Notícias do Núcleo de Investigação em Psicanálise e Direito

Notícias do Núcleo de Investigação em Psicanálise e Direito

 

“Queda do falocentrismo” nos remete imediatamente a “declínio do viril”, que foi, inclusive, o título de um Curinga de 1996: “O homem e declínio do viril” e que já preparava o percurso de elaboração da jornada da EBP-MG – cujo tema foi “Os enigmas do masculino”. Ou seja, não é nada novo esse tema, mas as consequências clínicas que podemos depreender desse declínio continuam nos colocando a trabalho e provocando nossas investigações.  Vinte e dois anos se passaram e estamos às voltas com o declínio do viril!!!!

Sérgio de Mattos inicia o Editorial da revista da seguinte forma: “O declínio do viril, isto é atual! O fenômeno se ouve hoje na queixa de muitas mulheres – não existe mais homem em…’.”

O que significa esse “não existe mais”? Não quer dizer de forma alguma que este é um mundo sem homens, mas que existe uma perda, na condição masculina, diante das manifestações atuais da transmissão simbólica do falo. “Há algo de inquietante no tornar-se homem”, segundo Jésus Santiago.

O que é o desaparecimento do viril no mundo? De acordo com Miller é o que resta da fórmula da sexuação masculina se a parte esquerda da mesma for suprimida. A consequência dessa supressão é o “todos juntos” ou o “todos iguais”. Como a assunção do viril exige a exceção que, não somente confirma a regra, mas lhe dá fundamento, o desaparecimento do viril decorreria exatamente do total desaparecimento do “existe ao menos um”.

O que o mito freudiano de Totem e tabu transmite é que um único homem escapa à castração e esse homem pode gozar de todas as mulheres e, por consequência, seus filhos são atingidos pela castração. Ou seja, a existência da exceção do pai fundador possibilita o aparecimento do conjunto dos filhos castrados.

A castração funciona como limite e sustentáculo de uma posição viril para o sujeito masculino. Para que o homem possa ser reconhecido como tal, o tensionamento entre a exceção e a regra provocado pela castração é o preço a ser pago.

E o falo, para que serve?

O falo pode servir para muitas coisas.

O falo só pode desempenhar seu papel enquanto velado. É por isso que o Demônio do pudor surge no momento em o falo é desvelado. Há uma relação estreita entre o falo, a feminilidade e o pudor. Lacan reenvia à função do véu, no momento em que dá essa indicação: “Assim é a mulher por trás de seu véu: é a ausência do pênis que faz dela o falo, objeto do desejo” (Lacan, 1960/1988, p.840).

A clínica da “relação entre os sexos” é orientada pelo falo nos jogos de semblantes, na medida em que o próprio falo é um semblante. O homem protege seu ter, a mulher mascara a falta. Não se deve pensar que “ser o falo” possa ter outro sentido além de ser o semblante e que “ter o falo” seja algo diferente de possuir um semblante. Assim sendo, o falo permanece articulado à negatividade própria do desejo e da castração. O véu ocupa assim, um lugar essencial, na medida em que esconde, dissimula a castração, o próprio véu cobre o nada.

Lacan ilustra a relação entre o falo e o véu no comentário da pintura de Zucchi, Psiche sorprende Amore. Quando Psiquê levanta a lanterna sobre Eros para conhecê-lo, um buquê de flores dissimula o falo de Eros. As flores funcionam como o véu, o que vela o falo como significante e o corpo de Psiquê aparece, no quadro, como a imagem fálica.

O falo, como significante do gozo, semblante do gozo sexual e matriz de toda significação, ocupa o lugar da impossibilidade de simbolizar a relação entre os sexos.

Camilo Ramirez faz um delicioso e inusitado travelling pela história da virilidade trazendo as figuras de homens retratados no cinema. Ele traça uma linha a partir da Segunda Guerra Mundial, cujos heróis masculinos do cinema se mostram cada vez mais marcados por algo que rompe com a harmonia, mantendo relações pouco nítidas com a lei: eles são meio heróis, meio bandidos, são solitários melancólicos, rabugentos mal-barbeados e mal-lambidos que exercem um poder de fascinação intimamente ligado a esse modo de deixar aparecer o peso que arrastam pela existência.

