Autores Mineiros - Entrevista com Celso Renó Lima

Autores Mineiros – Entrevista com Celso Renó Lima

Desta vez, como parte do projeto “Autores Mineiros”, o Portal Minas com Lacan  entrevistou Celso Rennó Lima – Analista da Escola (AE) da Associação Mundial de Psicanálise, de 1997 a 2000, e Analista Membro da Escola (AME) da Escola Brasileira de Psicanálise.  A conversa sobre o livro “Psicanálise Caso aCaso”, publicado pela Editora Scriptum, no ano de 2011, oferece à leitura um pouco do traço marcante que Celso sustenta em nossa comunidade de trabalho: o rigor, a leveza e a elegância com o texto e a ética da psicanálise de orientação lacaniana. A clínica e o que se pode extrair dela como ponto de transmissão apresenta um estilo. Agradecemos ao Celso, e oferecemos aos freqüentadores do Portal essas perguntas e respostas permeadas pelo agradável desejo de querer saber.

 

Minas com Lacan: Trata-se de um livro dedicado à transmissão da psicanálise calcada na elaboração teórica a partir da construção de casos clínicos, ou seja, na práxis, experiência singular de um analista, inclusive na construção do caso clínico próprio, como no relato de um passe. Para você, qual a importância de se debruçar sobre as particularidades de um caso? Como a singularidade de cada falasser, analisante, pode fazer avançar a psicanálise?

R: Como o próprio nome do livro indica claramente, trata-se sempre do caso a caso. A psicanálise tem essa particularidade: busca sempre o mais singular, o um, que sustenta o sujeito em sua relação ao Outro. Assim se constitui o sinthoma como o bem mais precioso, a verdade identifica o falasser na sua relação com o pouco de realidade que o circunda. Mas, para que isso possa ser cumprido, essa escuta do um deve se desenhar num conjunto transmissível. Para isso, o caso a caso acaba por fornecer elementos que nos ajudam a escutar o próximo falasser – sempre como novo, assim nos ensinou Freud, mas com elementos necessários para se fazer um cálculo possível e estabelecer parâmentos para a direção do tratamento. Daí a minha escolha pelo título deste livro: Caso aCaso. Um caso clínico só pode produzir alguma consequência se for marcada pela presença singular do objeto pequeno a. Sem essa possibilidade, podemos cair na impotência ou na adivinhação, o que vai resultar, certamente, numa falácia.

Minas com Lacan: Comentando um de seus trabalhos em seu livro, Jacques Alain-Miller faz uma observação sobre seu estilo de escrita e o aspecto propriamente literário de seu texto (pág. 47). O que você poderia dizer do processo de criação, tanto em seu aspecto artístico quanto teórico, em sua produção escrita?

R: Pergunta difícil, pois o processo de criação é particular e tem muito a ver com o momento e as motivações que se apresentam para cada texto. Posso dizer que, sempre que me proponho a escrever ou fazer alguma fala numa lição de seminário, por exemplo, só me permito ir em frente quando percebo que o que está sendo produzido é meu. Sim, depois de depurar todas as referências do Outro, consigo perceber que é um texto do qual tomei posse. Lembro-me sempre do que Freud disse, referindo-se ao texto de Fausto de Goethe: aquilo que herdaste de teu pai, conquista-o para fazê-lo seu. Uma vez de posse do que escrever-falar, só resta produzir com liberdade o que se pretende transmitir. Costumo brincar, ao comentar sobre um texto que produzo, que ele só fica pronto quando está se movendo como uma música. Talvez por gostar muito de música e poesia, essa referência volta sempre.

Minas com Lacan: Há discussões importantes no meio psicanalítico sobre os diagnósticos e sobre o próprio posicionamento de Lacan em relação a essa questão. Em seu livro, é claro seu cuidado com a importância de sustentar o diagnóstico (estrutural) como um aspecto fundamental na prática clínica. Você poderia elucidar essa vertente considerando a segunda clínica de Lacan?

