“A direção do tratamento no século XXI”: um seminário de Francisco Paes Barreto

“A direção do tratamento no século XXI”: um seminário de Francisco Paes Barreto

Você conhece o Blog do Barreto? O psicanalista possui um blog onde escreve sobre temas relacionados à psicanálise, psiquiatria e saúde mental. O Portal covida-os a visitá-lo, seguir essa construção contemporânea, de um psicanalista que insere a escrita nos dispositivos do seu tempo, um lugar, espaço de transmissão. Acesse o blog de Francisco Paes Barreto no endereço:

http://www.franciscopaesbarreto.com.

A última postagem do blog, de 25 de agosto de 2017, intitula-se “A direção do tratamento do psicótico”, e é inscrito como o III capítulo extraído do seu seminário “A direção do tratamento no século XXI”.

 

Francisco Paes Barreto, psiquiatra, psicanalista, AME – Analista Membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, sustenta a transmissão e o ensino em um seminário “por conta e risco”, na EBP-MG, em que trabalha “A direção do tratamento no século XXI”. Francisco Matheus Machado de Barros– psicanalista, participante do seminário e um dos responsáveis do Portal Minas com Lacan-, escreve aqui a localização e alguns desdobramentos propostos por esse seminário.

 

“A direção do tratamento no século XXI”: um seminário de Francisco Paes Barreto

                                                        Por:  Francisco Matheus Machado de Barros

 

No início deste ano, Francisco Paes Barreto, em uma parceria da Escola Brasileira de Psicanálise Seção Minas Gerais (EBP-MG) e o Instituto Raul Soares (IRS), iniciou o seminário mensal “A direção do tratamento no século XXI”.

No primeiro semestre foram realizados quatro encontros no auditório do IRS, em que Barreto, com orientação da leitura de Miller, da primeira clínica de Lacan, delineou a direção do tratamento na histeria, na neurose obsessiva e na psicose. Os textos produzidos para os encontros estão presentes no blog mantido pelo psicanalista. A ênfase do seminário este semestre será a direção do tratamento no século XXI, a partir da segunda clínica.

O encontro inaugural do atual semestre, no final de agosto, Barreto nos possibilitou um panorama do ensino: as suas principais modificações, desde o Lacan do estádio do espelho até o seu ultimíssimo ensino. Propôs uma discussão em relação à problemática da contradição na psicanálise e o binarismo clínico “psicose x neurose”.

As bases movediças da psicanálise

O ensino de Lacan sofreu diversas modificações ao logo de seus seminários, se em um primeiro momento havia a primazia do Outro, tesouro dos significantes, em um segundo momento há a primazia do Um, do gozo uno e do real. Há, dessa maneira, uma inversão da primeira clínica em relação à segunda, elas se sustentam em bases diferentes, mas sem que uma teoria sobrepuje a outra.

Se não há a anulação da primeira clínica em relação à segunda, como acreditar na psicanálise se as suas bases são movediças? Ou seja, como é possível a teoria do inconsciente estruturado como uma linguagem estar co-presente àquela da inexistência da relação sexual? Isso não seria da ordem da contradição?

Barreto aponta que a contradição existe, mas a relação entre os diferentes momentos do ensino de Lacan é de modulação e não de anulação. Tal como acontece em outros saberes em que a contradição também está colocada, como na matemática.

A geometria de Euclides, por exemplo, diz que por um ponto fora de uma reta pode-se traçar uma única reta paralela a reta dada. Já para Cantor, pode-se traçar quantas retas paralelas a reta dada se queira. Não há uma relação de anulação entre os dois postulados, Euclides continua a ser aplicado pelos arquitetos, enquanto Cantor, por exemplo, permite levar um foguete ao espaço.

Essa superposição das teorias, mesmo que contraditórias, fornecem uma orientação a respeito da atual discussão introduzida por Barreto em relação ao binarismo clínico “psicose x neurose” e a categoria epistêmica da psicose ordinária.

“Uma clínica binária, uma clínica ternária e uma clínica unitária, as três em uma. Como a Santíssima Trindade!”[1]

O Lacan estruturalista do início de seu ensino, a partir do inconsciente estruturado como uma linguagem, dividia as categorias clínicas em duas: neurose e psicose. Tal divisão era feita de maneira rígida e orientada pela forclusão localizada do significante do Nome-do-Pai (NP). Ou seja, de uma lado tínhamos a neurose se havia o NP e, se ele não estivesse presente, estávamos no campo da psicose.

A segunda clínica promove uma aproximação entre neurose e psicose, de forma que há uma relação de continuidade entre as estruturas clínicas. Essa aproximação ocorre a partir da formulação de que A mulher não existe, ou seja, do lado feminino da sexuação não há exceção que funde o conjunto das mulheres, assim falta o significante de “A mulher”. Esse significante está forcluído para todos, a forclusão é generalizada. Não a forclusão do NP, mas a do sentido no real.

Como consequência, independente da estrutura, cabe a cada sujeito a responsabilidade de responder no social por esse ponto singular que escapa a qualquer tentativa de significação.

O desenvolvimento teórico da psicanálise lacaniana e as mudanças da subjetividade de nossa época modificou a forma de se ler a clínica hoje. A aproximação entre as estruturas, a transestruturalidade dos sintomas, nos põe cotidianamente diante de impasses na clínica, como nos coloca Barreto: Se não podemos mais contar com os fenômenos, como vamos fazer para marcar a diferença?

Miller, ao inventar a expressão psicose ordinária, nos propõe uma investigação clínica dos pequenos detalhes, da “desordem na junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito”[2]. A partir do último ensino de Lacan, o que está em jogo na orientação clínica é menos a questão diagnóstica – o que ele é: Neurótico ou psicótico? –, e sim: como ele funciona?

“Com Miller, podemos dizer que as psicoses ordinárias e as outras, neuroses e psicoses, são, a um só tempo, « saídas diferentes para a mesma dificuldade do ser », para o que não cessa de não se escrever e que pulsa na « junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito »”.[3]

A continuidade entre as estruturas não apaga a separação entre elas, a diferença aparece na distinção lógica, nos recursos que cada Um tem para responder diante de sua experiência com o furo, com a falta de sentido no real. Ademais, diante dos impasses clínicos atuais, a direção do tratamento no século XXI nos reafirma a orientação freudiana de tomar cada caso como se fosse o primeiro. Ou seja, escutar no caso a caso o modo inédito que cada um inventa diante da relação sexual que não há.

 

[1] MILLER, J. A. Efeito de retorno à psicose ordinária. Opção Lacaniana Online nº3. 2012. (pág. 23).
[2] MILLER, J. A . 1º Efeito de retorno à psicose ordinária. Opção Lacaniana Online nº3. 2012. (p. 13)
[3] BARROS-BRISSET, F. O. Simplesmente, parlêtre!. Papers nº1. AMP. 2017. (p. 27)