I Seminário Preparatório para a XXII Jornada

I Seminário Preparatório para a XXII Jornada

A XXII Jornada da Escola Brasileira de Psicanálise- seção MG, intitulada “O inconsciente e o mestre contemporâneo: o que pode a transferência?”, será realizada nos dias 19 e 20 de outubro, de 2018, no Hotel Mercure, em Belo Horizonte. Com a presença de Christiane Alberti (AMP-ECF) como convidada internacional.

Um rica noite de trabalho marcou o I Seminário Preparatório para a jornada. Laura Rubião, coordenadora da Jornada, e Simone Souto, diretora de orientação da Jornada, apresentaram o tema e eixos de trabalho. Desde já ficou explicitada a importância da discussão e investigação do tema, em especial, no que tange à nossa prática clínica.

Na Jornada investigaremos as conseqüências em nossa clínica do surgimento do mestre contemporâneo e de como esse fato participa da constituição atual do sintoma e da direção do tratamento. Fernanda Otoni, diretora da EBP-
MG, nos lembrou que, na interface entre a Psicanálise e a política atual, caberia à Psicanálise desativar as forças segregativas em suas várias facetas em nossa sociedade. O analista pode servir como uma “ajuda contra”.

No ensino de Lacan, o “Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise” (1969-1970) é referência crucial para a discussão. Nesse seminário já estaria evidenciada por Lacan uma passagem do amor ao pai a seu declínio, o que dá lugar ao surgimento, a entrada em cena, do mestre contemporâneo. Esse domínio do mestre contemporâneo caracteriza um domínio sem sentido, que comemora uma irrupção de gozo, ao contrário do mestre antigo, sustentado por ideais.

Laura Rubião retomou em sua fala o que seria a articulação da subjetividade de nossa época e as dificuldades da experiência analítica. Laura retomou passagem do “Seminário 08: a transferência” (1960-1961), onde Lacan abordou a transferência a partir de Sócrates e do objeto agalma, em seu segredo e eficácia e ainda situou o que define o discurso do mestre antigo em sua paixão pela ignorância. A paixão pela ignorância propicia o brotar de um sentido novo, o que seria o primeiro paradigma da transferência em Lacan. Laura retomou o Seminário 17, no qual Lacan denunciou a subversão do saber pelos discursos da ciência. O mestre moderno seria aquele que nada quer saber o desejo.

Laura recorreu a Michel Foucault, em seu texto “A vida dos homens infames”, texto escrito a partir de uma pesquisa de arquivo em instituições asilares. Na passagem dos séculos 17 para 18, o Discurso do Mestre passou a se ocupar de questões cotidianas dos sujeitos, bebedeiras, adultério, violência, etc. Com isso, percebe-se que o gozo passa a ser objeto de vigilância, saindo assim de cena, a prática privada e sigilosa do confessionário. A palavra não mais se endereça a nenhum saber suposto. Temos então a banalidade do gozo, o que reforça o controle. Hoje nada mais tem opacidade.

Laura trouxe ainda Lacan em “Televisão”, lembrando que tanto o analista como o capitalista lidam com o objeto, no entanto, o analista opera com este em seu efeito de real, produto de uma análise, enquanto o capitalista visa os objetos gadgets, consumidos em série. Laura encerrou sua fala dizendo que devemos responder ao que pode a transferência nos dias de hoje sem impotência, caminhando rumo ao impossível, ao real próprio a psicanálise.

Simone Souto nos esclareceu que a investigação a ser realizada na Jornada parte de duas diretrizes: a retomada da investigação do inconsciente feita na Jornada de 2017, “O inconsciente e a realidade sexual: o que há de novo”, mas agora sob a perspectiva das formas de sua manifestação na época do mestre contemporâneo. A segunda diretriz traz uma conotação mais clínica do tema, sobre como pode se dar a experiência analítica nesse contexto.

Simone nos lembrou a afirmação lacaniana de que o verdadeiro mestre é o inconsciente, é ele que coordena nossa vida, nossa relação com o mundo. No entanto, a queda dos significantes mestres produz modificações nos laços sociais e na manifestação do inconsciente. O mestre atual, contemporâneo, é mais opaco, menos evidente, desvestido das significações de outrora. Ele é um S1 sozinho, apartado do sentido, sem o S2, por isso não interpretável.

Fazendo uso dos matemas do discurso do Mestre e do Capitalista, Simone explica que neste último, o mestre fica reduzido a um agente da vontade de gozo, se multiplica como enxame, enxame das mais variadas formas de gozar. É sempre um S1 como uma conotação superegóica, um imperativo de gozo. A questão social e política dos refugiados de diversos países no mundo, de acordo com Simone, evidencia a posição de restos dessas pessoas, que se tornam um capital absorvido por outros países, ou seja, as pessoas se transformam em capital. O domínio do Discurso do Mestre contemporâneo promove a extinção da falta, o caminho para homogeneização.

Vemos surgir formas distintas de manifestação do inconsciente. Se, na leitura de Freud o sintoma era um sentido a ser decifrado, agora temos sintomas contemporâneos que não querem dizer nada e que se manifestam no corpo como acontecimentos insensatos, desprovidos de sentido, pura pulsão de morte.

Nesse sentido, o inconsciente se apresenta tão inapreensível quanto o mestre moderno. Simone destacou, com a orientação de Jacques Alain-Miller, que: a transferência é a única estratégia do analista para subverter o Discurso do Mestre. Assim, é preciso se submeter para subvertê-lo.

Para ler integralmente os textos apresentados no primeiro Seminário Preparatório, acesse Enxame – o Boletim da Jornada, no link http://jornadaebpmg.blogspot.com.br/p/enxame-1.html

Lá podem ser verificados os cinco eixos de trabalho da Jornada, que situam os envios de trabalhos para a Jornada. O Boletim apresenta em seus números rubricas variadas de informações, textos, pequenas provocações e entrevistas para nos manter em movimento, rumo ao que nos espera e também convida à participação. Acompanhá-lo é estabelecer uma forma possível de resposta ao que se formula no título da Jornada: “o que pode a transferência?”.  Ao trabalho!

Paula Duarte Félix Marinho