Efeito-Charlie e a política do não-todo

Efeito-Charlie e a política do não-todo

Jésus Santiago

Desde muito cedo, o ensino de Lacan já alertava que a função da psicanálise na civilização é tomar o ponto de vista da ligação íntima que ela própria propõe entre a dimensão da política e a da ética. A ideia simplória de que a ética diz respeito ao indivíduo e a política concerne ao coletivo é radicalmente posta em questão. Recusa-se, assim, a visão obtusa de que se abraça a ética para fugir da política. Ao contrário, por meio de suas abordagens inéditas da pulsão de morte, a política e a ética aparecem como domínios profundamente interligados. O inédito de sua leitura ética é tomar a pulsão sob o prisma da pulsão de morte, pois, a vida, a libido não se opõem à morte. Aliás, a conceituação do gozo emerge, em Lacan, para traduzir a relação paradoxal e intricada da vida com a morte no âmbito da satisfação pulsional. O dualismo freudiano entre a vida e a morte é, assim, substituído por uma outra forma de dualismo, aquele da “cisão interna”[1] à dimensão do gozo imiscuída no corpo. Nesses termos, a ética da psicanálise se funda no paradoxo de que “a vida, da qual somos cativos, está, (…) como tal, conjugada à morte, ela sempre retorna à morte”[2] e, por essa via, conclui-se que é o próprio gozo que se torna obscuro, enigmático e, mesmo, fonte do mal. Dessa confluência entre a política e a ética se deduz uma questão para o psicanalista: com qual gozo o sujeito, nos dias de hoje, se orienta ?

FRancis Bacon  [Francis Bacon: Oedipus and the Sphinx after Ingres, 1984]

Universal

O problema se agrava pelo fato de que a política moderna tem como marco a introdução do universal nos termos dos direitos humanos e da questão, cada vez mais urgente, da cidadania. Sob o peso da presença da ciência, a política recebe, então, os efeitos da universalização, da homogeneização em que prevalece a lógica do para todos. É o universal concebido pelo viés do que vale para todos, isto é, daqueles objetos que são passíveis de repetição, exemplificação e predicação. Quando Saint Just, ainda no século XVIII, toma a busca da felicidade como fator de política, pode-se antever a ingerência do universal no campo da política. Em outras palavras, o estatuto da política se vê diante da pretensão de unificar os diferentes estados subjetivos, segundo critérios formais de felicidade e de tomá-los, assim, como universalmente válidos. É por isso que Lacan afirma que o pensador e político francês inviabiliza a solução aristotélica para a felicidade na medida que lhe retira seu teor de disciplina ética em nome da política que visa à felicidade e ao bem-estar de todos[3].

Os últimos acontecimentos políticos, na França, expressos nos assassinatos terroristas e antisemitas praticados, na revista Charlie Hebdo e no mercado kosher, com a imediata resposta da população francesa, constituem uma evidência do quanto a categoria do universal se mostra insuficiente para captar o alcance destes fenômenos. Em outras palavras, esse horizonte do universal, ao desconhecer a junção da política com a ética, favorece orientações calcadas na vontade irrefreável de normatizar o gozo. Para a psicanálise, o que está em questão, nesses acontecimentos, não se reduz ao choque entre o oriente e o ocidente, entre manifestações civilizatórias distintas, senão o choque entre a diversidade dos modos de gozo[4]. Não se explica a violência do terrorismo religioso jihadista com o único argumento único da história, ou seja, de que se trata apenas de uma reação ao que se constituiu, ao longo da história, como o domínio e a discriminação do ocidente ao mulçumano[5]. É preciso considerar também esses gozos múltiplos e fragmentários que ameaçam a coesão do laço social e, antes de tudo, admitir que é a partir daí que surge a tentação do universal sob a forma de um Deus unificador.

Terrorismo

Constata-se que o ponto de vista do universal se mostra incapaz de perceber o quanto os universos de discursos apresentam-se, na atualidade, como separados e estanques. Tais acontecimentos demonstram, de modo exemplar, o modo em que os distintos discursos, sejam eles políticos ou religiosos, se mesclam e se comunicam. Assim, em nome da submissão à vontade de Deus, do Deus-Um da tradição islâmica – o terrorista religioso jihadista sacrifica sua própria vida para tirar a vida dos outros. Sua ação é também qualificada de fundamentalista porque se baseia na adoração do Um transcendente que, no caso do monoteísmo islâmico, é levado às últimas consequências, pois se apresenta inteiramente separado do Múltiplo.

