Entrevista: David Maurity – Coletivo de Teatro TODA DESEO

Entrevista: David Maurity – Coletivo de Teatro TODA DESEO

A XXI Jornada da Seção Minas Gerais da Escola Brasileira de Psicanálise se aproxima, está aí: na próxima sexta feira, dia 27 de Outubro, a abertura para trabalharmos O Inconsciente e a Diferença Sexual: o que há de novo?

Por esse motivo, e mais, por recolhermos uma resposta da cena na cidade e o que a arte cênica pode promover para vivermos juntos sem recuar do desejo frente ao que os novos tempos anunciam, o portal Minas com Lacan entrevistou o Toda Deseo.

Um coletivo de teatro que se destacou com e na cena da cidade ao dar tratamento às questões da sexualidade, dos gêneros, e, principalmente, por nos convidar a olhar sem ódio ou indiferença o que cada um pode escandir da posição sexual que sustenta.Como o coletivo se apresenta? Percorrendo os lugares comuns, elevando-os à dignidade da cena na cidade. Estrearam com um “espetáculo festa”, o No Soy Maricon; levaram ao Sesc Palladium o teatro de bolso “SER – Experimentos Para Tempos Sombrios”, um monólogo poético-performático; realizaram a performance “Corpos que não importam”, no projeto Noite nos Museus, realizado pela Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte; promoveram em praças de BH o campeonato de Gaymada. Sim, Gaymada: leiam a entrevista e, se não participaram ou sequer conhecem, saberão do que se trata!

Com a linguagem do teatro eles, no seio do mar de Minas e suas montanhas de tabus, preconceitos caricatos e moral da “tradicional família mineira”, encontram também a hospitalidade, gentileza, segredos, receitas, solidão e graça em proporções consideráveis frente à invenção e talento que ofertam. Atentos e sensíveis ao fato de que o Brasil é líder mundial em número de assassinatos cometidos contra travestis e transexuais o Toda Deseo lança-se ao trabalho com a arma potente da linguagem teatral rumo ao desejo, difundindo possibilidades de abrigo amplo às diferenças de cada um. A questão da política, de certa forma, atravessa a entrevista e é também um dos eixos da nossa Jornada, o eixo 05, que através do axioma lacaniano “O Inconsciente é a política”, propõe indagar-se das consequências quanto à diversidade sexual.

Matheus Barros, Paula Marinho e eu adoramos conhecer e conversar com o Toda Deseocontado por David Maurity. Confiram o registro que fizemos da transcrição desse bate papo, ao mesmo tempo informativo e descontraído, para isso, preservamos ao máximo a linguagem falada e o tom que ela traz, não sem o risco de equívocos, brechas de falta  e mal entendidos. Se cabe aqui, neste espaço do Portal justificar mais uma vez o lugar concedido à esta entrevista, deve-se ao nosso desejo de contribuir com a XXI Jornada animando a leitura na semana da sua chegada, dessa forma, se cabe, a partir daí, dedicá-la a alguém, pelo empenho e trabalho incansável no alinhavo e construção dessa Jornada: à Ludmila Feres Faria – Coordenadora da XXI Jornada da EBP-MG.

                                                                                                                 Cristiane Barreto.

Paula Marinho e David Maurity

 

David Maurity e Matheus Barros

Entrevista: Minas com Lacan e David Maurity – Coletivo de Teatro TODA DESEO

Matheus Barros: Boa tarde, David. Como eu lhe disse anteriormente, somos da equipe do portal “Minas com Lacan”, da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais. A Escola tem o interesse de conversar a respeito de temas cadentes na sociedade, com outros discursos, com outros saberes.Por conhecer o trabalho de vocês já faz um tempo, eu logo pensei no Coletivo para nos conceder uma entrevista. Transmiti ao restante do grupo o que eu sabia do coletivo, pesquisei um pouco na internet e logo todos se entusiasmaram e ficaram animados para viabilizar esta conversa.

Pensamos em algumas perguntas, mas seria interessante, de início, você falar um pouco sobre o começo do Coletivo, como surgiu essa ideia.

Cristiane Barreto: Só acrescentando algo: o nosso ânimo passou por vários lugares, principalmente,pelo gancho que imaginamos, a partir do nome do Coletivo,entre uma aproximação da  proposta de vocês e com o tema da nossa Jornada anual.Estamos trabalhando a questão da sexualidade, no sentido de localizar o inconsciente e a diferença sexual, com uma pergunta: o que há de novo? Isso envolve o ponto do desejo, das construções atuais em relação à sexualidade. Então, nós ficamos, como bem disse o Matheus, muito animados.

David Maurity: É engraçado você falar sobre o nome, nós tínhamos um primeiro desejo, antes do surgimento do coletivo, de falar sobre as travestis em Almodóvar. O Almodóvar tem uma produtora que se chama “El deseo”.

