Entrevista com Graciela Bessa

Entrevista com Graciela Bessa

O livro Feminino: um conjunto aberto ao infinito de Graciela Bessa – publicado em 2012 pela Editora Scriptum, Belo Horizonte – deixa marcas do vigor e rigor com o qual a autora transmite conceitos complexos da teoria psicanalitica. Elisa Alvarenga descata, na Apresentação do livro, o modo claro com o qual Graciela percorre conceitos e noções psicanalíticas como Verwerfung d’A mulher, função fálica, lógica do não-todo, masoquismo, devastação e privação, “algo que só pode ser transmitido por uma mulher que, conforme o voto de Lacan, pode nos dizer algo a partir de sua própria existência.”

O Portal Minas com Lacan* convidou Graciela a falar um pouco sobre esse trabalho. E convida também a comunidade psicanalítica a adentrar seu conjunto aberto ao infinito.

PML: Em seu livro você apresenta logo de saída que a psicanálise, com Freud, é marcada por uma desnaturalização da relação do ser falante com a sexualidade.  Esta ultima não é genética, tão pouco está ligada somente à reprodução, mas depende diretamente da relação com a linguagem. Ainda que Freud tenha franqueado uma abertura, de forma inédita e radical, para outras formas de se pensar as questões relativas à sexualidade, no que atange à sexualiadade feminina, esta foi denominada por ele como um “continente negro”. Você poderia falar sobre alguns caminhos que levaram Lacan a superar tais impasses freudianos?

GB: Um desses caminhos foi o modo como Lacan articulou o falo e a sexualidade feminina. Em Freud nos deparamos com a lógica atributiva do falo, ou seja, a diferença sexual se coloca como ter ou não ter o falo. Em seu percurso para se fazer mulher, uma menina se posiciona do lado do menos, do -φ, da falta fálica. A feminilidade, em Freud, não deixa de estar associada a um traço negativo, a castração feminina como elemento de desvalorização.

Ao conceder ao falo o estatuto de significante, Lacan opera uma certa modificação nessa lógica atributiva. O que está em jogo daí em diante é “ter o falo” do lado dos homens e “ser o falo” do lado das mulheres. Sob essa perspectiva, uma das soluções para o não ter do lado das mulheres seria a realização da metáfora fálica: “ser o falo”, isto quer dizer que uma mulher pode fazer-se falo para o homem, justamente porque está marcada pela ausência de pênis. Essa substituição acontece quando transforma o “não ter” em um bem que desperte o desejo do homem em querer possuí-lo. A falicização do corpo de uma mulher é uma solução pela via da mascarada feminina.

Outro ponto importante, que ao meu ver se constituiu um passo a mais para Lacan não ficar preso aos impasses freudianos em relação à sexualidade feminina foi considerar o Penisneid pela via da privação, pois à mulher não falta nada, como afirma em O Seminário A angústia. Indicar que falta a elas alguma coisa é supor uma presença possível, nesse sentido é introduzir no real a ordem simbólica. Como as mulheres são sujeitos marcados pela privação do falo, elemento simbólico, elas são introduzidas na problemática do dom. É sob essa perspectiva que Lacan interpreta o caso da Jovem Homossexual. Nesse caso, o que está em jogo é o amor como dom, ou seja, amar é dar o que não se tem. A dama, por ser mulher, também está marcada por um menos, nesse sentido a Jovem ama o que o objeto de amor não tem, mais além dele mesmo. Ela obtém uma satisfação extraída da condição desse amor, que ele não seja satisfeito. Isso denota que se extrai uma satisfação da privação.

Mas Lacan se depara com o limite que o campo da identificação como representação impõe, quando se trata da relação do ser falante com o gozo. Ele irá, então, buscar na lógica uma solução porque ela oferece outro tipo de recurso para analisar e esclarecer o que acontece entre os sexos. Para tanto se fez necessário que o falo deixasse de ser atributo e passasse a ser considerado uma função: Φx. Aqui se encontra um ponto de disjunção entre Freud e Lacan fundamental no modo de se pensar a satisfação do lado das mulheres. Freud se equivoca ao tentar definir as mulheres pela vertente do gozo estabelecendo uma relação estreita entre feminilidade e vida pulsional, presente nos textos Mal-estar na Civilização e Conferência XXXIII. Lacan não segue essa trilha. Escrever o falo como uma função permite a Lacan apontar para um campo de satisfação na mulher que não passa pela mediação fálica, há um gozo que não se escreve aí.

