Entrevistas XX Jornada EBP-MG “Jovens.com: Corpos & Linguagens” – 2016

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Entrevista Ana Lúcia Lutterbach*

  1. Eu considero que a marca da juventude é nos lembrar “a falta de fundamento”, termo de de Vilém Flusser. Ou seja, nos lembrar que a vida não está pré-escrita e que estamos sempre tendo que responder sem saber, inventando saber.

 

  1. Não sei se a psicanálise tem muito a dizer aos jovens, mas tem muito a aprender com eles. Aprender sobre as invenções necessárias, uma vez que o nome do pai não está dado, mas é preciso construí-lo.

*Entrevista realizada por Rosimeire Silva

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Entrevista Domenico Cosenza

 DUAS NOTAS SOBRE JUVENTUDE E PSICANÁLISE, HOJE.

Domenico Cosenza

Acolho com prazer a pesquisa dos amigos Wellerson Alkmim e Sérgio de Campos para responder as duas questões que propuseram, a mim e a outros colegas, sobre o tema da próxima Jornada da EBP-MG que tratará o tema da Juventude.

A primeira pergunta solicita que eu diga alguma coisa sobre aquela que, na minha opinião, seria a marca característica da juventude contemporânea em relação àquela de antes. Se se trata de escolher um traço dominante, eu diria que podemos  referi-lo a um circuito de gozo que, aliado ao funcionamento do discurso hipermoderno das sociedades de capitalismo avançado, tende sempre menos a passar pelo porta do Outro simbólico, como rito de iniciação e tende sempre mais a encontrar as próprias respostas na emergência enigmática da pulsão ou no âmbito do encontro com os outros imaginários, no grupo de pares, na comunidade identitária própria aos teen agers, ou mesmo diretamente em uma experiência de gozo que tende ao autárquico, ao isolamento e ao refuto do Outro, como aparece nos considerados sintomas contemporâneos, entre os quais podemos também inserir provavelmente as síndromes dos rapazes japoneses, hikikomori, que como sabemos, principiam em seu isolamento mais ou menos na época púbere e seguem no pós-púbere.

Esse ponto crucial da condição dos jovens de hoje assinala uma diferença em relação aos rapazes e moças de até boa parte do século XX: o encontro com o real que a puberdade impõe (real do sexo, real do trauma) encontra sempre menos lugar no Outro da experiência (também conflituosa) de uma mediação simbólica. Amiúde se constata entre os jovens contemporâneos a emergência de uma solução libidinal sem mediação simbólica, de uma satisfação que se sustenta principalmente sobre a identificação imaginária ao similar. Talvez, nessa tendência, os jovens de hoje se apresentam a nós, sem o saber, como uma vanguarda de uma grande transformação que nos envolve a todos fora das cercas geracionais.  Essa tendência pode ser mal compreendida e dar a impressão que a juventude atual não é atravessada pela turbulência da crise própria à juventude do século XIX e de boa parte do século XX, como pareceu a vários acadêmicos da área anglófona e de impostação experimental. Na realidade, é a solução dialética da crise que se deu um pouco mais na sombra, em concomitância com o declínio da função paterna, e não o real da crise, que se apresenta nos temos do impossível Aufhebung do jovem e da jovem com o próprio gozo singular, antes até que com o gozo do parceiro.

De fato, mesmo aqueles rapazes e aquelas moças, que evitam entrar na dialética da vida amorosa e sexual e que desenvolvem um circuito libidinal exclusivo em torno de um objeto inanimado como a droga ou o alimento ou o gadget tecnológico, não resolvem absolutamente nada com essa recusa à experiência do encontro com a dimensão sem garantia e sem limite do real que retorna na fase definitiva da experiência de dependência do objeto. Nesse sentido, ganha peso a recente definição de Jacques-Alain Miller da adolescência como “a falência da metáfora da puberdade” que produz como efeito nos jovens de hoje uma “inflação imaginária” e uma “metonímia infernal”.[1]

A segunda pergunta coloca em jogo a relação entre a juventude contemporânea e a psicanálise, entre o adolescente e o psicanalista, hoje. É muito interessante como a pergunta fora formulada, em torno do tema do ensino. O que ensinam o rapaz e a moça de hoje ao psicanalista? Pode-se dizer que o psicanalista ensina alguma coisa aos jovens que encontra, hoje? Trata-se de duas questões importantes. Partamos da questão do ensino, tal como Lacan a formula e como Miller nos a transmite com a sua leitura. O ensino é fundamentalmente um ensino que mente, uma transmissão que tem estrutura de ficção e que não chega a dizer todo o real que está em jogo na experiência do ser falante, mas pode mostrar tudo que existe a mais, conforme diz Lacan no Seminário XXIII, nas bordas do real. Embora isso não prejudique absolutamente, pelo contrário, torna possível ao sujeito adolescente fazer uma experiência no encontro com um analista desidentificado da ambição pedagógica (isto é, não só distante da aliança entre pedagogia e psicanálise buscada por Anna Freud e seus seguidores, mas radicalmente  vacinado com respeito à identificação do analista com a encarnação da lei do Pai), possibilitando uma captura de palavra inaugural que lhe permite nominar alguma coisa de real que o afeta, encontrando nessa nominação um ponto de orientação singular sobre a qual construir a própria posição de desejo e as próprias decisões fundamentais que virão. Talvez possamos dizer que o adolescente de hoje, mais do que o de ontem, ensina ao analista, sem o saber, a não se confundir com o pai, a não se prender à metáfora do pai do ou da jovem, e a funcionar mais como um parceiro (no sentido do objeto a) da invenção do jovem. Isto, em última análise, está de acordo com o que Lacan define no Seminário X, a angustiante puberdade como tempo lógico que seria “função de um link para estabelecer a maturação do objeto a”. Na captura de palavra do adolescente pelo analista funcionando como objeto parceiro, o analista consente com a “imiscuição do adulto” na experiência do jovem, segundo a expressão de Lacan recentemente valorizada por Miller, acompanhando-o na construção de sua própria bússola de orientação na existência.

Tradução: Maria Amélia Tostes.

[1] J.-A. Miller, “Prologo para Damasia”, in D. Amadeo de Freda,El  adolescente actual, Buenos Aires, UNSAM 2015, p. 10.

[2] J. Lacan, Le Séminaire. Livre X. L’angoisse (1962-1963), Paris, Le Seuil, 2004, p. 300.

[3]J.-a. Miller, En direction de l’adolescence, intervento conclusivo della terza Giornata di studio dell’Institute de l’Enfant (Université Jacques Lacan), 31 marzo 2015.

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Entrevista Alicia Arenas

  Qual é o traço dominante da adolescência hoje?

Seguindo Freud, a adolescência é o tempo da metamorfose do filhote humano em homem, ou mulher. Essa transformação é total, pois afeta as distintas dimensões do jovem parlêtre, que precisa encontrar dentro de si os elementos imaginários e simbólicos que lhe permitam sair do autoerotismo ao qual seu corpo está habituado, para entrar no mundo do Outro e ter acesso ao corpo do outro. Um grande salto que implica uma série de passos subjetivos complexos que envolvem a relação singular de cada um com a libido, quer dizer, com o desejo e com o gozo, e descobrir como lidar com isso.

A geração do milênio está formada por jovens que cresceram depois do 11 de setembro, um mundo instalado em um enfrentamento feroz entre oriente e ocidente ao qual se acrescenta a explosão do virtual que cria a ilusão de um espaço a salvo em que o jovem encontra referencias identificatórias e se apropria de valores, o que complexifica os elementos em jogo na vida do adolescente de hoje. Também aumentam os estímulos que recebe, colocando em funcionamento os objetos erógenos para nem sempre encontrar as vias de sua satisfação.

