CIEN Digital 19

CIEN Digital 19

Caro leitor e amigo do Cien Digital,

O Centro de Investigação e Estudos da Infância e Adolescência – CIEN – tal como está indicado no título em português, mantém o adolescente como objeto de sua pesquisa e prática, orientado pela “concepção que Jacques Lacan tinha das diferentes tarefas que esperava do psicanalista de suas Escolas, para estar, ele disse, à altura de seus deveres no mundo”, como nos ensinou  Judith Miller.

Folkert de Jong, Les Saltimbanques, 2007

Folkert de Jong, Les Saltimbanques, 2007

Nessa orientação, nada mais esperado que os efeitos de entusiasmo entre todos que participam e trabalham em prol do CIEN, produzidos pela intervenção de Jacques-Alain Miller no ato de encerramento da 3a Jornada do Instituto da Criança, pronunciada em 21 de marco de 2015. Pouco depois, em 5 de abril, domingo de Páscoa, ao escrever o prefácio do livro de Damasia Amadeo Freda, ele mesmo se referirá àquelas considerações, deixando-nos, em Nota bene, importantes referências para a continuidade da pesquisa Em Direção à Adolescência. Essa intervenção de Miller convida  ao trabalho, logo aceito por Ana Lydia Santiago, a quem agradecemos muito a contribuição e a possibilidade de publica-la. Ela nos aporta os pontos essenciais retirados de sua leitura da orientação de Miller, em duas vertentes:

  • Os aspectos clínicos da adolescência
  • A adolescência na clínica do parlêtre.

Já estamos, portanto, com a pesquisa em andamento, e ainda mais nos animamos por ser, certamente, o tema de trabalho de várias seções da EBP, tal como será para a XX Jornada de Psicanálise-EBP-MG, cujo título, já anunciado na Agenda/2016, é: jovens.com: corpos e linguagens, a se realizar em 02 e 03 de setembro de 2016.

Mas, o que é a adolescência ?

A essa pergunta, Miller[1] responde “que nenhuma definição é unânime. O que é certo existir, seguindo Freud no texto Três ensaios, é a puberdade.” Miller utiliza duas expressões que determinam limites temporais para distinguir adolescência e puberdade:

Terminus a quo que se refere a uma temporalidade a partir da qual se começa a contar um prazo, é referido à puberdade.” A puberdade é o terminus a quoda adolescência. Tem uma realidade cronológica”.

O terminus ad quem não possui tal qualidade cronológica, portanto, se há uma realidade para a adolescência, trata-se de uma realidade sociológica. Não se sabe quando a adolescência termina, a não ser seguindo o que dela fala a sociedade.

Através de Em direção à adolescência[2] soubemos do livro de Epstein: The case against adolescence. Se seguimos Miller diremos que se trata de um slogan simpático. Aqui você poderá ler o escrito de Alexandre Stevens, que leva o mesmo título do livro, amavelmente cedido para essa publicação, no qual Stevens faz uma análise rigorosa do pensamento de Epstein. Ele destaca que para o autor há grande infantilização dos teenagers e que tal fato se acha na origem dos fenômenos que surgem na adolescência. É o que nos está confirmado por Miller,[3] ao dizer que Lacan “não está distante dessa ideia, atento como estava aos signos da “intromissão do adulto” no jovem.”

Gregory Euclide, All of your diamonds slipped green points into the ease of not knowing, 2012

Gregory Euclide, All of your diamonds slipped green points into the ease of not knowing, 2012

Ainda sobre o pensamento de Epstein, não deixe de ler a contribuição de Ana Martha Maia que destaca o argumento do autor para a afirmação de que a adolescência é uma construção cultural e, igualmente, a ideia dele sobre a responsabilização dos jovens. Ao avesso da infantilização dos teens, uma prática realizada por Paula de Paula, a partir de parcerias institucionais, nos dá o testemunho de como a causa psicanalítica orienta na aposta do desejo do sujeito. Uma intervenção junto aos jovens, em escolas de Belo Horizonte, fundamentada na política do desejo deFreud e Lacan.

Ah, Freud igualmente está conosco através de sua intervenção na reunião de trabalho das quartas feiras, em Viena: exatamente na reunião de 13 de fevereiro de 1907. Tema? O despertar da Primavera, de Frank Wedekind. Uma frase que nos chama a atenção para o que se antecipa à problemática da inadequação sexual: “…direi, e sublinho isso, que as teorias sexuais das crianças constituem um tema que merece ser estudado como tal, ou seja: como as crianças descobrem a sexualidade normal?”

Domenico Cosenza, a quem igualmente devemos agradecimentos não apenas por sua autorização a Cien Digital, mas sobretudo pela precisão de seu ensinamento, nos diz: “O enigma que constitui o inconsciente do sujeito entra assim em jogo no coração do processo de iniciação sexual do adolescente” e classifica esse fato como primeiro tempo lógico, onde existe relação sexual, que é representável em uma cena que inclui o sujeito. Duas perguntas fundamentais: como o adolescente acede a esse primeiro tempo lógico na atualidade? Se não for possível, – agora que já não há véu em torno do enigma- há chance para o segundo tempo lógico -, que seria a inexistência estrutural do papel sexual?

“Do jogo com o véu ao véu arrancado”, de Christiane Page e Laetitia Jodeau-Belle, é extraído – com a gentil autorização das autoras – do livro delas, “A não-relação sexual na Adolescência”, que vai de mãos dadas com o texto de Domenico Cosenza, num diálogo que nos propõe a reflexão sobre a sexualidade do adolescente contemporâneo. As autoras demonstram como os dramaturgos, os cineastas, de Wedekind aos da contemporaneidade, percorrem a temática da não-relação sexual. No entanto, se o “véu levantado não mostra nada” corresponde à época de Wedekind, na atualidade não é assim. Em nossos tempos, com o véu levantado verifica-se a ascensão do objeto na cena. “Questão de época”.

Que palavras e ensinamentos nos trazem duas psicanalistas,cada uma autora de livro recente sobre adolescentes, entrevistadas por Cristiana Pittella para essa edição? Hélène Deltombe, autora de Les enjeux de l’adolescence e Damasia Amadeo Freda, autora de El adolescente actual, com suas respostas às questões que lhes foram endereçadas, nos deixam um fecundo campo de trabalho.

Os Laboratórios do CIEN têm sua prática onde for que uma demanda de trabalho junto aos adolescentes aconteça. Como as questões dessa prática se  apresentam complexas e delicadas, exigem rigor, cada vez mais, em seu debate. Virgínia Carvalho nos deixa um elenco de perguntas que nos colocam na tentativa de respondê-las fazendo jus “à altura de nossos deveres no mundo”.

Desejamos-lhe boa leitura!


Notas:

1  MILLER, Jacques-Alain. Prefácio ao livro El Adolescente actual de Damasia Amadeo Freda. Bs. As. Unsam Ed. 2015.

2  _______________ Em direção à adolescência, acesso em http://minascomlacan.com.br/publicacoes/em-direcao-a-adolescencia/

3  O. citada, p.12.

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