Entrevista com Maria de Fátima Ferreira

Entrevista com Maria de Fátima Ferreira

Dando continuidade à série de entrevistas “Autores Mineiros”, o Portal Minas com Lacan conversou com Maria de Fátima Ferreira (EBP/AMP), autora do livro “A dor moral da melancolia” lançado em 2014. Ela traz um panorama da melancolia através de sua prática clínica como analista e nos conta de sua experiência como autora.

Desejamos a todos uma ótima leitura!

A dor moral da melancolia

A dor moral da melancolia

Portal Minas com Lacan:   Em “Luto e Melancolia”, Freud diferencia três tipos clínicos, “luto normal, luto patólogico e melancolia”. Como você distingue esses três tipos clínicos e de que modo podemos pensar, a partir da clínica, um ponto fundamental, em que seja possível distinguir um sujeito que no tratamento assume uma posição melancólica e, na evolução de seu delírio, passa a identificar o gozo fora de si, no Outro, tal como o paranoico? Podemos dizer que o sujeito pode deslizar ora em uma posição ora em outra, dificultando, com isso, o diagnóstico?

Maria de Fátima Ferreira: Freud estabelece a distinção entre o luto e a melancolia, e verifica que os traços encontrados na melancolia também podem ser encontrados no luto. No entanto, anuncia algo importante que os distingue: na melancolia, há uma perturbação da estima de si, o que não está presente no luto. As consequências da perda de objeto no luto e na melancolia são, portanto, distintas: no luto, é o mundo que se torna pobre e vazio, ao passo que, na melancolia, é o próprio eu. Assim, pode-se dizer que, no luto, o buraco da depressão está do lado de fora, no mundo externo, ao passo que, na melancolia, o buraco é interno, no eu. Isso terá ressonâncias na clínica diferencial entre o luto e a melancolia. Nesta última, vê-se um sujeito que se apresenta totalmente desvalorizado,  incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível, encontrando motivos para se repreender e se envilecer, chegando muitas vezes ao delírio de indignidade e na exacerbada autoacusação.

Freud avançou muito em relação à psiquiatria de sua época ao buscar saber as causas pelas quais o melancólico perdeu seu amor próprio. Ele já indica, com isso, o lugar diferenciado do analista: o de escutar o paciente. Ao buscar a causa do delírio melancólico, sinaliza para o lugar do analista no ato acolher o melancólico, e não de refutar ou desviar o delírio como sendo um erro, um déficit.

Segundo ele, na neurose obsessiva há um conflito devido à ambivalência, que empresta um cunho patológico ao luto e força-0 a expressar-se sob a forma de autorrecriminação, no sentido de que a própria pessoa enlutada seria culpada pela morte do objeto amado, isto é, que ela a desejou. Mas, ao ler atentamente o texto, vemos que o luto patológico é distinto da melancolia. Na melancolia, há uma impossibilidade de realizar o luto. É preciso ficar alerta para as três formas clínicas que, no texto freudiano, estão bem claras: o luto normal, que tem seu sentimento de tristeza como correlato e, por modelo, o processo do luto; o luto patológico, no qual estão incluídas as depressões neuróticas, um conjunto amplo de patologias não psicóticas; a melancolia, na qual se pode concluir que cabem também as outras depressões psicóticas, reguladas segundo o regime do narcisismo.

As três precondições apresentadas por Freud para a melancolia são a perda do objeto, a ambivalência e a regressão da libido ao eu. As duas primeiras também estão presentes nas autorrecriminações obsessivas que surgem depois da morte de um ente querido. Conclui-se, então, que a regressão da libido ao eu, sob a base de uma identificação narcisista, é um fator específico, responsável pelo resultado da melancolia.