Miller fala que hoje estamos frente a uma infinitização do possível, múltiplas ofertas, multiplicidade de objetos a eleger, redes às quais pertencer, países sem distância onde tem amigos virtuais, o que situa os jovens frente a uma eterna pseudo “livre escolha”.

As redes se converterem para muitos jovens em um seguro contra a sociedade, um ativo lugar social separado do olhar inquisidor de pais e adultos, que oferece aos jovens uma multicultura na qual aprendem e se relacionam de modos inéditos.

A questão é que o trabalho da crisálida na metamorfose precisa chegar a seu ponto de transformação, e para isso há um tempo real. De que modo interfere então, essa miríade de estímulos que instala a ideia de que sempre haverá mais, para que o jovem possa se centrar nesse processo crucial?

Se posso pensar um traço dominante dos adolescentes de hoje seria a deriva, o adiar em diferentes formas o momento do ato, precisamente porque o autoerotismo se instala, já não apenas nos jogos com o próprio corpo, mas também com os diferentes tipos de gadget, ou com o corpo do outro tomado como um gadget a mais. Novos significantes em voga como a asexualidade, o poliamor… não são, senão outros nomes da não escolha e da deriva.

O que a adolescência ensina à psicanálise?

É essencial aprender dos adolescentes pois são eles os que nos permitem uma leitura da subjetividade emergente de uma geração da que não sabemos nada a priori.

Interessa muito à psicanálise observar o modo em que os jovens de hoje tentam responder a suas interrogações fundamentais, assim como situar os recursos sintomáticos que utilizam par responder ou não a eles.

Na biologia, o ser da mariposa está inscrito e tem uma única função: a reprodução. Esse não é o caso do parlêtre, ele precisa se desembaraçar de sua libido para logo decidir qual tipo de mariposa quer ser, não há programa. Por isso, encontrar suas soluções sintomáticas passa pelo contrário da deriva da infinitização dos objetos, passa por assumir o que falha, o que não é possível, o que lhe falta, com esse material precário é que poderá finalmente forjar seus próprios instrumentos fálicos e suas fantasias amorosas.

Tradução: Miguel Antunes
Revisão: Elisa Alvarenga

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Entrevista com Xavier Esqué

Qual é o elemento que você considera como sendo uma marca da juventude de hoje e de ontem? Se desejar, pode desenvolver esta pergunta um pouco.

É um fato que cada geração de jovens se encontra confrontada a um desacordo substancial em relação à geração anterior. A esta brecha, normalmente chamamos de crise. Alguns reprovam aos jovens sua falta de respeito, um desinteresse pela res pública, pelas instituições, por rechaçar o saber, por comportamentos violentos, etc; Mas tudo isso, seria algo unicamente imputável aos jovens? Claro que não.

Se as perguntas da filosofia apontam ao ser e à identidade, as da sociologia aos intercâmbios e ao útil, a psicanálise tem em seu ponto de mira o gozo, a modalidade de gozo do sujeito. Para tanto, desde a perspectiva psicanalítica, o que mais nos interessa é que ser jovem é o tempo de pôr a prova uma nova aliança entre a identificação e a pulsão.

Como fazer com o encontro com o Outro sexo?

Confrontar-se à falha de saber em relação ao real do sexo, confrontar-se com o impossível de dizer não é algo novo de nossa época, sempre foi assim. Mas também é verdade que agora esse despertar sexual, os jovens o experimentam sem dispor do baluarte do Nome do Pai ou, quando menos, este já não marca o passo como antes.

Estamos frente a uma dissolução das fronteiras simbólicas.

Então, como cada um faz com o amor, com o desejo, com a fantasia para encontrar o corpo do outro? A cada um se apresentará a possibilidade de construir uma solução sintomática capaz de fazer laço social. De fato, a socialização do sujeito se faz de maneira sintomática e nela, quase sempre, intervêm determinados fenômenos de massa que são os próprios de cada época, diferentes dos da geração anterior.

Por exemplo, nestes momentos se fala da geração selfie, é uma nominação que vem manifestar o predomínio da função da imagem na atualidade, a força de atração que possui o registro imaginário. As selfies que servem para ver-se e para dar-se a ver aos pares no Facebook ou no Instagram são como uma prolongação do estádio do espelho. Por um lado, têm a função de espelho, de reconhecer-se na unidade da imagem e, por outro, revelam o empuxo constante, sem fim, por obter o reconhecimento do outro.

Outro ponto importante a considerar sobre os jovens de hoje é sua relação ao saber. Antes, os jovens, para acessar o saber, tinham que passar necessariamente pelo Outro, quer dizer, que estavam obrigados a confrontar-se com o desejo do Outro. Agora não é assim, tal como assinalou Jacques-Alain Miller, o saber já não é mais o objeto do Outro, mas agora os jovens o encontram diretamente no computador, no Google. Os jovens de hoje não precisam da transmissão da geração anterior.

O que a juventude de hoje ensina à psicanálise e aos psicanalistas?

Vivemos uma época na qual o desenvolvimento tecnológico, a aceleração do tempo, o empuxo ao gozo, prevalecem. A ausência de garantia e a des-esperança, contrariamente às gerações anteriores, que contavam com o futuro promissor, estão agora no início do caminho. Isso é algo que nos podem ensinar: como fazem os jovens sem ela, como conseguem levar adiante as suas vidas. Muitos de nós tivemos que fazer uma análise para encontrar a falta de garantia, encontrar o Outro que falta. Eles têm que arranjar-se sem essa garantia de entrada. Agora os jovens já não chegam à análise em nome do ideal, como fizemos muitos de nós, agora vão para análise por algo muito mais da ordem do transbordamento pulsional, um gozo aditivo.

Hoje em dia ninguém mais discute que as redes sociais são novas modalidades de laço social, neste sentido os jovens sempre estão à nossa frente, eles nos mostram seu modo de se arranjarem com a época, para o melhor, e às vezes, também para o pior.

É verdade que a proliferação de gadgets facilita o tamponamento da falta, mas ao mesmo tempo, sabemos que isso comporta um crescimento da angústia. Como dar lugar, então, à pergunta pelo desejo? Como suscitar as condições de possibilidade para que a problemática do desejo se constitua? Os jovens nos obrigam a implementar modos de escuta e intervenções específicos, inovando o dispositivo, alojando mais do que nunca, o inesperado.

Xavier Esqué

Tradução: Miguel Antunes
Revisão: Elisa Alvarenga

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Entrevista com Leonardo Scofield (EBP-SC)

https://www.youtube.com/watch?v=Mg7vR8WKL-I

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Entrevista com MC Panisset

https://soundcloud.com/user-599103687/entrevista-com-o-mc-panisset-feita-por-sergio-de-campos

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Entrevista com Nieves Soria Dafunchio

 

Nieves Soria, analista da Escola de Orientação Lacaniana (EOL), com diversos livros publicados, entre eles Ni Neurosis Ni Psicosis, explora a partir de casos clínicos, as zonas fronteiriças e o buraco impossível de suportar do inclassificável. Entrevistada por Cristiana Pittella de Mattos para o Boletim #qqpega, das XX Jornadas EBP-MG, jovens.com: corpos & linguagens, ela nos transmite como operar com os jovens numa clínica fundada na inexistência do Outro como defesa contra o real.

