Jovens.com: Corpos & Linguagens

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XX Jornada da EBP-MG

02 e 03 de setembro de 2016

“jovens.com: corpos e linguagens”

 Eixos de investigação e pesquisa sobre a juventude

 Sérgio de Campos

Introdução:

A modernização, a industrialização, a urbanização, o surgimento da classe média e a educação pública promoveram uma segregação baseada na idade que por sua vez promoveu o surgimento da juventude no século XIX, baseada na romantização e glorificação dos jovens escritores, artistas, filósofos e libertários. Ademais, na segunda metade do século XX, o neocapitalismo, as novas tecnologias e as comunicações digitais facilitaram uma ampliação dos valores dos jovens em escala universal.

A juventude é uma fase que compreende o final da adolescência e o início da idade adulta e se refere a símbolos, crenças e comportamentos singulares dos jovens na sociedade. Se por um lado, representa os valores e normas da população jovem; por outro, inclui as ideias e práticas de subgrupos juvenis específicos, subculturas e contraculturas. De um lado, as subculturas expressam os valores e normas exclusivas de seu próprio grupo, se retirando da cultura tradicional (gangues, vanguardistas, infratores, torcidas organizadas); de outro, as contraculturas se opõem à cultura dominante, adotando uma posição de contestação e confronto (punks, rastafáris, skinheads, hippies)1.

A juventude predomina quando o segmento jovem é relativamente significativo em relação à população adulta, quando a sociedade está passando por rápidas mudanças de valores em razão do declínio dos ideais, quando há um real em jogo que reconfigura o imaginário no que concerne a segregação, conflitos de classe, alta mobilidade, desemprego e lares rompidos, e por fim, quando os mais jovens crescem sob condições distintas dos mais velhos na era do Outro que não existe e expressam sua insatisfação com a sociedade tradicional.

A juventude entra em questão, particularmente, para a psicanálise, quando os comportamentos, as atitudes, os sintomas e os modos de gozo dos jovens se desviam do padrão da sociedade adulta ou das normas juvenis criando toda sorte de conflitos, crises e demandas sociais de enquadramento dos jovens. Na XX Jornada da EBP-MG, “jovens.com: corpos e linguagens” abordaremos a Juventude através do corpo, do gozo e da linguagem, sob cinco eixos, a saber: I. A socialização sob o uso do sintoma; II. Os jovens e seus corpos; III. O saber do jovem; IV. Despertar da primavera e sexuação; V. Todos jovens! 

I. A socialização sob o uso do sintoma: 

O primeiro eixo pretende interrogar a juventude junto à lei e às bordas do social. Se por um lado, verifica-se uma destituição da tradição e o declínio do Nome-do-Pai; por outro, constata-se – até como um tipo de reação – uma espécie de neoconservadorismo na juventude. Investigaremos  a clínica do ato: infrações, delinquência, rebeldia, vandalismo, transgressões e vadiagem, além do racismo, das segregações e da vitimização do jovem, situações corriqueiras do nosso cotidiano.

Como se situam o supereu e o Ideal do eu nos territórios da juventude que são demarcados pelas turmas, gangues e torcidas, assim como para os jovens que se posicionam como “rebeldes sem causa”, fascinados pela própria desgraça, adeptos de práticas de risco – tráfico de drogas – e de esportes radicais – como o surfe ferroviário –, que se sentem vivos com o perigo e a morte por perto?

O que dizer sobre a maioridade penal, além de debatermos sobre a violência e a agressividade como modos de expressão? Como estão os ritos de passagem na atualidade? Que papel têm aí os jogos? Como se institui a paixão pelo ódio e o fanatismo entre os jovens e por que eles são capturados pelos movimentos políticos radicais e pelo fanatismo religiosos? Chama a atenção o número de jovens que aderiram recentemente ao Estado Islâmico, tornando-se responsáveis por atentados terroristas que se alastram pelo mundo, atacando inclusive os jovens e a alegria de viver. Como a pluralização do Nome-do-Pai e a relativização dos valores retorna nas identidades extremistas, que recusam a alteridade?

No contemporâneo, há todo um debate entre a liberdade e a segurança, no qual os movimentos sociais jovens se expressam em novos cenários. Como se reconfigura a psicologia de massas nas redes sociais horizontais? Como se distribuem no mundo jovem as responsabilidades e imputabilidades, as ideologias, as revoluções, as contrarrevoluções e as utopias? 

