Atualidades da Orientação Lacaniana na EBP-Minas Gerais

Atualidades da Orientação Lacaniana na EBP-Minas Gerais

Atualidades da Orientação Lacaniana na EBP-Minas Gerais1

No ultimo dia 9 de novembro, Jésus Santiago e Ram Mandil prosseguiram com os seminários sobre a Orientação Lacaniana, dessa vez com o tema “Sobre o desejo decidido de democracia”. Para a equipe do Portal Minas com Lacan Jésus explicou que a Orientação Lacaniana foi criada há mais de duas décadas na EBP-Seção Minas Gerais com o intuito de transmitir os principais pressupostos e teses clínicas dos Cursos ministrados por Jacques-Alain Miller em Paris. Depois de 25 anos desse trabalho de transmissão, contudo, a sequência foi interrompida, mas os membros da EBP mantiveram o seminário para tratar de temas contundentes. Um exemplo é o engajamento político do psicanalista, corte radical com o que se propôs, no passado, como a “neutralidade do analista”.

Recentemente, no Fórum La Movida Zadig “Doces & Bárbaros”, realizado em São Paulo e intitulado “Estado de Direito e Corrupção: O real da psicanálise é a nossa moeda”, Jésus explicou: “no terreno das relações entre psicanálise e política, considera-se que o ‘não tomar partido’ consiste numa espécie de paradigma do modo como o psicanalista compreende sua relação com a política. Historicamente falando, ele sempre buscou projetar sua posição de ‘neutralidade’, necessária ao registro estrito da escuta analítica, na esfera política. Ou seja, concebida erroneamente como standard na prática analítica, tal neutralidade passou a se estender para além da atividade clínica, de tal maneira que o psicanalista transita no espaço social como neutro, indiferente e, portanto, como o que não escolhe. Verifica-se, pois, a insistência desse profissional em silenciar-se quanto a preferências e escolhas políticas”2. A dimensão política atual, contudo, traria certo ineditismo e uma convocação, por parte de Miller, de tomada de posição da Escola da Causa Freudiana com relação às últimas eleições presidenciais na França. Essa dimensão do engajamento da Escola seria, inclusive, algo novo no contexto das Escolas de Lacan. Foi à luz desse ingrediente essencial à política lacaniana que se deu a discussão sobre os impasses da democracia na atualidade. Movido pela relação possível entre a psicanálise e a democracia, Jésus traçou um percurso sócio-histórico que começa com a queda do muro de Berlim e o desaparecimento do socialismo burocrático, fazendo surgir um desejo decidido pela democracia, uma tendência de “propagação global da democracia” e um “leque homogêneo de regimes democráticos no planeta”.

Perguntaram-se, a partir daí, em que medida a psicanálise pode beneficiar-se de tal tendência civilizatória. A partir das formulações de Eric Laurent, conclui-se que só os regimes democráticos suportaram a emergência da psicanálise como discurso3, que não se restringe ao que lhe é essencial, ou seja, o tratamento do sintoma. Pouco a pouco, inaugurou-se no âmbito da psicanálise uma crítica, embasada em seus conceitos e métodos, sobre os rumos da civilização. Sob esse ponto de vista, ela é considerada fonte de mal-estar que, alguma medida, assume um viés anticapitalista. Portanto, se a relação entre a psicanálise e a democracia é necessária, ela não é suficiente.

A exposição de Jésus também procurou mostrar que a sobrevivência da psicanálise apreendida como laço social tem como fundamento o avesso da democracia, por se sustentar na crença no poder do Um. Se a democracia funciona no registro do Vx.ɸx, seu avesso assenta-se no Ǝx.Nãoɸx . A igreja, o exército e o pai totêmico apresentados por Freud seriam exemplos de como a política não é indissociável da crença no Um e, por isso, a política para a psicanálise seria uma espécie de “teologia política”.

Ram Mandil ressaltou que a democracia não foi tratada diretamente por Freud e Lacan, apesar de encontrarmos ali algo que toca o tema da política. A articulação entre psicanálise e democracia surge da necessidade de avançar para além da noção de voto livre e representatividade da maioria. “Um regime eleito democraticamente pode produzir algo indesejável no que diz respeito a uma pratica social democrática”, afirma, citando o governo Hitler como exemplo. Logo, a democracia não deve ser o fim, mas o meio de se alcançar um objetivo maior. Referenciando-se em Laurent, Ram acrescentou que ela exige que se “suporte as contradições sem se assolar por isso, tal qual a política do sintoma”, e propõe uma articulação entre o mito do Totem e Tabu e o “mito da democracia”: relaciona, em ambos, uma perda e um impossível, a morte do Um e o reagrupamento dos irmãos, o luto do Um e o banquete totêmico. A democracia surge como luto do Um, e o populismo seria o entusiasmo de sua restituição. Assim, lança-se uma questão fundamental: “como sustentar a democracia sem o mito do Um no contemporâneo?”. Ram afirmou que experimentamos formas diversas tanto de sua recomposição quanto da democracia no contemporâneo, distintos modos de nomeação de alguma coisa que se perdeu – uma perda que recobre o real que era ocupado pela pai da horda.

Por Mariana Vidigal
Revisão: Jésus Santiago
Revisão gramatical: Adriane Barroso

Notas:
1 Baseado no Seminário “Sobre o desejo decidido de democracia” por Jésus Santiago e Ram Mandil e em entrevista com Jésus Santiago.
2Santiago, Jésus. A Corrupção à luz de uma política do sintoma. Revista online da Escola Brasileira de Psicanálise. Correio Express. Nov. 2107. São Paulo.
3Laurent, Eric, Politique de l’unaire. In: La Cause freudienne, Politique Lacanienne, 1999, nº 42, p. 26,