Autores Mineiros - Entrevista com Márcia de Souza Mezêncio

Autores Mineiros – Entrevista com Márcia de Souza Mezêncio

Dando continuidade às entrevistas com os “Autores Mineiros”, o Portal Minas com Lacan conversou com Márcia de Souza Mezêncio, psicanalista, membro da Associação Mundial de Psicanálise e da Escola Brasileira de Psicanálise que, como resultado de sua dissertação de mestrado em Estudos Psicanalíticos, pela Universidade Federal de Minas Gerais, lançou, em 2011, pela editora Copmed, o livro “CLINICA PSICANALÍTICA DAS PSICOSES: o impasse da transferência”.

Márcia, por meio de uma escrita clara, com rigor,  percorreu a obra de Freud, bem como os seus interlocutores, na investigação dos impasses na construção da teoria psicanalítica em seu encontro com a psicose. Parte da hipótese de que o conceito de transferência é o ponto chave da formulação freudiana sobre a impossibilidade de aplicação do método psicanalítico às psicoses. Em seu livro, é possível acompanhar os impasses de Freud, na sua tentativa de pensar a técnica psicanalítica da psicose a partir da neurose, e as contribuições lacanianas à essa clínica.

Agradecemos Márcia Mezêncio pela verdadeira elucidação de questões complexas também nesta entrevista, com respostas que convidam à leitura e causam o desejo de investigar, reler Freud, revisitar Lacan, acompanhar as produções recentes do Campo lacaniano e seguir não recuando diante das psicoses.

Minas com Lacan: Observa-se nos diversos trabalhos sobre psicose, por mais que se retorne ao caso do Presidente Schreber como um paradigma, um privilégio do ensino de Lacan. Você, ao contrário, escolhe fazer um retorno a Freud para tratar de um tema tão complexo, até mesmo em Lacan, que é sobre a transferência na psicose, como nos ilustra a indagação de Miller: “Quem explicará a transferência do psicótico”. Por que essa escolha?

R: Poderia dizer que se tratou de uma opção metodológica orientada pela indicação de Lacan relativa ao retorno a Freud. Poderia também alegar desconforto com o estado de coisas que a questão a mim colocada aponta: os trabalhos sobre a psicose privilegiam Lacan e, se fazem referência a Freud e ao Presidente Schreber, o fazem tomando a indicação de Lacan que faz do caso um paradigma para se abordar o tema das psicoses. Ou seja, a premissa que orienta esses trabalhos é a afirmação de que Freud considerava que a transferência não seria possível nas psicoses, o que tornaria inadequada a sua abordagem pela psicanálise e apontava para a necessidade de se inventar um outro modo de trata-las. Lacan, por sua vez, afirma que há transferência nas psicoses, mas, inicialmente, também recomenda prudência em relação à aplicação do método psicanalítico, como se pode ler no final da Questão Preliminar, que se apoia, exatamente, na decisão quanto ao manejo da transferência.

É aí que encontro a questão colocada por Miller, citada acima, pois, se parti da hipótese de que o conceito de transferência é o ponto chave da formulação freudiana sobre a impossibilidade de aplicação do método psicanalítico às psicoses, considero igualmente a hipótese de que as pistas para o encaminhamento da questão de explicar a transferência nas psicoses já teriam sido indicadas por Freud.

Parece-me que essa questão colocada por Minas com Lacan é bastante oportuna para localizar o que justifica minha escolha, pois não é outra a questão que busquei elucidar no percurso freudiano. Assim, eu me coloquei numa posição de interrogar a premissa de que Freud considerava o psicótico incapaz de estabelecer laços transferenciais convenientes ao tratamento analítico. De início, tratava-se de verificar qual percurso o teria levado a essa conclusão e posteriormente, deter-me nas nuances que a afirmação comportaria. Considerei que laços transferenciais “convenientes”, seria diferente de laços transferenciais “inexistentes”. Então, tratar-se-ia de saber como se estabeleceriam esses laços, mesmo que não convenientes, ou seja, explicar como acontece a transferência nas psicoses, ou verificar como Freud tentou fazê-lo.

No meu trabalho persigo os trajetos que Freud vai desenhando, muitas idas e vindas, mas, indiscutivelmente, existe um empenho considerável em investigar esse impasse que se colocava em seu trabalho clínico. Assim, pude afirmar que a questão da transferência é o eixo do trabalho sobre o Presidente Schreber que é central na abordagem freudiana sobre as psicoses. O tema orienta as interlocuções com os colegas e alunos daquele momento, aos quais Freud recomenda não recuar, priorizando o “ganho de saber” que os casos de psicose trariam à psicanálise em detrimento do ganho terapêutico. Eu diria que a prioridade da orientação de não recuar frente à psicose deve ser creditada a Freud.

Diria também que não se deveria recuar da leitura de Freud, não sem a orientação de Lacan, e que a própria complexidade do tema o exige.