Jésus Santiago nos adverte em seu texto, “Adeus ao pai morto ou clínica da pai versão” que também compõe o Almanaque 20, que há uma sombra sempre presente que faz vacilar os semblantes que davam sustentação às diferenças sexuais, sobretudo aquelas que se alimentavam do valor universal da dimensão paterna. Segundo Jésus, não é possível, nos dias de hoje, escutar o inconsciente pela orelha do amor ao pai e ainda nos dá uma dica preciosa: essa tendência civilizatória, expressa no significante-mestre do “Um-inteiramente-só”, que o sujeito do inconsciente só faz o que lhe dá na cabeça, só faz o que ele quer. Essa expressão “só faz o que lhe dá na cabeça”, dá substância ao autismo do gozo. É nisso que o inconsciente é a política e, ao encarnar a política, ele deve ser lido a partir da pulsão e do objeto perdido, e não mais a partir da identificação ao pai e à lei do amor.

Nos dias de hoje, acompanhamos alguns elementos civilizatórios como o pudor, a vergonha, a moral, a moderação e a medida, associados tanto ao pai como à valoração fálica, perderem em vigor, uma vez que o individualismo contemporâneo escora-se num direito ao gozo e que não fazemos mais tanta questão da função de semblante como barreira. O declínio dos semblantes não oferecem mais uma garantia e um arranjo com o gozo, ou melhor hoje, os sujeitos têm que manejar um arranjo particular com o gozo não regrado pelo falo.” (Réquiz, Gerardo. Falo. In Scilicet: semblantes e sinthoma. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2009, p.117-119).

No lugar de uma lei que regia, temos a incredulidade e a derrisão que atinge todas as formas de autoridade, fazendo proliferar o controle. (Graciela Brodsky: Cinco decorrências da nova ordem simbólica para a direção do tratamento – Opção lacaniana no. 59. Março 2011).

Uma vez que o significante fálico está enfraquecido em sua função de orientar algo do gozo, e sabemos que esse enfraquecimento se generaliza, com a queda do Outro, a queda das organizações verticais de identificações, a ausência de ideais preestabelecidos, torna possível que o sujeito contemporâneo seja lançado na dimensão de um gozo a deriva. Essa deriva do gozo que desarticula os semblantes e que insiste em conduzir os sujeitos – sobre os quais o Núcleo de Direito se debruça – para o pior.

Éric Laurent, numa entrevista concedida à Marcus André Vieira, ao se referir às tentativas de intervenção com os jovens que levam uma vida narco, aposta em experiências intensamente corporais, pela paixão dos grupos de fala, de falarem juntos, de extrair do corpo todas essas palavras, toda essa angústia de viver que os precipitou nesse tipo de solução. É a fala como arma de combate que deve ser praticada. É uma fala que deve também ser carregada de emoção e de afetos, tal como são essas experiências de vida narco.

Deveríamos lamentar o declínio dos semblantes sob o pretexto de que eles ofereciam aparentemente uma garantia a certo arranjo com o gozo? Deveríamos chorar a queda do pai e restaurar sua autoridade para salvar o mundo? Ou se trata mais de estarmos atentos aos múltiplos declínios e modalidades por meio dos quais os semblantes jogam sua partida no que concerne ao gozo?

É nessa via que seguiremos as investigações no Núcleo de Psicanálise e Direito, advertidas de que a fragilização do valor fálico leva a uma ascensão dos “uns-sozinhos” sugerindo uma generalização de todos os seres falantes em posição de objeto que se compra e que se vende reduzidos ao seu valor de uso.

Então, se há um abalo no Nome-do-Pai, como significante que, no campo do Outro, articula o desejo à lei, podemos inferir que quando a ordem paterna é substituída por outra, por uma “ordem de ferro”, os crimes aumentam.

No lugar da significação do falo como desejo, o que verificamos hoje é um excesso de atribuições do falo – um falocentrismo – numa vertente muito mais imaginária do que significante, produzindo assim, um estorvo no sujeito[1], causando embaraços, impasses e, em muitos casos, quando não se tem o anteparo da significação fálica é o próprio corpo que joga a partida violenta de se entregar ao pior.

Como a psicanálise, ou melhor, como nós psicanalistas, podemos manter a distância necessária para interpretar as leis que regem o disfuncionamento de nossa época, no que diz respeito, mais especificamente – nas investigações a que nos propomos no Núcleo de Direito – à queda do falocentrismo?

 

[1] Anotações pessoais a partir da intervenção de Maria José Gontijo Salum no Seminário Clínico no Núcleo de Direito em 18 de maio de 2018.