O Coletivo surge de um TCC – Trabalho de Conclusão de Curso- , do Rafa(Rafael Lucas Bacelar), ator que integra o coletivo, que cursou Artes Cênicas na UFMG, em que é preciso produzir um espetáculo.

Quando as coisas começaram a tomar corpo de verdade, o espetáculo já tinha sido estreado e deu certo, pensamos em fazer um coletivo. Era muito desejo envolvido! Nós éramos cinco pessoas no início (atualmente são 09 atores integrantes do coletivo), e aí surgiu a brincadeira de “Toda deseo”. Por isso, no primeiro momento, era um desejo do coletivo; depois nós passamos a entender o desejo como o lugar da sexualidade, da identidade de gênero, como lugares de desejo, da possibilidade, da busca. Nós tínhamos mais interesse na questão da sexualidade e da sensualidade. Então, tinha muito a coisa do desejo, desse chamariz, desse fogo, essa vontade de fazer e de também levar o debate para quem quisesse ouvir. Então o desejo entra assim, começou com a brincadeira do nome, por conta da produtora do Almodóvar, e aí as coisas se transformaram. Nós surgimos do “No soy um maricón”, espetáculo, que era o TCC do Rafa, que foi apenas uma apresentação, mas como a apresentação deu super certo, as pessoas queriam saber mais, pensamos que poderíamos investir em um coletivo de teatro com essa temática.

Toda Deseo surgiu em 2013 e desde o início com a proposta de falar sobre questões LGBT’s, e de deslocar um pouco o lugar do teatro. A tendência é as pessoas pensarem o teatro dentro da caixa, dentro de um espaço próprio para o teatro. Ou com o teatro que sempre conta com figurino, texto, dramaturgia… O No soy um maricón já nasce de uma outra proposta: a ocupação de um espaço diferente. Estreamos no Nelson Bordelo, em 2013, com uma dramaturgia que não é construída a partir do texto, mas a partir do vídeo e da dança. Foi um ruído dentro da cidade, pois as pessoas não conseguiam nos considerar enquanto um coletivo de teatro.

Cartaz do Espetáculo/Festa “No soy un Maricón”

Cristiane Barreto: Você quer explicar um pouco sobre esse local, sobre essa escolha para a estreia?

David Maurity: O Nelson Bordelo era um bar que existia ao lado do Teatro Espanca, no baixo centro de Belo Horizonte, do lado do viaduto Santa Tereza. Havia uma relação afetiva de todos como lugar que a gente frequentava, que também tinha uma cara de cabaré. O Nelson Bordelotinha uma cortina vermelha, acabamentos com madeira, umas rosas… Como o Almodóvar acabou não sendo o tema, ele virou referência estética. Olhamos para aquele lugar e pensamos: o lugar perfeito para estrear um espetáculo que é uma festa. Nós chamamos o No soy um maricón de espetáculo festa e ele tem algo do cabaré e é todo feito em dublagem e coreografia. Pensamos que precisávamos de um lugar que conseguisse linkar essa proposta e surge o Nelson Bordelo. Isso ocorreu de maneira muito incipiente, hoje temos mais clareza que a questão da ocupação para a gente já era uma coisa para se pensar. Já nessa proposta de fazer um teatro fora de um espaço tradicional, a gente ainda não tinha a ideia, naquele momento, de que aquilo também era ocupar um espaço da cidade. Naquela época, o local que escolhemos era ainda mais marginalizado. O baixo centro não tinha a potência que tem hoje, as coisas estavam sendo construídas.

Foi nesse movimento, ainda incipiente quanto ao que seria uma ocupação, mas já entendendo que seria importante fazer um espetáculo sobre travestilidade e transexualidade em uma região marginalizada da cidade.

Cristiane Barreto: Fazendo do lugar, do espaço mesmo, um elemento do texto, um objeto cênico.

David Maurity: Exato, o espaço enquanto dramaturgia mesmo do espetáculo, que era o que a gente tinha naquele momento.

Paula Marinho: A partir do material que li, os projetos e apresentações de vocês, ficou evidente um ponto: mesmo dentro dos espaços de socialização gay, haveria um rechaço, ou mesmo um preconceito com os sujeitos trans? Como esse preconceito fica evidenciado?

David Maurity: É um erro acharmos que a comunidade LGBT conhece todas as variantes e todos os recortes que existem dentro dessa comunidade. Na nossa experiência,como coletivo de teatro, fizemos questão de nos aproximarmos um pouco mais das meninas. Percebe-se um desconhecimento total do que é ser trans, do que é ser travesti, todo esse processo de transição, como isso acontece.Ou da própria situação social das meninas, uma menina trans de classe alta, teve todo o privilégio de se transicionar contando com os recursos disponíveis, e a maior parte das meninas não tiveram. Elas estão sempre marginalizadas, em uma situação muito difícil de vida. Então existe um desconhecimento mesmo, principalmente da parte “G” dessa comunidade, em relação a essas meninas.