Minas com Lacan: No Campo Freudiano, com XI Congresso da Associação Mundial de Psicanálise, dedicado às psicoses, constatamos uma vasta produção de trabalhos que investigam a transferência na psicose. No título “As Psicoses Ordinárias e as outras, sob transferência”, como nos explica Anna Aromí, uma das diretoras do Congresso, o “sob transferência”, apesar de vir depois de uma vírgula não é apenas um subtítulo, mas parte dele, por nos garantir “permanecer na psicanálise”.

Foi por acreditar que a transferência com o psicótico não era possível, que Freud indicava a necessidade de um método novo para que se pudesse tratar um psicótico em análise. Como a construção freudiana poderia nos ajudar a pensar a investigação sobre a transferência na psicose ordinária?

R: Retomo e reafirmo o que coloquei na questão anterior, procedendo de modo semelhante ao que orientou minha leitura de Freud. Foi para discutir a afirmação colocada pela pergunta – de que a transferência com o psicótico não era possível – que escolhi refazer o percurso freudiano sobre o tema.

Se Freud insistiu em indicar a necessidade de um novo método, ele também indicava que nada era mais variável que o método, a técnica, mas afirmava princípios, pilares que fariam reconhecer uma prática como psicanalítica, a saber, a consideração do inconsciente e da sexualidade como determinantes da vida psíquica, bem como operar a partir da transferência, definida como sendo, ao mesmo tempo, alavanca e entrave ao tratamento.

Em relação ao método psicanalítico, tal como Freud o desenvolveu, é importante assinalar que, sim, toma como referência a abordagem das neuroses. Não devemos deixar de registrar, no entanto, que Freud recomendava tomar cada caso como se fosse o primeiro, e que não se poderia aplicar o aprendido de outros casos a um caso particular. Insistia que a investigação de um caso e a terapêutica deveriam atuar ao mesmo tempo, orientadas pelos pilares da psicanálise e que a produção e a elaboração epistêmica deveriam ser constantemente revisadas em articulação com a experiência clínica.

Quando nos perguntamos pelo lugar da transferência nas psicoses ordinárias, partimos da consideração de que estas são psicoses, como Miller deixa claro em Efeito de retorno sobre a psicose ordinária, indicando que é necessário diagnosticar de que tipo de psicose se trata, ou seja, classifica-la segundo as categorias estabelecidas para o campo das psicoses.

Temos funcionado, hoje, no sentido de que a investigação sobre as psicoses ordinárias nos ajuda a pensar a transferência nos casos das “outras” psicoses e também das neuroses. Podemos pensar que a clínica das psicoses ordinárias radicaliza essa orientação quanto ao caso a caso, das soluções singulares, mais e mais comuns no mundo contemporâneo, mesmo nas neuroses, que se apresentam carentes de orientação.

Minas com Lacan: Em seu texto mais recente, “A psicose ordinária: uma leitura, sob transferência”[1], você trabalha a noção de neotransferência ao pensar a transferência na psicose a partir da lalíngua de transferência, apontando “um novo artefato para se tecer o laço social”.

Em relação a esse novo tipo de transferência, você coloca a questão de como evitar a erotomania delirante, favorecendo o sujeito a trabalhar sobre o laço com o Outro Social e não com o Outro do Delírio. Como sabemos, a erotomania de transferência é denominada como a modalidade do amor de transferência própria da psicose e foi essa formalização de Lacan que permitiu acolher os psicóticos em tratamento a partir da psicanálise, como você traz em seu livro.

Seria possível indagar que pensar neotransferência, a transferência a partir de lalíngua, abre a possibilidade para um novo tipo de amor na psicose?

R: Penso que esse seria um ponto importante para investigação. O meu texto a que faz referência é uma resenha, uma leitura dos textos que abordam o tema da neotransferência do livro A psicose ordinária,a convenção de Antibes, que é composto pelos relatórios e conversação realizada na cidade francesa de Cannes, em 1998, ao fim de uma série de conversações clínicas iniciada em 1996. A nomenclatura – neotransferência – é derivada do estado da investigação em curso no momento daquele encontro que ficou conhecido como Convenção de Antibes, momento em que não se tinha ainda convencionado denominar Psicose ordinária as formas em que as psicoses vinham se apresentando na clínica. O termo em circulação era o de neopsicoses, do qual derivaram então o neodesencadeamento, a neoconversão e a neotransferência. Essa denominação cai em desuso ao mesmo tempo que a de neopsicoses, daí em diante chamadas de psicoses ordinárias. Importante frisar que esse termo, o de psicoses ordinárias, foi lançado como uma plataforma de investigação, respondendo ao impasse que ora se colocava para a clínica. Buscavam-se instrumentos para operar com o que de novo se apresentava na clínica e avançar no que se refere à transferência, sua concepção e seu manejo. Segundo Miller, a questão colocada com o termo “neotransferência” era a de saber como qualificar, teorizar, conceituar, a parceria do psicótico com o analista e o que seria essa parceria. A questão do amor está aí necessariamente colocada.

