Entrevista com Suzana Faleiro Barroso

Entrevista com Suzana Faleiro Barroso

O Portal Minas com Lacan inaugurou, com Laura Rubião, a série de entrevistas “Autores Mineiros”. Conversaremos com cada um. Nesta, Suzana Barroso e seu livro “As psicoses na infância: um corpo sem a ajuda de um discurso estabelecido”.

Tanto a clínica das psicoses quanto a clínica com crianças apresentam peculiaridades e, em tempos hipermodernos, apontam para um novo modo de operar com o real em cada caso, em meio às nomeações incessantes do campo da ciência. Em entrevista, Suzana Barroso fala do que conseguiu localizar sobre o tema em sua pesquisa de doutorado, que culminou no livro “As psicoses na infância: um corpo sem a ajuda de um discurso estabelecido”. A autora destaca que a criança psicótica apresenta-se como “ser de gozo para o Outro”, manifestando fenômenos corporais que se distanciam dos desencadeamentos clássicos da psicose.

Por fim, em tempos de preparativos para nossa Jornada anual, não deixamos escapar a pergunta mais atual da seção Minas: o que quer a mãe hoje? Confira a entrevista na íntegra e deixe seus comentários.

Portal Minas com Lacan: Como foi a experiência da pesquisa de doutorado e do processo da escrita da tese que, posteriormente, se tornou o livro “As psicoses na infância”?

Suzana Barroso: A pesquisa foi causada pela prática clínica com crianças. O fato de receber, no consultório, crianças psicóticas que se implicaram no tratamento analítico durante um período longo de tempo, que obtiveram uma limitação do gozo em excesso e efeitos terapêuticos sensíveis, foi determinante desse estudo e da formalização dessa experiência. Dos casos clínicos, pude extrair uma hipótese norteadora da investigação: a hipótese de que a psicose infantil apresenta uma especificidade ao nível do gozo associada à posição da criança psicótica, a saber, um ser de gozo para o Outro, visto que não houve a separação da criança como objeto condensador de gozo para o Outro materno. Disso decorre a prevalência dos distúrbios da estruturação corporal, que, consequentemente, devem nortear as intervenções clínicas destinadas a promover alguma extração, alguma disjunção do corpo e do gozo.

Portal Minas com Lacan: Ao seu ver, qual a importância de uma pesquisa acadêmica, da escrita e, posteriormente, da publicação de um livro para a formação do analista?

Suzana Barroso: A pesquisa acadêmica pode acolher a psicanálise e sua metodologia, isto é, a construção do caso, o estudo do caso, um a um, que faz valer o modo freudiano de fazer ciência. Para um analista, a escrita da clínica abre uma série de questões: escrever caso por caso, articular um saber sobre a experiência do real próprio de cada caso, zelar pelo sigilo, publicar o caso, localizar os efeitos da escrita do caso. Todas essas questões são discutidas cuidadosamente por Freud nas notas preliminares ao relato do caso de Dora. Nessas notas, Freud assume a importância das duas linhas de estudo do caso clínico: a perspectiva do caso único e a perspectiva do caso típico. “Na minha opinião”, disse Freud, “o médico assume deveres não só em relação ao paciente individual, mas também em relação à ciência; e seus deveres para com a ciência significam, em última análise, nada mais que seus deveres para com os inúmeros outros pacientes que sofrem ou sofrerão um adia do mesmo mal” (FREUD, 1905/1976, p. 6). De uma parte, buscamos a singularidade, isto é, o caso propriamente dito; de outra parte, buscamos generalizar, articular teoricamente, elaborar conceitos e matemas, pesquisar a casuística, fazer correlações entre os casos, recorrer às formulações já estabelecidas, formalizar. A escrita da clínica convive, portanto, com o singular e com o universal. O esforço de extrair da clínica da criança psicótica um saber transmissível concerne, portanto, aos deveres para com o caso e para com a ciência estabelecidos por Freud.

Portal Minas com Lacan: Lacan, no seminário livro 3, “As Psicoses” (1955), afirma que “a psicose não é estrutural, de jeito nenhum, da mesma maneira na criança e no adulto”. Como podemos pensar no desencadeamento da psicose na infância? As rupturas/desconexões seriam indicativos de desencadeamento?