Em 2013 o debate em Belo Horizonte era muito menor sobre essa questão. Mas depois, acho que em 2015 teve um “boom”, as pessoas começaram a prestar um pouco mais de atenção nessas figuras e entenderam uma série de coisas: a questão da piadinha, como isso fere as meninas de maneira cruel; entenderam um pouco mais a situação em que elas vivem.

Quando você conversa com alguém, todo mundo já teve contato com alguma travesti na vida: amiga da mãe, amiga da vizinha, moradora do bairro. Mas até para a gente no início do coletivo, quando você aprofunda no tema, passa a conviver, percebe que a  grande questão é esta: elas não são vistas, quem dirá ouvidas! Você percebe a dificuldade da existência deste corpo no mundo, desse processo louco de invisibilização que elas sofrem. A Cristal Lopes, teve um papel muito importante. Ela foi a primeira das meninas que conhecemos, que ficou muito próxima da gente,a ponto dela começar a participar do coletivo e fazer algumas apresentações conosco.

Paula Marinho: Quando você fala da questão do corpo, a partir, por exemplo, do espetáculo “Ser”, ou da pele, esse corpo que reveste (chamou atenção esta fala), como o coletivo entende a questão do corpo?Ele é veículo? Ele é identidade? Se vestir e se nomear da forma que cada um deseja, que é a sua verdade subjetiva, você acha que apazígua algum sofrimento ou facilita uma certa entrada no círculo social?

David Maurity: Os dois primeiros trabalhos são muito festivos, tanto a Gaymada[1], quanto o No soy um maricon, a gente preza pela festa. Então uma coisa que a gente tinha, e tem até hoje com a gente, é que o corpo é uma festa! Começa por aí… e sem muito limite. É a pergunta que Espinosa faz: o que pode o corpo? A gente fica nessa busca, o que pode o corpo. Dos atores e atrizes deste coletivo, que de alguma maneira já se entende, sabemos das nossas limitações, mas um corpo pode muita coisa.

Para a gente ele é veículo, emissor de uma (…), não é mensagem, acho que do discurso, está mais no campo do discurso. Esse corpo dos atores ou das atrizes, acho que é um veículo, um discurso. A gente não consegue desassociar a questão do corpo da política, bem como toda a temática do grupo, a existência do grupo é política. É claro que todos esses corpos também são políticos, então a gente faz política com o corpo! E é isso, é veículo de troca também, é pensar que esse corpo está sempre sendo atravessado por alguma coisa, por alguém, pelos vários discursos que a gente encontra e esbarra na vida. Então ele é isso: ele é troca, ele reveste, ele também impele, é de uma potência incrível.

Eu acredito que sim, que se nomear dá uma tranquilidade, talvez é de você ter total controle, poder sobre o próprio corpo. Pensando principalmente nas meninas e nos meninos trans, a sociedade quer normatizar e dizer que você tem que seguir uma moral e um determinado padrão,mas você deve conseguir tomar para si uma série de coisas e falar: não, eu faço desse corpo, dessa matéria o que eu bem entender. Com todas as implicações que isso tem. O corpo é de uma potência incrível porque é de mudança cotidiana, sempre. Segunda a segunda a gente tentando descobrir alguma coisa!

Matheus Barros: Quando você falou essa questão do corpo, eu fiquei comparando o espetáculo Ser e o No soy um maricón. No Ser é um corpo desnudo, completamente exposto, somente pintado de branco. Enquanto no No soy um maricón tem toda a questão da roupas, etc. Em uma entrevista o Rafael – ator do coletivo-, disse que o que há de comum em todos os espetáculos da Toda Deseo é a “montação”. Eu gostaria que você pudesse nos falar um pouco sobre a “montação”

David Maurity: Quando começamos o Maricón, e a gente se propôs a falar sobre essas figuras, a maneira mais fácil de pegar o corpo e colocar em prol desse tema foi através da montação. Nós sempre falamos que não somos Drag Queens, somos atores que representam algum papel e a montação é uma ferramenta para chegar em um determinado lugar.

Em No soy um maricón era muito claro isso, porque a gente precisava falar desse corpo travesti, que não é o nosso. Então, através de tecnologias mesmo, se pensamos no sutiã, na prótese que a gente coloca, na peruca.., que é um pouco do processo que as meninas fazem, de mudar o próprio cabelo, de colocar silicone, foi a maneira mais aproximada que a gente tinha para estar mais próximo dessas figuras.

Paula Marinho: Montar um novo corpo.

David Maurity: Montar um novo corpo, a partir do nosso. Todo mundo no coletivo tem o mesmo biótipo: um pouco mais magro e mais afeminado. Isso nos ajudava nesse dito corpo feminino que gente queria chegar. Temos esse biótipo, nos aproveitamos disso, sabendo que claro, é obvio, que temos um zilhão de possibilidades.