R: Primeira clínica x segunda clínica… não penso assim. Cada caso vai exigir que se lance mão do que existe de teorização e formalização possível para que possamos fazer andar o que está congelado no sintoma de um falasser. O trabalho que Lacan desenvolveu ao longo de seu ensino foi constantemente revisado por ele mesmo. Este é o estilo de Lacan: sempre que havia um impasse na clínica com respeito a uma posição teórica que havia desenvolvido, ele fazia andar o corpo teórico de seu ensino, no sentido de fazer andar as coisas. Como ele mesmo disse: o importante é que “ça marche”! Por isso, não penso que possamos estabelecer uma hierarquia ao dizer que a segunda clínica, ou o ultimíssimo Lacan, seja mais importante do que a primeira clínica. Existem situações em que a abordagem ensinada na primeira clínica é fundamental para fazer as coisas andarem. Quero lembrar aqui um fato essencial, ao qual nunca vi referência quando se tenta discutir esse tema: o próprio Lacan foi buscar o “primeiro Freud” para fazer dele baluarte de seu ensino. Por isso, confio no Caso aCaso. Cito duas passagens de Jacques-Alain Miller em seu seminário que tem sido veiculado como o ultimíssimo Lacan, que foi traduzido para o português como “Perspectivas do seminário 23 de Lacan: o Sintoma”:

“Por conseguinte, a teoria do inconsciente-história tem muitas coisas a seu favor. Nem se pode pensar em esquecê-la. Não se devem conceber os termos que uso, tais como primeiro e último Lacan, no sentido de uma teoria sobrepujar a outra. Isso obedece mais propriamente ao tipo de formação evocada por Freud a respeito da neurose, ou seja, uma superposição e uma acumulação de teorias que, de certa forma, se encontram co-regentes. E hoje, quando escutamos um paciente em análise, quando relatamos o seu caso, existe, claro, uma dimensão que é a do inconsciente-história. Podemos dizer que conservamos algo da vocação totalitária da teoria quando fazemos os seus diversos vieses ficarem lado a lado.”

E: “Se nos deixamos levar pelo girar e círculos, sem dúvida ficamos aturdidos com isso. Em contrapartida, a estrutura é o que permite sair do aturdimento…”

Minas com Lacan: No capítulo “Do delírio ao ato ou da clínica ao matema”, você relata um caso emblemático: um psicótico grave, com sintomas de agressividade e atos de violência ̶̶ inclusive contra o próprio analista ̶ , que faria muitos profissionais recuarem. Entretanto, o que pode ser lido nesse caso, ao contrário, é a presença de um analista, com seu desejo, orientação, disponibilidade, oferta de escuta, que se propõe a não encarcerar e a secretariar um psicótico. Você poderia falar um pouco desse posicionamento ético?

R: Não ceder do seu desejo é talvez o preceito ético mais emblemático do legado de Lacan. Não só no “caso José”, como costumo denominar esse escrito, mas em qualquer situação em que se é chamado a responder de um lugar onde o sujeito em questão é sempre o analisando. O “desejo do analista” constrói-se na própria analise, na medida em que se pode deixar claro a distância entre o desejo de “ser” analista e o desejo de sustentar um lugar onde uma demanda, seja ela qual for, pode ser sustentada sem se deixar levar pelo que pode aparentemente apresentar. No caso em questão, a demanda do “José” era mostrar que eu o temia e iria embora como todos os que me antecederam. Ao sustentar um lugar e poder lidar com essa demanda, expressa nas próprias agressões, foi possível abrir um novo caminho, onde uma escuta possível – possível, pois se tratava de uma psicose – pôde acontecer. Ficou muito clara a resposta a não ter cedido quando – assim está descrito no texto –, após uma agressão, ele diz: “agora eu fiz um olho diferente do outro”, ou seja, uma diferença foi sustentada e suportada na transferência. A isso se seguiu a seguinte fala: “você não foi embora como os outros”. Estabeleceu-se ali, a partir da sustentação de um desejo que se pode definir como sendo do analista, a possibilidade de uma “conversa”, onde suas poesias e seus segredos puderam ser compartilhados e, como consequência, um pouco de realidade ser construído, onde José pudesse se locomover sem ser acossado pelo delírio de ser destruído.

