Em direção à adolescência

Em direção à adolescência

EM DIREÇÃO À ADOLESCÊNCIA

Intervenção de encerramento da 3a Jornada do Instituto da Criança

por Jacques-Alain Miller

Venho, como a cada dois anos, propor uma orientação de trabalho para a próxima Jornada do Instituto Psicanalítico da Criança. Proponho que o Instituto e aqueles que participam de suas pesquisas se interessem pela adolescência. Esse não é um título, pois caberá à direção do Instituto formulá-lo, mas é uma direção. Proponho pensar em direção à adolescência.

 

A adolescência, uma construção

A definição da adolescência é controversa. Podem-se tomar sobre ela várias perspectivas, que não se recobrem. Há a adolescência cronológica, há a adolescência biológica, há a adolescência psicológica, na qual podem-se distinguir a adolescência comportamental e a adolescência cognitiva, há a adolescência sociológica, e há, até mesmo, a adolescência estética ou artística – nossos colegas de Rennes acabam de publicar um livro sobre a não-relação sexual na adolescência a partir do teatro e do cinema¹.

Todas essas definições não se superpõem exatamente. O que se pode dizer, de uma maneira geral, é que a adolescência é uma construção. E, dizer hoje de um conceito, que ele é uma construção, comporta sempre a convicção – segundo o espírito da época – de que tudo é construção, tudo é artifício significante. Esta nossa época é muito incerta quanto ao real. Ocorre-me dizer que é uma época que nega, de boa vontade, o real, para admitir apenas os signos, que são desde então igualmente semblantes. A originalidade de Lacan foi a de articular o par “semblante” e “real”. E, atualmente, quando se fala de real, há frequentemente uma filiação com o discurso de Lacan, com o destaque que ele colocou sobre o real.

Visto que a adolescência é uma construção, nada mais fácil que desconstruí- la. É o que faz, com uma vivacidade comunicativa, um psicólogo americano chamado Robert Epstein, que é também jornalista – ele foi redator-chefe da Psychology Today. Sem ter um conhecimento direto de seu livro, publicado em 2007, os textos a seu respeito a que se têm acesso via internet indicam que se trata visivelmente de alguém que gosta de conduzir as coisas à contracorrente. Sua tese, que não é nada boba, é que nós criamos a experiência adolescente de hoje, impedindo os adolescentes – mais precisamente em inglês, os teenagers, de thirteen a nineteen, de treze a dezenove anos, que em francês chamamos les ados – de ser ou agir como adultos. Ele observa que, na história da humanidade, os adolescentes eram muito mais considerados adultos. Eles viviam com os adultos e podiam tomá-los como “modelo” – visto que esse termo é uma categoria da psicologia. Ao passo que, agora, fazemos os adolescentes viver entre eles, isolados dos adultos e numa cultura que lhes é própria, em que eles tomam uns aos outros como modelo. São culturas suscetíveis a modas, a entusiasmos, etc.

De fato, não é certo que a adolescência tenha existido antes do século XX. Então, o livro de Epstein se chama: The case against adolescence. Rediscovering adult in every teen – Contra a adolescência. Redescobrindo o adulto em cada adolescente. É um slogan simpático.

 

Na psicanálise, o que é a adolescência?

A bem dizer, parece-me que, na psicanálise, ocupamo-nos essencialmente de três coisas.

A saída da infância

Ocupamo-nos, primeiramente, da saída da infância, isto é, o momento da puberdade, momento biologicamente e psicologicamente atestado. É isso que Freud aborda no último dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, ensaio que se intitula “As metamorfoses da puberdade”. Eis um texto que será uma das referências de orientação para a 4a Jornada do Instituto da Criança, utilizável em todo o campo que concerne a infância. É também o momento de se levar em consideração, dentre os objetos do desejo, o que Lacan isolou como o corpo do Outro.

