Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com Crianças 18.11.2015

The great mutation (1942). Yves Tanguy.

The great mutation (1942). Yves Tanguy.

O encontro do NPPcri no dia 18 de novembro de 2015 contou com a generosa apresentação de uma vinheta clínica intitulada, “O corpo e as imagens em um caso com sintomas obsessivos”, conduzida por Ana Maria Lopes.

Trata-se de um sujeito adolescente às voltas com o que Freud denominou como “transformações da puberdade”, para designar, dentre outras metamorfoses, a escolha da posição do sujeito em relação à sexuação e a colocação em jogo de seu próprio corpo. No caso desse adolescente, face às suas transformações corporais e a ausência de resposta diante do seu turbilhão pulsional em seu encontro com o Outro sexo, ele passa a ter perturbações na imagem corporal e no pensamento.

A prática bulímica seguida de vômitos, intensificada pelas perguntas dirigidas ao Outro materno, revelam a tentativa desse jovem em regular o seu corpo. A resposta encontrada no Outro não produz um ponto de basta – uma significação que o apazigue -, e sim uma iteração ancorada na certeza de que seu corpo irá alterar. Sem poder significar falicamente os efeitos da puberdade sobre seu corpo de falasser, esse jovem deixa-nos entrever um empuxo à mulher advindo da voz que o insulta. O discurso, importante para aparelhar o gozo numa cadeia significante não ajuda em nada esse adolescente, provocando nele um isolamento, um desligamento do Outro social.

A condução e manejo delicado do caso pela analista possibilitou um comentário muito preciso e rigoroso de Cristiane Barreto que pesquisa, atualmente, em seu mestrado o tema da neurose obsessiva.

Cristiane Barreto destacou algumas manifestações clínicas que haviam sido diagnosticados como TOC, por ocasião do encaminhamento do adolescente à analista, e que supostamente poderiam indicar a presença da neurose obsessiva, para em seguida ressaltar sua atipia. Corroborada pela escuta precisa da analista, que em seu relato clínico, ressalta a incidência do gozo opaco em relação ao sentido e a resistência ao discurso prevalecendo sobre o sintoma desse sujeito, Cristiane Barreto evidenciou os seguintes pontos:   

. O sujeito não demonstra um conflito sexual entre a moção pulsional e a moral.
. Seu Outro é vivo e tem acesso a todo saber, e não um Outro mortificado como no caso

do obsessivo. O Outro goza a partir desse saber que se impõe para o sujeito tal como um automatismo mental.

. A Bulimia e o “esvaziamento do corpo” são uma tentativa malograda do sujeito em produzir uma extração de gozo e separar-se do Outro materno.

. A contabilidade do gozo pela qual esse sujeito se encontra submetido, não lhe serve para evitar o desejo e encobrir a hiância da castração, mas sim para construir um corpo.

A castração portanto, aparece para esse jovem no real, indicando uma regressão tópica ao imaginário. O jovem tenta, com sua prática alimentar, amarrar o seu corpo que se desorganiza em um momento que é convocado a sustentar uma posição viril, pela impossibilidade do órgão se apropriar de uma significação fálica. A intensidade e tonalidade desses fenômenos, revelam a ênfase no tratamento de uma psicose discreta advinda da foraclusão do falo e do Nome-do-Pai (φ0 e de P0), que se dirige não para uma segmentação dos sintomas que poderiam responder a uma determinada classificação, “mas para o valor de uso que cada um deles possui como tentativa de tratamento do furo do real ameaçador e insuportável”.   Ou seja, apesar da recusa do Outro poder se apresentar na neurose e na psicose, é na dependência como cada sujeito se serve da linguagem para se defender do real, que se revela um dado de estrutura.

A leitura da vinheta clínica feita por Cristiane Barreto em seu comentário valoriza os pontos das intervenções da analista, sobretudo uma de grande valor, em que Ana Maria Lopes faz uma escansão no nome de gozo desse sujeito (S1), e a partir de uma modulação em sua voz, algo se opera do lado do sujeito permitindo a ele outra solução, para além da pura pulsão de morte.

Dessa forma, inauguramos nessa rica noite de trabalho que envolveu os aspectos clínicos da adolescência na contemporaneidade, o tema que será investigado pela Seção Clínica do IPSMMG, no primeiro semestre de 2016.

Andrea Eulálio Ferreira e Cristiana Pittella de Mattos