Ação Lacaniana na cidade:

O que se escreve e o que não se escreve nos pixos e grafites?

 

                    

 

A ação Lacaniana do primeiro semestre de 2017 busca se lançar na cidade abordando o grafite e o pixo. Faremos conversação entre analistas, grafiteiros e pichadores com o intuito de localizar o que se escreve ou não se escreve no encontro com os muros e as paredes da cidade. O que é um muro? O que aí se escreve? O que é aí impossível de se escrever?

Apostamos nesta atividade aprender com o inédito que pode surgir quando estamos atentos em ouvir e ler o inconsciente, suas conexões, extensões e seus novos protagonistas.

Um axioma lacaniano nos servirá primeiramente como vetor, “o inconsciente é a política”.

Segundo: A ação Lacaniana de acordo com A. Benetti, é uma flecha atirada nas bolhas da segregação. Pensamos que seria preciso acrescentar: e seu retorno.

No Ato de Fundação, na seção de recenseamento do campo freudiano, Lacan define sua função, tanto para “ instruir nossa experiência quanto para comunicá-la. … Aquilo que, puder nos esclarecer … e no sentido inverso, aquilo que, de nossa subjetivação, … puderem receber de (nossa) inspiração complementar”.

 

 

Façamos ainda outras considerações sobre esta Ação.

Terceiro: seria ainda possível nos perguntar, se, para alcançar nosso proposito, deveríamos fazer uma leitura dos fenômenos da cidade, instruindo-nos e elaborando, uma espécie de psicopatologia da vida política?

Hoje a Cidade pode ser uma nostalgia e um lugar imaginário no sentido que atualmente, ela pode estar na televisão e nas redes sociais, como lugares onde supostamente se elaboram e se difundem um consenso.

Quarto: Hoje verificamos paradoxalmente que a pacificação do espaço publico, é acompanhada de uma dor privada, intima subjetiva, e que ao mesmo tempo em que se celebram as virtudes do pluralismo, da tolerância e do relativismo, mais se experimenta uma verdade que aparece no sofrimento do um sozinho. Nossa ação não deve caminhar por essa via do consenso nem da pacificação, mas dar voz aos conflitos e contradições, dando lugar às diversidades do gozo do vivente que fala. Neste sentido, devemos favorecer os arranjos, invenções e novas composição das singularidades em um espaço social de laços renovados. Aqui a Política se transforma em um operador cuja função é agenciar a melhor distribuição e enredamento dos modos de gozo.

Quinto.: Cabe a ação Lacaniana fazer frente ao mestre contemporâneo da era da globalização. O domínio do mestre contemporâneo (ver texto Intuições Milanesas – JAM) – agenciado pela ciência, formula J-A Miller, age por redes flexíveis, moduláveis e flutuantes por onde circula uma dominação que não é mais exterior e provoca uma liquefação dos ideais e identidades. Negri a isto denomina “alienação autônoma. Seria mais operativo hoje, ousar, no sentido de pensar mais o analista frente a Globalização do que na cidade?

 

 

A Globalização gerou um espaço social em que nada mais está em seu antigo lugar, trata-se a rigor da subtração da própria noção de lugar. Será a falta de lugar o real da globalização? O que não aí não se escreve? O grafite e os pixos estariam ai para reinscrever um lugar que não mais existe?

Seis: Frente ao mestre, será preciso colocar nesta ação uma dialética entre momentos de vigília, escuta e leitura e momentos de ação. A vigília condiciona a ação. Frente ao discurso do mestre é necessário que o psicanalista ai se submeta abertamente, para poder subverte-lo. Quando o mestre pressiona demais, devemos seduzir, persuadir para que ele não se irrite muito conosco. É preciso preservar nesta dialética o seu semblante.

A compatibilidade dos grafites e pixos com um discurso subversivo, mais do que transgressivo ou revolucionário, frente ao discurso do mestre de nossos dias, torna-o parceiro da Psicanálise e mais ainda, porque ambos a seu modo parecem dedicados à subversão e a escritura. A escrever o que não se escreve.

A partir dai, propomos junto a nossos convidados,   pensarmos o que ali faz laço, lugar, e até nome próprio.

Convidamos a todos, analistas ou não, interessado

pelos novos tempos , suas irrupções inesperadas e seus protagonistas, a conversarmos com abertura, no dia 20 de maio, sobre as novas letras que surgem em nossos campos e seus sprays coloridos.

 

Organização: Cartel – Anamáris Pinto, Bruna Albuquerque, Elizabeth Medeiros, Lisley Braun, Pedro Braccini, Raimundo Jorge Mourão, Sérgio de Mattos ( Diretor de Cartéis e Intercâmbios da EBP-MG), Jésus Santiago (Mais-um)