Nova Rede CEREDA - Diagonal Americana

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INFÂNCIAS TECHNO: AS IMAGENS E AS TRAMAS

Nosso trabalho parte da constatação de que crianças e jovens atualmente estão constantemente munidos de seus computadores, tablets e smartfones, ligados a imagens, mensagens, W-up, twiters, jogos e avatares com os quais se ocupam com tal frequência e naturalidade, que qualquer chamado ou convocação se torna uma interrupção a ser anulada ou evitada. Imagens, sites, conexões capturam a curiosidade e em seu reenvio mantém o sujeito em um labirinto que o afasta da causa do desejo. Muitos jovens privilegiam um campo de preenchimento cujo excesso traz o índice de uma operação que tenta suprimir experiência da falta e a angustia de se ter um corpo, e apresentam-se massacrados pelo retorno da exposição a que estão sujeitos e com dificuldades em interrogar algo disso. Há ainda a submissão e o silêncio do sujeito diante da existência obscena e feroz de um supereu cada vez mais frequente em sites que, por exemplo, orientam e incitam práticas anoréxicas ou que induzem jovens a rituais sexuais perversos, ou de violência e que principalmente os silenciam e isolam. Estes jovens apresentam-se, assim, munidos das imagens de gozo que são as marcas do que encontraram e recortaram de sua imersão num campo virtual que percorrem numa busca solitária. A dimensão de solidão nos sujeitos se encontra mais patente na medida em que aqueles que estão a sua volta também se apresentam tomados com seus gadgets, seja pelo ideal performático ou por seu oposto, o tédio. Deixar o virtual pela realidade encontra cada vez uma dificuldade maior.

Como nos lembra M.Bassols em seu argumento para o ENAPOL intitulado O império das imagens e o gozo do corpo falante: “O poder de penetração das imagens mostra-se, hoje, crescente em uma realidade que admitimos cada vez mais como uma realidade virtual, separada do real impossível de ser representado”. No mundo virtual não habitamos propriamente um corpo, não temos a angústia de ter um corpo. Sustentados na imagem ideal não é o jogo de representações nem o que falta que ordena o jogo com o outro e, além disso, o sujeito é introduzido a uma situação em que a morte é apenas mais um dado e não um limite do homem. Na vida somos ameaçados pela diferença do outro e por sua maneira de ver o mundo. Num mundo onde a morte não é uma finitude, a diferença se apresenta menos ameaçadora, mais confortável.  É nisso que se encontra a força do virtual e vemos que quanto mais a tecnologia oferece recursos consistentes e convincentes mais ele é acionado como alternativa de alivio.

Uma grande surpresa para as companhias telefônicas foi os jovens preferirem a mensagem escrita ao telefonema por voz. Para além das explicações mais óbvias e das surpresas estatísticas, vemos letra e imagem se prestarem tanto à devastação quanto servirem de um modo de sustentação a esses jovens sujeitos, ao ocuparem o espaço do que vacila no corpo a corpo em tempos do Outro que não existe. Podemos pensar que isso comporta um corpo falante que pode se apresentar com ou sem o Outro, mas frequentemente invadido, convocado pelas imagens que oscilam em uma função de engano e amparo? Será preciso investigar o uso particular da letra, pois se vemos que a imagem tende à metonímia ou à fixidez escópica que o silêncio redobra, sabemos que a letra enlaça o corpo fazendo borda.

Um dos desafios atuais da psicanalise é discernir e evidenciar o campo que dá lastro ao que a imagem ao mesmo tempo toca e vela: o campo do real. Convidados a falar, muitas vezes os jovens se acham tão tomadas pelos gadgets e imagens, que só podem mostra-los ao analista. Este encontro que convoca a interrogar a imagem, à sair do silêncio, à tomar a palavra pode trabalhar para localizar a estrutura simbólica aí escamoteada e o objeto que descompleta evidenciando o furo, o troumatisme com que eles se defrontam.

Nossa questão gira em torno do que resta do discurso, do fantasma e do sofrimento do sintoma diante do império da imagem. O desafio é extrair e inventar soluções para os impasses que se apresentam. Podemos ainda dizer que se o encontro de um jovem com um analista abre a uma solução, a uma nova operação do sujeito, a extração de um saber do que se apresenta na clinica é também o que coloca a psicanálise como um interlocutor da civilização que se enfrenta com o reino mortífero do Um.

Duas mesas com trabalhos da EBP, da EOL e da NEL, comentados por psicanalistas que se dedicam à clínica com crianças e adolescentes dialogam com uma Conferência sobre este tema que será proferida por Miquel Bassols.

Convidamos todos a virem e participarem deste encontro trazendo suas questões e pontuações.

 Cristina Vidigal