Seção Clínica

TEMA DA SEÇÃO CLÍNICA 1/2018

A queda do falocentrismo e suas consequências para a Psicanálise

Nos últimos Congressos da Associação Mundial de Psicanálise, da qual Jacques Alain Miller é o fundador, seguimos a orientação de acompanhar Lacan em seu último ensino. Nos dizeres de Miller, Lacan reivindicava a dignidade para o seu pensamento e, para além de se deixar atordoar por seus clichês, trata-se de segui-lo nas vias inéditas de seu pensamento. Miller destaca o fato de Lacan, naquilo que em sua orientação lacaniana ele chama de seu “ultimo ensino” ter conseguido realçar de modo instrutivo, que o que se tornou a psicanálise não está mais em conformidade com o que se pensava sobre ela.

Como escreveu Miller,

“A psicanálise muda. Não é um desejo, mas um fato. Ela muda em nossos consultórios de analistas e essa mudança, no fundo, é para nós tão manifesta que o Congresso de 2012 sobre a ordem simbólica, assim como o deste ano sobre o real, têm, cada um, em seu título, a mesma menção cronológica: «no século XXI».” (Miller, 2016)[1]

Não é mais o que era, há algo de novo… Como dizer melhor o fato de termos o sentimento do novo e, com ele, a percepção de suas incidências na prática da psicanálise e a urgência da necessidade de uma atualização? O que testemunhamos na sequência dos três últimos Congressos da Associação Mundial de Psicanálise, foi alternadamente, «A ordem simbólica…», depois de «Um real…», e, por fim, seguindo a equivalência formulada por Lacan: “o imaginário é o corpo”. As três categorias cujas iniciais são R.S.I., designadas por Lacan como os verdadeiros Nomes-do-pai, daí o que ele chamou de pluralização dos nomes do pai e seus efeitos na clínica contemporânea.

Sabemos, entretanto, desde Freud, que o que se passa no Complexo de Édipo, tem consequências na organização genital infantil. Assim, o que não é mais o que era, não será sem consequências para a assunção do falo, enquanto regulador do gozo e da orientação do sujeito na sua relação ao desejo, em todas as suas acepções.

Em “A significação do falo” Lacan dirá que tudo se acontece com o sujeito tem a ver com o que acontece no Outro. A formalização da metáfora do nome do pai, em O Seminário, livro 5, terá como efeito que o falo, enquanto função, será o denominador do que se passa no campo do Outro: Outro/Falo.

Para chegar à noção de falo como função, Lacan abordará o falo pelo que ele não é: o falo não é uma fantasia, não é um objeto, menos ainda um órgão. O falo é função, função significante. O significante negativiza o órgão. Essa proposição lacaniana retira o falo da querela que se estabeleceu entre Freud e seus contemporâneos.

Se para o Lacan dos anos 50 “o falo se esclarece por sua função” e se inscreve na perspectiva do inconsciente estruturado como linguagem, essa formalização aparecerá em seu último ensino como f(x), “função fálica de x que faz suplência à relação sexual.” Se em um primeiro momento o falo enquanto função significante permitia que se passasse do significado à significação, bem como as articulações entre demanda e desejo encontradas no grafo do desejo, já no Lacan de 1974, em “O Aturdito”, tratar-se-á de mostrar a antinomia entre significação e sentido. Se o sentido se impõe, a significação declina. Tal como destacou Pierre Naveau, a escrita matemática da função fálica f(x) implica, em si própria, considerar o recalque do real do gozo, castrando a linguagem.

Assim, acompanhamos Lacan re-significando a relação mãe – bebê, chamada de relação dual pelos pós freudianos, para localizar ali, entre esses dois termos, a presença do falo em um jogo de ausência e presença cujo enigma cessará com a assunção do falo em sua face simbólica. Posteriormente, no seminário 10, o falo negativizado, dando lugar ao objeto a, inscrito na causa do desejo, para, por fim, em seu “ultimíssimo ensino”, reconhecer algo do falo, enquanto presença real, impossível de negativizar.

Temos, entretanto, desde o primeiríssimo Lacan, as incidências clínicas da não dialetização do falo. Em torno das formulações de Lacan em O seminário, livro 3, a partir da distinção entre os fenômenos encontrados na clínica como evidências da foraclusão do Nome do Pai, e, por outro lado, fenômenos decorrentes da foraclusão do falo, a exemplo dos fenômenos de corpo, constituiu-se uma clínica estrutural, que a despeito de reconhecermos seus limites, ainda orienta a prática psicanalítica. Assim, vemos a falha fálica, nesse primeiro tempo do ensino de Lacan, como elemento estrutural.

Em consonância com o tema do Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, que acontecerá no Rio de Janeiro no segundo semestre de 2018, a Seção Clínica do Instituto de Psicanálise de Minas Gerais, enfocará, nesse primeiro semestre de 2018, as incidências para a psicanálise em relação ao que se passa do lado da inscrição, não inscrição ou falhas na inscrição do falo em nossos diferentes campos da psicanálise aplicada que constituem os nossos Núcleos de Pesquisa.

As discussões do último ensino de Lacan nos colocam essa perspectiva, pela via da amarração R.S.I., tal como mencionado anteriormente. Ou seja, fazendo um esforço conceitual para passarmos pelo Lacan clássico do significante, ao Lacan do objeto pequeno a e do gozo, para alcançarmos a idéia do aparelho do sintoma como o que permite recuperar a conexão do significante com o gozo, tal como se verá nos programas de pesquisa do primeiro semestre de 2018, que vocês podem conhecer pelo portal www.minascomlacan.com.br ou pelo aplicativo do IPSM-MG, disponível para aparelhos celulares em suas stores. Oriente-se, faça as suas conexões com os nossos diferentes modos de exploração do tema “A queda do falocentrismo e suas consequências para a Psicanálise.”

 

Referências Bibliográficas

 

Lacan, J. (1998). A significação do falo. In J. Lacan, Escritos (pp. 692-703). Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1953)

 

Lacan, J. (2003). O aturdito. In J. Lacan, Outros Escritos (pp. 448-497). Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.

 

Lacan, J. (1985). O Seminário. Livro 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1955-1956)

 

Lacan, J. (1999).O seminário: livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em1957-58)

 

Lacan, J. (2005). O seminário: livro 10: a angústia. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1963)

 

Lacan, J. (2007). O seminário: livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro.  RJ: Jorge Zahar. (Trabalho original publicado em 1975-1976)

 

Naveau, Pierre. A dialética do Falo in “Os circuitos do Desejo na análise e na vida.” Escola Brasileira de Psicanálise (Orgs). Contra Capa Livraria, 2000.

 

Miller, Jacques-Alain (2016). O inconsciente e o corpo falante – Sobre o inconsciente no século XXI. In Silicet São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise.

 

Lilany Pacheco

Diretora da Seção Clínica do IPSMMG

[1] Conferência pronunciada por Jacques-Alain Miller por ocasião do encerramento do IX Congresso da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), em 17 de abril de 2014, apresentando o tema de seu X Congresso.