Cartel: Uma crise original

Cartel: Uma crise original

Cartel: Uma crise original

Sérgio de Mattos

    “O cartel é uma máquina de guerra … ( Jacques Lacan )
“El relámpago gobierna el mundo” (Heráclito fra. 64)

 

Essas são apenas algumas reflexões preparatórias sobre a pergunta que orienta essa mesa, a saber: a crise em um cartel faz parte de sua estrutura? Elas visam, antes de tudo, pensar a relação do cartel com as crises que ali se instalam com muita facilidade. Seria o cartel um coletivo estruturalmente em crise? Há nessa estrutura um único ou diversos modos de crise? São essa crises necessariamente ruins? Em que condições elas poderiam não o ser?

O cartel tem seus antecedentes em uma grave crise: a II Guerra Mundial. É bem divulgada a história de que a invenção dos carteis chega a Lacan a partir de seu contato com a psiquiatria inglesa, logo após a II Guerra, por um artigo publicado no The Lancet (equivalente a um jornal de medicina, datado de 27 de novembro de 1943). Ali, Lacan inspira-se no uso que Bion faz das elaborações freudianas encontradas no texto “ Psicologia de grupo e análise do ego”, que, segundo Lacan, marca uma época na história da psiquiatria. Lacan extrai dali a ideia de um grupo, de um lugar de trabalho sem um líder.

Em 1940, afluíram para os hospitais casos sob a rubrica de inadaptação, delinquências diversas, reações psiconeuróticas. Sujeitos assolados pelo sentimento de inferioridade, depressivos e ansiosos, ou em estados confusionais sob o golpe das emoções ou comoções da linha de fogo. Esses sujeitos, afetados por um déficit muito grande, tinham que ser isolados como dullards, idiotas (segundo o Merriem and Webster dictionary, “a stupid or unimaginative person, ex: the company is run by a bunch of dullards”). Foi sob a pressão dessa urgência que, utilizando cerca de 250 psiquiatras integrados pelo recrutamento, foi organizada a ação em cuja amplitude e flexibilidade Lacan se inspira ao escrever o artigo “A psiquiatria inglesa e a guerra” .

Portanto, podemos dizer que o cartel nasce de uma grande crise e busca ser, em sua origem, um dispositivo para responder a essa crise. O cartel tem a crise em seu DNA.

Crise

O pensador que talvez mais tenha se aplicado em desenvolver a noção de crise foi o filósofo espanhol José Ortega y Gasset. Para ele, há uma relação orgânica entre a crença, sempre produzida em um âmbito social, no interior de certo laço social ordenado em torno dessas crenças, e a crise. A crise estrutura-se ou se produz quando existe uma mudança de crenças. Ela é um desaparecimento daquilo que acreditávamos quando já não se crê em nada, só há um vazio onde existia uma crença.

Se pensarmos que um grupo, segundo Freud, organiza-se em torno do líder, da crença em um líder, o que ocorre se essa organização o perde? Sem o líder, cada um está a sós com seu gozo, não regulado pela identificação, cada um diante de sua crise subjetiva ou, em outras palavras, dos embaraços do seu gozo.

Se o cartel é pensado por Lacan como um dispositivo para enfraquecer o líder, podemos dizer que isso equivale a criar uma crise no líder. Lacan pensa o cartel como uma máquina de guerra contra o líder – na ocasião, identificava o líder aos chamados analistas didatas. Poderíamos, então, dizer que o cartel é uma maquina de produzir crises, uma crise que pode ser favorável à ideia de um coletivo aberto à produção do novo?

Para isso, o cartel deve constituir-se como um laço bastante singular, que favoreça certa solidão, singularidade. Segundo a teoria de Turim, o que diferencia a Escola do grupo é manter, para cada sujeito, sua solidão subjetiva. Tal laço parece um pouco com o modo como Rilke entende a relação de amor e amizade entre as pessoas:

Considero isto a maior tarefa numa relação entre duas pessoas: que uma vigie a solidão da outra. Pois se a essência, tanto da indiferença quanto da multidão consiste em não reconhecer solidão alguma, o amor e a amizade existem para proporcionar continuamente oportunidades de solidão. E são verdadeiras apenas as comunhões que ritmicamente interrompem estados profundos de solidão. (Rilke, “ Cartas do poeta sobre a vida”)

Portanto, em Lacan com Rilke, aquilo que é a causa da crise, a perda da crença no líder, na voz que comanda e enlaça o grupo, é, na Escola, sua assinatura. Podemos dizer que está na assinatura da invenção do cartel a crise como seu nome mais próprio.