Cristiana Pittella de Mattos: Freud delimita a puberdade como a terceira idade da angústia, um período traumático, em que se inicia para o jovem uma travessia. As referências infantis não servem às exigências das pulsões, que convocam o sujeito a separar-se da autoridade parental e a se posicionar na partilha dos sexos. É um momento de crise em que a junção mais íntima do sentimento de vida pode ser tocada, perturbada. Isso nos coloca, em nossa clínica, face a conjunturas delicadas e fenômenos muitas vezes difíceis de classificação. Como você tem encontrado uma orientação clínica nessa zona fronteiriça?

Nieves Soria: Sem dúvida a adolescência é um embaralhar e distribuir as cartas de novo, em que o sujeito debe realizar o luto da criança que ele foi, o que inclui tanto sua dependência do Outro parental como de seu corpo. Por outro lado, deve assumir um novo ser social e sexuado. Trata-se então, tal como assinala Freud, de um novo nascimento, fruto do encontro com um novo real, que se estampa em seu corpo com o amadurecimento sexual. É o momento da metamorfose, em que a crisálida se torna mariposa e encontra recursos para despregar suas asas e voar. Pouco tem a ver uma mariposa com uma crisálida, outra coisa é sua vida, outras possibilidades. Trata-se da emergência de um novo ser, emergência em que se removem as identificações e se deve tercer um novo nó. É um tempo de reconhecer os distintos fios com que se conta, e por à prova o saber fazer os pontos.

Essa metamorfose, essa passagem, essa transição de um nó ao outro implica sintomas próprios, assim como momentos de crises, de desenlaçamento, em que prevalece a angústia ou, pelo contrário, detenções, inibições que postergam o rearmamento do nó. Também, com o protagonismo da dimensão sexuada do corpo – que implica o buraco da inexistência da relação sexual -, se opera uma espécie de revolução pulsional, na qual se costuma produzir desintrincações da pulsão de vida e da pulsão de morte que podem perturbar o sentimento de vida e aproximar – às vezes perigosamente -, o sujeito da borda desse outro buraco que é a morte no ser falante. Actings-out e passagens ao ato proliferam.

Em alguns sujeitos adolescentes, cujas dificuldades no enodamento com o gozo fálico tinha sido suspenso no período de latência, despertam com dor ao traumático que o real do sexo lhes impõe. Resvalam pela pendente da pulsão de morte, buscando então freiar essa queda extraindo algum gozo da relação com a mesma, dando lugar a uma erótica da morte presente em maior ou menor grau, em práticas que muitas vezes fazem tribo nessa época da vida: auto-incisões, consumo aditivos, anorexias, bulimias, etc. Uma orientação clínica nestes casos é a escuta atenta, um por um, da função que cumpre, em cada caso, a relação do sujeito com a morte que se faz ouvir com voz surda nessas práticas, assim como o estatuto da dificuldade na articulação com o falo em cada caso. É fundamental poder isolar essa função e esclarecer se é ou não possível a relação com o falo na estrutura, colocando o sujeito para trabalhar nessa via.

Dada a crise vital que implica, a adolescência pode ser um momento privilegiado para o desencadeamento de certas psicoses – particularmente a psicose maníaco-depressiva e a esquizofrenia -, desencadeamentos que podem ser parciais, dando lugar a manifestações do lado das psicoses ordinárias, ou totais.  Na maioria dos casos, resulta orientador estabelecer o diagnóstico diferencial entre esses casos e aqueles outros em que o sujeito, sim, conta com o Nome do Pai, mas não está podendo servir-se dele. No primeiro caso se orientará a cura na via de algum re-enodamento que prescinda do impossível recurso ao Nome do Pai e ao falo, enquanto que no segundo, se tratará de ensinar ao sujeito a servir-se do Nome do Pai para poder tecer seu novo nó.

Existe também toda uma zona fronteiriça, na que emerge uma nova subjetividade, própria da época da inexistência do Nome do Pai. Trata-se ali de casos que não respondem nem a lógica que articula o Nome do Pai com o falo, nem aquela que resulta de sua forclusão, seu rechaço. Trata-se de sujeitos constituídos sem a referência ao Nome do Pai,  em que não encontramos tão pouco o buraco forclusivo. Estes casos poderiam incluir-se no amplo conjunto das psicoses ordinárias na medida em que não respondem a uma estrutura neurótica, mas se afastam, também, da lógica psicótica enquanto não respondem a lógica do retorno do forcluído. São ocasiões para ampliar o horizonte das intervenções, produto do desejo do analista, apostando em um singular enodamento com uma ordem simbólica em que a função de mediação não tenha necessariamente como referente a função paterna, função da palavra que é o tesouro que o adolescente pode  encontrar quando, nesta passagem, se encontra com o analista.

C.P.M: Você poderia nos contar uma pequena vinheta clínica que nos transmita esses casos em que não se encontra o buraco forclusivo e que também não trazem a lógica da articulação ao NP e falo?.

N.S: Julieta é uma jovem de 14 anos que chega a consulta com uma anorexia que põe em risco sua vida, logo depois de rechaçar um tratamento em uma instituição dedicada a transtornos alimentares, que propunha um para todos em que se perdia sua singularidade. Desesperados ante a sua negação em comer, seus pais haviam recorrido a um juiz de menores, o qual não teve uma idéia melhor que obrigá-la a comer um alfajor diante dele – coisa que ela fez – , voltando, em seguida, novamente a jejuar. Pediu um espaço no qual pudesse falar e assim chegou a mim.

Em um primeiro tempo, seu dizer se desenrola ao redor da imensidade de uma vivência de vazio, acompanhada de crises de angústia e um estado de tristeza que despertam em sua puberdade, ao irromper as formas femininas de seu corpo. Pergunto-lhe: “Julieta, Julieta, queres morrer de amor?”. Fala de um jovem que a deixou, sua imagem junto a ela se superpõe com a de sua mãe. Começa um trabalho ao redor de seu nome, tanto seu primeiro como seu segundo nome, foram colocados por sua mãe. Julieta, porque gostava de “Romeu e Julieta, e o segundo nome era o nome de guerra que sua mãe utilizava em sua época de guerrilheira em sua juventude. Ao advertir até que ponto ambos os nomes se encontram ligados à incidência do prestígio da morte no desejo materno, Julieta inicia um segundo tempo da análise, tempo de separação desse desejo de morte.

Em breve a análise desvelará que o pai não é segundo nesse estrago, em que joga também um papel central, apresentando-se com um olhar mortificante, dirigindo-se a Julieta sob a modalidade da injúria, tratando-a de “gorda” e “vaca”, desde muito pequena, quando era apenas um pouco gordinha. Julieta não tarda em situar o efeito fantasmático desse olhar, o qual pode dirigir-lhe qualquer homem, refugiando-se no emagrecimento como defesa. Este pai não tinha cumprido a função de mediação, nem de enodamento entre a lei e o desejo para essa jovem, a quem havia entregue tal qual um objeto de sacrifício à devoração do Outro materno. Entregue ele mesmo ao excesso, sob a modalidade do abuso do alcool, havia caído demasiadas vezes em posição de demérito, não pretendendo aliás exercer sua função de lei na família, a que havia deixado de bom gosto nas mãos de sua esposa. Como um filho a mais, seu estilo de eterno adolescente cativa também Julieta em um jogo de espelhos, que encontra um ponto de real do objeto voz, com o qual alcança certa vertente de amor ao pai imaginário – ao pai da realidade -, amor que não chega a apaziguar o ódio que este pai também provoca; não chegando a configurar a armadura que Lacan propõe para o toro histérico. Nesse ponto é uma jovem que só escuta e vibra com a música da época da adolescência do pai, idade na qual ele mesmo ficou fixado para sempre.