Quanto à questão da distinção paranoia-melancolia, em minha pesquisa, trabalhei um comentário de caso clínico discutido por nosso colega Jean-Claude Maleval, que tomou o caso Wagner como paradigma desta questão tão comum, mas tão difícil. Ele foi considerado um paranóico. Em 1913, executou sua esposa e seus quatro filhos, “não por vingança, mas por piedade” (MALEVAL, 2009, p.157) e, em seguida, matou nove moradores da aldeia de Mühlhausen e feriu onze. A partir de seus atos, esperava ser condenado à morte, mas perícias psiquiátricas que diagnosticaram a paranoia lhe predestinaram a terminar seus dias no asilo de alienados, onde morreria em 1938. Permaneceu internado por 25 anos e, ao longo de seu tratamento, disse aseu médico que matou essas pessoas por medo e vergonha de sua família ser humilhada ao saber de suas práticas sodomitas. Tratavam-se de atos de bestialidade, ditos sodomia, realizados em 1901, dentro do maior segredo, em uma creche onde exercia o cargo de professor primário, na Aldeia de Mühlhausen. Para ele, a natureza de seus atos equivalia a uma falta irreparável. A partir daí, apareceram os fenômenos de “significação pessoal”, através dos quais tudo o que escutava, onde quer que estivesse, parecia reportar-se a ele. Acreditava estar no centro das fofocas e supunha que todo mundo conhecia seu erro. O remorso por seus atos torturava-o e temia ser descoberto, esperando ser preso a qualquer instante. A partir dos documentos recolhidos e de uma análise profunda do relato do paciente, bem como do seu psiquiatra Robert Gaupp, Maleval coloca em questão o diagnóstico de paranóia. O psiquiatra afirma que Wagner, no fundo de seu sofrimento moral, situava seu erro bem anites da perseguição, permitindo situar primeiramente o fenômeno da dor moral como fundamental do delírio desse psicótico. A partir daí se instalará, como já disse, o delírio de perseguição.

Para a psicanálise, portanto, o que está em jogo é a autoacusação presente na melancolia. A dor moral, essencial na melancolia, surge como um dos pontos de ancoragem para o diagnóstico de Wagner. Miller (2009), que participou do debate com Maleval, é categórico quanto a isso. Para ele, Wagner vive uma dor moral constante após suas práticas sodomitas e bestializadas, injuriando-se, acusando-se de seus desequilíbrios e desgostando da vida, sempre com tendências suicidas. Por mais que a preparação da passagem ao ato faça pensar na paranoia, a presença maciça e permanente da autoacusação, com seu correlato sofrimento e o sentimento de culpa, leva, antes, a pensar na melancolia. Em Wagner, segundo Maleval, o objeto a está, às vezes, nele e, às vezes, em seus perseguidores. Isso indica que existe um fundamento melancólico em obra em toda psicose.

De fato, o estudo do caso Wagner incitaria fortemente a reabilitar a categoria pré-kraepeliniana dos perseguidos melancólicos ou auto-acusadores, à qual a Escola francesa de psiquiatria consagrou vários trabalhos. Inclusive, Lacan, em sua tese, lembra esses trabalhos e acrescenta que “a clínica mostra casos em que os acessos típicos da psicose maníaco-depressiva se combinam com a eclosão de sistemas delirantes mais ou menos organizados, particularmente sob a forma de delírio de perseguição” (LACAN, 1987 [1932], p.104).

Para se discutir melhor esse aspecto, apresenta-se a leitura que Maleval (2009) faz de Ballet e outros autores, que insistem sobre o fato de que tais sujeitos são inicialmente perseguidos porque não apresentam “o estado de depressão física e psíquica que constitui a manifestação primordial da melancolia” (MALEVAL, 2009, p.167). A respeito disso, segundo Maleval, Ballet, com grande fineza clínica, chega a situar o perseguido melancólico a partir de uma característica maior do tema do delírio: o melancólico encontra nele mesmo a causa de seus sofrimentos morais, é um culpado, ao passo que o perseguido busca essa causa fora de si, no mundo exterior, sendo uma vítima. Contudo, o paranoico é uma vítima que reclama justiça, “uma vítima inocente”, enquanto o perseguido melancólico é “uma vítima culpada”. Trata-se “de uma perseguição julgada legítima” (MALEVAL, 2009, p.167). Tal é o caso de Wagner. Entretanto, por suas passagens ao ato, raras nos perseguidos autoacusadores, mais “desanimados” que “agressivos”; mais inclinados ao suicídio que ao ataque de seus perseguidores, o melancólico aparece aí ainda como “uma vítima culpada” atípica.