Para aquele momento, em 2013, nas apresentação que fizemos para o No soy un maricón, isso foi muito interessante, principalmente no início. Pensar que eu poderia transformar o meu corpo de alguma maneira e que as pessoas pudessem desejar esse corpo, naquele momento feminino, ou afeminado, sem me reconhecer. Então, existe o desejo pelo David, que tem barba, que tem cabelo cacheado, mas existia um outro desejo pela figura que eu conseguia montar. A gente exagerava um pouco na sensualidade mesmo, as roupas do cabaré, tudo muito justo, para de fato ressaltar mesmo a bunda, pernas e trazer um pouco dessa sensualidade que as meninas tem. Era fazer aparecer um outro desejo, tinha gente que ficaria comigo enquanto David, mas não ficaria comigo “montado” para o espetáculo. Nós conseguimos ver uma série de coisas nesse corpo – não posso falar em um corpo travesti –, mas nesse corpo travestido ou transformado.

Cristiane Barreto: Atributos e exigências libidinais de cada um…

David Maurity: Muda, né? Por mais que as pessoas saibam que existe um homem gay por trás daquela montação do No soy um maricón, ali dançando e realizando a performance do espetáculo, aquela figura feminina para muitos não agrada, não interessa. Mas, para muitos, interessa a ponto da gente ser assediado mesmo. Uma coisa que caiu a ficha para gente: quanto mais próximo do feminino a gente está, mas violência a gente sofre. Seja ela simbólica, ou física mesmo, das pessoas acharem que podem passar a mão na minha bunda porque eu estava montado, porque eu estava de peruca, com roupas muito justas.De onde surgiu esse direito para você? A montação no Maricón, disparou muita coisa para gente em relação a esse aspecto da violência e da condição da mulher.

Quando a gente chega no Ser, nosso último espetáculo,é o monólogo. Isso depois de quatro anos, na mesma pesquisa, e recebendo muito feedback do que a gente faz, principalmente do Maricón, principalmente das travestis que assistiram também o Maricón, a gente chegou nos lugares mais complexos também: do lugar de fala, da própria questão da nomeação. A gente tinha uma sinopse do espetáculo que era: a história de quatro travestis que vão do luxo ao lixo. Não tem travesti no palco, esse corpo que está ali não é de um travesti.

O Ser, quando a gente coloca o Rafa – ator do coletivo-, todo de branco, é pensando exatamente na questão do corpo. Não deixa de ser uma montação, mas aquele corpo é uma tela em branco, como todo mundo é. Se você for pensar em um ser que acaba de nascer, completamente desprovido de discurso, seja ele qual for, ele já tem pelo menos o discurso da sexualidade, de onde ele é esperado, do desejo do outro.Mas até que ele mesmo se aproprie disso, ou até que ele cresça e tenha noção do próprio lugar no mundo, é uma tela em branco.

A grande questão para a gente no Ser era falar sobre questões de gênero, falar sobre identidade de gênero, desse transito de gênero que é possível, mas de uma maneira poética e colocando essa figura a mercê desse bombardeamento de discursos que a plateia tem também. O Texto e essa figura pintada de branco é exatamente para mostrar que é uma construção. O final do espetáculo é “o que você vê aqui?”, a última frase do espetáculo é: “o que você vê aqui?”. Que está ligado exatamente na relação que a gente tem com o outro, do reconhecimento que o outro tem da gente e da nossa questão com o outro, da nossa relação e da própria identificação que nós temos que só se dá a partir do outro. É montação? É, mas diferente, tanto que algumas pessoas ficaram assustadas. Sempre esperam da gente maquiagem, cabelo, salto. De repente entra o Rafa, nu, ele não entra branco, ele entra nu e aí que ele começa a se pintar. É difícil até das pessoas reconhecerem esse lugar, mas é tudo ferramenta. Assim como a roupa, as pessoas as vezes não se ligam que a roupa do cotidiano é uma montação, ela está carregada de uma série de fatores, ela não é escolhida aleatoriamente. O gosto é também produto de discurso, muito questionável.

A montação entra nesse lugar, ela está, nesses dois espetáculo sem lugares muito diferentes, mas acho também que tudo tem a ver com a maneira que a gente entendeu o coletivo e essa temática, essa pesquisa dentro do teatro e aonde a gente pode ir mais. É interessante ter a gente montado no palco? É, porque suscita todas essas questões, como eu disse, do feminino. Mas também é muito maravilhoso ver que um ator pintado de branco também é uma potência fenomenal. As pessoas saem meio impactadas.

O ator Rafael Lucas Bacelar no espetáculo “SER – Experimentos para Tempos Sombrios”

Cristiane Barreto: Qual é a faixa etária dos atores do coletivo?

David Maurity: Todo mundo tem 30 já! Tem uma pessoa só com 27, mas a maioria 30.

Cristiane Barreto: E as referências do coletivo no campo do teatro? Por onde vocês passeiam?

