Almanaque 17 no ar!

Almanaque 17 no ar!

ALMANAQUE 17
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É com prazer que lhes apresento o número 17 do Almanaque on-line. Neste número, damos prosseguimento às investigações iniciadas no Almanaque 16, em torno do tema da juventude. Ao percorrê-lo, vocês notarão o impacto que o texto “Em direção à adolescência”, de Jaques-Alain Miller, provocou em nossa comunidade analítica e a forma como ele mobilizou o desejo de elaboração e de transmissão sobre o tema.

Em seu texto, Miller nos alerta sobre o efeito que a mutação da ordem simbólica provoca, em especial, nos adolescentes. Segundo afirma, essa mutação deixa um vazio no lugar doravante ocupado pelo Nome-do-pai, e isso desorienta os jovens. Eles estão à deriva e buscam uma salvação, algo que lhes indique um caminho. É nesse sentido que afirma que, para muitos desses jovens, o islã é uma boia de salvação. Mas sabemos que, se alguns jovens encontram uma inscrição nessa nova tradição apresentada pelo Estado Islâmico, outros inventam novas formas de se virar com esse vazio. Os textos apresentados neste número interrogam, cada um a seu modo, as múltiplas soluções encontradas pelos jovens e as possíveis respostas ofertadas pela psicanálise frente a essa juventude abandonada. Vale a pena conferi-los! Com certeza ajudarão a impulsionar nosso trabalho rumo à XX Jornada da EBP-MG: “Jovens.com: corpos e linguagem”, que acontecerá nos próximos dias 2 e 3 de setembro.

Os ecos desse debate podem ser encontrados nos três textos que compõem a rubrica Trilhamento. Francesca Biagi-Chai, com “Juventude à deriva <> Radicalização”, destaca, a partir de seu encontro com um jovem muçulmano preso em uma penitenciaria de Paris, a relação entre o fenômeno do nomadismo e da labilidade e a radicalização. O abandono, ressalta a autora, abre caminho para a presença do outro do Outro. Já Ana Lydia e Jésus Santiago ressaltam a importância de tomar o nomadismo como uma resposta efetiva à manifestação da inexistência do Outro na esfera do amor. Para os autores de “Amores líquidos, amores nômades: sobre as formas atuais da depreciação da vida amorosa”, o que era a tradição e o padrão dos modelos do relacionamento amoroso se desfaz, ao mesmo tempo em que surge um estilo de vida fluido e inconstante na esfera do amor. Damasia Amadeo ressalta, em “Puberdade, adolescência e estrutura”, que o analista deve ir além dos conceitos freudianos de puberdade e de adolescência para se orientar na clínica atual com adolescentes. Considera que o último ensino de Lacan pode contribuir para uma melhor leitura da subjetividade atual. O rigor desses três trabalhos torna essa rubrica imperdível.

Em Incursões, encontram-se os trabalhos apresentados na XVI Conversação do IPSM e suas ressonâncias. O relatório de Ludmilla Feres Faria aborda, a partir de uma conversação com jovens secundaristas, a relação entre o uso das redes digitais e os impasses na vida amorosa. Sergio Mattos investiga as construções do corpo ao longo da história: nas sociedades tradicionais ameríndias, no zen-budismo e na atualidade, tomando como exemplo os BodyMoods. Em seguida, ele retoma os testemunhos do passe para destacar como somos construídos por acontecimentos de corpo, que provocam desregulações e excessos no organismo jamais apaziguados pelo princípio do prazer. No relatório de Lilany Pacheco, encontramos a distinção entre o fenômeno das adições e a toxicomania e sua dimensão clínica. Produções da indústria da imagem – filmes, seriados e uma vinheta clínica – são o mote para questionar a “toxicomania generalizada”. Cada um dos três relatórios foi objeto de um comentário nos quais a dimensão política dos temas relatados pôde ser abordada a partir da pergunta: como atualizar a assertiva lacaniana “ o inconsciente é a política” nesse tempo de derrocada dos mestres? Não deixem de ler os comentários de Simone Souto, Fernanda Otoni B-Brisset e Cristiane Cunha.