Por essa via é que Maleval introduz a questão de saber se uma clínica fazendo uso dos conceitos psicanalíticos permitiria (naquela época, 1913) uma análise diagnóstica mais fina do caso Wagner. Deparar-me com essa questão explicita a problemática que guiou minha pesquisa. Trata-se de saber, para além do diagnóstico psicanalítico (melancolia/paranoia), para além dos fenômenos, o lugar do analista na clínica da melancolia.

Maleval busca, então, em Freud (2007 [1915-1917]), pressupostos para responder a questão, a partir da identificação do eu ao objeto perdido, situação em que o melancólico passa a ter aversão a ele mesmo. A dor de existir do melancólico advém do fato de ele ter encarnado esse objeto. O fato de Wagner, em razão de seu erro, ter descrito a si mesmo, inúmeras vezes, como “um ser imundo, masturbador, sodomita, esfregão, guloso, paradigma da porcaria” é uma pista valiosa para responder à questão acima, pois essas autoinjúrias ilustram bem a posição do melancólico identificado ao objeto e, como tal, desprezível. No entanto, Maleval (2009) observa que esse desprezo é temperado por ideias megalomaníacas: “se eu faço abstração do campo sexual, eu já fui o melhor homem de todos esses que eu já conheci”. Seria então o caso de considerá-lo um paranoico capaz de identificar o gozo no lugar do Outro?

Os limites incertos da paranoia desse paciente justificam-se, pois, pelo fato de que, embora Wagner tenha nomeado nitidamente seus perseguidores, o sentimento de seu erro não cessa de atormentá-lo dolorosamente. Isso gerou nele a espera inquietante da morte, única capaz de livrá-lo de seus pecados. Nele parecem conviver ora a autoacusação, ora a heteroacusação. Ou seja, o objeto a encarna-se ao mesmo tempo em seu ser e em seus perseguidores. E, ademais, não basta matar esses últimos para eliminar a realidade do gozo desencadeado. A ele era necessário, além disso e antes de tudo, realizar um sacrifício de seu ser, somente isso era suposto poder lhe fornecer o alívio esperado.

Portal Minas com Lacan: Como você entende a famosa frase de Freud “a sombra do objeto caiu sobre o eu”?

Maria de Fátima Ferreira: Eis então, pela primeira vez, a gênese da frase que encerra o processo que ocorre na melancolia: A sombra do objeto caiu sobre o eu (FREUD, 2007 [1915-1917], v.14, p.246-247). Disso decorre que uma perda objetal se transforma numa perda do eu, e o conflito entre o eu e a pessoa amada passa a ser vivido pela separação entre o eu e a atividade crítica do eu, que é alterado pela identificação. Ou seja, o melancólico, ao se identificar ao objeto, toma para si a perda. Ele e o objeto são a mesma coisa. Ele está perdido.

Portal Minas com Lacan: Qual é o lugar do analista na clínica da melancolia?

Maria de Fátima Ferreira: Esse aspecto da autorreprovação do melancólico é uma das marcas distintivas do estrago promovido pela hemorragia libidinal no eu, que culmina no delírio de inferioridade. Esse traço, característica marcante do melancólico, é infranqueável, como disse Freud, ao trabalho psicanalítico. Ou seja, havia no delírio melancólico um ponto não dialetizável. Talvez seja nisso que Freud esbarrou quando da dificuldade em falar do tratamento psicanalítico para esses pacientes. Contudo, ele afirmava que, diante do delírio de inferioridade ou de indignidade ou de autoacusações, presente no melancólico, não se pode contradizer o paciente. Pode-se dizer que Freud aponta, mais uma vez, para uma direção oposta ao lugar que os psiquiatras ocupavam, sustentados pelo tratamento moral. Isso indica que o lugar do analista não é o de se opor ao delírio do melancólico. Pode-se dizer que funcionar como uma barreira à passagem ao ato não se dá pela via de se contradizer o melancólico.