Diferentes crises de trabalho

Para o cartel, uma crise é uma crise de trabalho, na produção de efeitos de formação. Vimos que ela é constitutivamente esperada no cartel, e importa agora discernir como, em relação ao líder, uma crise pode se instaurar. Inicialmente, pode ser a partir de dois modos distintos: 1) a crise que se instaura como caducidade da crença, que perde sua força naturalmente pelo desgaste com o tempo; 2) a que se faz pela irrupção que desenlaça um contexto estabilizado. No primeiro caso, temos como exemplo a queda gradual da crença nas grandes religiões e, no segundo caso, as mudanças rápidas e radicais da sociedade a partir de um novo lugar da mulher, sua colocação no mercado e as pílulas anti-concepcionais. Assim, teríamos crises por desgaste e crises por ruptura.

Como aplicar isso à crise dos cartel? O cartel é também um pequeno grupo, com algumas pequenas crenças, pelo menos, e que se organiza, em nossa perspectiva psicanalítica, segundo alguns modos de laços sociais, chamados discursos: o do mestre, o universitário, o da histérica e o do analista. Crença em um mestre, em um professor, no poder da falta e no analista, respectivamente.

Não poderíamos, então, pensar que, a cada um deles, corresponderia uma crise relativa à sua instalação discursiva? Elas poderiam seguir os dois modos propostos anteriormente: por caducidade, correspondendo a uma estabilidade muito consistente, e pela irrupção do novo, pela perda da instabilidade de um discurso. Assim, a cada discurso corresponderia sua crise, do ponto de vista da proposta do que é um cartel.

Um grupo vive de crenças e laços temporários. Todo discurso traz em si o germe de sua crise. E o cartel padecerá de a crise instalar-se em todos eles.

Cartel, os discursos, uma clínica de suas respectivas crises

Uma maneira de mapear as crises dos carteis é compreendê-las a esses modos “típicos” de se fazer laços sociais, ou seja, pensar os modos de crises no cartel em função de como se prolongariam aí os efeitos de cada discurso. A cada um dos prolongamentos, podemos deduzir crises na elaboração do trabalho.

4 Discursos + pequeno grupo sem líder = modos de crise

Crise da mestria

Há uma tendência no cartel de reinstalar a situação do líder e o mais-um funcionar como Senhor, que o faz trabalhar. Nessa configuração, o mestre, como o mestre antigo, põe todos ao trabalho mas só faz trabalhar um saber que já está lá, pronto. É como alguém que coloca seus funcionários para trabalhar em sua propriedade, fazendo o trabalho que já sabem sem introduzir o sujeito – o escravo, o correlato do mestre, segundo o Ménon de Platão, citado por Lacan em seu “ Seminário 15”, é aquele que não conta. O que interessa ao mestre nessa situação, seu ideal, é que o corpo do trabalhador obedeça e produza um mais gozar, ou a mais valia.

A crise aí deve-se ao fato de que o produto desse discurso estaria fora do simbólico. Segundo Miller, o cartel finaliza seu tempo de trabalho tendo como resultado alguma coisa que não se pode dizer: “não podemos testemunhar o que fizemos”. O cartel trabalha, mas nada se produz em termos de saber com efeitos de formação, afetado pelos efeitos subjetivos no qual cada trabalhador, individualmente, estaria embaraçado.

Trata-se de uma crise muda. Não há o que dizer dessa produção. Essa parece ser uma crise por caducidade. Pelo envelhecimento do trabalho, o cartel desfaz-se pelo cansaço.

Crise universitária

Se instalamos o mais-um como aquele que sabe, ou saberia, a crise advém de fazermos de um cartel um pequeno grupo de estudos coordenado por um professor com um saber todo pronto. Nesse caso, o que se produz? A impotência, o latido, como diz Lacan. Trata-se de uma crise barulhenta, feita de queixas, de apelos ao saber do professor, e de queixas de que não se sabe nada, não se consegue entender nem escrever, Lacan é difícil, etc…. essas talvez sejam as crises mais frequentes que observamos.

Crise do discurso analítico

Aqui se trata do equívoco de um cartel acreditar que, no lugar do mais-um, está um analista. A crise de trabalho advém do fato de que o que se produz ali parece uma associação livre. O resultado, segundo Miller, é que os participantes se fazem de bobos. No máximo, produzir-se-ão aí alguns significantes S1, que denunciam as identificações dos participantes. S1 que não se articulam e não produzem saber. São tapa buracos da destituição subjetiva provocada pela instalação do mais-um como O analista do pequeno grupo.