Suzana Barroso: As manifestações psicóticas na infância sempre interrogaram os standards da psicose. A solidariedade entre os conceitos ordenadores da clínica estrutural da psicose (a saber: a foraclusão, o desencadeamento e a estabilização delirante) inspiraram-se, sobretudo, na abordagem psicanalítica da paranoia e seus sistemas delirantes. No entanto, o que encontramos na clínica da criança psicótica é a soberania dos fenômenos corporais, isto é, excessos precoces no corpo, com relativa autonomia em relação à estrutura do Outro. Trata-se, sobretudo, dos distúrbios do campo do gozo que se apresentam aquém do desencadeamento clássico, distúrbios da dimensão econômica do gozo mais do que os do campo da linguagem, que comprometem a semântica e a significação, tendo sido esses últimos os fenômenos privilegiados pela abordagem estrutural das psicoses.

Via de regra, a psicose infantil apresenta formas de conexão e desconexão com o Outro bem distintas das rupturas promovidas pelo clássico desencadeamento, demonstrando processos mais contínuos do que descontínuos e ausência de sistemas delirantes. Por exemplo, há sintomas de ruptura com o Outro que podem acontecer nos primeiros meses de vida e que, nem de longe, se assemelham às rupturas típicas do sujeito que já sofreu a assunção do simbólico. Os desligamentos podem acarretar consequências desastrosas na educação, na socialização e na escolaridade da criança, que, frequentemente, são explicadas, hoje em dia, como transtornos do desenvolvimento. De fato, a psicose na criança pode mostrar-se de modo latente ou mascarado, revelar-se em sintomas e comportamentos os mais diversos e até mesmo mostrar-se de modo patente.

De fato, na obra de Lacan, o Seminário 11, mais do que o Seminário 3, constitui o divisor de águas quanto à psicose infantil, pois introduz outra maneira de situá-la, não do lado da descontinuidade do significante em que o sujeito se articula com a fantasia, e não com o sintoma. Da mesma época, encontramos nos “Escritos” de Lacan textos muito importantes para repensar as manifestações da psicose na infância: “Alocução sobre as psicoses da criança” (1967), que constitui um marco da mudança de enfoque clínico sobre as psicoses, que, progressivamente, se redefinem a partir do real e do modo de aparelhamento do gozo e não a partir do simbólico, considerando a polaridade entre sujeito do significante e sujeito do gozo. Tanto nesse texto quanto em “Notas sobre a criança” (1969), Lacan sequer menciona a questão do desencadeamento ao tratar das psicoses da criança. No lugar do desencadeamento, encontramos as noções de sintoma da criança e fantasia materna para articular a posição psicótica da criança. O que ele destaca é como o corpo da criança pode ser o objeto condensador do gozo para a mãe, ao realizar, na psicose, o objeto do fantasma materno. Disso decorrem as manifestações sintomáticas da psicose na infância, muito mais do que da ruptura da cadeia característica do desencadeamento, tal como foi pensado segundo as coordenadas simbólicas de uma clínica predominantemente estrutural.

Portal Minas com Lacan: Onde esse tema avança e como pensá-lo em nossa contemporaneidade?

Suzana Barroso: Esse tema avança, a meu ver, a partir das transformações na subjetividade infantil contemporânea, em uma sociedade marcada pela precariedade da estrutura simbólica e pela “época dos Uns-todo-sós” e as repercussões dessa lógica do Um junto às crianças e as famílias. Se considerarmos que a infância constitui, por excelência, o tempo de constituição do falasser, da inserção em um discurso do qual pode se obter um corpo, um modo de regulação do gozo pulsional e o laço social, como viabilizar essa construção junto à criança contemporânea cada vez mais sem o Outro? O que a clínica das psicoses nos ensina sobre os impasses contemporâneos de inscrição da criança no campo do Outro? Quais as sutis diferenças entre o autismo e as psicoses? Como articular o corpo à língua do Outro num tempo de autismo generalizado?

