Núcleo de Investigação Psicanalítica nas Toxicomanias e Alcoolismo 15.09.2015

Núcleo de Investigação Psicanalítica nas Toxicomanias e Alcoolismo 15.09.2015

Corpo e imagem na clínica das toxicomanias

 

Victor Thiago de Aguiar

No dia 15 de setembro Victor Aguiar apresentou sua intervenção intitulada “Corpo e imagem na clínica das toxicomanias”. O ponto de partida do trabalho foi apontar que as temáticas do corpo e da imagem mantiveram importante articulação na psicanálise, como assinalado por Lacan em sua teorização sobre o estádio do espelho e seu papel na formação do eu. O que se encontra em evidência nesse primeiro momento é um imaginário como lugar de gozo, primordialmente escópico e um corpo circunscrito à forma do corpo, à unidade corporal. Miller nos indica que o primeiríssimo ensino de Lacan consiste em opor o par imaginário, inerte, à intersubjetividade simbólica, que é dinâmica.

O Seminário 20, contudo, marca o momento da passagem para o avesso. Desfaz-se, então, a associação simbólico igual a dinâmico. A partir desse momento, o significante não é somente causa do significado, causa do sujeito, mas também causa de gozo. Essa reviravolta repercutirá na compreensão acerca do corpo que passará a ser entendido como substância gozante. Miller comenta em seu curso Piezas Sueltas que o homem tem um corpo que ele não é, ou seja, há uma disjunção entre o corpo e o ser. A leitura do Seminário 23 de Lacan evoca um tensionamento entre esse corpo que “decerto não se evapora”, mas que, por outro lado, “sai fora a todo instante” (LACAN, 2007, p.64). Trata-se de um corpo que carece de consistência, isto é, de uma operação que o possibilite manter-se junto. À essa noção contrapõe-se a ideia, presente no início do ensino de Lacan, de que a imagem especular seria capaz de conferir unidade ao corpo.

O que se esboça a partir do Seminário 23 é uma nova concepção do imaginário definido pela crença de que o ser falante tem um corpo, isto é, o imaginário é o corpo que se acredita existir. O ego é a ideia de si como corpo. Lacan aponta que o que dá consistência ao corpo é a crença, a adoração tida como “a única relação que o falasser tem com seu corpo”.

Em seu texto A teoria do parceiro, Miller destaca que a toxicomania traduz a solidão de cada um com seu parceiro-mais-de-gozar, constituindo-se como um modo de gozar que dispensa o Outro, mas acrescenta que, em certo sentido, o próprio corpo do toxicômano é o Outro. O que está em questão no âmbito das toxicomanias, quando se considera a ruptura com o Outro, não se coaduna com o que está em jogo no circuito pulsional, haja vista que a pulsão só conclui seu arco de gozo passando pelo Outro.

A partir desses pontos, o autor indagou como poderíamos pensar a incidência desse novo imaginário, mais precisamente dessa questão da adoração ao corpo próprio, sem o Outro, na clínica das toxicomanias? Foi lançada uma hipótese para investigação: seria possível aproximar essa tendência do toxicômano de fixar em seu corpo esse gozo autístico com a crença ou a adoração ao corpo mencionada por Lacan no Seminário 23? Ou ainda: Poderíamos conceber o uso da droga como uma via de acesso à consistência corporal? Para estimular o debate foi apresentada uma breve vinheta clínica de um paciente usuário de múltiplas drogas, mas que havia encontrado na codeína sua droga de eleição. Um aspecto marcante desse caso era a forma como o corpo do paciente se fazia presente nas sessões. Algo de sua relação com o corpo se presentificava de um modo nítido durante os atendimentos e isso parecia não se referir unicamente aos eventuais efeitos de intoxicação ou abstinência, nem tampouco parecia constituir-se como a face visível de uma hipotética identificação com o significante “sou toxicômano”. Na discussão levada a cabo após a exposição do texto, o autor apontou que no caso clínico em questão parecia estar presente algo dessa adoração ao corpo assinalada por Lacan, mas enfatizou que não se tratava de uma adoração à imagem do corpo.

Referências:

Lacan, J. O Seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

Miller, J. A. A teoria do parceiro. Escola Brasileira de Psicanálise (orgs.). Os circuitos do desejo na vida e na análise. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000.

______. Piezas sueltas. 1ª ed. Buenos Aires: Paidós, 2013.

Tarrab, M. Las eficacias del psicoanalisis y los nuevos síntomas. In: Salamone, L. D. et al. Lo inclasificable de las toxicomanias: respuestas del psicoanálisis. 1ª ed. Buenos Aires: Grama Ediciones, 2008.

Foto: Paulo Nazareth