A lógica da cura de Julieta – que durou vários anos -, sua posição subjetiva, sua modalidade transferencial, dão conta de uma estrutura que não havia se construído ao redor do Nome do Pai senão de uma nominação materna, não encontrando-se tão pouco fenômenos elementares que dessem conta de uma estrutura psicótica caracetrizada pela forclusão do Nome do Pai e ses efeitos de retorno. A jovem não apresentou – nem sequer de modo sutil, como ocorre nas psicoses não desencadeadas -, nem transtornos de linguagem nem fenômenos de fragmentação corporal. Não se tratava  da lógica que se tece ao redor de um buraco forclusivo, senão da simples inexistência dos significantes do Nome do Pai e do falo. Assim, sua experiência fundamental consistia em um vazio angustiante difícil de limitar, já que o sujeito não contava com a função simbólica da castração.

Sua cura tomou a via da sublimação, acompanhada pela palabra do analista, que se conjugava com um olhar atento ali onde era convocada. Nessa via a jovem se dedicou a criar um blog sob o expressivo nome de Crisálida, nome que surge no dizer da análise, pelo qual o sujeito se nomeia em sua posição de refúgio no corpo infantil que se nega a despregar suas asas. Alçava seus poemas e desenhos, com uma infinidade de seguidores.

Ao longo de vários anos de análise saiu de sua posição anoréxica, entrando em um laço inédito com um parceiro masculino, não tão trágico como aquele amor da puberdade, senão francamente marcado pelo recurso a um humor compartilhado. Com o tempo a crisálida se tornou mariposa.

C.P.M: Os jovens nos ensinam que nem tudo está decidido na infância, o que há de fecundo nesse momento tão vulnerável?

N.S: A adolescência é sem dúvida um momento que pode ser fecundo, dando lugar a invenções ou criações singulares. É ao mesmo tempo um momento de máxima vulnerabilidade e de máxima liberdade no ser falante, já que nele se produz uma inflexão na estrutura, por aí começa a definir-se o nó mais definitivo do ser falante, em sua dimensão corporal, social e particurlamente sexual. Ao tratar-se de um momento de despreendimento dos laços libidinais infantis com o Outro parental, permanece uma importante quantidade de libido disponível, que pode encontrar diferentes canais, inéditos, em que se joga uma eleição fundamental do sujeito. É um momento privilegiado de atualização dos recursos subjetivos, em que de certo modo o sujeito torna-se um novo ser.

Quando perante esse passo emerge um sintoma, uma inibição ou uma angústia, que dão lugar ao encontro com um analista, é uma ocasião única para o despregue daquilo que se encontra na estrutra sem  que o sujeito saiba, aquilo do que aprenderá a servir-se.

C.P.M: O que os jovens tem lhe ensinado hoje?

N.S: Os jovens de hoje obrigam o analista a interrogar sua teoria e sua prática uma e outra vez, a reconsiderar seus fundamentos, a questionar seus dogmas, a reinventar, junto com eles, a psicanálise. Ensinam-me a não dar nada por concluído, a deixar aberto o campo do saber, a saber colocar em suspenso as categorias quando necessário, a encontrar o que há de sério nas novas nominações, nas novas eleições, nas novas identificações, nos novos mundos, reais e virtuais. Ensinam-me a apostar, junto com eles, em um desejo que não se sustente nos ideais, a descrer nos ritos e cerimônias, a enfrentar junto com eles o sem-sentido da existência, sem subterfúgios nem saberes já conhecidos, a não mumificar-me e, fundamentalmente, a não cair na enganosa nostalgia que sussurra – como uma sereia -, ao ouvido do falasser maduro, que o passado era melhor.

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Entrevista com Gabriela Grinbaum e Kuky Mildiner (AEs da EOL)

https://www.youtube.com/watch?v=rXBTX-zeyRM

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Entrevista com Ondina Machado e Angela Batista (EBP-Rio)

https://www.youtube.com/watch?v=SYJyPNSijOI&t=92s

Cristina Drummond: O que você destaca como uma marca da juventude?

Angela Batista: Nesse momento eu tenho trabalhado com um grupo num curso que eu dou na Barra exatamente sobre este  tema onde eu verifico que há uma descrença bastante acentuada no que a gente considera as figuras de tradição, o pai, as figuras de autoridade onde o que ganha relevo para a juventude é o mundo digital. E eu acho que isso cria uma tensão muito grande entre essa passagem que a juventude convoca entre o sujeito e o seu mundo objetal. E eu acho que isso traz dificuldades para a gente pensar numa certa crença necessária para o entusiasmo do mundo.

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Cristina Drummond: O que você destaca como uma marca da juventude?

Ondina Machado: Eu destacaria uma certa reversão de  com relação ao lugar do jovem na sociedade. Por exemplo, o jovem, há alguns anos atrás, ele estava muito dependente da família e do social para dizer quem ele é. E agora, ele pode dizer quem ele é e muitas vezes carregar a sociedade, carregar a família para um ponto inimaginável antes. Por exemplo, um anúncio que tem na televisão: uma menininha chegando e perguntando ao avô. O avô estava com o celular na mão e ela pergunta a ele: vô, você quer que eu te ajude? Ele diz: não, eu sou digitaú. Mostrando que o avô já foi levado a um certo lugar pela juventude, pelo próprio movimento que os jovens estão fazendo de, por exemplo, usar amplamente a internet como meio de comunicação privilegiado para eles. Só que eles estão trazendo isso para as nossas vidas. Eu acho que essa é uma marca importante e eu acho que há uma certa reversão aí, que aparentemente seria uma reversão no sentido da autoridade . Eu já ouvi alguns comentários dizendo que agora a autoridade está com os jovens em relação à internet. E talvez não seja exatamente assim, uma questão de autoridade, mas uma certa competência que o jovem realmente tem para determinadas coisas, mas eles continuam precisando do vovozinho para conversar, para estar junto, enfim, para ter a vida de família.

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Entrevista com Rodrigo Lyra (EBP-Rio)

https://www.youtube.com/watch?v=sH2NfpcBP_I

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Entrevista de Damasia Amadeo de Freda, por Maria José Gontijo

 O que a psicanálise pode aprender com os jovens?

Freud se interessou pelos jovens, mas, sobretudo, conceitualizou o que significava a passagem pela adolescência. A adolescência  permitiu a ele  fazer considerações teóricas tais como “o desligamento da autoridade” ou sobre “o despertar da sexualidade”, algo fundamental nessa etapa da vida. Suas considerações teóricas lhe permitiram construir um tipo de adolescente: o adolescente freudiano, podemos dizer.

Caso tomemos as referências freudianas sobre a adolescência e  as transportemos à época atual,  encontraremos  uma configuração simbólica muito distinta daquela. Por essa perspectiva, cabe perguntar, por exemplo, como pensar o “desligamento da autoridade” em uma época de evidente declínio dessa função. Freud considerava a posição sexual como estando estritamente ligada à passagem pelo complexo de Édipo. Assim, seria importante saber se o declínio geral da função paterna incide  na sexualidade dos adolescentes de hoje.

Nessa mesma direção,  pode-se perguntar sobre os sintomas atuais que os adolescentes apresentam, porque muitos deles evidenciam, muito rapidamente, não se  prestarem facilmente à  interpretação. A falta de interpretação é  correlativa à ausência da busca de saber e, portanto, da suposição de uma verdade oculta no sintoma. Esse problema desemboca diretamente na pergunta sobre o lugar do analista, e  seu papel na transferência, no tratamento com adolescentes.

A psicanálise pode aprender muito com os adolescentes, não somente para o tratamento com eles, mas,  também, porque podemos transportar, de maneira geral,  as variáveis que essa clínica apresenta para um tipo de subjetividade atual que engloba o conjunto da sociedade. A questão é saber por que os adolescentes, particularmente,  refletem  essas mudanças  da época.