Minas com Lacan: Ao final do livro, você sustenta que um “momento de concluir” é aquele “que relança o vetor do desejo na direção de um trabalho que pretende continuar vivo em função da causa que o sustenta” (pág. 155). Qual a relação desse momento e a vivacidade de uma transmissão com o endereço a uma Escola de Psicanálise, à relação institucional com a Escola?

R: Uma análise não termina, mas o processo analítico que implica um analista e um analisante sim. Continuamos a trabalhar mesmo quando não mais precisamos endereçar nossa falar a um Sujeito Suposto Saber, pois se construiu um saber fazer com seu sintoma. Posso até arriscar dizer que tomamos em nossas mãos o saber suposto e, a partir daí, é permitido fazer outras escolhas, inclusive para onde dirigir nossa produção. Quando estamos vinculados a uma Escola que sabe acolher o que lhe é endereçado, podemos continuar nosso trabalho na transmissão do que não cessa de se não se escrever e insiste em produzir um novo que relança novos vetores sempre. O lugar da transmissão já se coloca com toda a sua força no próprio dispositivo do Passe. É daí que persiste o desejo de poder compartilhar o que se aprende a cada vez que, convocado ao lugar do analista, se pode produzir no Caso aCaso.

Minas com Lacan: Citando uma passagem do seu texto, “o que nos interessa no PASSE é saber como um sujeito pode se desvencilhar das amarras que o impediam de saber do Real que está em jogo na formação do analista”. Na experiência do PASSE, podemos dizer que há a construção do próprio caso clínico. Em quê a experiência do PASSE, e mais, a experiência como AE da Escola Brasileira de Psicanálise, modificou sua prática como analista?

R: Penso que, de alguma forma, já trabalhei um pouco o que está sendo colocado nessa questão, mas posso dizer de forma sucinta que a grande modificação que o final de análise e, como consequência, o procedimento do Passe e o período do exercício da transmissão como AE produziram foi um esvaziamento do Outro que sempre se apresentou como fator de inibição ao sujeito. Assim, pode-se não só escutar cada falasser de seu lugar, como também “escrever sem correr risco”. Lembre-se que, no texto do meu passe, eu frisei que minha escolha dos analistas foi para aprender a escrever. Ora, o que pode ser definido ao final é que o que se escreve é sempre por sua conta e risco. Verdadeiramente um “agora é por sua conta”.

Minas com Lacan: Qual foi a importância de escrever o livro “Psicanálise Caso aCaso” e publicá-lo? Em 2004, você também publicou um livro de poesia – “Como quem duvida”, pela Ophicina de arte e prosa. A poesia e a psicanálise se esbarram?

R: Publicar o livro Caso aCaso foi a realização de tudo que o processo de análise veio a esclarecer: “sei escrever”. Com isso, todo o processo de escrita foi atestado como possível e de minha inteira responsabilidade. Basta verificar o quanto pude escrever depois disso. Além do livro, podemos encontrar vários textos no meu Blog (clinicalacaniana.blogspot.com.br), que, pelo visto, tem sido muito acessado.

A poesia, como se sabe, está presente no processo de análise. O livro de poesias que escrevi foi produzido durante minha análise. Muito do que ali se apresenta nada mais é do que elaborações das passagens que vinham acontecendo no divã. Daí o título do livro, “Como quem duvida”. Acho que uma das últimas poesias que foram escritas, apesar de não estar assim no conjunto do livro, é bem suscita e diz do que pode se apresentar quando uma passagem acontece em uma análise:

“Asas

Asas azuis,

Asas no azul…

Elos desbaratados,

Transparecem asas

E se deixam voar…”.

 

Entrevista realizada por Juliana Bessanelli e Cristiane Barreto.