David Maurity: Muito diferente para todo mundo. Eu, por exemplo, não fiz teatro, não fiz graduação e nem curso técnico. Eu sou da Letras, faço mestrado na Letras e fiz um curso livre para tentar diminuir as frustrações da infância: queria fazer balé, mas não podia fazer balé porque balé é de menina. Comecei e não pude fazer, então eu fui buscar no teatro esse lugar: que acolhe a dança, que acolhe a montação. Mas nem sabia o que daria isso, que daria na Toda Deseo.

As referências são muitas, das mais variadas possíveis. Para a construção do coletivo é engraçado, a grande referência era o Almodóvar e a gente passou a ver muita coisa de performance, porque a performance tem justamente o lugar do corpo, do trabalho com o corpo mais acentuado. Com essa questão do performer ir um pouco além do limite do corpo, tem essa coisa do happenig.

Muita coisa do cinema, porque tem muitos filmes falando sobre identidade de gênero e a gente acabou vendo muita coisa: transamérica; os clássicos, como Priscila a Rainha do Deserto; A pele que habito. Almodóvar de fato foi maravilhoso, ele não virou tema, mas como opção estética foi incrível pra gente.

Mas tem livro também, eu da literatura trazia o Jean Jenet, João Gilberto Noll que é um cara que eu estudo, o Caio Fernando que era uma figura que as pessoas já conheciam e tem muitos trabalhos, muitos contos principalmente falando sobre identidade de gênero, mesmo que ele não se propunha sobre isso, mas falando sobre essas figuras em trânsito.

Teve gente que já foi Drag Queen antes de ser do coletivo, então já tinha uma vivência nesse lugar, que também foi super interessante para gente.

Cristiane Barreto: É realmente um coletivo!

David Maurity: Sim, pois é, das artes como um todo, até de figuras mesmo.Do teatro, que talvez tenha pegado muito para gente no início, foi o DziCroquettes. Todo mundo viu o documentário, a gente falou: é isso, em um outro lugar, em um outro contexto. Falar disso em 1970 e falar disso em 2013, fora do período da ditadura, tem uma abertura muito maior, mas ainda sim com todas as dificuldades de falar sobre a temática.

Matheus Barros: Voltando um pouquinho, primeiro você falou que o corpo é uma festa, com as suas múltiplas possibilidades e pontuou algumas, e sobre a questão do corpo como um instrumento político,também falou sobre a preocupação do coletivo em ocupar o espaço público. Vocês fazem, por exemplo, o Nossa Senhora do Horto na rua, tem também a Gaymada. Como fica essa questão do corpo político? E desses corpos invisíveis, que não são escutados, à luz do dia, na cidade? Como vocês pensam e trabalham isso?

David Maurity: A Gaymada surgiu de forma muito despretensiosa, a gente fez meio que para testar.

Cristiane Barreto: E teve uma repercussão incrível, eu, por exemplo, não conhecia o coletivo mas fiquei sabendo da Gaymada.

David Maurity: Primeiro foi uma loucura! A gente queria ocupar, nesse movimento da ocupação, muita coisa acontecendo em Belo Horizonte: praia da estação, duelo de MC’s. O carnaval voltando com tudo, não dava para ficarmos dentro do teatro! Aí tinha uma questão que era financeira: não temos um espaço, nenhum financiamento público para pagar uma pauta de teatro. O que a gente vai fazer? Onde um coletivo que se auto-gere vai conseguir apresentar os seus trabalhos? Isso era uma questão.

Ai veio a Gaymada. Nós fizemos uma vez, com um evento no facebook, aquilo de repente bomba, as pessoas comparecem.A ideia sempre foi pensando nesse corpo político: seja você gay, seja você afeminado ou não, seja você lésbica, butch, mais masculina ou não. Isso promove algum efeito. A homofobia, a violência elas não acontecem a toa, acontece exatamente porque esse corpo desloca o olhar da pessoas para um outro lugar, que geralmente elas não querem ver. As pessoas pensam: essa mulher mais masculina, o lugar dela não é no dia; Essa bicha mais afeminada, ela não pode ser feminina, porque, enfim, ele é homem e homem tem características ‘x’. E você precisa corroborar com isso?

Ir para a rua e ir de dia é justamente fazer esse movimento para essas pessoas que insistem em não ver, fazer isso aparecer. Estamos em uma bolha, sabemos que essa bolha existe, que dentro dessa bolha tem todos esses corpos. Mas e o teatro, qual é o trabalho do teatro nisso tudo? A questão era: nós queremos falar somente para os nossos, entre os iguais? Só para quem assiste teatro? A gente via isso muito em 2013, mas a cena do teatro mudou muito. Muitos espetáculos eram vistos só pelo“público de teatro”, aquele público que já tem alguma análise, que já tem um conhecimento crítico e tudo mais. A gente queria explodir com tudo isso e a Gaymada veio bem a calhar!Para as pessoas entenderem o que é ser esse corpo político, de um sujeito que independente da questão partidária, crença qualquer que seja, ele é político. A Gaymada dá uma dimensão disso para as pessoas, a nossa presença, a presença da Cristal e todo mundo que está ali e consegue comungar daquele evento, naquele momento, na cidade, consegue entender isso, do que é estar ali. Nunca aconteceu nenhuma violência na Gaymada, porque será? A única que nós tivemos foi em Curitiba, que tacaram uma pedra. Um amontoado de pessoas, durante o dia,já dá a entender para as pessoas que estamos, de certa maneira, organizados. A gente tem também uma vida que acontece durante o dia. Essa é a importância de trazer a Gaymadapara a rua. A Gaymada tinha um movimento claro: não vivemos só a noite, queremos fazer um evento tão festivo quanto, mas nós não estamos só na boate, no karaokê, nos bares do baixo centro. Fica mesmo bem estereotipada a coisa, achar que realmente existe um gueto é segregativo. Então, não!