A diferença dos sexos

Em segundo lugar, nos interessamos pela diferenciação sexual tal como ela se enceta no período púbere e pós-púbere. Para Freud, a diferença dos sexos tal como ela se configura após a puberdade é suprimida pela duração da infância – é uma curiosa maneira de se exprimir. E ele escreve esta frase, que lhe valeu certa vindicta da parte dos movimentos feministas: “a sexualidade das meninas tem um atributo completamente masculino”. No entanto Freud observa de passagem – para ele é uma nota preliminar, em seguida ele vai para o essencial –, mas observa, mesmo assim, que existem “predisposições, reconhecíveis desde a infância”, à posição feminina e à posição masculina. Ele observa a esse respeito que as inibições da sexualidade e a tendência ao recalque são maiores na menina. A menina se apresenta mais pudica que o menino. Ele sublinha – e essa é a via principal que Lacan seguirá – a precocidade da diferenciação sexual. A menina banca a mulher desde muito cedo. É preferencialmente nesse sentido que ele nos dirige. A puberdade, de toda forma, tanto para Freud como para Lacan, representa uma escansão sexual, uma escansão no desenvolvimento, na história da sexualidade.

Nós poderemos, para a próxima Jornada, estudar a diferenciação sexual pré e pós-púbere. É um tema que, a propriamente dizer, até o presente, não foi abordado em nossas Jornadas. Como poderemos progredir quanto a essa predisposição e a essa diferenciação precoce – a menina enquanto menina e o menino enquanto menino?

A imiscuição do adulto na criança

Em terceiro lugar, nos interessamos ao que eu chamarei, sem gostar da expressão, de “desenvolvimento da personalidade”, os moldes da articulação do eu ideal e do Ideal do eu, ou seja, tudo o que está presente em “Introdução ao Narcisismo”², de Freud. O momento púbere é um momento em que, com efeito, o narcisismo se reconfigura. Darei como referência, também para estudar a esse respeito, o esquema R de Lacan, tal como ele figura no texto dos Escritos sobre as psicoses³ e tal como foi amplamente comentado por Lacan em seu Seminário As psicoses4. Encontra-se realmente muito bem reunido no escrito, ao mesmo tempo muito exato, muito preciso, e, para bem compreendê-lo, é preciso ler o Seminário.

Nesse capítulo tem-se também o adolescente André Gide. No texto de Lacan sobre Gide, a propósito do qual dei um curso, que foi publicado, e sobre o qual Philippe Hellebois escreveu um livro5, Gide nos é descrito no momento da adolescência, e talvez mesmo de uma adolescência prolongada, pois sua personalidade é considerada concluída apenas por volta de seus vinte e cinco anos, o que é bastaste tardio. Por exemplo, Lacan nos descreve André Gide teenager, que promete a si mesmo proteger sua prima Madeleine, de quinze anos, dois anos mais velha que ele. Escreve: “É que, em sua condição de menino de treze anos, às voltas com os mais ’inflamados tormentos’ da infância, […] essa vocação para protegê-la assinala a imiscuição do adulto”6. Isso completa o programa de Robert Epstein, se posso assim dizer. Apreende-se, aqui, e eu gosto muito desta expressão, “a imiscuição do adulto na criança”. Nós poderíamos tentar justamente precisar os momentos de tal imiscuição. Há uma espécie de antecipação da posição adulta na criança.

Aliás, é também com uma questão de imiscuição que a personalidade é supostamente concluída. Para Lacan, a personalidade de Gide conclui-se no momento em que ele se apega à mensagem de Goethe. Ele fala então da “imiscuição da mensagem de Goethe”. Logo, há uma forma lógica que pode ser estudada por ela mesma: a forma da imiscuição.

 

Sobre o novo na adolescência

Eis aqui nossas bases. Isso não exclui que exista algo novo e que certo número de nossos colegas já investigaram esse novo – a descoberta de suas contribuições me foi facilitada pela tese de uma colega do Campo Freudiano da Argentina, Damasia Amadeo, que versa sobre o adolescente atual na psicanálise7.

Uma procrastinação

O prolongamento da adolescência, evocado por Epstein, já foi observado por Siegfried Bernfeld em 1923, há um século, e foi retomado por Philippe La Sagna, que considera que o adolescente de hoje permanece “suspenso em um futuro líquido no sentido de Zygmunt Bauman”8, bela expressão. “Temos um sujeito, ele diz, que está diante de várias opções possíveis e que as coloca um pouco à prova.” É verdade que se observa facilmente essa conduta.