O que você considera como sendo uma marca da juventude?

Para a psicanálise há algo muito interessante a investigar na adolescência atual: a função da nominação. Entre as características que Lacan vislumbrou como próprias da época do declínio do Nome do Pai, está a nominação.  A outra é a função do social.

Hoje, encontramos novos nomes que vêm  agrupar certos fenômenos, certos comportamentos sintomáticos dos adolescentes. Entre eles está o bullying, as automutilações, os nem-nem[1], os Hikikomoris[2], para nomear alguns deles. Por ser uma época de classificação generalizada, chama-nos  a atenção  que esses nomes se instalem com tanta rapidez para agrupar certos comportamentos característicos deles. A nominação pode surgir dos próprios adolescentes ou pode ser um nome que o social lhes dá. De fato, esses fenômenos são objeto de investigações, de publicações e, também,   constituem-se em uma evidente preocupação  para todo um setor da sociedade.

Seria interessante investigar a função que tem o social nesses casos, saber como intervem frente a essa problemática. É fundamental pensar a interpretação psicanalítica dessas nominações e qual a sua incidência clínica. Porque uma das particularidades desses comportamentos sintomáticos é que a maior parte deles não são subjetivados como sintomas por parte dos adolescentes.

Então, considero que é um verdadeiro desafio para o psicanalista atual poder indagar, profundamente, sobre essa problemática e tentar dar uma resposta, a mais justa possível. Entendo que o último ensino de Lacan pode dar elementos que nos ajudem a compreendê-la.

Damasia Amadeo de Freda lançou, recentemente, o livro “Consideraciones clínicas sobre el adolescente actual”. Jacques-Alain Miller, no texto “Em direção à adolescência” cita seu trabalho como uma das referências sobre o tema da adolescência.

[1] Expressão usada para designar uma geração de jovens que não trabalha, nem estuda, ou seja, que não assume nenhuma das responsabilidades esperadas para um jovem adulto.

[2] Termo japonês que expressa uma situação de isolamento extremo que acomete um contigente de jovens  japoneses. Esses jovens, não somente no Japão, não mantém vínculo social, ficando restritos ao ambiente de seus aposentos.

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Entrevista com Débora Nitzcaner (EOL/AMP) por Simone Souto

 Simone Souto: Primeiramente, gostaria que você pudesse nos dizer sobre uma marca da juventude.                                    

Débora Nitzcaner: Linda pergunta! A juventude é, para mim, principalmente, um passo e uma mudança que acontecem na vida, marcados por algo novo, inédito. As duas marcas que me representaram em minha juventude, para além de meus estudos e minhas escolhas para o futuro, foram a música e as viagens. Eu gostava muito de viajar como mochileira, o que me permitiu certa separação importante, relacionada, fundamentalmente, com uma mudança  nas identificações e com um modo de autonomia. Isso produziu um encontro com algo do mais íntimo que  alguém pode ter, que é o descobrimento de um gozo, não em solidão, mas sozinha, uma posição de diferença que restou  do embate com os ideais e  com  certas marcas infantis e adolescentes. Encontrei, também na música, um modo de satisfação importante.

S.S: Que tipo de música?

D.N: Jazz e música brasileira. Viajei muito pelo Brasil e pela Argentina. Encontrei no jazz um gosto muito especial, sempre me perguntei se era uma identificação um pouco do lado do homem, masculina, mas, não; o que eu experimentei, aí, foi um encontro íntimo com um gosto, uma ligação que, efetivamente, não corresponde somente ao laço social, mas a um gosto singular. Meus grandes acontecimentos dessa época foram, entre outras coisas, entrar, de “contrabando”, sem pagar a entrada, nos shows de música, porque não tinha dinheiro, porque vivia sozinha… Então, até me formar como psicanalista, a música me acompanhava…

S.S: Vemos aí, incluído, um gosto pela transgressão que era comum na juventude…

D.N: Exatamente, uma transgressão particular, um modo de não privar-se do desejo, trapaceando um pouquinho as convenções sociais para, fundamentalmente, poder fazer algo com esse dinheiro que eu não tinha e realizar o que eu queria.

S.S: A segunda pergunta é a seguinte: O que a psicanálise teria a dizer aos jovens de hoje?

D.N: Recentemente escrevi um artigo sobre a adolescência que se chama: “O jovem de hoje, de ontem e de sempre”. O que a prática com os adolescentes me ensina tem a ver com aquilo que um adolescente tem de enfrentar com relação ao impossível do encontro sexual, levando em conta os recursos da época. Como diz Miller, a época de hoje nos oferece S1 dispersos. Na clínica, eu encontro um recurso para lidar com essa dispersão que eu chamaria, com Miller, de um analista dócil. Um analista tem que estar em posição de docilidade, o que quer dizer: deixar-se enganar pelo gozo de hoje e encontrar em que momento e em que oportunidade se apresenta essa amarração do sintoma  que pode, efetivamente, aliviar o excesso. Trata-se do encontro com um desafio e um paradoxo, pois nossa época oferece aos jovens alguns S1 que lhes dão um lugar no mundo, mas que, ao mesmo tempo, trazem um excesso que lhes desaloja de um lugar no mundo. O que eu poderia dizer que a psicanálise tem a oferecer para um adolescente, para um jovem, é um S1 distinto: o inconsciente.

S.S: Como podemos localizar a importância da fala, nessa oferta? Porque, hoje em dia, os adolescentes falam muito pouco na presença dos corpos: eles escrevem pelo WhatsApp, eles se comunicam pela internet , mas a conversa corpo a corpo está cada vez mais rara. Em contrapartida, a psicanálise oferece a oportunidade de dois corpos se encontrarem e um jovem poder falar. Você acha que passa por essa oferta, esse S1 distinto que pode aparecer daí?

D.N: Sim, estou convencida de que, na adolescência, todas as ofertas, “ofertas.com”, são modos  de velar o tédio, mas, entre essas ofertas, o encontro com um analista se distingue, pois  gera a transferência e impõe  a presença corporal do analista que, por sua vez, se deixa agarrar pelo WhatsApp, pelo computador… Em minha prática, uso esses recursos. Recentemente, tive um caso no qual um acontecimento social com um grande excesso de drogas químicas provocou cinco mortes em um recital de música eletrônica. O melhor modo que eu encontrei de não instituir-me como Outro social foi levar a paciente a ler um artigo, no computador, que me pareceu interessante. Desse modo, incluímos a voz da época separada da voz da analista, tratando de produzir alguma divisão subjetiva nessa paciente.

Então, entendo que, principalmente na análise dos jovens e adolescentes, convocamos outro corpo, certamente libidinal, no sentido em que viver o laço transferencial já é uma aposta em uma versão de amor diferente. É o jogo do “mais, ainda”, tal como Lacan nos transmitiu, trata-se de um saber por vir, algum que estabeleça um acordo possível entre um gozo e seu fim.

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Entrevista com Silvia Elena Tendlarz (EOL/AMP) por Ludmilla Féres Faria

O que você destaca como uma marca dos jovens?

Ao pensar sobre as marcas da juventude me ocorreu perguntar a uma adolescente de 16 anos o que mais lhe preocupava. Um pouco séria e um pouco rindo, respondeu de imediato: “Que falte a internet!”