Na rubrica Entrevista, conversamos com a socióloga Maria Isabel de Almeida, autora do livro Noites nômades, sobre suas mais recentes pesquisas sobre a juventude. A vivacidade de seu depoimento e a riqueza de informações que vocês encontrarão nessa conversa com certeza serão de grande valor para nossos debates. Em seguida, temos a entrevista realizada por Ana Lydia Santiago e Ludmilla Feres Faria com Philippe Lacadée, que mais uma vez nos brinda com sua permanente elaboração sobre os impasses e as soluções dos jovens. Nessa conversa ele retoma o tema do respeito, da relação dos jovens com o saber, da sexuação e também da sua experiência com um grupo de psicólogos que trabalham com jovens franceses que estavam se radicalizando e partindo para a Síria. Impressionante como as duas entrevistas trazem pontos levantadas nos textos anteriores. Imperdíveis! Agradecemos a Maria Isabel e a Philippe Lacadée pela disponibilidade e generosidade com que nos receberam e responderam a nossas questões.

Em Encontros, apresentamos as produções advindas dos diversos espaços de pesquisa do IPSM-MG. Os textos de Samyra Assad, Mônica Campos, Margaret Pires do Couto, Roberto Assis, Henri Kaufmanner e Raquel Guimarães e Virginia Carvalho trazem o vivo da investigação e da aplicação da psicanálise. O tema da juventude que animou os trabalhos dos Núcleos e das Lições Introdutórias no primeiro semestre deste ano apresenta-se, aqui, no estilo de cada um e retrata a forma com que a psicanalise se faz ouvir nos diferentes espaços de nossa cidade. Vale a pena conferir.

Para finalizar, temos, em Nova Geração, os textos “Histeria: do matema da fantasia ao discurso”, de Germana Pimenta Bonfioli, e “O manejo da transferência diante da demanda dos pais”, de Marina S. Simões, todos os dois de alunos do IPSM-MG. Essa rubrica retrata o resultado de um trabalho de transmissão ao qual a diretoria do Instituto tem se dedicado cada dia mais.

Somado aos textos apresentados, vocês encontrarão verdadeiras belezas nos trabalhos cedidos pelos jovens artistas plásticos Giulia Puntel[1] e Éder Oliveira[2] e pelo fotógrafo Frederico Bandeira[3]. Aos três, nossos mais sinceros agradecimentos, pois com certeza eles deixaram nosso Almanaque mais leve e mais colorido, mas, especialmente, agradecemos pela forma impactante com que retrataram o contorno dos jovens pela cidade.

Este número abre um segundo tempo na gestão da diretoria de Ana Lydia Santiago e Maria José Gontijo Salum, na qual se juntaram Graciela Bessa, na diretoria de ensino, Lilany Pacheco, na diretoria de Seção Clínica e Ludmilla Feres Faria, na diretoria de Publicação. Nosso maior interesse é que o Almanaque possa ser um espaço de transmissão cuidadosa do trabalho dedicado e entusiasmado de todos aqueles que circulam por nossa comunidade. Convidamos vocês a se juntar a nós cada vez mais.

Boa leitura!

Ludmilla Feres Faria

Diretora de Publicação

[1] Giulia Puntel (1993) é artista plástica e estuda na Escola Guignard. Para conhecer melhor seu trabalho, acesse: cargocollective.com/giuliapuntel.

[2] Éder Oliveira (1983) é natural de Timboteua, Pará. Licenciado em Educação Artística – Artes Plásticas pela UFP, é pintor por ofício desde 2004 e desenvolve trabalhos relacionando retratos e identidade, tendo como objeto principal trazer à tona os invisíveis. Trabalha e vive em Belém. Sua série mais conhecida retrata, em grandes dimensões, rostos de detentos e suspeitos de crimes que foram estampados nas páginas policiais de jornais populares em seu estado. Questiona o sensacionalismo de veículos de imprensa fundamentados numa cobertura parcial, antidemocrática e pouca crítica. Participou de diversas exposições, entre elas a 31ª Bienal de Artes de São Paulo (Pavilhão Ciccillo Matarazzo, 2014).

[3] Frederico Bandeira é publicitário, sócio-diretor da Agência Casasanto. Nas
horas vagas, gosta de tirar fotos. Nos últimos anos, realizou trabalhos de fotografia e foi
influenciador digital no Instagram para empresas, como Netflix América
Latina e Natura, entre outras.