Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com crianças 27.05.2015

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com crianças 27.05.2015

AS PERTURBAÇÕES DO IMAGINÁRIO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

 A Seção Clínica do IPSM-MG ao propor o tema: As Imagens na clínica e nas instituições: ver, fazer, mostrar, em consonância com a temática a ser trabalhada no VII ENAPOL: O IMPÉRIO DAS IMAGENS, vem orientando os seminários do Núcleo de Pesquisa de Psicanálise com Crianças, evidenciando assim o aumento da influência das imagens em todas as esferas da vida cotidiana e, mais especificamente, na clínica e na prática institucional com crianças.

A partir da questão: Como podemos tratar pela via da palavra aquilo que se apresenta sob o domínio das imagens? Teresa Guabiroba reflete sobre o tema apresentando depoimento de sua prática numa instituição de Educação Infantil, enquanto psicóloga desta instituição. Em seu contato com a comunidade escolar (alunos, professores e pais), Teresa se depara que, cada vez mais, “a forma como a sociedade do espetáculo está utilizando as imagens”, acarreta “perturbações e consequências para os sujeitos em formação”.

Fatos do cotidiano escolar são interpretados pelos pais, a partir de imagens gravadas no celular, completamente descontextualizadas e, o que é mais grave: desconsiderando totalmente a fala da criança a respeito destes fatos! Também a demanda de alguns pais demonstrada de uma maneira incisiva, “para que a escola instale câmaras nas salas de aula com o intuito de filmar as crianças durante as atividades, para que os pais possam acompanhar o que elas fazem de perto”, demonstra como o domínio das imagens tenta estabelecer uma nova ordem simbólica.

Apresentando alguns fragmentos, Teresa Guabiroba nos revela os impasses e embaraços que surgem no cotidiano escolar e como ela, na função de psicóloga, prioriza a escuta da fala das crianças, com o cuidado de não interpretar e nem dar sentido, o que evidencia uma não “psicologização” em sua prática.

A partir deste depoimento, Andréa Eulálio e Teresa Facury constatam como o imaginário perturba esta instituição e de que maneira ele se manifesta nas crianças e nos pais e buscam em Freud e Lacan uma fundamentação teórica que possibilite a interpretação desta prática institucional diária. A imagem da escola como lugar de transmissão e formação dos ideais, dos valores e da cultura, que se dá a partir de um vínculo com o saber, encontra-se hoje distorcida pelos flagrantes confrontos e embates, que vão muito além daqueles próprios à construção e à transmissão do conhecimento.

Ao desconsiderar as dimensões do particular e do desejo, o discurso pedagógico e sua institucionalização nega o acolhimento e a oferta da palavra às crianças, (…) tornando-se o cenário perfeito para o império do “ver, fazer e mostrar”. Em 1910, Freud já chamava atenção que a escola não poderia se reduzir à sua “função normativa identificadora”, mas a sua tarefa seria despertar a vontade de viver e o interesse pela vida.

Para Lacan, uma imagem não deixa de ter consequências reais e ele evidencia a forte relação entre imagem e real. Mas, a integração da imagem para a criança depende da linguagem, através da presença do Outro. As chamadas perturbações do imaginário dizem respeito a um ponto de falta inerente à relação do sujeito com a linguagem. No lugar vazio aparece um objeto denominado objeto “a”.

O declínio da ordem simbólica, encarnada na figura do Outro, promove o reino da imagem como alternativa à falta daquilo que legitima o discurso e orienta cada um em suas referências de mundo. Constata-se no trabalho com crianças como o desmoronamento da ordem simbólica provoca efeitos singulares na subjetividade, evidenciando sentimentos de angústia em crianças ainda muito novas.

Finalmente, as duas autoras constatam como um trabalho que privilegia a palavra do sujeito possibilita que este mesmo se responsabilize e entre em contato com o que constitui o seu impasse, valorizando a singularidade em oposição a um ideal que valeria para todos.

Maria das Graças Sena