelo sentido.

 

Lacan nos apresenta a fórmula acima como o matema do inconsciente. “S” seria o sintoma, “s” o sentido recalcado e a seta a interpretação. Esse tipo de interpretação implica na substituição de um significante por outro significante, podendo se estender eternamente. Em outras palavras, como Miller aponta, há uma hemorragia significativa, uma interpretação ilimitada.

Isso irá mudar, caso contrário, a psicanálise poderia ter se encaminhado para uma prática sem fim. Uma dessas modificações ocorre em relação à direção do tratamento: A interpretação passa a apontar o horizonte desabitado do ser.

O sujeito para Lacan não é um ser, mas uma falta de ser, o que nos coloca em uma nova perspectiva no tocante à interpretação. Não se trata mais de um sentido latente, ele já o aponta, como coloca Barreto, para um certo vazio.

A primeira interpretação aponta para um novo sentido, trata-se de decifração. A segunda interpretação faz limite ao sentido, trata-se do corte. Lacan chega a comparar o analista ao cirurgião, ou seja, aquele que opera por um corte. Se a segunda interpretação não tem mais como referência o sentido, o objeto a passa a sê-lo.

A interpretação borromeana: um esforço de poesia

A interpretação borromeana é uma resposta de Lacan diante do hiato presente entre a perspectiva e prática analítica. Se a psicanálise possui em seu horizonte o real separado do sentido o mesmo não se observava em sua prática, que continuava a se orientar pelo ele. Isso o levou a supor que haveria uma relação do sentido com o real.

Lacan buscou “praticar um efeito de sentido que não fosse semblante. Uma via de saída seria definir a operação analítica a partir da interpretação, conexão-significante, que, desta maneira, teria um efeito de sentido não equivalente ao semblante. No fundo, um efeito de sentido que alcançaria o real”[1].

Essa perspectiva o leva a definir uma oposição entre duas relações do real e do simbólico. Há o realmente simbólico, ou seja, a tentativa fracassada de dar conta do real a partir do simbólico. Essa seria a via da conexão significante, do semblante, portanto da mentira. Em contrapartida, há o simbolicamente real: há algo no simbólico de real, que não mente.

A interpretação até então estava do lado do realmente simbólico, que age a partir dos semblantes e é impotente em relação ao real. Entretanto, Lacan passa a defini-la a partir do simbolicamente real, o que o exigiu “ajustar o que ele chamou de significante novo. […] Trata-se de um novo modo de existência do significante que, tal como o real, não teria nenhuma espécie de sentido”[2].

Essa perspectiva seria a do real esvaziado de sentido, S2 separado de S1, um S2 que não conduz a S1. Dessa maneira, Lacan apresenta a interpretação borromeana como a saída para o impasse entre a perspectiva e a prática analítica, entendendo-a como a interpretação que possui um efeito de sentido e um efeito de furo.

O furo é o dos termos que Lacan relaciona ao anel de borromeu. Ele é formado por três anéis, no qual cada anel se relaciona a três termos: Ex-sistência, o mais externo do anel, Lacan relaciona ao real; a consistência, a própria linha do anel, está relacionada ao imaginário; e o furo, o meio do anel, que está relacionado ao simbólico.

O simbólico é aquele que se sustenta na função do furo no real. O furo é a essência do simbólico, da linguagem. Isso ocorre porque é o significante novo que está em jogo nesse momento para Lacan. Ou seja, àquele ligado ao vazio, que não significa nada. Temos dessa maneira o efeito de sentido situado no cruzamento entre o imaginário e o simbólico e o efeito de furo localizado no cruzamento entre o simbólico e o real.

 O matema se modificou, não há mais a decifração do sentido recalcado como orientação da interpretação, mas o vazio. A esse movimento da interpretação borromeana, Lacan relacionou a escrita poética, já que, tal como ela, possui um efeito de sentido e um efeito de furo.

O sentido é o que ressoa com a ajuda do significante. Mas o que ressoa, não vai longe, é de preferência fraco. O sentido tampona. Mas com a ajuda do que se chama a escrita poética, vocês podem ter a dimensão do que poderia ser a interpretação analítica” (tradução livre)[3].

Diferenciando-as somente no que diz respeito ao compromisso com o belo, que a psicanálise não possui: “[…] a primeira coisa seria extinguir a noção de belo. Não temos nada de belo para dizer. É de outra ressonância que se trata de fundar sobre o chiste. Um chiste não é belo, não se sustenta senão de um equívoco ou como disse Freud de uma economia. Nada mais ambíguo que esta noção de economia, mas de todos os modos a economia funda um valor. Uma prática sem valor, isso que se trataria para nós instituirmos” (tradução livre).[4]

Ela é sem valor, como nos esclarece Miller, pois “uma interpretação, como tal, não tem valor de troca, mas de uso”[5]. Ou seja, a psicanálise e sua prática caminham para uma radical singularidade, em que “um caso é sem valor para compreender o outro”[6].

Nos próximos encontros: o que virá? 

Nos próximos dois últimos encontros, Barreto continuou a nos guiar ao longo do percurso de Lacan e os consequentes desdobramentos de Miller. “Lacan pôde dizer que o real talvez fosse sua resposta sintomática à descoberta de Freud. Isso vale para ele sozinho, a tal ponto que não tinha certeza de conseguir comunicá-lo. Embora o tivesse inserido durante muitos anos em seus Seminários, distribuídos agora em forma de livros, ele não tinha certeza de seu desdobramento”.[7]

No caminho da singularidade radical, Barreto elucidou o que talvez seja um desdobramento do ensino da Lacan: o que cada Um, em seu encontro com a psicanálise e com um analista, consegue transmitir de sua experiência com o furo, com a falta de sentindo no real.

Diante disso, fica o convite para acompanhar os desdobramentos do que Barreto nos trouxe do Passe Clássico ao Passe do Parlêtre. O que ele poderá nos transmitir sobre “isso que insiste como vazio de significado e sentido, mas como positividade de gozo e como incurável”[8]?

 

[1]MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas do seminário 23 de Lacan. O sinthoma. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2010. (P. 162)

[2]MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas do seminário 23 de Lacan. O sinthoma. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2010. (P. 165)

[3]LACAN, Jacques. Seminário 24: El fracasso del Un-desliz es el amor. Artefactos: cuadernos de notas, México, 2008 [1976-1977]. (P. 169)

[4] LACAN, Jacques. Seminário 24: El fracasso del Un-desliz es el amor. Artefactos: cuadernos de notas, México, 2008 [1976-1977]. (P. 170)

[5] MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas do seminário 23 de Lacan. O sinthoma. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2010. (P. 169)

[6] Ibidem.

[7] MILLER, Jacques-Alain. Perspectivas do seminário 23 de Lacan. O sinthoma. Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2010. (P. 15)

[8] ZUCCHI, Márcia; VIOLA, Sandra. Sobre o esforço de dizer o impossível de ser dito: escrita poética e testemunhos. In.: Opção Lacaniana Online nº15. Novembro, 2014. (P. 14).