Crise do discurso histérico

Aqui, temos uma situação mais complexa. Por um lado, Miller diz que, se for preciso escolher um discurso no qual um cartel deve instalar-se, deve ser o da histeria. Por outro, não se trata de assumi-lo sem certa manobra, que é a de “dar ao objeto o justo lugar”, ou seja, tirá-lo de debaixo da barra, de fora de acesso, tal como se encontra, fazendo-o aparecer em outro lugar. Que o efeito de atração, de gozo seja remetido, referido, entre nós, ao ensino de Freud e Lacan.

Sem essa operação, o mais-um apropria-se do efeito de atração, põe questões, fura o saber constituído e, como Sócrates, provoca a elaboração. Contudo, se o amor ao saber que ele produz não se dirige aos textos em outro lugar, os participantes podem alienar-se na relação amorosa especular, dificultando que cada membro do cartel apareça com seu traço próprio, único, valorizado. O saber, aqui, é impotente para alcançar a verdade do gozo.

Portanto, em relação aos discursos, prolongá-los, aplicá-los aos carteis, produz em cada um uma crise distinta. Não há cartel sem crise nos discursos.

O saber é gustoso, é preciso passá-lo pela pele

No seminário XX, “Mais, ainda”, capítulo VIII, “O saber e a verdade”, Lacan, nesse momento de mudança de perspectiva de seu ensino, introduz algo novo, colocando a produção do saber vinculada ao gozo e ao corpo. Há uma torsão que parece deslocar pelo menos um pouco a questão do saber, até então fortemente vinculada ao amor, para a dimensão de gozar do saber.

Em quê isso pode nos interessar no que diz respeito ao cartel e às suas crise? Confesso que ainda não sei ao certo, mas intuo, e me parece conveniente, verificar se isso não traria algo de novo para tocarmos um cartel.

Em uma primeira aproximação, poderíamos dizer, e isso parece claro, que todas as questões sobre as quais buscamos saber são aquelas nas quais estamos embaraçados subjetivamente. E onde estamos mais embaraçados que no nosso próprio gozo? Assim, desde essa perspectiva, poderíamos dizer, acompanhando Lacan, que o saber advém do exercício do gozo: “pois a fundação de um saber é que o gozo do seu exercício é o mesmo do da sua aquisição”

Em outras palavras, é pelo gozo que se adquire saber. A meu ver, isso tem dois sentidos: 1) só realmente sabemos quando nos exercitamos a saber sobre nosso gozo; 2) exercitar-se a saber sobre o gozo produz gozo, o que nos leva a querer saber mais. Assim, a cada vez que ele – o saber – é exercido, visa-se a gozar desse exercício.

Mas esse exercício passa pelo corpo: “o saber vale justo quanto ele custa, ele é custoso, ou gustoso, pelo que é preciso para tê-lo, empenhar a própria pele pois ele é difícil, difícil de que? – menos de adquiri-lo do que de gozar dele”. Para Lacan, o que dá sentido – gusto – ao saber é que quanto mais difícil – custoso – é sua aquisição, mais realçado é o gozo que se obtém. Assim, o saber passa pelo corpo, pela pele, para ser gostoso, e só permanece adquirido na medida em que alguém seja formado em seu uso, diz Lacan mais adiante.

Aqui, parece que nos encontramos com a experiência do antropólogo, citada por Viveiro de Castro, de que, para aprender uma língua indígena, é oferecida como condição de aprendizagem que se coma da comida daquele povo, que se durma com mulheres da tribo e que se beba seus alucinógenos.  Nem precisamos ir tão longe para entendermos isso. Quão mais fácil é aprender uma língua quando estamos vivendo em outro país, comemos sua comida? Se arranjarmos por lá um amor, nem se fala o tanto que aprenderemos, não é mesmo?

Conhecemos ainda uma metáfora que, vinda da sabedoria popular, revela a importância dessa articulação entre saber, corpo e gozo. Trata-se do que é dito naquelas ocasiões em que, ao admirarmos o quanto alguém parece estar confortável e no domínio de certo saber, dizemos que ele “tem aquele assunto digerido”.  Tudo isso parece confirmar a tese lacaniana de que o saber se adquire ao passar pelo corpo e por seu gozo.