A proposição de lalíngua de transferência fez muito barulho naquela conversação. Para cada um dos três temas citados– neodesencadeamento; neoconversão; neotransferência – haviam sido produzidos três relatórios pelas Seções clínicas do Campo Freudiano na Europa. Entre os que discutiam a neotransferência, “Lalíngua de transferência nas psicoses”, da Seção Clínica de Angers, foi o mais discutido e questionado na conversação.

Não irei reproduzir aqui a polêmica, mas um ponto me parece articular-se à questão colocada. Considerando a definição de linguagem que Miller havia proposto e que a decompõe em lalíngua – que seria própria a cada um e não se presta à comunicação – e laço social, uma interrogação se torna necessária: como se pode estabelecer laço social ou pensar a questão de um novo amor a partir de uma língua privada. A hipótese dos autores do relatório é de que o discurso analítico se oferece como matriz de laço sociale que a aprendizagem, pelo analista, da lalíngua do paciente, pode permitir a aproximação ao uso comum da línguaque faça limite ao nenhum-diálogo característico de lalíngua. Ao se fazer destinatário dos signos ínfimos do real de lalíngua, sem se ocupar do sentido, o psicanalista teria a possibilidade de se fazer parceiro do psicótico em lalíngua da transferência, engajando-o em um laço social para uma elaboração de saber. Não se chegou a uma convenção quanto a isso e a questão manteve-se em aberto.

Gustavo Stiglitz[2], em texto publicado no site do XI Congresso da AMP, nos dá alguns elementos para orientar-nos na direção de uma investigação. Ele aponta nas psicoses uma posição subjetiva caracterizada por uma falta de amor à língua. Segundo afirma, seria necessário um amor à lalíngua para que a juntura íntima do sentimento de vida se dê. Para ele o nome que Freud dá ao efeito desse amor é Bejahung, o que abre o campo do amor ao pai e das identificações. O psicótico recusa a identificação, que é o que propicia o laço social. Mas não está livre da linguagem, que o invade desde fora, vive uma experiência da lalíngua que não é comum que se tenha tão claramente.

Já Luisella Mambrini[3], em Papers 7.7.7 n.6, propõe-se a repensar, na passagem ao último ensino de Lacan, as duas vertentes – semântica e libidinal – da transferência à luz das características específicas do amor e do saber na psicose.

Ela lembra que, no primeiro ensino “de uma parte, reencontramos o amor morto que se volta a um Outro que é invólucro vazio, pois não contém o objeto, e de outra, o amor persecutório que se produz com a certeza de saber que o Outro goza dele.”[4] Até aqui, se fica afirmada a transferência nas psicoses, a questão do amor se apresenta como impasse, ainda que Lacan também tenha apontado que o amor de transferência na psicose não era necessariamente delirante e que o amor erotomaníaco em alguns casos tenha apresentado uma capacidade de estabilização, funcionando como invenção para tratar o que haveria de persecutório no desejo do Outro.

Além disso, partir do momento em que se avança no ensino de Lacan para uma nova definição do inconsciente, apresenta-se uma nova vertente do amor. Segundo ela o amor não é mais pensado a partir do objeto a, mas a partir dos corpos e da falha do gozo, e aparece então como questão não mais do sujeito, mas dos falasseres. Seria então, “em relação a esta vertente do amor que não é originada do agalma, ao menos deve ser interrogado o eixo do amor do sujeito em direção ao outro, os matizes que podem assumir os impasses específicos da psicose”.

Ela aponta que o deslocamento provocado pela nova definição de inconsciente incide na clínica psicanalítica, também para a neurose, ao provocar um deslocamento da prevalência do simbólico em direção ao registro do real. Produz-se, assim uma igualdade clínica entre os falasseres, e a função do analista se desloca de ser um complemento de sintoma para a de parceiro sinthoma.

Parece-me que o percurso condensado presente em seu texto, nos indica uma direção para a investigação dessa questão do amor nas psicoses que segue em aberto.

Agradeço a Minas com Lacan as questões e o convite ao trabalho.

 

Entrevista realizada por Francisco Matheus Machado de Barros

 

[1]MEZÊNCIO, Márcia. A psicose ordinária: uma leitura sob transferência. Derivas Analíticas nº 06. Revista Digital de Psicanálise e Cultura da Escola Brasileira de Psicanálise – MG. Belo Horizonte, junho de 2017.

[2] STIGLITZ, Gustavo. Retorno à junção. https://congresoamp2018.com/pt-pt/textos-del-tema/retorno-a-juncao/

[3] MAMBRINI, Luisella. Transferência e ato na psicose no tempo do falasser. https://congresoamp2018.com/wp-content/uploads/2018/03/PAPERS-7.7.7.N%C2%B06-Portugu%C3%AAs-2.pdf

[4] MAMBRINI, Luisella. Transferência e ato na psicose no tempo do falasser. https://congresoamp2018.com/wp-content/uploads/2018/03/PAPERS-7.7.7.N%C2%B06-Portugu%C3%AAs-2.pdf