Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com Crianças  29.04.2015

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com Crianças 29.04.2015

O reino da imagem na clínica com adolescentes: ver, fazer, mostrar

“O reino da imagem na clínica com adolescentes: ver, fazer, mostrar” foi o tema investigado por Maria Aparecida Farage e Ana Maria Lopes em mais um encontro do Núcleo de Pesquisa e Psicanálise com Criança, realizado no dia 29 de abril de 2015. A partir de um fragmento clínico, buscou-se pensar as seguintes questões: “Como entender o reino da imagem na clínica contemporânea?”; “Qual a dimensão do ver, do fazer e do mostrar?”; “Como o gozo de modalidade escópica incide na subjetividade da criança e do adolescente nos dias de hoje?”.

As autoras subdividiram o trabalho em dois pontos: primeiramente, pensaram a dimensão do ver e do mostrar segundo o gozo de modalidade escópica que incide sobre o corpo – não um corpo sintomatizado, mas um corpo como tal – e, em seguida, trabalharam a dimensão do fazer, traduzida pelas marcas sobre o corpo do sujeito, como uma inscrição do real de algo que falha no simbólico e que não se engancha no inconsciente.

Para Lacadée em seu livro intitulado “O despertar e o exílio – ensinamentos psicanalíticos da mais delicada das transições, a adolescência” (2011), a adolescência é momento lógico em que se opera uma desconexão, para o sujeito, entre seu ser de criança e seu ser de homem e mulher, e em que surge, de forma inédita, a dimensão do ato na relação do sujeito com seu corpo, como o lugar onde se atualiza o problema da identidade e do gozo indizível. Nesse sentido, através do gozo das marcas corporais – das tatuagens, dos piercings –, que podem chegar a ferimentos corporais deliberados como as autoincisões ou escarificações, o jovem trata o seu corpo, com intensidade variável, ligado a sua história pessoal e à capacidade de seu entorno em lhe oferecer os limites necessários para refrear o gozo. Quando os limites não comparecem, o jovem os busca na superfície desse corpo.

A discussão do fragmento clínico nos permitiu entrever como os impasses do sujeito, ao tentar inscrever-se no discurso familiar, revelam a sua precariedade para se situar no campo do Outro, no campo do significante, onde se dá o encontro com o indizível. Contando apenas com o recurso do traço imaginário, sem mediação, e com os efeitos do real incidindo sobre o corpo, seja pelas autoincisões, seja pelos distúrbios alimentares, o sujeito é lançado no vazio, no nada, na solidão. Cada vazio constitui a marca que deve ser preenchida de forma imperativa em um jogo de fazer, ver e se mostrar, desvelando a dimensão paradoxal do olhar: ao mesmo tempo em que o sujeito captura o olhar do Outro, provoca-lhe também o horror.

Os efeitos do encontro com o analista, pela via do amor transferencial, permitem que o sujeito desloque as intervenções que fazia no próprio corpo para uma nova modalidade do se mostrar, podendo localizar o gozo fora dos cortes no corpo. Com este movimento de utilizar a imagem – mais do que o significante da transferência – para construir o corpo, o sujeito salva a sua pele.

As tentativas de escrituras no corpo pelo viés do ver, do fazer e do se mostrar delineiam a clínica dos novos sintomas, cujo manejo envolve o que parece ser um rearranjo que permita um enlaçamento mínimo entre real, imaginário e simbólico.

Andréa Eulálio