Desde a primeira Gaymada foi sempre cheio, a gente ficou muito impressionado. Então é sinal de que há uma necessidade das pessoas de estarem no espaço público durante o dia e exercendo o seu afeto com liberdade. A gente fez na Praça Floriano Peixoto, em frente ao 1º Batalhão da Polícia –  é uma praça que é muito frequentada por família, ela está no Santa Efigênia, bairro antigo, muito familiar. Não teve nenhum problema, ninguém criou treta com a gente, a coisa aconteceu tranquilamente: senhoras, crianças, pai de família. As pessoas se mantiveram na praça, ninguém saiu correndo porque tinha uma comunidade, porque tinham pessoas LGBT’s fazendo um jogo maluco e botando Beyoncé para tocar.

O Nossa Senhora em um mesmo movimento, mas mais de descobrir a cidade. Aquela rua específica, a Conselheiro Rocha, quem mora ali no horto não passava ou teme passar pela rua porque tem um lugar de abrigo para pessoas em situação de rua, ou de usuários de drogas. Desde os ensaios, quando as pessoas começaram a ver que tinham algumas pessoas malucas ensaiando a noite naquele espaço, elas começaram a passar de novo por ali. Aconteceu um certo movimento. Tem casa, tem residência ali, mas as pessoas estão dentro de sua casa e pode acontecer alguma coisa ali e ninguém saber de nada. Além de ser uma rua linda, com aquele grafite enorme, linha de metrô. Esse conjunto de coisas e aspectos  diz muito sobre o bairro, sobre o Horto. A intenção foi de deslocar o olhar das pessoas  para além da violência. É violento? É violento. Pode ser um lugar violento? Pode. Mas é um lugar que, por exemplo, você tem uma parede grafitada, que você tem a arte de outras pessoas ali, que tem moradores também ali que provavelmente, se você passar por ali mais vezes, você pode ter algum contato com eles. A pracinha que a gente começava tinha toda uma história que ninguém conhece, a praça que botaram o nome da Dona Dolores que era uma figura do bairro, que os filhos começaram a cuidar e as pessoas abraçaram aquilo ali.

Paula Marinho: A experiência de vocês ao longo desses quatro anos, circulando pela cidade, a aposta nessa direção: tem entrada, é preciso ir, é preciso ocupar. Você acha que é um pouco por aí, quando se ocupa tende a ser bem recebido? É essa a experiência que vocês tem tido? É fazer entrar alguma coisa, fazer entrar para as pessoas que tem ali uma diversa possibilidade de uso do corpo, da sexualidade, alguma coisa entra ali, de dia, às claras.

David Maurity: Sim, é possível. É mostrar aquilo que já acontece. Por exemplo, quando você faz um espetáculo no Horto que não é uma região periférica, mas é m bairro muito residencial, com comunidades próximas.Levar esse corpo para esse espaço tem consequências. Todo mundo teve contato com alguma figura LGBT na vida, isso não é novidade, é novidade o desejo dessas pessoas de viveram de fato! Parece óbvio, mas para muitas pessoa não é. A Gaymada talvez seja um exemplo melhor de tratar a coisa do jeito que ela é, porque o Nossa Senhora ainda tem a coisa do figurino, da gente estar montado, como na Gaymada a gente já está com a perna aparecendo, pelos, a gente faz de barba mesmo, não é um problema, isso fica mais claro para as pessoas.Pelo menos nos parece ficar claro, que elas entendem que é possível conviver, nada mais é do que gente, é gente querendo viver. Parece tão óbvio isso, mas é verdade.

Cristiane Barreto: Te escutando, a impressão que dá, para além da questão que você explicita, é que de alguma forma o coletivo dá chances à cidade dela se conhecer, como se a cidade pudesse ser outra pela ela mesma. Aquela praça habitada e frequentada por aquela população de domingo, familiar, pode se deparar com um evento, com um acontecimento nela mesma, que não faz as pessoas saírem correndo, como  você disse tão bem, mas fazem elas vivenciarem alguma coisa diferente, que também está ali.