Em O aturdito Lacan apresenta a tese de que o gozo fálico não drena todo o gozo de uma mulher. Ela pode experimentar um gozo que não advém de uma perda, de um menos-de-gozar e sim pela via do suplemento, ou seja, que não está subordinado à lógica do todo, do complemento. O suplemento diz respeito a um a mais, sem que o todo esteja aí implicado. Do lado das mulheres não se trata de um conjunto incompleto em que falta uma peça, mas um conjunto aberto ao infinito, um não-todo referido ao infinito.

PML: Em seu trabalho você não só apresentou o percurso de Freud e Lacan; como também se dedicou a estabelecer as teses sustentadas por autores como Helene Deutsch, Colette Soler, Éric Laurent, acerca do feminino. Laurent introduz o termo “Potlach amoroso” para esclarecer sobre um tipo de satisfação que as mulheres podem extrair da privação, diferenciando-a do masoquismo feminino sustentado por Deutsch. Gostariamos que você falasse um pouco a respeito desse termo “Potlach amoroso” e das consequencias clínicas que podemos extrair dessa formulação.

GB: O termo Potlatch vem da antropologia com Marcel Mauss e designa uma prática em que se trabalha não pela riqueza ou pela posse em si de bens materiais, mas pelo prestígio que elas causam em seus competidores através da destruição das mesmas. O objetivo de um Potlatch consiste em jogar fora ou destruir mais riquezas que o rival. Isso quer dizer que nessa prática de poder não é o acúmulo de bens que dá prestígio, mas sua destruição. Aqui, o prestígio e o respeito do outro são obtidos pela privação. É do vazio, da perda que o chefe obtém a eterna admiração de seus homens e rivais.

Lacan faz menção ao Potlatch em pelo menos dois momentos de seu ensino. Em O Seminário A ética da psicanálise ele está articulado ao desejo com o objetivo de demonstrar a impossibilidade do desejo se realizar em torno de um objeto. O desejo aponta para o vazio, é a metonímia da falta-a-ser. Em O Seminário … ou pior, Lacan convoca a ideia de Potlatch como fundo de uma discussão sobre o Um e o conjunto vazio. O Um advém da constituição do vazio, tal como na prática do Potlatch, uma vez que o reconhecimento e lugar de chefe só é possível com a constituição da perda, ou seja, é aquele que se desfaz da maior quantidade de bens que alcança a posição de maior prestígio.

Apoiado nas formulações de Lacan sobre a satisfação na privação e nas considerações de Marcel Mauss sobre a prática do Potlatch, Laurent propõe o termo Potlatch amoroso para descrever os fenômenos clínicos que se observam na vida amorosa de algumas mulheres e foram interpretados por alguns analistas pós-freudianos como sendo da ordem de uma satisfação masoquista. São mulheres que se despojam de seus bens em nome de um amor. Dito de outra maneira, são mulheres que se desfazem de seu ter para fazer-se ser no campo do Outro, permitindo que construam um ser pela via da privação. Isso quer dizer que uma mulher ao se desfazer de seus bens pode fazer surgir um ser que não se sustenta no ter. Esse ser, assim construído, é possível porque elas não estão sob a ameaça de castração. São capazes de qualquer tipo de concessão em nome do amor de um homem para assim fabricar um ser de mulher. Uma parceria que se estabelece sob esses moldes pode retornar para o sujeito feminino como devastação.