II. Os jovens e seus corpos: 

O segundo eixo visa investigar o conceito de lalíngua, de trauma e de troumatisme na juventude. Por um lado pretendemos investigar as marcas no corpo, tais como cicatrizes, escoriações, tatuagens e piercings; por outro, estão em jogo as incidências da pulsão oral, como nos casos de transtornos alimentares: as anorexias, as bulimias e as obesidade.

Existe uma especificidade no uso de drogas na adolescência, frente à difícil subjetivação da função fálica? Como a prática de esportes, radicais ou não, trata, no imaginário do corpo, o que claudica no registro do simbólico? Que função têm as dietas e os anabolizantes: “bombas” hormonais?

Como entra a gravidez na adolescência na relação com o corpo e os papéis sociais, para os jovens e as jovens?

Na atualidade, o Eu Ideal funciona como Ideal do Eu, já que ele se encontra no zênite social como orientação para o corpo jovem, belo e perfeito. A juventude é o momento em que o narcisismo se reconfigura dentro de uma tensão entre o ideal e o objeto2. O mercado descobriu a juventude como consumidora do corpo perfeito como razão do mais de gozo.

Que função tem a hiperatividade e o déficit de atenção para nomear um corpo agitado no qual às vezes é difícil estabelecer o tipo clínico? Ao contrário, como se manifesta o humor deprimido e o empuxo ao suicídio, epidemia entre os jovens em alguns países? Como se manifestam hoje as psicoses e o autismo entre os jovens, e qual a especificidade do seu tratamento?

III. O saber do jovem: 

O terceiro eixo se dedicará a abordar o saber na juventude. Afinal, o que o jovem sabe, hoje? No contemporâneo, pode-se dizer que o saber do jovem está no bolso3, pois ele não tem mais suposição de saber no adulto, no educador, no Outro. Antes, era necessário que o Jovem passasse pelo desejo do Outro para que ele pudesse dele extrair o saber. Há, na juventude, uma invenção de saber pungente, não calcada na idealização, e tampouco resultado da sublimação. No entanto, essa dessuposição de saber no Outro retorna para o jovem como um Outro tirânico e dessubjetivado. Em contrapartida, é necessário levar em conta o saber do jovem na psicose, no qual a invenção delirante ocupa o lugar de um S2, denotando que todo delírio é um saber e que todo saber também é um delírio4.

Hoje, o jovem reinventa, recria e remixa seu próprio saber, sua própria língua digital, mediante novos códigos de linguagem, criação espontânea e poética com senhas e gírias. O jovem utiliza uma nova semântica e uma nova sintaxe através de grafites, pichações e novas escritas; usam as provocações linguageiras através da música e são veteranos em múltiplas formas de comunicação e aparelhos multimídia, tais como videogames, facebook,  twitter, blogs, sms e whatsapp.

No que concerne à educação, se por um lado, o jovem tem facilidade para o aprendizado; por outro, há um impossível de educar. Se o sujeito porta um saber no bolso, autoerótico, que não inclui o Outro, como distingui-lo do saber delirante e suas invenções corporais? Enfim, como a juventude busca o sentido da vida através dos seus sintomas, fantasias e suplências?

IV. Despertar da primavera e sexuação

A juventude é a época na qual o corpo falante ultrapassou a puberdade e experimenta a sexualidade de forma nova, tendo sua intimidade transformada, fora do padrão, tanto no público como no privado. As gírias que dizem do amor – “trombar, ficar e transar” – orientam os jovens. Diversas formas de poliamor e de relacionamentos abertos surgem como uma experiência da juventude, paradigmática do século XXI .

Encontramos com frequência uma procrastinação da entrada do jovem na idade adulta, contaminada pelo infantil, resultando em jovens de comportamento adolescente na terceira década de vida. Portanto, o despertar da primavera na adolescência pode se prolongar para a juventude como uma espécie de adiamento do encontro sexual. Miller, em seu texto “Sobre o Gide de Lacan” postula que o estilo de Gide evoca “a composição, a fabricação de uma pessoa”5 e que o mesmo apenas alcançou a maturidade aos 25 anos, no seu encontro com o Outro sexo, graças “ao efeito decisivo” que a literatura de Goethe operou sobre ele6. Evocando a obra de Gide, Miller ressalta que de fato a porta é estreita para o Outro sexo. Em contrapartida, podemos encontrar a imiscuição do adulto no adolescente ou na criança, de maneira que eles passam a conversar e a se portar como “gente grande”, despertando a curiosidade nos adultos como se fossem verdadeiros gênios.