As redes sociais ocupam um lugar fundamental para os adultos e jovens em nosso mundo contemporâneo. Considera-se que a geração “chamada Z”, pós-milenio, nascidos depois da mudança do século, é mais inclinada ao mundo virtual já que esses meninos e adolescentes nasceram depois do auge digital, do fim do século. É por isso que, para eles, o saber e o mundo das imagens passam pelo vínculo com a internet. A internet ocupa o lugar da Enciclopédia Universal, fonte de “todo saber” e isso inclui consultas históricas, de modelos de identificações variáveis, informações inimagináveis e até consultas médicas. Tudo o que se quer saber encontra resposta na Wikipédia e esse saber, sem garantias, é acessível e produz um efeito de sugestão. No mundo em que o “Outro não existe”, existem respostas nas consultas virtuais, até o ponto delas serem utilizadas nas escolas como fontes de informação.

Por outro lado, as redes funcionam como um modo de permanecer continuamente em contato com o mundo fazendo laço virtual através de fotos, de mensagens ultraleves, inclusive faladas, que introduzem uma escrita abreviada, e também possibilita discussões em comunidades unidas por um tema e que funciona na rede. Tudo obedece aos princípios da velocidade, da simultaneidade, da impaciência, da busca pelo novo.

Mas o que dizer do despertar da sexualidade? Esse saber descompleta o todo saber da internet, já que os corpos são convocados com seus gozos e nesse lugar o saber se desvanece, surgem perguntas, inquietudes, maneiras de impasses frente ao buraco da “não relação sexual”. Esta experiência subjetiva toma distintas vestimentas, mas é incontornável, apesar das mudanças de gerações.

Chegado a esse ponto de meus pensamentos decidi voltar a perguntar à minha jovem interlocutora se havia algo mais que a inquietava. De uma forma menos jocosa ela respondeu que preocupava-se com o futuro, já que lhe despertava muitas incertezas.

Se a passagem pela adolescência esta povoada por mudanças, com as quais os jovens têm que “se virar” para buscar suas próprias respostas, em um mundo em que os acontecimentos imprevistos e as contingências formam cada vez mais parte de nossa vida cotidiana, a incerteza, fora de qualquer ilusão de saber, também se torna a marca da juventude contemporânea.

O que tem a psicanálise a dizer a esses jovens?

Antes de nada creio que os jovens têm muito a dizer à psicanálise. Eles nos ensinam como se vive em um mundo sem garantias do Outro, com ideais mutáveis, e como buscam apoio identificatório através do mundo virtual ao qual vivem conectados.  Pode-se dizer que são mais individualistas, mas por acaso não nos ensinam como ser mais solidários?

Mas, a psicanálise tem algo para dizer aos jovens sobre suas buscas singulares, já que todos são diferentes mesmo que busquem refúgio no igual. E, sobre tudo, apesar de que frente às contingencias do real da sexualidade e da morte estamos irremediavelmente sós, existe a possibilidade de que seus medos e angústias encontrem um destinatário de modo tal que, como no conto de Edgar Allan Poe, suas cartas/letras sempre cheguem ao destino.

Silvia Elena Tendlarz

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Entrevista com Isabel do Rêgo Barros Duarte

https://www.youtube.com/watch?v=huWqbF_Rv78 

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 Entrevista com Tânia Abreu

1) O que a psicanálise pode aprender com os jovens?

Freud salientava que a importância do infantil se centra, sobretudo, no fato de ser neste período que acontecem as fixações sintomáticas. Decorre daí a ideia de se entender a infância como fonte, origem dos enredos sintomáticos que, posteriormente, recolhemos da escuta de adultos. O analista só ganha ao se deixar conduzir pelas crianças, sendo o infantil  a estrutura, o esteio de lalíngua. O que dizer, neste sentido da adolescência? Período de reedição das marcas infantis, agora acrescidas do encontro com o avassalador do gozo sexual?

O que aprendemos na clínica com adolescentes é, fundamentalmente, saber escutar os efeitos dos afetos no corpo, efeitos de lalíngua, marcas do encontro com o real do sexo. A adolescência é a reedição do Édipo com o agravante da puberdade e as mudanças promovidas por esta. Decorre daí a expressão que a adolescência é o sintoma da puberdade, o que equivale, como salienta Stevens, ao encontro traumático com o “não há relação sexual”.

O adolescente nos ensina o que é saber falar a língua do Outro, sobretudo no manejo transferencial. Trata-se de uma clínica na qual o espaço transferencial é mínimo, e só se instala se seguirmos o interesse singular de cada jovem que nos procura. Mais do que em qualquer outra fase da vida, as crises de identidade e identificação, o corpo que não se encaixa e as escolhas de objeto que vacilam nos levam, enquanto analistas, a ter que inventar novos modos de dirigir os tratamentos.

A interpretação simbólica não mais atua, o corte das sessões, recurso para interpretar o gozo que impregna o corpo juvenil, muitas vezes é banalizado por ser conveniente ao tempo do “tudo imediatamente”, e o poder suturador dos objetos atuam na contramão do desejo.

O que nos ensina o jovem de hoje é que na clínica, na condução dos tratamentos, temos, mais do que nunca, que inventar novos manejos transferenciais. Por exemplo, fazer dos gadgets aliados, ferramentas de trabalho, pois, muitas vezes, eles falam destes jovens muito além do que eles próprios percebem. Ao estilo da linguagem que, muitas vezes, nos ultrapassa nas formações do inconsciente.

A função do analista na clínica com jovens é de acompanha-los a encontrar um lugar, na escola, na família, no sexual, que lhe caiba de modo menos angustiante diante do furação pulsional que vivenciam neste período.

2) O que você considera como sendo uma marca da juventude?

Ao meu ver a marca da juventude, desde sempre, é o encontro com o Outro sexo que o transforma, ao contrário da criança, responsável por seu gozo. É o que está aí desde sempre e é neste campo, paradoxalmente, que vemos surgir a singularidade do jovem de hoje.

Recentemente, no X Congresso da AMP, tive oportunidade de apresentar um trabalho no qual falava justamente do que caracteriza o jovem de hoje.

O panorama da juventude no século XXI é marcado pelo empuxo-ao-gozo que, ao encarnar nos corpos juvenis, promove consequências graves tais como as adicções de diversas ordens, a errância ou as patologias advindas do ato.

Me questiono se não são os jovens os mais marcados pelo declínio do Nome do Pai, devido ao desbussolamento que daí advém, característica marcante de uma juventude desorientada e de desejo apagado.

Como fruto das discussões das Jornadas Clinicas do Congresso ao qual me referi acima, saliento a contribuição do colega argentino, Oscar Ventura, que destacou o encurtamento do tempo de compreender do jovem atual, em decorrência, sobretudo, do império das imagens. Para que falar se uma imagem pode valer por mil palavras? Monossílabos se encaixam como luvas neste cenário! Desilusão e tédio são os afetos que marcam muito dos jovens que nos procuram hoje! Identificações mortíferas alimentam modos de vida e tendências.

Mas os jovens têm o que falar, cabe ao analista, com seu desejo, faze-los falar!

Quem sabe pode advir daí um novo modo de vida, mais regido pelo desejo que pelo gozo desenfreado?

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Entrevista com Daniel Roy
Paris, janeiro de 2016

Sérgio de Campos (SC): Estamos aqui com Daniel Roy, na École de La Cause Freudienne, para realizar uma entrevista sobre o tema da juventude para a XX Jornada da EBP-MG. Daniel Roy mora e trabalha em Bordeaux, na França, e é AME da ECF e da AMP.

SC: Caro Daniel Roy, bom dia. Agradeço-lhe, antecipadamente, pela sua disponibilidade de receber-me para essa entrevista e de responder algumas questões que nos interessam tanto. Em segundo, digo-lhe, em nome da Seção Minas e também da Seção São Paulo, que estamos muito honrados e felizes de recebê-lo para as Jornadas de ambas as Seções.