Portal Minas com Lacan: Qual o maior desafio para o trabalho nesse âmbito?

Suzana Barroso: O maior desafio da psicanálise no âmbito da clínica da criança é fazer-se transmitir e fazer-se presente nos espaços de acolhimento do sofrimento da criança hoje. Desse modo, o discurso psicanalítico poderá viabilizar parcerias com os campos da educação, da saúde, com as redes sociais. No caso das psicoses, a psicanálise tem muito a contribuir para as crianças que sofrem de um gozo deslocalizado, que interfere no corpo, no pensamento e em sua inserção social. O analista faz-se parceiro da criança no tratamento desse gozo invasivo, com efeitos terapêuticos sensíveis. Ao contrário, o desconhecimento do sofrimento psicótico na criança compromete o tempo da infância e o futuro do sujeito. Não é raro que o discurso dos especialistas da criança intervenha por meio de um aparato assistencial e psicologizante (como reeducação psicomotora e psicopedagógica, recondicionamento cognitivo, etc.), buscando adaptar a criança psicótica, porém reiterando a foraclusão da qual o sujeito sofre. O mesmo efeito acomete a criança cuja psicose é somente medicalizada. A psicose acaba sendo mascarada pelas classificações diagnósticas “pret a porter”, a exemplo dos assim chamados “transtornos” pelo Manual DSM. Nesses casos, controla-se os fenômenos na infância medicalizando-os, até que eles acabam explodindo na adolescência, sobretudo através das passagens ao ato, sem que o sujeito tenha construído o menor recurso para lidar com sua singularidade.

Portal Minas com Lacan: Aproveitando a temática da Jornada que teremos nos dias 30 e 31 de outubro e a sua vasta experiência clínica, perguntamos: “o que quer a mãe, hoje?”

Suzana Barroso: Penso que o querer feminino é bastante complexo. Envolve questões do desejo, do amor e do gozo. Essa resposta ao que quer a mãe hoje deve ser considerada de modo singular, a partir de cada caso. Como exemplo dessa complexidade do querer feminino, vemos que um filho que tem um valor precioso para o querer de uma mãe, em certas circunstâncias, pode perder esse significado e até mesmo ser desinvestido libidinalmente pelo sujeito mãe. Pensando sobre a mãe da criança psicótica, a maior dificuldade diz respeito aos impasses de inserção dessa criança no campo do Outro. Sua colaboração com o trabalho da criança no tratamento do gozo fora da lei é decisivo para sua assunção da posição de sujeito e sua separação da posição de objeto.

De um modo geral, penso que o querer de uma mãe hoje tende à dispersão e à pluralização, devido às reconfigurações familiares que incidiram no clássico ideal de ser mãe, aquele que Freud encontrou como ideal de eu feminino por excelência e que implica uma das saídas da menina no processo de tornar-se mulher. Ao compararmos a mãe dos dias atuais com a mãe de uma estrutura familiar mais tradicional, encontramos uma série de diferenças. Verificamos algumas tendências: a figura da “mãe só com a criança”, da mãe desfamiliarizada, da “mãe dos filhos da ciência”, da “mãe politicamente correta”, etc. Mas o que há de constante nas mães de hoje, a meu ver, é a marca de um desamparo muito grande diante da fragilidade e da fugacidade dos laços sociais contemporâneos, das dificuldades nas parcerias amorosas associadas a um alto nível de exigência quanto ao imperativo de felicidade da criança. O discurso da ciência em aliança com o capital impõe a todos o imperativo de felicidade, que contamina a relação da mãe com o filho de modo devastador. Frequentemente, recebemos demandas de “mães devastadas” por esse imperativo típico das paixões familiares na “época do mais”. Assim, o filho, mesmo o mais desejado, pode acabar identificado ao excesso, ao que transborda os limites e causa angústia. No contexto atual marcado pela carência de “modelo de mãe”, falar e ser escutada é para uma mãe um alívio, uma maneira de inventar-se enquanto mãe, sempre de modo singular.

Entrevista realizada por Elizabeth Medeiros e Guilherme Del Debbio.

Revisão: Adriane Barroso.