Uma mulher busca a palavra de amor supondo que essa palavra possa isolar um significante com o qual ela designe seu ser, já que A Mulher não existe. É pela via do amor que se abre a perspectiva de se fazer toda, de encontrar um significante justo alí onde o significante não responde. A demanda de amor é, portanto, dirigida para o surgimento de algo no lugar do significante forcluído, algo que possa cumprir a função de suplência. Essa via contém um certo risco porque faz com que a mulher se torne mais dependente dos signos de amor vindos do objeto amado. Se em suas relações amorosas enfatizam o fazer-se amar, essas mulheres criam as condições para a emergência da via erotômana em sua relação com o parceiro, podendo fazer qualquer tipo de concessão, que é a vertente da devoção. O sem limites que se encontra na devoção das mulheres ao amor se apresenta no fato delas serem muito mais decididas em dispor de si mesmas e de seu corpo.

A realização do Potlatch amoroso consiste, portanto, em perder para fazer-se ser pela via da privação. Mas por ser um sujeito que está não-todo no gozo fálico, ela pode interrogar-se sobre o que quer nessa parceria e perceber que não é nada para o outro, que o único lugar que lhe é reservado é o de objeto maltratado. Quando isso acontece, sua posição subjetiva, nessa parceria, vacila. Isso porque a questão feminina não é ser tudo ou nada para um homem, mas ser o Outro sexo para ele.

PML: Ao longo deste ano de trabalho, a Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais, tem se debruçado em torno da investigação acerca dos temas inconsciente e diferença sexual. Em seu livro há importantes contribuições nesse campo. Assim, a convidamos a nos dizer sobre essa proposta de trabalho da EBP-MG, sobretudo em relação à diferença sexual.

GB: Considero muito pertinente e atual a escolha do tema que a EBP-MG propôs para a Jornada deste ano. Recebi pelas redes sociais uma listagem de 31 sexos, de dois passamos para 31! Testemunhamos no mundo de hoje uma prolifereação de sexos. Podemos pensar que isso seria uma consequência de não termos mais uma sustentação tão clara de uma exceção que permita fundar a classe universal?

Com Freud aprendemos que embora haja uma atividade sexual desde o início da vida, ela, nesse momento não está referida à diferença sexual e sim à atividade das pulsões parciais, cuja satisfação é autoerótica. Ou seja, inicialmente a sexualidade não se estabelece a partir da relação com o outro sexo e sim com o corpo próprio. É preciso um esforço a mais para que se dê a articulação entre a atividade pulsional em busca de satisfação e a diferença sexual.

No campo simbólico, a constituição do falo é imprescindível, pois ele é o único representante do sexo no inconsciente. Isto quer dizer que só há um significante para escrever o binário homem e mulher no inconsciente, uma vez que “A mulher não existe”. Nesse sentido, como nos disse Jésus Santiago na Noite Preparatória para a Jornada, a diferença sexual não se escreve no inconsciente.

Essa elaboração concede ao simbólico – campo das representações – uma função de primazia, porque a referência anatômica não é suficiente para dividir os seres falantes em duas classes sexuais. Assim, é o falo que indica a junção entre a sexualidade e a linguagem. Ele é o denominador comum para ambos os sexos uma vez que ele cria a ilusão de uma divisão harmônica entre eles. Portanto, a relação entre homem e mulher acontece na dimensão do semblante.

Em Freud, a diferença sexual, apoiada na lógica atributiva, ter ou não ter o falo, está submetida ao modo como cada um se posiciona diante da castração. Em termos freudianos, para aqueles que possuem o pênis instalar-se-á o medo de perdê-lo e para aqueles que não o possuem, instalar-se-á a vontade de tê-lo. A assunção subjetiva da diferença sexual se dá ou pela via de uma ameaça ou de uma inveja.

Se para Freud a dissimetria entre os sexos é pontuada a partir da falta fálica e da relação primaria da menina com sua mãe, Lacan no O Seminário Mais, ainda a formaliza a partir do gozo – gozo fálico e gozo não-todo fálico. Ao fazer a conjunção da lógica do gozo com a lógica formal ele propõe pensar a sexualidade sem recorrer, apenas, às identificações edípicas. O referente para tratar da posição sexual do ser falante não é somente o campo das representações.