Nesse sentido, a experiência clínica nos ensina que só o fato de o analista acolher o melancólico já é um anteparo ao ato suicida. O que o melancólico pede é que o mandemos embora, que se confirme seu lugar de dejeto. Supõe-se que a ideia freudiana de não contradizer o melancólico aponta na direção de que ele seja acolhido, de se aceitar o desmascaramento que tal paciente faz de si mesmo. Observa-se que, embora Freud não avance na clínica da melancolia, a partir de casos clínicos, ele já fornece elementos para se pensar o lugar específico do analista na direção do tratamento.

Pode-se já dizer que o lugar do analista, na clínica das psicoses, deve ser o de se opor ao Outro mau. Isso é um postulado para todas as psicoses. A grande diferença reside em uma acuidade da escuta do analista, capaz de lhe permitir situar, a partir dos dizeres do paciente, os elementos que indiquem onde este localiza o Outro mau: se nele, a partir de sua identificação ao a; se no Outro, localizando o perseguidor fora dele.

Vale lembrar o que Lacan assinala, no Seminário 23, que uma análise é feita de suturas e de emendas. Mas, para isso, adverte: “é preciso saber qual é o nó e emendá-lo bem graças a um artifício” (LACAN, 2007 [1975-1976], p.71). Sobre esse aspecto, Dafunchio (2008, p.119), em suas investigações clínicas, afirma que na melancolia o nó que está solto é o simbólico.

Nessa condição, o gozo, que é do registro do real, impõe-se sobre o imaginário, o que empurra o melancólico para uma passagem ao ato. É preciso, então, que o analista intervenha a partir do simbólico, ali onde este está solto, produzindo um sentido ao imaginário, que produzirá um distanciamento por parte do sujeito melancólico da imposição que vem do real e assola com seu imaginário. Dafunchio (2008, p.115) assinala que o analista, ao produzir um sentido, possibilita um “armado”, uma espécie de ordenamento, “que possibilita as relações simbólicas entre real e imaginário” (DAFUNCHIO, 2008, p.115).

Portal Minas com Lacan: Finalizando nossa conversa, como foi a experiência da escrita/publicação de seu livro?

Maria de Fátima Ferreira: Quando me interessei pela investigação sobre a clínica da melancolia, não fazia ideia de que a pesquisa acadêmica pudesse culminar na escrita de uma tese, tampouco na publicação de um livro. De início queria apenas pesquisar na teoria e nos conceitos psicanalíticos qual seria o lugar da melancolia em termos estruturais e, em um segundo momento, de que modo um analista podia tratar um sujeito em que a pulsão de morte se apresenta pura, culminando em tentativas de passagens ao ato e, muitas vezes na própria morte. Vale lembrar que a minha incursão na academia surgiu de minha prática clínica em um serviço de saúde mental onde atendia alguns sujeitos cujo diagnóstico e tratamento eram de difícil resposta. Então, munida da ferramenta psicanalítica, empreendi minha incursão na academia.

Me lembrei de uma frase do Célio Garcia, em seu texto: “A Escrita”, que diz o seguinte: “não é tanto a folha em branco que faz medo ao autor, mas o sofrimento que ele vai impor ao papel, gravando ali seu próprio sofrimento”. Se posso pensar, junto com Lacan que a escrita tem algo a ver com o objeto a, terminar a escrita da tese foi me deparar com a perda de um objeto. Ao término dessa escrita, o que surgiu foi um corte nisso. Um corte doloroso. A finalização da tese e a defesa protocolada na experiência do término na banca examinadora, embora muito exitosa e feliz, não selou de vez a operação dos restos que recaíram sobre mim.

Ao publicar o livro, consentir com a autoria, penso que é mais que a escrita da tese, mais que escrever sobre a dor moral da melancolia, que é o título do meu livro. Consentir em publicar e lançar o livro é permitir me haver com o fato de que há separação, de que a condição de ser um autor requer não só um corte, no âmago do ser, mas um atravessamento de que não se escreve tudo e não se formata tudo. Enfim, o que pude apurar com a minha experiência de autora de um livro está mais além do texto que escrevi. E ainda me re-lança para querer ir um pouco mais.

Entrevista realizada por Miguel Antunes