Entrevista com Márcia Rosa: “Fernando Pessoa e Jacques Lacan: constelações, letra e livro”.

Entrevista com Márcia Rosa: “Fernando Pessoa e Jacques Lacan: constelações, letra e livro”.

O Portal Minas com Lacan conversou com a autora mineira Márcia Rosa, que nos fala de seu livro “Fernando Pessoa e Jacques Lacan: constelações, letra e livro”. Para quem ainda não leu o livro, esperamos que, como um aperitivo, esta entrevista possa aguçar o apetite do leitor em efetuar um verdadeiro “ato de leitura” e percorrer as construções de Márcia Rosa entre a literatura pessoana e a teoria lacaniana, entre o sujeito constelar e os modos de gozo com a letra. Para quem já o leu, esperamos que a entrevista possa condensar, juntar fragmentos constelares do texto, enlaçando letra e leitor.

Carla Capanema: Em seu livro Fernando Pessoa e Jacques Lacan: constelações, letra e livro, você faz uma aproximação entre a literatura e a psicanálise, entre a poética pessoana e os modos de satisfação da escrita. Em quê a obra de Fernando Pessoa se aproxima da psicanálise lacaniana e, principalmente, do Lacan dos anos 70?

Márcia Rosa: O tema da escritura e da letra ocuparam as minhas pesquisas desde o mestrado no Departamento de Filosofia (UFMG) até o doutorado em Literatura Comparada (UFMG). Comecei tratando da polêmica entre Derrida e Lacan a propósito do conto de Edgar Alain Poe, “A carta roubada”. Nesse primeiro tempo de seu ensino, Lacan retornou a Freud servindo-se da linguística estrutural de Ferdinand de Saussure e postulou o inconsciente estruturado como uma linguagem, uma linguagem falada, fonetizada. O filósofo Jacques Derrida indagava-lhe se isso se sustentaria nas línguas não-fonéticas também.

Embora o ensino de Lacan vá se deslocar da hegemonia e da autonomia significante, tributária dos privilégios do simbólico, à letra e ao registro do real, Lacan parece ter sempre sustentado o privilégio da fala em relação ao escrito. Inclusive, é interessante evocar aqui o fato de que uma análise se processa através da fala; a idéia de uma análise feita através de escritos sempre levanta objeções. No entanto, com a importância dada à letra a partir dos anos 70, principalmente a partir de um texto como “Lituraterra”, Lacan abriu caminho para formulações tais como a de um inconsciente real, desdobrada recentemente por Jacques-Alain Miller.

Então, retornando à sua pergunta, creio que, se considerarmos o escrito literário no registro da lituraterra, não exatamente da literatura, o Lacan dos anos 70 é, sem dúvida, um interlocutor mais sutil e afinado para os escritores, ele suporta melhor a idéia de uma escritura, de uma letra imantada de gozo (própria de uma concepção de lituraterra). Por outro lado, se nos restringíssemos a tomar a letra e a escritura com relação ao seu endereçamento, ou seja, ao campo do Outro, e em uma postura de deciframento de mensagens (algo como interpretar o recalcado do texto e localizar seu destinatário), as formulações iniciais de Lacan bastariam.

Em se tratando do texto de Fernando Pessoa, cujos escritos me interessaram na pesquisa de doutorado, creio que o estatuto constelar de construção do texto e a pluralização dos autores, dita heteronímia, é a que melhor lida, em sua riqueza, com o Lacan do “Lituraterra”. Se a tomarmos com as referências do primeiro Lacan, acabaremos incluindo-a no registro de algum déficit, algo do tipo “falta de sistematização”, “falta de endereçamento”, etc.

Carla Capanema: Você retrata o sujeito da poética pessoana tal como o sujeito japonês, oscilando entre o significante e a letra. Seriam dois modos de satisfação em um mesmo autor?

Márcia Rosa: Para responder a essa pergunta, vou servir-me de comentários feitos por Jacques-Alain Miller em um colóquio intitulado “Lacan e a coisa japonesa”. Ele observa que, se o que responde à divisão subjetiva é um certo modo de satisfação, o sujeito ocidental satisfaz-se, por um lado, na palavra e, por outro, em seu fantasma. Ora, comenta Miller, “este registro que é para nós aquele do fantasma, está satisfeito, para o sujeito japonês, por uma referência ao escrito, […], i.é, pela escritura tomada como objeto”. Com a prevalência da letra ou do escrito no lugar do objeto, instala-se uma espécie de fetichismo da letra, ou seja, a letra passa a ser um correlato do Outro não barrado, o que impossibilita a emergência do discurso analítico, ou seja, gera-se um obstáculo ao encontro do sujeito com o objeto pequeno a como buraco no saber.

Posto isso, podemos afirmar, não apenas de Fernando Pessoa mas de um certo número de escritores, que eles responderiam à divisão subjetiva oscilando entre a satisfação da fala e a da escritura, sem se servir do dispositivo do fantasma. Esse movimento seria, aliás, próprio dos escritos que atingem a condição de lituraterra, os quais, obviamente, não constituiriam uma literatura do fantasma ou calcada nos enquadramentos fantasmáticos. No campo da literatura, teríamos aqueles escritos que atingem a condição de escritura, nos termos de Barthes, ou seja, que fazem um uso da letra que está imantado de gozo, que é, em seu próprio ato de escrita, permeado pelo gozo e que não está ali para pedir interpretação ou deciframento de alguma verdade recalcada.

Carla Capanema: Você afirma que, embora a poética de Pessoa seja do múltiplo, isso não impede de colocar a questão do Um como elemento que faz a atadura do conjunto. Onde você localiza a presença do Um em Pessoa?

Márcia Rosa: No meu trabalho com o texto e a produção de Pessoa, publicado no livro Fernando Pessoa e Jacques Lacan: constelações, letra e livro, sobre o qual estamos conversando aqui, localizei dois modos de amarração do conjunto da obra pessoana: o primeiro seria o poema que, mesmo em sua montagem constelar, a qual ultrapassa a linearidade significante e opera com uma escritura espacializada, funciona como disciplinador do acaso, e o segundo seria o livro, em especial o Livro do Desassossego, com o qual Pessoa manteve uma parceria sintomática durante muitos anos de sua vida. Em vista disso, embora constelares e descosturados, o poema e o livro permitiram que o conjunto dos escritos pessoanos não se perdessem em uma multiplicidade que geraria uma dispersão infinita.