Eu tenderia a relacionar isso, entre outros fatores, à incidência do digital, à incidência do mundo virtual, que se traduz por uma singular extensão do universo dos possíveis, de mundos possíveis. Aliás, o objeto atual é um objeto customizado, um objeto com múltiplas opções, que, portanto, reivindica sempre um benchmarking, ou seja, uma aferição para saber o que é melhor. Hoje, se você quer comprar um novo smartphone, um número incrível de produtos lhe é oferecido, é proposto a você selecionar alguns deles e compará-los. Essa multiplicação do elemento do possível pode se traduzir por uma indecisão infinita – é, aliás, o que faz com que eu mantenha o mesmo aparelho por anos, até que ele se estrague e, então, confio a alguém o cuidado de escolher o próximo modelo. Há nisso, com efeito, um adiamento para o mais tarde possível e, de certa forma, o que todo mundo constata, a partir de Bernfeld, La Sagna, Epstein… é que a própria adolescência é uma procrastinação, se posso assim dizê-lo.

Uma autoerótica do saber

A incidência do mundo virtual, no qual os adolescentes vivem mais do que aqueles que, como eu, já são de outra geração, faz com que o saber, antes depositado nos adultos, esses seres falantes que eram os educadores, estando os pais incluídos nos educadores – era necessário a mediação deles para aceder ao saber –, esteja, agora, automaticamente disponível mediante uma simples demanda formulada à máquina. O saber está no bolso, não é mais o objeto do Outro. Antes, o saber era um objeto que era preciso buscar no campo do Outro, era preciso extraí-lo do Outro pelas vias da sedução, da obediência ou da exigência, o que necessitava que ele passasse por uma estratégia com o desejo do Outro.

A fórmula que empreguei, o saber está no bolso, faz pensar no que Lacan diz do psicótico, que tem seu objeto a “no bolso”, e precisamente ele não necessita passar por uma estratégia com o desejo do Outro. Há, hoje, uma autoerótica do saber que é diferente da erótica do saber que prevalecia antigamente, porque ela passava pela relação ao Outro.

Uma realidade imoral

Muitos colegas disseram coisas interessantes, eu cito apenas algumas. Marco Focchi, de Milão, refere-se ao que eram, nas sociedades tradicionais, os ritos da puberdade, de iniciação9. Enquadrava-se o acesso à puberdade, o momento da puberdade, pelos ritos de iniciação que abriam para um registro sagrado ou místico. Hoje, para dizê-lo nesses termos, os progressos da cognição pubertária – os psicólogos estudam isso, principalmente os pensamentos abstratos, etc. – conduzem, segundo Focchi, a uma desidealização. Há uma queda do grande Outro do saber e não uma sublimação. Para ele, a partir de agora, a puberdade desemboca sobre “uma realidade degradada e imoral”. Eu achei muito bonito esse adjetivo “imoral” e me perguntei a que ele poderia fazer referência. Notamos como se espalham, hoje, as teorias do complô, a ponto de nos espantarmos com o número de estudantes de todas as idades, do ensino médio e universitários, que aderem a elas. Essa seria a maneira de os estudantes evocarem o grande Outro, mas sob uma forma degradada e muito nociva. Isso cola suficientemente com aquilo que é dito: a realidade imoral do Outro do complô.

Uma socialização sintomática

Nossa colega Hélène Deltombe estudou os novos sintomas articulados ao laço social e observou que eles podem se converter em fenômenos de massa e até mesmo epidemias: alcoolismo – conhecemos as alcoolizações em grupo –, toxicomania, ela coloca na mesma série a anorexia-bulimia, a delinquência, os suicídios em série de adolescentes, etc10. Essa socialização dos sintomas dos adolescentes me parece algo a nos deter: a adolescência como momento em que a socialização do sujeito pode se fazer sob o modo sintomático.

Um Outro tirânico

Uma outra referência é a de Daniel Roy11, que recebeu adolescentes apresentando uma queixa, por exemplo, a injustiça. Por um lado, ele observa que a demanda emanando do Outro familiar ou escolar é recebida como um imperativo tirânico. Por outro lado, durante os momentos de crises produzidas pelas adições, tentamos proteger os adolescentes instaurando regras tirânicas, em nome da proteção da adolescência. Vemos esse duplo apelo feito ao Outro tirânico e a presença deste de dois lados: para o sujeito que interpreta como tais as exigências de sua família; e, vindo da sociedade, o desejo de tiranizar o adolescente em crise e de instaurar uma autoridade brutal em relação a ele.