Com as fórmulas da sexuação, Lacan formaliza a impossibilidade da relação entre os sexos partindo de quatro fómulas proposicionais. Ele mantém o binário homem e mulher, mas agora referido à função fálica, Φx, como modo de gozo.

Do lado homem, a universal afirmativa, “x Φx (todo ser falante cumpre a função fálica), é verdadeira porque se sustenta numa exceção: $x`Φx (existe ao menos um que não cumpre a função fálica). Em lógica, para que um sistema seja consistente, ou seja, livre de contradição, é necessário que haja uma exceção: a existência de ao menos um, em relação ao qual não seja possível decidir se é verdadeiro ou falso. É essa exceção que funda um conjunto, que demarca um limite para o restante de seus elementos. Desse lado está localizada a escrita do necessário e do possível da lógica modal. O possível está articulado ao $x`Φx , existe ao menos um que cessa de se escrever na função fálica, ou seja, não se escreve mais: `Φx. Já o necessário não cessa de se escrever, se articula ao “x Φx. Isso quer dizer que a função fálica sempre se escreve para aqueles que se posicionam desse lado e têm seu gozo regido pela lei fálica, independente de sua anatomia.

Do lado mulher, não há a inscrição de uma exceção, pois, nesse lugar, o que se apresenta é: `$x`Φx, a negação do quantificador particular. Trata-se aqui de uma função foraclusiva , porque não há uma que represente o dizer que proíbe. Tem-se aqui a categoria do impossível: não cessa de não se escrever uma exceção. A inexistência de A mulher, escrita de modo lógico como `$x`Φx , implica que elas não se escrevem totalmente na função fálica: `”x Φx. Aqueles que se alinham desse lado experimentam um gozo que não é civilizado pelo gozo fálico, um gozo mais além do falo. Lacan o define como sendo um gozo suplementar que não está regido pela lei do significante, logo, é um gozo impossível de ser circunscrito pelo simbólico. Em relação a esse gozo, esses sujeitos são parceiros de sua solidão.

A consequência que extraímos dessas formulações de Lacan é que a diferença sexual se define a partir da diferença de dois modos de gozo em relação à função fálica, que o heterossexual diz respeito ao Outro sexo, a esse gozo suplementar, o gozo feminino. Lacan está tão seguro disso que irá afirmar em seu texto O aturdito, na página 467, o seguinte: “Chamemos heterossexual, por definição, aquele que ama as mulheres, qualquer que seja seu sexo próprio”.

PML: O retorno e renovação da pauta feminista à agenda contemporânea tem provocado conflitos e desacomodado as velhas formas de se pensar as questões de gênero. Novos significantes, como sororidade, por exemplo, ganharam o campo social, produzindo forçamentos e abrindo caminhos para a construção de novas formas de subjetividade. Você entende que a psicanálise tem algo a contribuir com esse debate?

GB: Sem dúvida. Antes, podemos nos perguntar o que é o gênero para a psicanálise? Com Freud aprendemos que não é a primazia dos órgãos genitais que permite que alguém possa se dizer homem ou mulher, mas a primazia do falo, tal como ele formaliza em seu texto Organização genital infantil.

É possível extrair algumas consequencias disso no que diz respeito ao feminismo.

Já que a anatomia não define o que é “ser mulher”, tampouco a linguagem favorece uma vez que não há um significante que possa inscrevê-la nesse campo sexual pois a natureza das mulheres escapa à natureza das palavras, consequentemente, para uma mulher sua feminilidade é sempre um enigma. É algo a ser construído, tecido uma a uma. Não é possível fazer um universal, fazer um conjunto delimitado por um ou mais traços. Então, nem a anatomia, nem tampouco o simbólico e o imaginário respondem ao que é uma mulher.

Será que é fazendo laços com outras mulheres que o enigma do feminino irá se resolver?

Conforme Marie-Hélène Brousse, cabe à psicanálise lhes dar a palavra, em escuta-las, uma a uma, em sua diversidade sobre suas dificuldades, sobre o que pensam o que é ser mulher e como cada uma pode construir sua própria definição de gênero.

Obrigada!

*  Entrevista realizada por Débora Matoso