De que modo a libido entra em jogo na ação política do terrorista religioso, considerando a importância, nele, do culto da causa transcendente do Um ? Segundo Miller, o princípio subjetivo do terrorismo nada tem a ver com o canalha, apresentando-se mais próximo do funcionamento mental da anorexia[6]. Para o canalha, o Outro não existe porque suas leis se encarnam no próprio sujeito de uma tal maneira que o seu desígnio último repousa em querer ser o Outro para alguém. Tanto o terrorista como a anoréxica, ao contrário, são prisioneiros de um Outro que se exprime pelo ideal do “corpo de anjo”[7] que se apresenta como um mensageiro capaz de cumprir a vontade ilimitada de Deus. Ainda que de forma distinta, há algo de sagrado e angelical, nessa estratégia da anoréxica e do terrorista, a saber: tornarem-se mensageiros desse Outro Absoluto. A anoréxica responde à vontade devoradora do Outro materno pela sua devoção em comer nada, como meio de dividir esse Outro, buscando conter seus excessos. O terrorista, por outro lado, dá provas de sua submissão ao Absoluto com um gozo sacrificial ilimitado porque, além da disposição ao extermínio do blasfemador, sua própria vida é colocada como alvo do sacrifício supremo.

É certo que a psicanálise não floresce em terras em que o direito à blasfêmia e ao poder da ironia estão proscritos, muito menos onde a transcendência do Um entrava o esvaziamento do gozo mortífero do sacrifício exercido em nome de Deus. É a própria alteridade feminina que coloca à prova a verdadeira natureza dessas formas de discursos comprometidas com a tendência segregativa oriunda desse Um Absoluto. Não há extraterritorialidade da prática da psicanálise face aos outros discursos, pois é intrínseco a ela o livre curso da palavra próprio de uma ordem social plural. Vê-se, então, que Lacan teve razões de sobra para ministrar um Seminário durante o momento efervescente de maio de 68, em Paris, sob o título de O avesso da psicanálise. Como se sabe, o avesso da psicanálise é o mestre. Logo, pode-se inferir que a política da psicanálise é o que se opõe ao discurso do mestre por meio do tratamento que seu ensino confere ao feminino.

Não-todo

Portanto, a política da psicanálise é a política que se deduz da alteridade própria do feminino, encarnada pela escrita lógica do não-todo. Quando se afirma que a lógica do não-todo é o grande pilar da política da psicanálise é porque sua invenção configura-se como objeção àquilo que embasa a existência do discurso do mestre afinado com a postulação do universal. Ao contrário, a política do não-todo toma os objetos como singulares, pois mostram-se refratários a toda exemplificação e predicação do que quer que seja. É preciso levar em conta a maneira como as fórmulas da sexuação reparte o feminino como ruptura com esse modo de compreensão do universal. Trata-se do modo inédito como a negação incide sobre o quantificador universal “para todo”, e não sobre o predicado propriamente dito, isto é, sobre o valor universal da função fálica. Isso recai, evidentemente, sobre o problema da distribuição dessa função no âmbito da composição do que é o ser de gozo de uma mulher. Em outros termos, para postular a diferença sexual, é necessário conceber o feminino como objeção, em seu caso, à quantificação universal da função fálica. Desde essa contraposição, cada mulher encarna, em seu ser de gozo, a pura exceção. Com efeito, apenas existem as exceções, apenas existem as feminilidades! Quando se diz que, no universo feminino, só há exceções, pode-se arriscar a dizer que isso implica fazer existir “um universal paradoxal que se configura como um todo em que cada caso nega frontalmente esse todo”.[8]

Essa negação do todo aparece no percurso de Lacan por meio da formulação da foraclusão do significante do simbólico “A” mulher do simbólico, implicando que cada mulher é levada a inventar um modo singular de fazer existir o que não existe, ou seja: o Outro sexo para o ser falante. Enquanto cada homem pode ser tomado como um exemplo particular do conjunto, por estar todo inscrito no gozo fálico, gozo que determina um meio de suplência na relação ao Outro sexo, a mulher deverá ser tomada no singular, quando o caso particular do conjunto não existe. Fazer existir o que não existe, como é o caso do feminino, constitui-se no próprio cerne da política do não-todo.