 

Mutações da ordem simbólica

Declínio do patriarcado

É sobre os adolescentes que se fazem sentir com maior intensidade os efeitos da ordem simbólica em mutação – que estudamos nos anos precedentes, no Campo Freudiano, e consagramos a esse tema um congresso da Associação Mundial de Psicanálise (AMP)12 – e, entre essas mutações da ordem simbólica, primeiramente a principal, a saber, o declínio do patriarcado. O pai, no último ensino de Lacan, não é o que era em seu primeiro ensino. O pai tornou-se uma das formas do sintoma, um dos operadores suscetíveis de operar uma amarração dos três registros. Dito de outra maneira, sua função, que foi eminente, se degradou à medida em que os constrangimentos naturais foram rompidos pelo discurso da ciência. Esse discurso, que nos trouxe as manipulações da procriação, fez também que, via os gadgets de comunicação, a transmissão do saber e as maneiras de fazer, de uma forma geral, escapassem à voz do pai.

Destituição da tradição

Os registros tradicionais que ensinam o que convém ser e fazer para ser um homem, para ser uma mulher, recuam; intimidados diante do dispositivo social da comunicação, eles são destituídos. Esses registros tradicionais são tanto as religiões quanto tudo o que era – vou ainda empregar uma expressão que adoro – a common decency, a decência comum das classes sociais. Antes, um discurso das classes populares dizia o que era preciso fazer para ser “um bom rapaz” e “uma boa moça”. Tudo isso foi erodido, se apaga progressivamente. Havia também um discurso como esse nas classes médias, havia um na burguesia, que não exatamente o mesmo, evidentemente, na aristocracia. Todos foram desgastados.

Vilma Coccoz, nossa colega de Madrid, estudou os casos em que os pais se fazem de amigos de seus filhos porque já não sabem mais como ser pais; e eles passam da permissividade completa para uma rigidez inexorável13.

Déficit de respeito

Eu achei também muito significativa uma nota de Philippe Lacadée que analisa para esses sujeitos adolescentes a demanda de respeito, uma demanda incondicional de respeito: “Eu quero ser respeitado.” Mas, ao mesmo tempo, como ele observa, é uma demanda desarticulada do Outro: ninguém sabe “quem poderia satisfazer (essa demanda) enquanto a questão do Outro a quem ela se endereça permanece obscura”14. Eu diria mesmo que é uma demanda vazia, verdadeiramente a expressão de uma fantasia: Como seria bom ser respeitado por alguém que respeitássemos! Mas como não se respeita nada nem ninguém, se está em déficit de respeito de si mesmo.

Tais são então os impasses. Os adolescentes, me parece, padecem especialmente dos impasses do individualismo democrático, que é ele mesmo o produto da derrocada das ideologias, das grandes narrativas, como dizia Jean- François Lyotard, e do enfraquecimento do Nome-do-Pai – não seu desaparecimento, mas seu enfraquecimento. Isso tem efeitos profundos de desorientação que se fazem sentir mais nos adolescentes de hoje e menos nos velhos que se beneficiaram ainda de uma ordem simbólica em estado de funcionamento. É, aliás, isso que inspira as considerações do senhor Zemmour, que propõe que toda a sociedade retroceda, de um só golpe, para recolocar tudo em ordem, o que apresentaria outras dificuldades…

Face à ciência, uma outra tradição : o islã

Quando Lacan falou do Nome-do-Pai, precisou que o fazia segundo a tradição, assim chamada “segundo a tradição”. Mas qual tradição? A cristã, logo, a judaico-cristã, visto que o cristianismo se apoiou sobre o judaísmo. Mas a mutação da ordem simbólica, essa mutação que assiste ao Nome-do-Pai deixar um lugar vazio, desenha no buraco o lugar em que veio bruscamente se inscrever uma outra tradição, que não foi convidada, mas que estava à disposição no mercado e que se chama islã. Esse é um problema que nunca foi colocado antes deste ano. Foi preciso que fossemos verdadeiramente sacudidos para que percebêssemos. O islã permaneceu intocado pelas mutações da ordem simbólica no Ocidente e chegou ao mercado ocidental, disponível, acessível a todos por todos os canais de comunicação. Ele estava lá depois de um tempo considerável, faltava a publicidade que lhe trouxe certo número de “ações de marketing” recentes.

