Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com crianças 13.05.2015

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com crianças 13.05.2015

Dando prosseguimento ao trabalho do NPPcri, a partir das contribuições preciosas e rigorosas de Suzana Barroso e Paula Pimenta, investigamos o destino da imagem no duplo – nas psicoses e no autismo -, assim como o lugar do analista no tratamento do autista.

Pudemos verificar o quanto a relação do falasser com seu duplo é modalizada, seu estatuto e função são diferenciados conforme os diferentes tipos clínicos. Elas nos demonstraram a partir dos textos apresentados como o duplo especular possibilita a amarração do real e do imaginário conjugando o caos pulsional com uma forma ideal, uma imagem narcísica. Por sua vez, o duplo que angustia revela a presença, no campo pulsional, do olhar como uma instância do supereu. Esse duplo que desperta estranheza ou angustia, revela uma perturbação – um retorno do real no imaginário -, diferentemente do duplo que apazigua o sujeito e produz um júbilo ao fornecer-lhe uma Gestalt do eu. Ali onde no imaginário haveria a delimitação da falta do objeto – do objeto como causa de desejo -, no estranho e na angústia o objeto (a) surge como mais de gozo tamponando a castração. A lógica da imagem especular se ancora nas leis do significante, na articulação estrutural.

E nas psicoses e no autismo, qual a função do duplo?

Vimos que na paranoia o duplo pode viabilizar a suplência do simbólico ao nível do ideal do eu dando consistência ao eu ideal. Na esquizofrenia, ele é uma suplência do imaginário para unir o corpo despedaçado; e no autismo, o duplo real amarra o imaginário e promove uma consistência real do eu.

O duplo no autismo se ancora, portanto, no significante sozinho, real, deixando o autista à mercê de uma imagem que não representa a coisa, mas é colada a ela. Neste sentido, o duplo no autismo não angustia, não perturba o eu, não interpela o eu em sua identidade, nem em sua alteridade. Ele não desconfigura a imagem especular, pois essa não existe.

O trabalho do autista procura, portanto, instaurar um objeto que promova uma certa função especular e possa cernir imaginariamente uma borda que organize as pulsões.

O duplo para o autista pode assim viabilizar a constituição subjetiva, animá-lo libidinalmente e fazer consistir o corpo. É também parte da defesa do autista contra a angústia, um modo de anular o encontro com o Outro como alteridade e possibilitar-lhe uma certa circulação social.

No entanto, o duplo como tratamento do gozo requer um cálculo na clínica, pois sua perda pode levar a um laisser-tomber e o gozo retorna no real do corpo. Assim nos perguntamos: como o analista pode suportar o duplo e ajudar a criança a construir com os objetos um circuito?

Essa questão foi respondida pela clínica de Suzana Barroso e Paula Pimenta que nos brindaram com vinhetas clínicas onde pudemos verificar a delicadeza da condução do tratamento em que cada uma é responsável. Vimos como cada uma é um parceiro, enquanto analistas, seja no modo como se dirigem à criança afrouxando a presença maciça do Outro, modulando o olhar e a voz, seja acolhendo o modo como cada criança trata o gozo com o objeto autístico simples, objeto que se apresenta como um duplo real, que tem características de dureza e dinamismo, localizando o gozo sobre si – uma borda -, apesar de manter o autista alheio ao mundo, assim como, por vezes, acaba tendo que ser destruído por conter nele um gozo em excesso. Ou ainda, elas nos demonstraram como o tratamento permitiu a elaboração e o uso de um objeto complexo, objeto que promove a vinculação do autista ao mundo – ampliando seus laços e sua circulação social. Esse objeto complexo ao contrário do simples, suporta a imagem do duplo e possibilita a animação pulsional, permitindo um verdadeiro tratamento das pulsões; trata-se assim de uma borda funcional que subtrai imaginariamente o gozo e liga libidinalmente o sujeito.

Elas nos alertam, esse tratamento se alcança como uma construção do sujeito, não se trata de sugeri-lo no tratamento; é por meio do analista-duplo e de suas intervenções apaziguantes que dizem não a todo Outro do saber e do gozo que essa função do objeto pode surgir.

Cristiana Pittella de Mattos