Em seguida, gostaria de fazer algumas questões sobre a Juventude que, diga-se de passagem, não é um conceito clássico em Lacan. Vivemos uma época completamente diferente dos anos influenciados por maio de 1968, dos grandes ideais, da revolução, da guerra fria e dos efeitos da divisão do muro de Berlim. Hoje, os jovens chegam aos nossos consultórios com novos sintomas, novas maneiras de trabalhar, de amar, de se comunicar, revelando-nos uma nova reconfiguração do laço social. Então, pergunto-lhe, afinal, o que mudou? O que é diferente para os jovens de agora em relação aos de ontem?

Daniel Roy (DR): Bom dia, Sérgio de Campos. Obrigado por você estar em Paris para conversarmos sobre esse assunto, antes mesmo de nos encontrarmos em abril próximo para o Congresso da AMP, no Rio de Janeiro, e um pouco depois, em São Paulo, e, por fim, em Belo Horizonte. Estou muito honrado pelo convite de vocês e é necessário dizer que esse é um assunto que me interessa bastante, há muito tempo. Em sua abertura, você diferenciou bem entre o tempo atual e o dos anos em torno de 1968, dos anos de minha juventude e que foram uma época que marcou toda uma geração. Creio que podemos dizer que em todas as épocas a juventude é uma espécie de placa sensível sobre a qual se imprimem as cristalizações do tempo, as diversas crises do simbólico, do imaginário e do real, crises que acarretam modificações dos modos de gozo. No fundo, a juventude é sempre a primeira a registrar os efeitos de uma época. Existe nela uma supremacia na captura do que muda. Portanto, não se trata de uma questão de idade.

SC: Então, na juventude estará sempre presente uma placa sensível, independente de seu tempo?

DR: É na juventude que um novo regime de gozo se constitui no parlêtre, por um lado e, por outro, é nela que os novos regimes de gozo se estabelecem como as grandes modificações e os pactos sociais. Por exemplo, o teatro de Shakespeare: Romeu e Julieta nos evidencia uma peça sobre a juventude, por excelência. Nessa peça exemplar de Shakespeare, que se passa na Renascença, em Verona, vocês encontram toda uma distribuição dos modos de gozo: as repartições dos lugares de cada um, a rivalidade entre os grupos de jovens, o choque de gerações, o “não existe a relação sexual”, o conflito entre o poder do estado e o poder da igreja como espaço social… Portanto, se trata de uma peça que ainda hoje nos ensina sobre a juventude.

SC: Sim… E o que você pode dizer sobre o que distingue os jovens de hoje daqueles da década de sessenta?

DR: É necessário retomar o ano de 1968 para demarcarmos as diferenças de campos entre as modalidades de gozo de ontem e de hoje. O significante que orientava os jovens na época para situar cada um, era o de “revolução”, que os colocavam, pelo menos em grande parte, contra o imperialismo, contra o governo instituído, contra as empresas, contra a universidade, contra o método de pensar, contra o general De Gaulle na França, entre outros. Entretanto, esse significante também suscitou uma reação contrária entre os jovens, inclusive em alguns amigos, que não suportaram, que se retiraram e que reagiram contra essas manifestações. Então, esse significante “revolução” situou cada um na posição de ser pró ou contra, em função de suas escolhas, dos seus sintomas, de suas determinações fantasmáticas e até mesmo em razão de sua classe social. Mas, pode-se dizer que, hoje, não há mais um significante mestre que situe ou ordene a juventude.

SC: No que se refere às novas tecnologias, elas contribuíram para posicionar e reconfigurar a juventude?

DR: No que concerne às novas tecnologias, são os adolescentes, rapazes e moças, que de maneira preponderante descobrem e experimentam esses novos objetos que circulam no mundo e que funcionam como uma espécie de coação generalizada, visto que ninguém escapa à presença do youtube, do celular, entre outros. Embora existam algumas pequenas comunidades que não queiram receber nenhum tipo de informação advinda dessas ondas, às vezes, por razões médicas, políticas ou por estilos de vida…

Mas, em grande parte, ninguém escapa dessas novas tecnologias que propiciam que cada jovem esteja especialmente conectado e fixado a algum tipo de objeto gadget, assumindo uma posição particular e não mais coletiva. A adolescência é a época em que o jovem se sente mais vulnerável, e é, justamente, quando cada um tem que assumir sua posição.

SC: Se os jovens são mais facilmente capturados por um gozo auto-erótico junto a esses objetos gadjets, é também possível perceber que há um mundo virtual de trocas muito maior do que se imaginava, não é?

DR: Claro. Constata-se que a partir da internet os jovens têm a oportunidade de conversar, por exemplo, sobre uma nova apresentação de um sintoma que não havia antes, por exemplo, a escarificação. Existem pequenas comunidades que conversam, mostram, nomeiam e divulgam as melhores técnicas de como se escarificar ou se cortar, sem provocar lesões graves, por exemplo, numa espécie de “como praticar uma boa escarificação”. Considera-se a escarificação estranha mas, no mundo virtual, esse jovem, que não podia falar sobre o assunto nem com seus pais nem com seus colegas, pode encontrar alguém com quem conversar; e depois, encontrar pessoalmente alguém, um amigo e quem sabe até um psicanalista… De sorte que o mundo virtual pode oferecer uma chance no campo da palavra para esse jovem, o que pode contribuir para que a escarificação se decline e que esse jovem possa se ver livre disso. Os jovens abriram, no campo virtual, um modo de incluir quem se sente excluído e compartilhar algo com o Outro no campo da linguagem. O virtual abriu a possibilidade para o jovem encontrar alguém que o ajude a sair da posição de objeto, assumindo a sua condição de sujeito. Então, o que antes era uma prática bizarra, vergonhosa que não tinha nome e sobre a qual nada se poderia dizer, agora é alguma coisa que está incluída no discurso e inscrita no campo da linguagem.

SC: A escarificação, realmente, é um novo fenômeno entre os jovens, mas o uso das drogas é bem antigo. Você poderia dizer se há uma nova maneira de utilizar a droga e se a droga desempenha um novo papel entre os jovens?

DR: Sem dúvida, o uso da droga adquiriu novas feições. Ela se mundializou, se globalizou e se incluiu no mercado e na sociedade a partir do tráfico das drogas. Se antes existiam pequenas comunidades como os Junkies, na minha época de juventude, sobre as quais os jovens de 1968 eram obrigados a tomar uma posição política, entre outras; atualmente, cada um dos jovens é levado a tomar uma posição individual. É como diz Jacques-Alain Miller: “eu não posso me impedir de fazer….” ou “você não pode se impedir de fazer…” e, então, o que está em jogo é a abertura para o campo da interdição e da prescrição.

É nesse ponto que encontramos o que Freud valorizou e designou como a instância do supereu. Mas, essa inclinação, antes de ser um desafio, é um modo de ser e de traçar a pulsão que, finalmente, pode se transformar num imperativo de gozo. O imperativo do gozo deve ser acolhido nem sempre como transgressão, mas também como interdição, pois existem diferentes maneiras do imperativo se manifestar. A sociedade pode se desculpar alegando que esse modo da adolescência gozar concerne apenas aos jovens e que ela não tem nada com isso, de forma que a partir da adolescência, o jovem não está mais protegido pela sociedade, pela autoridade do Outro, como na infância.

