A direção do tratamento no século XXI: Um seminário de Francisco Paes Barreto

A direção do tratamento no século XXI: Um seminário de Francisco Paes Barreto

Por Francisco Matheus Machado de Barros

 

Francisco Paes Barreto, em uma parceria da Escola Brasileira de Psicanálise – Minas Gerais e o Instituto Raul Soares nos apresentou no segundo semestre de 2017, em quatro encontros, o seu seminário: “A direção do Tratamento no século XXI”.

O psicanalista percorreu o ensino de Lacan em seus distintos momentos. Trabalhou diretamente as diferenças clínicas entre o primeiro e o ultimíssimo ensino e as modificações da interpretação, o modo de ação do psicanalista. Nos seus dois últimos encontros Barreto privilegiou as concepções de final de análise: a concepção freudiana, o passe clássico e o passe do parlêtre.

O final de análise freudiano: o rochedo da castração

“Análise finita e infinita”, de 1937, é o texto fundamental de Freud sobre a sua concepção do final de análise. Barreto apontou como o ponto central desse texto a afirmação freudiana de que há um problema ao final de uma análise, um impasse, intransponível, ao qual Freud denomina como rochedo da castração.

O rochedo da castração se apresenta de maneira distinta para o homem e para a mulher. No caso do homem, a castração aponta para o seu lado feminino, o que Freud denomina de homossexualidade latente: uma posição feminina que o homem tem em relação ao pai.

Já no caso da mulher, Freud se detém ao que ele chamou de a inveja do pênis, correlato a dificuldade intransponível da homossexualidade latente para o homem. Para ele, a inveja do pênis se desenvolveria, na melhor das hipóteses, no desejo de ter um filho ou no desejo de se utilizar do pênis na hora do coito.

Freud desenvolveu a sua teoria sobre o rochedo da castração a partir desses dois termos. Por esse motivo, para ele, a análise pode ser interminável, ou, de outra maneira, terminar em um desses impasses. Ele propõe que para os analistas a análise é interminável e eles devem voltar a se analisar de tempos em tempos. Para os demais, restaria uma pedra no meio do caminho.

De um impasse ao Passe

Lacan desenvolveu a sua doutrina do passe clássico em três principais textos: o seminário “A lógica da fantasia” (1966-67), a “Proposição de 09 de outubro de 1967” e o seminário “O ato psicanalítico” (1968). Entretanto, como nos apontou Barreto, a Proposição é o mais importante deles no que diz respeito ao passe clássico, é lá que ele traz a sua formalização sobre o final de análise.

Barreto orientou toda a sua exposição a partir do que ele denominou como o matema do passe clássico, em sua importante tentativa de reduzir o máximo ao mínimo:

Ele demonstrou apoiado em seu matema dois sintagmas fundamentais: o impossível do desejo e o possível da pulsão. O primeiro deles se refere a perda inerente ao impossível do desejo, que se escreve como menos phi, a escrita da castração. O segundo é o reconhecimento do ganho inerente ao possível da pulsão e sua satisfação: o pequeno a.

Aqui está representado o paradoxo entre desejo e o gozo. Para Freud a pulsão é sempre satisfeita e a sua satisfação nada mais é do que o gozo. Ao passo que o desejo é aquilo que faz algum modo de limite ao gozo, ou seja, o desejo está intimamente ligado a uma insatisfação. O desejo quer se satisfazer de maneira completa, mas quando o faz não temos mais o desejo, mas sim gozo.

Desse paradoxo Freud traz a castração como um rochedo, um impasse. De modo que Lacan fez desse impasse o passe. Se Freud escreveu a castração em termos negativos, Lacan deu o passo seguinte: nomeou o menos phi, mas de forma positiva: o objeto a, a causa do desejo. O passe é o sujeito descobrir o objeto do seu desejo que continua faltante, mas não se apresenta mais como inatingível, há uma consistência. Faltosa, mas há uma consistência.

O dispositivo do Passe na Escola

Existem duas diferentes nomeações na Escola de Lacan. Há o Analista Membro da Escola (AME) e o Analista da Escola (AE). Essas nomeações foram construídas não a partir de uma ordem hierárquica, mas de um gradus. Entende-se gradus por grau, categoria, mas também como passo, lugar a se chegar, atitude.

Para Lacan ao final de uma análise há a produção de um psicanalista, mas para tanto é preciso prová-lo. Ele então propõe a criação de um dispositivo que irá dizer sobre final de análise.

O dispositivo do passe funciona da seguinte maneira: o passante (candidato que se propõe em dar prova de seu final de análise) faz um testemunho de sua experiência para pelo menos dois passadores. Os passadores irão passar o que eles escutaram para o cartel do passe, que por sua vez irá definir se houve ou não final de análise, se há ou não um analista.

Uma vez o Cartel tenha definido que o passante chegou ao seu final de análise, ele se torna um AE – Analista da Escola, e possui a responsabilidade de testemunhar à comunidade analítica, por três anos, a sua experiência de análise.

O testemunho do Passe Clássico consiste em contar a história que foi criada no contexto de sua experiência como analisante, a sua relação com o vazio ao se descobrir diante da ausência de uma significação última. Isso promove uma destituição subjetiva, o sujeito é então uma falta de ser, separado de seu gozo e o Passe o “exercício de palavra sobre o saber que se extrai a partir do sucesso da experiência de atravessamento da fantasia”.

O passe do parlêtre

Se o passe clássico é considerado um marco onde se inaugura Lacan além de Freud, Barreto chamou o passe do parlêtre de Lacan além de Lacan. A sua teorização está presente somente no prefácio a edição inglesa do Seminário XI, ao ponto que seria impossível pensar a formalização atual do final de uma análise sem a leitura de Miller, principalmente, dos últimos seminários de Lacan.

Há uma diferença fundamental entre as duas concepções lacanianas de final de análise. Na primeira delas, temos um sujeito que se divide entre o significante representado pelo sintoma e a fantasia representada pelo objeto. Ou seja, o percurso de uma análise levaria do sintoma em seu início à travessia da fantasia ao final.

Na segunda concepção o sintoma está presente do início ao fim de um percurso de análise. O começo da análise é marcado pela urgência diante de um sintoma que perturba o sujeito, que o faz sofrer. Ao final há uma identificação do sujeito ao seu sinthoma, uma conciliação possível entre sintoma e gozo. Dessa maneira, o parlêtre ao final da análise não se encontra separado de seu gozo como no passe clássico, há uma conciliação entre significante e gozo, trata-se de um sujeito gozoso.

Diferente do passe clássico a análise do parlêtre não chega ao seu final com o atravessamento da fantasia. Tendo o gozo como orientação, a análise promove a desconstrução da ficção que ela mesma criou, de modo que o sujeito, ao final, seja um ser que “fala de seu gozo, ou melhor, que fala o seu gozo”. De modo que, a partir da identificação ao seu modo de gozo, seja possível extrair uma satisfação daquilo que no início era causa de sua perturbação. “O passe do parlêtre é o testemunho de certo modo de tropeço”!

O próximo semestre: o que nos espera?

Dando continuidade aos seus seminários semestrais, Barreto já nos adiantou sobre o novo tema a ser trabalhado: “Religião, ciência, política, psicanálise: aproximações – Uma leitura psicanalítica”. Outra novidade é que os encontros ocorrerão na sede da EBP-MG, em data e horário ainda a serem definidos.

Março/2018 – Religião

Abril/2018 – Ciência

Maio/2018 – Política

Junho/2018 – Psicanálise