No contemporâneo, esse despertar da primavera, diante do furo no real sem solução significante que o circunscreva, pode-se configurar em diversos cenários como as hetero, homo e transexualidades. Como a sexuação se configura com o declínio da função paterna? Como se dão as nomeações que proliferam e como se formam as novas formas de parceria entre os jovens? Como as novas tecnologias – sites de relacionamento e aplicativos de celular – impedem ou contribuem para o encontro com o Outro? Afinal, diante da inexistência da relação sexual, cabe a cada jovem a responsabilidade de inventar novos laços com o Outro. Se há uma variedade de maneiras de fazer nós, amarrações e parcerias amorosas e sexuais, e ficou mais fácil atar e desatar, dada a volatilidade das relações na era do amor líquido, em contrapartida ligações sólidas são novas formas de tentar fazer existir a relação.

V. Todos jovens!: 

A juventude é considerada uma saída da adolescência. Trata-se de uma passagem estreita para a vida adulta. Os dois conceitos não se superpõem, de tal sorte que a Organização Mundial da Saúde assinala que o conceito de juventude se resume no período vivido entre 15 e 29 anos e o da adolescência, no período de teenagers. Entretanto, se perguntarmos, hoje, se as pessoas se sentem jovens, encontraremos uma resposta afirmativa em grande porcentagem de casos. Um idoso pode se julgar jovem. Vivemos um imperativo, uma ordem unida de “Todos jovens!”, à medida que a juventude surge como paradigma do bem viver. Trata-se de uma segunda juventude, dita de espírito, na qual o corpos falantes conservam certos gostos e paixões, hábitos e comportamentos jovens.

A cultura jovem foi difundida de maneira generalizada, de sorte que não se verifica um rompimento, mas uma continuidade com a sociedade adulta. Com efeito, a juventude que era uma fase, um meio e uma passagem se tornou um fim em si mesmo. A população adulta se inspira nos jovens e adota certas ondas, modas e estilos de vida. Os jovens contaminaram o mundo adulto com suas comunidades, suas roupas e sua linguagem, sua expressão artística e práticas sexuais. Entretanto, se os adultos se apropriam dos signos da cultura juvenil, nem todos os jovens endossam e expressam em conjunto essa atitude.

Vivemos um grande boom da busca do rejuvenescimento e do corpo perfeito. As academias, os spas de emagrecimentos, as cirurgias plásticas, o fisiculturismo, as vitaminas, os cremes, anabolizantes, botox e substancias de preenchimento ganharam definitivamente espaços no mercado.

O juvenescimento do mundo se pauta pela imagem e pela sociedade do espetáculo. Há um dar a ver onde todos querem aparecer como jovens.  A regra é: “É proibido proibir”; “Ser jovem a qualquer preço”; “Ser jovem é estar conectado ao novo”; “é nunca deixar de sonhar”; “é ter a capacidade de amar….” Afinal, quem é jovem hoje? Não há mais uma definição única de como ser jovem. O conceito de juventude foi ampliado na subjetividade fora do tempo, expresso como desejo de viver e de amar, onde a pulsão pode transbordar, tanto como pulsão de vida quanto como pulsão de morte. Enfim, como o rejuvenescer faz sintoma no mundo hoje?

1 BRAUNGART, R., Cultura e juventude, In: Dicionário do pensamento social do século XX, editado por Alain Tourraine e Willian Outwaite, 1996, p. 167.

2 MILLER, J.-A., Em direção à adolescência, Intervenção de encerramento da 3a Jornada do Instituto da Criança.

3 Ibidem.

4 MILLER, J.-A., El saber delirante, Buenos Aires: Paidós, 2005.

5 MILLER, J.-A., Opçao lacaniana online, Sobre o Gide de Lacan, 2015, p. 02.

6Idem, p. 09.

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