O islã, diferentemente do judaísmo e do cristianismo, não foi intimidado pelo discurso da ciência. E o islã diz o que é preciso fazer para ser uma mulher, para ser um homem, para ser um pai, para ser uma mãe digna desse nome, no ponto em que os padres, os rabinos, para não falar dos professores laicos, vacilam – atualmente nos prometem “a instrução cívica”. O islã é especialmente adequado para dar uma forma social à não-relação sexual. Ele prescreve uma estrita separação dos sexos, cada um destinado a ser criado, educado separadamente e de maneira altamente diferenciada. Em outros termos, o islã é especialmente conforme a estrutura. Ele faz da não-relação um imperativo que proscreve, proíbe as relações sexuais fora do casamento e de uma maneira muito mais absoluta que nas famílias que são criadas com referência a outros discursos em que, hoje, tudo é laxista, permissivo.

E Alá – se é que eu posso pronunciar esse nome sem colocar em perigo esta reunião – é um deus que não é um pai. Eu não me debrucei sobre todas as escrituras islâmicas, mas me asseguraram que o qualificativo de pai está absolutamente ausente dos textos que se referem a Alá. Alá não é um pai. Alá é o Um. É o Um sobre o qual eu dei um curso, há alguns anos. É o Deus Um e único. E é um Um absoluto, sem dialética e sem compromisso. Não é um Deus que vos delega seu filho para isso, para aquilo e, depois, o filho vai se queixar ao pai “tu me abandonaste”… e a mamãe, etc. – toda uma história de família. Não há historinha de família com Alá. É sem dialética e sem compromisso. Não vos relatam as cóleras de Alá como aquelas de Jeová, que durante um momento pragueja contra os judeus, não pode mais vê-los nem pintados, os pune, depois os alimenta, etc.

O que poderia ser mais lógico, para os adolescentes desorientados, do que se referirem ao islã? O islã é uma verdadeira boia de salvação para os adolescentes. É mesmo uma boia de salvação que poderíamos lhes recomendar, enfim… se esse islã não conhecesse alguns desvios. Enquanto tal, o islã talvez seja o discurso que melhor leva em conta que a sexualidade faz furo no real, que condensa a não- relação e que organiza o laço social sobre a não-relação. O Estado Islâmico, que é um desvio, evidentemente, do islã, apresenta talvez uma solução original ao problema do corpo do Outro. Mas, para isso, talvez seja necessário passar um pouco por Freud.

 

O problema do corpo do Outro

Para não me estender muito, me contentarei em dizer que Freud pensou que, fora do caso do gozo oral do seio da mãe, um gozo ligado a um objeto exterior, segundo ele – Lacan, ao contrário, pensava que o seio fazia parte do corpo da criança –, fora do caso da criança ao seio, o gozo pulsional é fundamentalmente autoerótico. Na puberdade, acrescentaria, o gozo muda de estatuto e se torna gozo do ato sexual, gozo de um objeto exterior. Em “As transformações da puberdade”, Freud estuda o problema da transição do gozo autoerótico à satisfação copulatória. Lacan postula que isso não acontece, que se trata de uma ilusão freudiana – fundamentalmente, eu não gozo do corpo do Outro, só há gozo do corpo próprio ou gozo de sua fantasia, das fantasias. Não se goza do corpo do Outro. Goza-se só e somente só de seu próprio corpo. Nós sabemos muito bem como, sobre essa ideia de eu gozo do corpo do Outro, se conectou toda uma mitologia do par perfeito, em que se correspondem os gozos, o amor, etc.

Pergunto-me se, no fundo, o corpo do Outro não se encarna no grupo. A fanfarra, a seita, o grupo não dão um certo acesso a um eu gozo do corpo do Outro, logo, eu faço parte? Isso pode se efetuar sob as espécies da sublimação: canta-se em grupo, eu gozo de sua harmonia, fazemos música juntos, isso eleva, etc. Mas evidentemente rumo à sublimação, não se satisfaz diretamente a pulsão. Uma nova aliança entre a identificação e a pulsão seria possível? Vocês sabem que Lacan diz, precisamente nos Escritos, que o desejo do Outro determina as identificações, mas estas não satisfazem a pulsão15. As cenas de decapitação dissipadas pelo Estado Islâmico através do mundo todo, que lhes valeram milhares de recrutas, e o entusiasmo em relação a essas cenas não realizam uma nova aliança entre a identificação e a pulsão, especialmente – não se trata, nesse caso, de sublimação – a pulsão agressiva?

