III Seminário Preparatório rumo à XX Jornada da EBP-MG

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Para dar um gostinho do que acontecerá nesta próxima quinta-feira, Cristina Drummond e Sérgio Laia enviaram para o Boletim #qqpega algumas linhas sobre o percurso pelo que farão em seus textos. Deixo-os com a palavra!
Nossa proposta é tratar de um dos três aspectos considerados por Miller, em seu texto “Em direção à adolescência”, como fundamentais para a psicanálise dos jovens. Trata-se do desenvolvimento da personalidade, ou seja, dos moldes da articulação do eu ideal e do Ideal do eu, que já se apresentavam em “Para introduzir o Narcisismo”, de Freud.  Vamos tomar esse ponto a partir da leitura de Lacan sobre Gide e sua solução adolescente que é desencadeada pela imiscuição do adulto nele enquanto criança.
Essa leitura busca tratar do que em nossa contemporaneidade temos visto como uma ausência dos Ideais do eu, promovidos pela presença do pai e da presença, em seu lugar, do eu ideal, promovido pela sociedade dos irmãos todos iguais e pelas soluções apresentadas pelos sintomas sociais.
Ora, o Ideal do eu é uma instancia simbólica muito distinta do eu ideal que é imaginário. As figuras ideais para os jovens de hoje se colocam, de modo cada vez mais frequente, não do lado da herança paterna, mas do lado do duplo, muitas vezes mortífero. Essas soluções nos mostram o desafio que a clínica com jovens nos traz no sentido de darmos lugar à palavra e ao desejo num universo onde o que se apresenta é um empuxo ao gozo e uma ausência de sintomas.

Gide que conclui seu processo adolescente aos 25 anos é um paradigma das chances que um sujeito jovem pode ter de dar lugar à palavra que humaniza o desejo quando sua história infantil não lhe abriu essas portas. Lacan aponta em Gide um problema quanto a sua relação com o Ideal do eu, e nos diz que “no mesmo ponto em que se produz o Ideal do eu […] Gide ensina que se produz, em seu caso, a perversão”. Sua solução singular nos permite pensar a imiscuição como o efeito de um encontro com o real sob a forma da contingencia e que abre uma nova orientação para o desejo e para o amor. Seu exemplo fala em favor do encontro de um jovem com um analista como a oportunidade de reorientação de um destino.
Cristina DrummondA intervenção de Sérgio Laia terá como título: “Meninos e Meninas não são (ainda) Homens e Mulheres” e ele também nos enviou sua ementa:

Atribui-se aos adolescentes, ou aos jovens (se preferirmos adotar o termo do título da XX Jornada da EBP-MG), a definição de um posicionamento com relação à sexualidade e que os fariam passar, segundo uma perspectiva considerada hoje “binária”, de meninos e meninas a, respectivamente, homens e mulheres. Entretanto, neste nosso mundo permeado pela diversidade sexual e questionador da heteronormatividade, a função referencial do falo é problematizada ou mesmo simplesmente assimilada a um ordenamento arcaico, decadente e patriarcal. Esse tipo de problematização e de assimilação, embora bastante incisivo no âmbito do que se diz sobre a sexualidade atualmente, nem sempre dá conta ou se faz acompanhar do que acontece nos corpos, tal como o verificamos em muitas circunstâncias apresentadas em nossos consultórios. Nesse contexto contemporâneo, as formulações lacanianas sobre a dimensão real do falo, sua função fônica e como “falácia”, “testemunha do real” em jogo nos encontros e desencontros dos corpos sexuados me parecem oportunas e decisivas para responder ao que acontece nos corpos. Um caso clínico, por fim, poderá nos ajudar a discernir essas formulações e verificar como se opera com elas na experiência analítica.