Lançamento do livro de Laura Lustosa Rubião

Por ocasião do lançamento do livro da colega Laura Lustosa Rubião (EBP-MG/AMP) “A ÉTICA DO BEM-DIZER NOS ESTUDOS LACANIANOS SOBRE A COMÉDIA”, o Portal Minas com Lacan realizou uma entrevista onde a autora nos dá uma pitada do que encontraremos em seu livro.

Portal Minas com Lacan: O que define a comédia, do ponto de vista da psicanálise?

Laura Rubião: Bom, de um modo geral, a vertente da comédia é associada à presença do falo (sabe-se que na comédia antiga os atores portavam um enorme falo de couro sob a roupa), no sentido de que o falo é o elemento conector do gozo, que comparece como medida possível da relação entre os sexos no primeiro ensino de Lacan. Nas peças, além de dessa presença real da indumentária, o falo pode ser lido como elemento simbólico nas bodas, no espírito da festa, nos disfarces (homens que se fazem passar por mulheres e vice versa). Mas, mesmo no seminário 5, Lacan analisa “As Nuvens” de Aristófanes e reconhece na cena da comédia o momento em que “o isso calça as botas da linguagem”. A partir da comédia abre-se a via para uma nova inscrição do gozo por meio do que Lacan chama em Lituraterra – citando a mesma peça de Aristófanes – “a ruptura dos semblantes”.

Portal Minas com Lacan: Uma das perguntas que a pesquisa levanta é sobre o lugar da comédia como atenuante para o trágico da condição humana. O que foi possível concluir sobre essa questão?

Laura Rubião: Esta foi de fato uma das perguntas que me ocupou nesta pesquisa. Mas preferi não adotar uma lógica binária de oposições: morte x vida, infortúnio x fortuna. Acabei me deparando com personagens cômicos que não ficam muito a dever aos melhores exemplos da tragédia: conservam o mesmo isolamento, o mesmo desvario e a mesma aflição que estes. A questão é que eles seguem vivos com o eu “sintoma”, encontram uma maneira de transmiti-lo sem ter que se lançar nas condições abissais do destino trágico. Deixam escapar, como aponta Lacan no seminário 7, um fluxo de vida por entre as barreiras do significante.

Portal Minas com Lacan: Podemos contrapor a comédia no campo do teatro à noção de felicidade, da forma como esta é entendida pela psicanálise. O que a comédia nos ensina sobre a questão da felicidade?

Laura Rubião: Sim, se adotarmos esse termo no sentido em que Lacan o toma em “Televisão” (bon heur) o feliz acaso. A ação cômica leva em conta o momento único e inesperado de encontrar uma nova tradução para o gozo, de fazê-lo circular, assim como acontece também nos chistes. Por meio da ironia, da astúcia e da surpresa, o herói cômico se serve de uma disposição interrogante que lhe ermite fazer um bom uso do semblante (não destruí-lo), mas tomá-lo sob outras bases. Penso que essa pode ser uma espécie de felicidade que, inclusive, confere uma dignidade ética à estratégia cômica pela via do gaysçavoir e do que Lacan chamou de Ética do bem-dizer.

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 Entrevista realizada por Miguel Antunes e Adriane Barroso