Do fanatismo pela causa transcendente do Um ou da universalização imposta pelo que deve ser válido homogeneamente para todos à barbárie, não há mais do que alguns passos. Quando cada cultura aferra-se ao princípio universal de suas crenças aproxima-se do desastre da segregação cujo limite último é a barbárie. O choque das religiões esconde a existência dos distintos modos de condensação de gozo dos objetos sagrados. Alguns anos atrás, Lacan antecipou que o segredo do impasse das civilizações futuras é a segregação. A política da psicanálise é aquela que encerra o verdadeiro antídoto contra a segregação, pois, sabe que não se pode contapor à islamofobia, o antisemitismo e vice-versa[9]. Como se disse antes, e isto serve também para a diversidade das manifestações civilizatórias: apenas existem exceções!. Porém, alto lá! Não se trata de uma mera afirmação das diferenças pelas diferenças, das exceções pelas exceções. Para além de uma concepção estreita da pluralidade da ordem social, o próprio Lacan adverte que o consentimento com esta dimensão da exceção é algo que, antes de tudo, mobiliza a responsabilidade do parlêtre.

Como ele sublinha, esse fator da responsabilidade da política do não-todo é tão essencialmente radical que corre o risco de ser tomada como terrorismo[10]. No entanto, esse presumível terrorismo da responsabilidade, ao fazer valer existir o que não existe, não desconhece a pulsão de morte, ou seja, está ciente que não se pode desprezar as diversas formas de semblantes da civilização. Por outro lado, fazer valer existir o que não existe implica, por sua vez, em abalar os semblantes da civilização, em revelar o fundamento de semblante dos significantes da tradição. A vida civilizada se mantém coesa por meio de semblantes, inclusive aqueles que emanam da religião – ou seja, não há sociedades sem recalque, sem identificações. Logo, não se negligencia que, ao deprezar esses semblantes, estes podem retornar, com ferocidade, contra a própria a civilização. Porém, a única política capaz de preservar os semblantes que favorecem a vida é admitir-lhes a existência não-toda, ou seja, de que eles são incomensuráveis uns com relação aos outros e que, nessa diversidade, eles tampouco deixam de condensar, não sem opacidade, a dimensão real de um gozo pela qual cada parlêtre, a seu modo, responde.

[1]Miller, J.-A. Cursos Psicoanalíticos, Los divinos detalles, p. 146.
[2]Lacan, J. O Seminário, Livro 2, O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise, p. 293.
[3]Lacan, J. O Seminário, Livro 7, A ética da psicanálise, p. 350.
[4]Laurent, E. Le racisme 2.0, in: Lacan quotidien, nº 371: http://www.lacanquotidien.fr/blog/wp-content/uploads/2014/01/LQ-371.pdf
[5]Ali, T. Guerra entre fundamentalismos, Folha de São Paulo, dia 11 de janeiro de 2015. Em nome da história, o autor desresponsabiliza as escolhas que faz o terrorista: “As circunstâncias que atraem homens e mulheres jovens para esses grupos não são escolhidas por eles, mas pelo mundo ocidental no qual vivem – ele próprio é resultado do longos anos de domínio colonial”.
[6]Miller, J.-A. Lettres à l’opinion éclairée. Seuil: Paris, 2002, p. 162.
[7]Ibid., p. 163.
[8]Santiago, Jésus. A semblantização não é nominalista. Opção Lacaniana, n.56-57, p.125-128, jun. 2009.
[9]Miller, J.-A. Les valeurs de la République, in La règle du jeu, http://laregledujeu.org/2015/01/20/18771/les-valeurs-de-la-republique/
[10]Lacan, J. A ciência e a verdade, in: Escritos, p. 873. “Por nossa posição de sujeito, sempre somos responsáveis. Que chamem a isso como quiserem, terrorismo”.