Para terminar

A falta do grande líder no cartel produz um encontro com o gozo perturbador e a solidão de cada um. Chamo a isso de crise genética do cartel, ou melhor, crise original do cartel. Contudo, aqui, trata-se de uma crise que pode ser realmente produtiva de efeitos de formação. O que são esses efeitos? São, primeiramente, efeitos de uma lógica de formação, que não é regulamentada por uma série de critérios do tipo IPA. Segundo M. H Brousse, toda lógica de formação analítica em Lacan discorda disso que poderia ser uma academização da formação analítica. Cada um deve inventar sua trajetória de formação, perguntar-se se vai às jornadas preparatórias de carteis, ao seminário de orientação lacaniana, se vai montar um cartel. Trata-se de colocar em trabalho a transferência de cada um pela Escola e pela psicanálise. Os efeitos de formação, tal como Lacan entendia, são os efeitos da formação que cada sujeito escolhe para dar a si mesmo. É também, como vimos, uma formação mobilizada pelas questões surgidas na relação entre saber e gozo de cada trabalhador. Cada sujeito no cartel é um relâmpago que governa seu mundo de formação na escuridão do mais um. Ou, no caso do menos-um, a escuridão que faz aparecer a unicidade de cada raio.

Parece-me que isso pode interessar a um cartel, não é mesmo? Pensar o cartel desde essa perspectiva de um saber do qual se goza e que visa o gozo, na aquisição mesma desse saber. Poderíamos cogitar que, além da manobra com o discurso histérico, de tirar o objeto de debaixo da barra e colocá-lo nos escritos da psicanálise, em Freud e Lacan, seria preciso também considerar que a elaboração em um cartel passa por esse corpo que fala, que fala de seu gozo e é movido por ele – ou, quem sabe, não se trataria de outra manobra, mas do prolongamento da mesma?

O que seria um mais-um que fomentaria esse saber gustoso? Seria preciso retomar aqui a ideia do Gai savoir, Gaio issasaber[1], o saber dos trovadores, um saber que produz jogos de palavras que cifram o inconsciente, com formulações tantas vezes antitéticas, com o bem dizer. É bom saber que a palavra gay, na língua antiga, designava ao mesmo tempo o gozo (no sentido da alegria e da satisfação) e a desgraça. Temos o exemplo da trova (que significa, inventar, descobrir) de Arnaud Daniel: “sou Arnaldo que acumula vento, / caça lebre com um boi, / nada contra a maré crescente, / Arnaldo que chora e vai cantando”[2].

É fato que se trata de um saber alegre o que a psicanálise propõe, um ganho de alegre saber. Não é esse afeto alegre, de entusiasmo, que parece habitar os carteis do passe? Nossa proposta seria, então, viabilizar a entrada da alegria no campo da crise? Deixo essas pergunta aqui para pensarmos juntos, talvez em um pequeno grupo.

[1] A arte dos trovadores, que eles mesmos chamavam de Gaya Ciencia, (Gay Saber), nasce no século XI da pluma de Guilhermo IX de Poitiers, duque de Aquitania, floresce nos séculos XII e XIII no conjunto das terras de OC e, desde ali, influencia outros países. É muito possível que, na passagem de Televisão em que Lacan se refere ao Gaio Saber, ele aluda às suas características principais, a dos jogos de linguagem, a invenção do duplo sentido e do ciframento ( não do deciframento). “No polo oposto da tristeza existe o gaio issaber (gay sçavoir) o qual este sim é uma virtude. Uma virtude não absolve ninguém do pecado – original como todos sabem – A virtude que designo como gaio issaber é o exemplo disso ( de que a virtude não absolve ninguém do pecado original), por manifestar o que ela (virtude) consiste (resta dizer …): não em compreender, fisgar [piquer, beliscar, mordiscar], no sentido, mas em roça-lo tão de perto quanto se possa, sem que ele (sentido) sirva de cola para essa virtude, para isso gozar com o deciframento, o que implica que o gaio issaber, no final, faça dele (sentido) apenas queda, o retorno ao pecado (falta moral, não se situar no inconsciente, na estrutura). Será que o que aqui surge é a possibilidade de um gozo com o ciframento? E não com o deciframento que acaba alimentando o sintoma? O ciframento rasura o sentido, nesse sentido há uma queda do sentido? Outra possibilidade é que esta falta de cola do sentido vai produzir um certo descuido ou negligência, referindo-se aqui ao termo acídia.

[2] Referencias en la obra de Lacan 16. El amor cortés. Production Editorial. Factor sur.