Breve Comentário sobre a intervenção de Elisa Alvarenga: Passagem ao ato e tempo

Breve Comentário sobre a intervenção de Elisa Alvarenga: Passagem ao ato e tempo.

Maria de Fátima Ferreira

Elisa Alvarenga trouxe preciosas contribuições para o núcleo de psicoses, ao apresentar o tema da “Passagem ao ato e o tempo na psicose”, no dia 06 de setembro. Partindo de um texto claro e bem sustentado na clínica, ela nos transmitiu a questão da passagem ao ato em sua relação com o tempo, bem como distinguiu o acting out da passagem ao ato e a questão do tempo nessas duas vertentes clínicas.
A passagem ao ato institui um antes e um depois. Se a passagem ao ato funciona então como uma escansão do tempo – produzindo um antes e um depois, tem-se outras possibilidades de se estudar sua relação com o tempo, seja pelas coordenadas apresentadas por Lacan no seu seminário da Angústia (dificuldade e movimento), seja pela relação da passagem ao ato com o acting out que o precede.
Pode-se tomar o caso Aimée para situar o apaziguamento que esta paciente vivenciou após ter passado ao ato contra a Srta Z., a atriz de teatro. Ou seja, Aimée teceu críticas ao seu ato que culminou em uma situação de calma. Mas, diferente de Aimée, as irmãs Papin, por exemplo, após terem passado ao ato contra suas patroas, desencadeiam um
delírio.
A questão do tempo é tomada do ponto de vista topológico e não em uma sucessão, e aqui, vale recortar as diferentes possibilidades que se encontram em nossa prática clínica: na neurose tem-se a ilusão do tempo como uma eternidade, ou seja, o que pertence ao futuro estaria inscrito no passado. Já na mania, o tempo é tomado pela
precipitação, como se o presente fosse demasiado estreito em relação ao que se tem a dizer, uma espécie de aceleração da passagem do tempo, um futuro veloz. Diferente disso, na melancolia, vive-se um presente longo demais, em um tempo que anda para trás, como se o sujeito estivesse preso ao passado, parado no tempo.
Mas, o ato não é a mesma coisa que a ação. O ato implica um atravessamento e inclui
o tempo do Outro, efeito da estrutura significante em que esse Outro é marcado. Isso deve ser levado em conta. Um dos casos que ilustra bem essa questão da passagem ao ato e do acting out em sua relação com o tempo é o caso de Piera Aulagner, citado por Lacan no seminário da Angústia. Trata-se de um caso bem pertinente e bem recortado,
para nos ensinar sobre esse tema.
A passagem ao ato na psicose responde ao embaraço e o acting out ao impedimento. Pode-se acompanhar bem este quadro completo, no seminário da Angústia: onde se tem um impedimento acompanhado de comoção, temos o acting out e onde se tem o embaraço acompanhado de emoção, tem-se a passagem ao ato. Os ricos fragmentos
de casos clínicos que foram discutidos nesta ocasião, lançaram luzes sobre essas questões e trouxeram um esclarecimento sobre o tempo nestas categorias clínicas.
Para efeito de conclusão, pode-se destacar que tanto o acting out quanto a passagem ao ato podem estar presentes tanto na neurose quanto na psicose. O caso Dora ilustra bem a presença do acting out, em seu envolvimento com o Sr. e a sra. K. e, por outro lado, ilustra a sua passagem ao ato, quando ela esbofeteia o Sr. K, quando ele lhe diz
que a sua mulher não é nada para ele.