É bem mineiro essa sua fala de que todo mundo conhecia a cabeleireira amiga da mãe, alguém da rua…. A ideia do coletivo pode fazer perceber que quando uma coisa nova acontece aponta que tem uma transição na cena do mundo. As pessoas vão lidando inclusive com o desejo de forma diferente, e os cidadãos podem se preguntar: que é isso aí? Parece uma ótima estratégia essa história de vocês saírem do baixo centro e irem frequentar alguns lugares nos bairros e praças da cidade dando oportunidade da cidade se conhecer, dela ser outra para ela mesma.

David Maurity:  A gente foi muito nesse movimento da própria cidade, igual eu falei do carnaval que começa e ganha a cena.

Cristiane Barreto: O carnaval fez isso com a cidade, quando a gente poderia imaginar toda aquela folia em Belo Horizonte, não é mesmo?

David Mautiry: E de blocos que vão para todos os lugares. Por exemplo, Tico Tico sempre pega uma zona mais periférica para fazer o bloco, para passar o bloco e isso é incrível. Primeiro porque desloca esse olhar da cidade, faz esse movimento mais inverso: não é quem está na margem vem para o centro, é quem está no centro que vai para a margem. Acho que isso acontece muito quando você vai falar sobre identidade, tirar as pessoas desses lugar hegemônico, desse padrão hegemônico que existe e começar a olhar para essas identidades e sexualidades dissidentes, que está surgindo, mas não é que está surgindo, sempre existiu. Agora existe um movimento que é inevitável, que é “imparável”: as pessoas estão se entendendo mais nesse lugar. Eu estava conversando mais cedo sobre antigamente, se agente for pensar nas travestis da década de 70. O filme da Leandra Leal, Divina Divas, mostra que existia dois momentos na vida dessa pessoa: o diurno é enquanto figura masculina e no teatro, no noturno, na noite, aí você tem a liberdade de ser o que você quer ser. Então elas estavam com todo o aparato feminino a disposição e eram que queriam ser. Isso na década de 70 foi muito forte, no filme isso ficou muito claro quando elas falam disso, de como era proibido. Não havia a possibilidade de viver a travestilidade, a transexualidade da maneira como cada um gostaria. Você tinha que se adequar e hoje as pessoas já perceberam que esse é um movimento sem volta. Se existe um padrão, elas já têm consciência que podem subverter essas ordem e de fato aceitarem aquilo que querem ser.

O movimento novo da cidade foi isso também, ocupar esses espaços e dizer: esse espaço existe também. Uma coisa boba de fazer no parque municipal. Tem gente que nunca foi no parque municipal, você passa naquela Afonso Pena, está ali, aquele espaço incrível. Ou mesmo das pessoas, tem gente que não ia debaixo do viaduto Santa Tereza por acharem que podiam ser assaltadas, que podia acontecer alguma coisa, exatamente por conta da presença da população de rua. A ideia agora, por exemplo, é fazer a Gaymada na periferia, para também começar a deslocar esse público. Tá bom, o centro vocês já conhecem, vamos para outro lugar? Vamos conviver com outras pessoas? Porque para além disso, de levar essa discussão para a comunidade sobre questões LGBTs, tem também da maioria das pessoas que não vão até esses lugares, que não convivem e ai acabam colocando a periferia como um lugar negativo, ou negativando a periferia. É porque não conhecem. O mesmo movimento que a gente faz com identidade, com a sexualidade é descobrir a cidade nesse lugar também.

Cristiane Barreto: Não posso deixar, a partir dessa sua fala, de fazer uma comparação com o teatro. É muito comum a afirmação crítica de que as pessoas não frequentam o teatro e,no movimento de vocês, o teatro passa a levar as pessoas a lugares que elas também não frequentam, ou nunca foram. Esse movimento também ensina, mostrando que o teatro pode sair do teatro para ser frequentado. O que possibilita a existência dos territórios vivos da cidade? O que permite o acesso à cultura? Como estabelecer esse ponto de circulação?

David Maurity: Eu acho inevitável para o teatro estar no espaço público!, Não dá para pensar a arte hoje sem pensar as questões da cidade. Porque é isso, nós temos um coletivo dentro da cidade de Belo Horizonte. Mas pelo o que a cidade está passando? Como um coletivo de teatro, que cria narrativa, que cria poéticas, vai absorver tudo isso da cidade? Acho que é uma posição que nós partilhamos, não dá para esperarmos que todo mundo vá, por exemplo, assistir o Ser. Dependendo do lugar que a gente for apresentar, e ele é um espetáculo de palco, infelizmente não há como fazê-lo de outra maneira, muitas pessoas podem não se sentir à vontade naquele espaço. Pensa no Palácio das Artes, pensa no CCBB. Se alguém que vem de uma classe menos abastada é convidada, aí a gente pode pensar, já que as travestis são um interesse nosso. As travestis não frequentam esses espaços. Pode ser que o Parque Municipal seja esse espaço ainda elitizado talvez, em que as pessoas não consigam percebê-lo como um parque, como espaço público. Então eu acho que é uma via de mão dupla mesmo.

