Notas sobre a conferência de Jean Claude Maleval

Notas sobre a conferência de Jean Claude Maleval

Notas sobre a conferência de Jean Claude Maleval realizada no dia 12 de agosto de 2017 na Colômbia e transmitida simultaneamente na sede da EBP-MG.

O Observatório de Políticas do Autismo (FAPOL), em uma extensa transmissão por vários países da América, apresentou no dia 12 de agosto de 2017, a conferência de Jean-Claude Maleval, psicanalista francês, membro da AMP e professor de psicopatologia da Universidade de Rennes. Nesta conferência, Maleval aborda a estrutura autística procurando distingui-la em três pontos:

O primeiro ponto tratado foi sobre a retenção dos objetos pulsionais – principalmente a vozque tem conseqüências na dificuldade de inscrição do sujeito autista no campo do Outro. Desta não inscrição, o autista sofre e vai construir uma borda para tentar realizar um contato com o Outro. A retenção dos objetos pulsionais conduz o autista a isolar-se em seu mundo, mas em seguida ele faz esforço para sair deste meio. O objeto autístico não está feito para encerrá-lo em seu mundo, ao contrário, funciona como um pseudópodo para conectá-lo com o mundo exterior.

Segundo Maleval, o ponto mais original de sua conferência é o segundo ponto: de que o autista se estrutura em um Outro de signos e não de significantes. Isto de certa forma prolonga a tese dos Lefort, de que não haveria significante amo no autismo, não haveria lalangue, não haveria balbucio, não haveria objeto a.

Maleval questiona se haveria uma outra maneira de se estruturar que não pelo significante. Segundo ele, Lacan no Seminário da Angústia abordou ligeiramente esta questão através de Helen Keller. Existiria outra maneira de Helen Keller entrar na linguagem, já que era surda, muda e cega.

Maleval nesta primorosa conferência vai demonstrar quais são as conseqüências para um sujeito que se estrutura a partir de um Outro do signo e não do significante. Em que se converte o objeto a?  O signo no autismo é uma forma verbal especialmente ligada a uma imagem de origem perceptiva, percepção visual ou táctil, e com menor freqüência olfativa e gustativa. Essa visão coincide com alguns trabalhos da teoria cognitivista, que considera que existe uma outra inteligência no autismo, que se caracteriza por um sobrefuncionamento perceptivo. Como relatado por Grandin, que se diz uma pensadora visual, e por muitos outros autistas que falam sobre o peso da imagem no pensamento. Maleval nos mostra que isto tem conseqüências na estruturação subjetiva do sujeito. O sujeito autista não está dividido pelo significante, mas por uma en-forma do objeto de gozo.

No terceiro ponto de sua conferência, Maleval aborda a noção de borda como o que permite aparelhar e tratar o gozo autista. Para o psicanalista francês, a cura autista uma vez que a borda tenha sido construída, deve orientar-se em torno dos fenômenos de borda. A forma mais habitual do esvaziamento da borda é o desaparecimento do duplo, como no caso de Donna Williams, quando toma a decisão de matar seu duplo, seu companheiro imaginário. Nos autistas de alto nível o que resta da borda são os interesses específicos, o que lhes permite criar laços sociais. Maleval conclui que estes fenômenos conferem uma certa orientação original à cura dos autistas.

O Observatório do Autismo da EBP/FAPOL em um movimento vivo segue na construção de uma política em direção ao ser falante e seu modo de gozo. A conferência de Maleval nos aponta o percurso lacaniano ao demonstrar a importância da prática da psicanálise com esses sujeitos que querem e podem estar no mundo.

Segue link da entrevista de Maleval sobre a conferência: https://youtu.be/hINjr8EzxEM

Notas de Carla Capanema