SC: Pode-se dizer que houve uma mudança no uso dos objetos. Se antes eles se constituíam como meio, hoje eles são colocados como finalidade para fazer o laço social…

DR: Você tem toda razão. Então, para nos ajudar, seria bom revisitarmos o que disse Lacan aos estudantes universitários, em maio de 1968, e depois, em 1970, no Seminário XVII, “O avesso da psicanálise”: “o mestre diz: vejam os estudantes, como gozam!” É olhando para os estudantes que os colocamos como objetos. Portanto, é assim na universidade – é justamente nesse lugar que o mestre os coloca. Porém, atualmente, não é mais assim porque o mestre não tem mais o poder ou a liderança. Hoje, o mestre se declinou e é em torno dos objetos que os jovens se agrupam, interagem, visto que são os objetos que os agregam provocando efeitos de grupo. Não é mais o mestre que os constrange. Mas, são os objetos que os coagem, de um lado, e, de outro, também os integram. Entretanto, como testemunho do social, sempre haverá alguém de fora para dizer deles na condição de objetos e, num sentido segregativo, para ridicularizá-los, para se queixarem deles ou para lamentá-los, como eles sofrem: “vejam como eles gozam com suas bikes, com seus skates, com seus gadgets, com seus selfies,…” É assim que se deve captar esse fenômeno segregativo da sociedade que os coloca como objetos: “Olhem como os jovens gozam…”

SC: Essa nova geração de jovens é composta de filhos das famílias pós-divórcio, recompostas, multiparental, monoparental… Eles são a favor do aborto, do casamento homossexual, do poliamor, etc. Poderíamos dizer que há uma nova maneira dos jovens se posicionarem na partilha sexual, na medida em que não existe mais um paradigma de casal que lhes sirva de exemplo?

DR: Você guardou para o fim a questão que é para nós, psicanalistas, o ponto central. Então, nós, os analistas, nos fundamentamos sobre o que? Para além da clínica na qual recebemos os testemunhos dos adolescentes para saber se, sim ou não, há uma modificação a partir repercussão do fato sexual na adolescência.

Eu creio que podemos dizer que temos um guia bastante seguro em Freud e em Lacan. Entretanto, em ambos, existem dois pontos de vista distintos. Se Freud articula a partilha sexual em torno da puberdade sob a dimensão da metamorfose do corpo – particularmente, no terceiro ensaio da teoria da sexualidade -, Lacan diz da partilha sexual através das elaborações das fórmulas da sexuação, especialmente em três seminários: “De um discurso que não fosse semblante”, “Ou pior” e o “Mais ainda”.

Então, existem esforços fundamentais tanto em Freud como em Lacan que nos ajudam a pensar o momento atual. O que impressiona mais nesses momentos fecundos de elaboração em Freud e em Lacan? Em Freud, isso não quer dizer que haja uma modificação anatômica, tampouco biológica, mas que o falasser se defronta com o desafio de uma nova satisfação. Então, o falasser procura se satisfazer com uma satisfação que é inteiramente nova e desconhecida. Trata-se de uma satisfação de uma outra ordem, inédita que não é mais a da infância, visto que trata-se de uma satisfação da pulsão que o atravessa e que se acrescenta. Então, pode-se dizer que a satisfação da infância é apenas preliminar, inaugural.

Em contrapartida, Lacan retoma essa passagem de uma maneira muito clara, porém distinta de Freud, ao dizer que, subitamente, a satisfação que atravessa o falasser e se isola é uma satisfação sexual do gozo fálico que está fora do corpo, um gozo que não se fixa mais no corpo, que não pertence mais ao corpo, mas que se interpõe entre um sexo e o Outro, entre um corpo e o Outro, de maneira que o falasser é convocado a tomar uma posição no que concerne ao seu próprio sexo. Então, no momento da adolescência, existem a inibição, o sintoma e a angústia no que se relaciona aos efeitos da nova satisfação da pulsão que atravessa os corpos da moça e do rapaz de maneira bastante diferente da repartição que existia na infância e que era apenas uma satisfação preliminar.

A experiência com essa nova repartição que opera desde a entrada da pulsão sexual e do gozo fálico e do não todo-fálico, de certo modo, exige tempo para que o falasser se torne responsável para assimilar os efeitos dessa nova satisfação. Portanto, nós, os analistas, estamos aqui para lembrar que a melhor maneira de lidar com essa nova satisfação é o sinthoma. Assim, o sinthoma não é algo que se resolve, tampouco é uma novidade que implica uma promessa de felicidade, ou uma novidade que pode trazer soluções para as pessoas e para o mundo, visto que se trata de uma novidade que é um fato real bruto. Portanto, para saber fazer com isso é necessário que cada um encontre sua própria solução. Aliás, o que interessa é que um analista possa relembrar isso à sociedade: que existe esse tempo especial – que é a juventude – para que isso aconteça e que durante essa época, o falasser possa se apaziguar em relação às injunções do supereu, às coações do significante mestre da ocasião e dos imperativos de gozo para que ele possa se posicionar no que concerne à partilha sexual.

SC: Por último, pergunto-lhe, então, como a psicanálise pode ajudar aos jovens a se posicionar diante dos novos sintomas?

DR: A psicanálise pode ajudar os jovens a bascular a ideia do sintoma, contudo, para o psicanalista, o sintoma não é o desregramento do comportamento ou a desregulação da conduta, mesmo dos pensamentos, mas, a maneira pela qual o jovem tricota de um lado os ideais simbólicos, as ideias que advém de sua história e, de outro lado, a renovação narcísica que advém de seu corpo, que não é mais o corpo da criança. E, por último, acrescido por esse novo regime de satisfação que é a pulsão.

Então, na adolescência, esses três registros – simbólico, imaginário e real – estão interligados numa nova configuração. Os três registros estão conectados por aquilo que retomamos de Lacan, que ele denominou de sinthoma, que é o que o falasser elabora para pensar a presença de seu corpo, a sua história e a presença da nova satisfação que o atravessa. É isso que o analista chama de sinthoma e que é sempre algo comprometido com os três registros. Se não temos esse elemento, o falasser permanece encurralado e prensado como um objeto dejeto por entre essas três dimensões do real, do simbólico e do imaginário.

Notamos isso na adolescência quando essas três dimensões se explodem, se desenlaçam, se desligam, o que leva o falasser a não saber se dominar, se gerir e se encontrar com o seu ponto de referência, deixando-o à deriva. O falasser está atravessado pelas vicissitudes da vida, em que o corpo e o espírito representam o terreno onde esses fatos ocorrem. No fundo, a psicanálise faz a pergunta de como esses três domínios se religam no sinthoma e como fazer um bom uso do sinthoma. Então, ousem o sinthoma! Tentem isso! Vocês verão que é uma adição muito mais interessante do que as outras.

SC: Muito obrigado, Daniel Roy. Nós estamos muito honrados de recebe-lo no Brasil e se você desejar, pode endereçar algumas palavras aos brasileiros.

DR: Sim, claro! Digo-lhes que estou absolutamente encantado com o convite, pois evidentemente tenho colegas de profissão no Brasil que para mim, são meus bons amigos, mas a razão principal é a língua. Eu não conheço língua mais bela que a língua brasileira – o português falado no Brasil que canta como música aos meus ouvidos. Meus ouvidos não entendem diretamente a língua, mas ela me acontece como um banho sonoro onde eu amo me deslocar. Eu estou muito honrado e feliz de poder me beneficiar disso. Muito obrigado!

Tradução: Sérgio de Campos
Revisão do francês: Françoise Chausson

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2ª Entrevista com Daniel Roy

https://www.youtube.com/watch?v=lp3xa0cYdb0&t=102s

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Entrevista com Fabian Fajnwaks
http://minascomlacan.com.br/blog/boletim-qqpega-06/