O ensino e a garantia na EBP – Sérgio Laia e Lucíola Macêdo

Resenha do Seminário “A Supervisão: efeitos de formação” de 29.06.2017 

Elisa Alvarenga

 Em abril de 2016, em reunião com os membros da EBP durante o X Congresso da AMP, no Rio de Janeiro, Jacques-Alain Miller interrogou os membros da Escola sobre o ensino na EBP: onde está? Como anda? Por isso, nos interessamos, neste ano em que a Proposição de 9 de outubro de 1967 completa 50 anos, pelo ensino, já evocado no último encontro do Seminário “A Supervisão: efeitos de formação”, onde Ram Mandil e Fernanda Otoni trouxeram preciosas contribuições sobre o ensino e a transferência de trabalho. Desta vez, Sérgio Laia, recém-saído da Comissão da Garantia da EBP e recentemente nomeado AE, e Lucíola Macêdo, recém-saída da Presidência do Conselho da EBP-MG, fizeram suas valiosas intervenções.

Para dar um pontapé inicial em nossa conversa, lembrei que Lacan, dois meses após apresentar sua “Proposição…”, diz, em Milão, em sua intervenção “Da psicanálise em suas relações com a realidade”, que “os psicanalistas são sábios de um saber que eles não podem cultivar” (OE, p. 358). Porque não podem cultivá-lo? Qual a relação do ensino com esse saber? As exposições de Sérgio e Lucíola nos ajudam a responder essas e outras questões.

Sérgio retomou seu texto, publicado na Correio 79 da EBP, “Breve nota sobre AME, ‘sigla irônica’”, onde mostra que o AME, analista Membro da Escola, é uma das formas de “gradus” na Escola de Lacan, ao lado do AE, Analista da Escola, o que significa que essas nomeações não se valem da hierarquia para serem conferidas. O título de AME é concedido sem limite de duração no tempo e sem demanda de quem lhe é atribuído, referindo-se a um analista que “comprovou sua capacidade”, como o diz Lacan. Essa nomeação é feita de maneira geralmente atrasada, sem a surpresa geralmente provocada pela nomeação do AE, que tem a validade de 3 anos e é produzida no dispositivo do Passe, ao qual se dirige o candidato.

A qualificação do AME como “sigla irônica” tem a ver, conforme nos diz Sérgio, com sua ressonância homofônica, em francês, como âme, ou seja, “alma”. Seria irônico dizer que uma Escola de psicanálise teria alguns analistas que seriam sua alma. No entanto, como aponta Jacques-Alain Miller em seu texto “Clínica irônica”, Sérgio ressalta que a ironia não é do Outro, mas do sujeito, e vai contra o Outro, sustentando que o Outro não existe. A ironia se apresenta aí onde a queda do sujeito suposto saber foi consumada. À diferença do AE, no entanto, que é produzido como objeto ao final de uma análise, no caso do AME teríamos um sujeito que faz aparecer no Outro o objeto.

Sérgio traz agora uma referência a Starobinski, que se refere à ironia como negação da negação, onde o pensamento se supera. Se para Aristóteles o homem pensa com sua alma, Sérgio evoca Eric Laurent, em O avesso da biopolítica, onde levanta a hipótese de que Lacan opõe à alma o UOM, dimensão sinthomática do ser falante que inclui o corpo.

As “Notas sobre o ensino na EBP”, elaboradas por Lucíola com o Conselho da EBP-MG, convergem com a exposição de Sérgio ao evocarem explicitamente a presença do corpo no ensino.

Lucíola lembra que a pergunta sobre o ensino não é nova. Ela foi formulada por Miller já em 1979, na Conferência “Todos lacanianos!”, em meio à crise que levou à dissolução da Escola Freudiana de Paris: “Por onde anda o ensino de Lacan na EFP, em dezembro de 1979?”

Na Jornada “Questão de Escola”, em janeiro de 2017, em suas “Considerações sobre a garantia”, Miller situa o título de AME, concedido pela Comissão da Garantia, como uma via pela qual nossa Escola se faz representar no discurso do mestre. Lucíola observa então que, para além da Escola sujeito da teoria de Turim, de 2000, Miller propõe aqui que a Escola é um ser ambíguo, que tem asas analíticas e patas sociais. O discurso analítico se submete ao discurso do mestre, ao mesmo tempo que o subverte. A Escola é sujeito suposto saber, mas o sujeito suposto saber se autodestrói. Temos aí um paradoxo e um impasse.

Como fazer então para ensinar o que não se ensina, como pergunta Lacan em vários momentos de seu ensino? Lucíola evoca Miller em seu Curso “Todo mundo é louco”, onde comenta a intervenção de Lacan “Transferência para Saint Denis – Lacan a favor de Vincennes”, de 1978. A psicanálise nada ensina como universal. Seu ensino, diz Miller, “se profere, se professa, se vocifera. E para vociferar, é preciso ter um corpo, dar de sua pessoa, e não somente de seu sujeito. Esse ensino se vocifera do lugar de Mais Ninguém”.

A vociferação inclui o objeto voz, a pulsão, subverte o impossível de ensinar e abre caminho. Na discussão que se seguiu, outras referencias a ensinar com o corpo foram apontadas no Curso Peças soltas, de JAM. O ensino se faz a contracorrente da norma civilizatória. As palavras “controle”, “garantia” e mesmo “supervisão” são em si irônicas, já que o analista está, no avesso do discurso do mestre, em uma posição herética. Assim, o sujeito suposto saber em questão na Escola não é um saber acumulado, mas um saber a inventar. A vociferação põe em jogo a potencia de um S1 renovado, corporal, a partir da singularidade daquele que ensina, sinthomática.