Evidentemente, isso se inscreve no âmbito do discurso do mestre. Em S1, o sujeito identificado como servidor do desejo de Alá se faz agente da vontade. Quando se trata de cristãos, se diz “vontade de castração inscrita no Outro”, pois a relação é de pai e filho. No outro caso, se trata de vontade de morte inscrita no Outro. Ela está a serviço da pulsão de morte do outro. S1 é o carrasco; S2, a vítima ajoelhada; a flecha de S1 em direção a S2, a decapitação. Eu satisfaço essa vontade de morte. No cristianismo, o processo é supostamente conduzir à castração do próprio sujeito. Conduz, como diz Lacan, “ao narcisismo supremo da Causa perdida”16. Eu me mortifico, eu me privo, eu me castro e eu sou grande porque sou devotado à causa perdida. Mas, no islã, não há nenhuma fascinação pela causa perdida, nem nenhuma história de castração. Nesse desvio que é o Estado Islâmico, há: eu corto a cabeça do outro e eu estou no narcisismo da causa triunfante, não da causa perdida. Aí não se está no trágico grego, se está no triunfo islâmico. Por enquanto eu não conheço muito a literatura islâmica para saber o que corresponderia exatamente ao trágico grego. Eu digo: triunfo islâmico. Isso tem uma consequência muito simples. Fala-se hoje da desradicalização dos sujeitos que foram tomados por esse discurso, porque imagina-se que vai-se poder desconstruir essa construção, ao passo que, que eu saiba, ela não é da ordem do semblante, ela está ligada a um real do gozo que não vai se desfazer assim, como desatarraxar pequenas cavilhas, exceto se o tomamos muito no início. Como eu acho que estamos lidando com o real, a conclusão política que eu tiro desta consideração psicanalítica é que, com esse discurso, o do Estado islâmico, bem, a única maneira de acabar com ele é vencê-lo. Aí está.

Notas

1 Page Ch. & Jodeau-Belle L., Le non-rapport sexuel à l’adolescence. Théâtre et cinéma, Presses universitaires de Rennes, 2015.
2 FREUD, Sigmund. Pour introduire le narcissisme, Paris : Payot, 2012.
3 LACAN, Jacques. De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p. 559.
4 LACAN, Jacques. O Seminário, livro 3, As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
5 HELLEBOIS, Philippe. Lacan lecteur de Gide. Paris : Éditions Michèle, 2011.
6 LACAN, Jacques. Juventude de Gide. Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1998. p.764.
7 AMADEO, Damasia. Consideraciones clínicas sobre el adolescente actual. Tese de defendida em agosto de 2014, sob a orientação de Claudio Godoy, na Universidad nationale de San Martín (Argentina).
8 LA SAGNA, Philippe. « L’adolescence prolongée, hier, aujourd’hui et demain », Mental, no 23, p. 18.
9 FOCCHI Marco. « L’adolescence comme ouverture du possible », Mental, no 23, décembre 2009, p. 29- 40.
10 DELTOMBE Hélène. Les enjeux de l’adolescence, Paris, éditions Michèle, 2010.
11 ROI, Daniel. Protection de l’adolescence, Mental, no 23, op. cit., p. 51-54.
12 Association Mondiale de Psychanalyse : Scilicet. L’ordre symbolique au XXIè siècle. Il n’est plus ce qu’il était. Quelles conséquences pour la cure ?, Paris, ecf, coll. rue Huysmans, 2011 & Travaux du VIII Congrès de l’Association Mondiale de Psychanalyse, Paris, ECF, coll. amp Le congrès, 2012.
13 COCCOZ, Vilma. La clinique de l’adolescent : entrées et sorties du tunnel, Mental, no 23, op. cit., p. 87- 98.
14 LACADÉE Philippe. « La demande de respect : un des noms du symptôme de l’adolescent », Le malentendu de l’enfant, nouvelle édition revue et augmentée, Paris, éditions Michèle, 2010, p. 346.
15 LACAN, Jacques. Do “Trieb” de Freud e do desejo do psicanalista. Escritos. Op. Cit. p. 867.
16 LACAN, Jacques. Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano. Escritos. Op. Cit. p. 841.

Tradução: Cristina Vidigal e Bruna Albuquerque

Revisão: Ana Lydia Santiago

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