Ementa Seção Clínica do Instituto de Psicanálise de Minas Gerais

Tema: Cólera, ódio, indignação: desafios para a psicanálise

Lilany Pacheco

Em consonância com o tema de IX Enapol que acontecerá em São Paulo de 13 a 15 de setembro de 2019, os vários Núcleos de Pesquisa que compõem a nossa Seção Clínica, no primeiro semestre de 2019 dedicarão suas atividades na exploração dos diferentes efeitos do contexto contemporâneo no qual ódio, cólera e indignação se apresentam como os afetos que explodem como manifestações do corpo social e o seu entrecruzamento com as pulsões e os destinos que elas podem ganhar para o ser falante enquanto sintoma e/ou solução. Não se trata, portanto, de investigar as manifestações coletivas nas quais se reconhecem o ódio, a cólera e a indignação, mas o modo singular como um cada sinthomatiza seus efeitos, explicitando, o que pode se constuir para cada um, um modo de gozo.

No início de seu ensino, Lacan, em O seminário, livro 5, ao marcar o lugar do falo na direção do tratamento, aponta um uso feito pelos pós freudianos do aparecimento da agressividade durante o tratamento psicanalítico. “Os analistas em formação viam-se dizendo: – E então, você analisou bem sua agressividade?”. Lacan marcará que o sistema narcísico tal como ele o circunscreveu no estádio do espelho era fundamental na formação das reações agressivas, assinalando o quanto o termo agressividade continuava marcado pela ambiguidade. Esclarece que a agressividade provocada na relação imaginária com o pequeno outro não pode confundir-se com a totalidade do poder agressivo.

“Para relembrar coisas de evidência primária, a violência é de fato o que há de essencial na agressão, pelo menos no plano humano. Não é a fala, é exatamente o contrário. O que pode produzir-se numa relação inter-humana são a violência ou a fala. Se a violência distingue-se da fala, pode-se colocar a questão de saber se a violência enquanto tal – para distingui-la do uso que fazemos da agressividade, pode ser recalcada, uma vez que postulamos, por princípio, que só pode ser recalcado aquilo que revela ter ingressado na estrutura da fala, isto é, numa articulação significante.” (Lacan, 1957-1958, p.471)

Lacan retoma o esquema do entrecruzamento da pulsão com a cadeia significante para lembrar que é aí que se inscreve a relação do sujeito ao Outro, na busca de satisfazer suas necessidades, entando aí, as dificuldades de repartição daquilo que pode permitir ao sujeito reconhecer o que das as suas “satisfações” e “insatisfações” se inscrevem no circuito da demanda.

Em o seminário, livro 10, A angústia, Lacan retoma o tema da angústia freudiana distinguindo as emoções do afeto como efeito da presença do excesso pulsional, ao mesmo tempo em que reconhece o interesse que os afetos possuem para a psicanálise tendo em vista a metonímia das paixões que eles desencadeiam. Tal como destacou Marie Hèléne Brousse no prefácio a Cause du Desir 93, a necessidadde que temos de articular, em nossa prática psicanalítica contemporânea, os afetos e suas paixões à alguma coisa ligada à biologia, a psicologia, a antropologia e à filosofia para situar aí, o gozo.

Assim, no contexto dos afetos que hoje se nos apresentam no entrecruzamento das pulsões com o Outro, cujo nome se paga frente ao Um do gozo nos dias atuais, faz-se interessante escutar o Ódio, a Cólera e a Indignação, como traços significantes, tal como formulou Lacan no Seminário, livro 5, e como modo de gozo, tal como ele formulará no seminário 10, uma vez que a sua não inscrição na fala evidenciam o fracasso do recalque, e, ao invés de se apresentarem pela palavra, aparecem como atos que os seres falantes tentam escrever com seus corpos.

Esse será, portanto, o enfoque que encontraremos nas diversas atividades dos Núcleos de Pesquisa que compõem a Seção Clínica do Instituto de Psicanálise de Minas Gerais, nos programas no aplicativo do IPSMMG e em www.minascomlacan.com.br .

Referências:

BROUSSE, M.-H. Affectés du langage. In La causa du désir, n. 93,  2016

LACAN, J. O Seminário, livro 5: As Formações do Insconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. 1999.

LACAN, J. O Seminário, livro 10: A Angústia (1962-1963). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. 2005.

LAURENT, É (2013). O avesso da biopolítca – uma escrita para o gozo. Rio de Janeiro: contra Capa, 2016. (Coleção Opção Lacaniana, v.13), 248p.