Mas é incrível. Desde quando a gente conversou e entendeu que não dava para fazer o teatro só para quem é letrado em teatro, para quem já um público frequente de teatro, aí você tem que explodir essa bolha e a rua é o lugar mais produtivo para isso.

Cristiane Barreto: Parece que a pergunta que o Matheus de alguma forma insistiu localizando o lugar político,nos ensina muito. Vocês inventam um jeito de sair do lugar da queixa ou de depender só daquilo que é ofertado pelas políticas formais.

David Maurity: Nós entendemos que o Estado tem o seu dever em relação a isso, acho que esse debate é precedido muito pela educação, a gente acaba entrando nesse campo, nesse mérito. Mas para quem, por exemplo, pensando em algumas pessoas privilegiadas mesmo, até do nosso público mesmo, nem pensando em quem não tem acesso. Você fazer um espetáculo na rua, divulgar no facebook, está lá, é só ir mesmo. É democratizar de uma maneira, acho que da maneira mais possível. Porque você chega lá e não quer assistir, não gostou, você vai embora, não tem nem o constrangimento de: “Ai meu Deus, vou ter que levantar da cadeira sem fazer barulho ou sair sem que o ator perceba”. Não, você está na rua e a rua é pública. Isso é maravilhoso para quem assiste e para a gente também, porque a gente tem que lidar com a rua, a rua é viva. Eu estou indo ocupar esse espaço, que já tem uma vida, ele está vivo. Seja pelos moradores, seja pelas pessoas em situação de rua que estão morando lá também. Ela, a rua, está viva.

Cristiane Barreto: Interessante isso que você demarca: não ocupamos os lugares inabitados. Existe alguma coisa, mesmo que aquele espaço esteja vazio, oco ou abandonado. As pessoas habitam a história de um lugar, podemos pensar as ocupações urbanas nessa vertente.

David Maurity: É, se a gente pensar nos bairros em Belo Horizonte, esses bairros mais antigos têm histórias incríveis, que vão dos moradores, a escolha dos nomes das ruas e porque tal rua foi pavimentada. De um zilhão de coisas.

Cristiane Barreto: Mais uma coisa que salta aos olhos: o corpo da cidade. O ponto da construção do corpo próprio e de como habitar os lugares da cidade, tem uma marca que é a construção do corpo da cidade. É muito impressionante esse ponto de transmissão do coletivo de teatro Toda Deseo.

David Maurity: O lugar tem a sua semântica e é isso, voltando para a questão do corpo, ou você cria ou você ressignifica, mas não quer dizer que você está vazio de tudo, muito pelo o contrário. Às vezes você precisa delimitar isso, porque eu acho que as pessoas não conseguem perceber de fato esse sujeito político que elas são, dessa quantidade de discursos que atravessam as pessoas e que constituem a vida. O interessante do teatro é pensar exatamente esse lugar. O teatro ele é feito por pessoas, a gente ainda não tem máquina fazendo teatro, não tem como, é vivo, o espetáculo ele é vivo, a presença é real, a presença do ator ela é real. Não tem como acontecer um espetáculo se o ator não estiver presente. É claro que muito daquilo que o espetáculo diz é do que as pessoas viveram, ou vivem, ou do lugar que elas estão, o que esse lugar dá, que narrativas elas pegam da cidade, o que a gente pega da cidade para construir – é claro tem um recorte. Aí entra muito naquilo que você falou, todo mundo conheceu alguém, pensando na coisa da cidade, essas figuras sempre estiveram aí, as travestis. A transexualidade hoje talvez seja um conceito mais ampliado, mais compreendido, mas eu na minha infância conheci travestis, tinham as travestis do bairro. Era isso, ou trabalhavam no salão, ou moradoras no bairro de muitos anos, ninguém questionava, figuras até muito respeitadas no bairro, exatamente por conta da condição. Isso está ai, isso já está dado.

Matheus Barros: Agradecemos muito por você ter aceito o nosso convite e ter nos transmitido o vivo da sua experiência.

David Maurity: Sou eu quem agradeço.

[1] Inspirado em um antigo jogo praticado com uma bola e em grupo, muito comum nas escolas, “queimada”, a “gaymada” é uma iniciativa do Coletivo de Teatro Toda Deseo. Com a proposta de um modo de fazer teatral em consonância com o movimento de ocupação da cidade, o coletivo propõe trazer a população LGBT para rua, à luz do dia, como uma forma de enfrentamento, um ato político no sentido de fazer com que a convivência seja possível. Os artistas dos coletivo são o(a)s juiz(a)s do jogo. No dia do evento são inscritos os times que são formados anteriormente ou por pessoas que se conhecem no momento do evento. Acompanhados por um grande público, em meio a performances de danças e discursos de protestos, os jogos acontecem até a consagração do time vencedor do Campeonato Interdrag de Gaymada.