Notícias do Núcleo de pesquisa em psicose

Notícias do Núcleo de pesquisa em psicose

Na sexta feira 25 de maio aconteceu na sede do IPSMMG a nossa quinta reunião do ano. A atividade foi um seminário clínico com a participação dos colegas Marisa de Vitta e Rodrigo Almeida, que nos trouxeram três fragmentos de casos clínicos que acompanham em seus consultórios. Em seguida, Yolanda Vilela teceu seu comentário que gerou uma conversação animada e bastante profícua.

Os três fragmentos clínicos possuem os seguintes pontos em comum: 1) evidenciam a função paterna – significante Nome do Pai – e função fálica inoperantes. 2)  Apresentam sintomas corporais que denotam invasão do excesso pulsional não localizável. 3) O parceiro analista, através do manejo transferencial, constituiu peça fundamental para a construção de invenções singulares, fora do sentido da linguagem, que operam como protetoras do gozo invasivo. 4) Presença do afeto de vergonha ao ficarem na posição de objeto.

Yolanda ao destacar o afeto de vergonha como chave de leitura dos casos, trouxe uma contribuição teórica bastante consistente e inédita entre nós. Nos primeiros textos de Freud (Estudos sobre a histeria, Cartas a Fliess e Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade) a vergonha é apresentada como um afeto não sistematizado, distintos dos demais. Um afeto primário, tal como a angustia, que visa o recalque. É um afeto que marca a relação com o outro.

Em Lacan, principalmente nos seminários 10, A angústia e 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, pôde extrair que a vergonha é articulada ao olhar, enquanto objeto pulsional. Nos capítulos 6 e 7 do seminário 11, Lacan conclui que o olhar é um furo na visão, é o um a menos na gramática das pulsões. Se no primeiro ensino temos um sujeito, em seus primórdios, falado pelo Outro, nesse momento, Lacan ressalta a preexistência do olhar, o sujeito olhado pelo Outro. Se o olhar é a causa da vergonha, essa pode ser apreendida como afeto primário. Que consequências é possível extrair ao se tomar a vergonha como um afeto primário no campo das psicoses? Quando não há uma separação do olho, enquanto órgão, do olhar, como função, estamos diante um sujeito incapaz de dialetizar sua relação com o Outro. O olhar do Outro o invade sem o anteparo da fantasia. Mesmo assim, anterior à dialética do desejo, o olhar é velado pela vergonha.

Os três casos mostram, cada um a seu modo, que diante de um ponto de gozo exposto, há que tecer um véu ao olhar do Outro. Esse véu é a vergonha. Um véu, não metaforizado, cuja função é fazer borda ao corpo.

Para finalizar, Yolanda nos traz mais uma referência, um texto de Miller, Sobre a honra e a vergonha, publicado na Ornicar? De Jacques Lacan a Lewis Carroll, n. 1, 2004, em que ele situa a vergonha como afeto primário, diferenciada da culpa, anterior ao julgamento do Outro. Se a culpa mantem relação com o desejo, a vergonha está relacionada ao gozo. O mais íntimo do sujeito, sua primeira veste.

O tema da vergonha, como afeto primário articulado ao objeto olhar, tal como levantado por Yolanda, merece, com certeza, uma pesquisa mais aprofundada pelo núcleo no próximo semestre.

Fernando Casula