Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com crianças

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com crianças

As imagens na clínica com crianças

 Iniciamos as investigações do NPPcri enfatizando o domínio das imagens na cultura. Em ‘A sociedade do espetáculo’, Guy Debord propõe uma cisão entre o mundo real e o mundo das imagens denunciando que o espetáculo das imagens impediria o acesso ao real. Com Gerard Wajcman delimitamos, ao contrário, a mutação sem precendentes na história de um novo regime do olhar cujo imperativo é: “todo o real deve ser visto”. Trata-se não mais de uma espetacularização do mundo mas de uma big brotherisaçãoSe a criança era um ser antecipado pelas palavras, hoje a criança é vista: o olhar posto na imagem do feto cria a criança. Nos perguntamos: quais os efeitos da presença desse Olho que pretende ver tudo, na vida, no modo de satisfação e na produção dos sintomas contemporanêos? como o gozo de modalidade escópica incide na subjetividade da criança e do adolescente nos dias de hoje? como algumas mães ajudadas pelas tecnologias e pelo mercado encarnam hoje esse olho?.  A proliferação da imagem serve à tentativa de eliminar a cisão estrutural do sujeito fazendo crer que por meio das imagens seria possível um domínio do real. Cabe à investigação clínica localizar como cada um resiste e/ou faz uso da oferta das imagens.
Em seguida, investigamos as imagens para a psicanálise. Com a formulação do estádio do espelho verificamos o poder real de uma imagem para o ser falante. Diante do caos pulsional ele tem que construir seu nó, sua realidade e seu corpo. O laço entre a imagem e o real se realiza a partir do Outro simbólico, constituindo-se simultaneamente o eu, o corpo e o sujeito.  A imagem cumpre a função de tela para aquilo que não  se pode ver. O sujeito faz uso da imagem para tratar o que experimenta de real, de despedaçamento.
Algumas imagens dominam no imaginário pois capturam e condensam o gozo (Miller 1995) as imagens rainhas: o próprio corpo, o corpo do Outro e o falo. Nos perguntamos então se a deslocalização do gozo, presente nas crianças psicóticas, poderia ser explicada pela ausência da imagem rainha.
Verificamos que a imagem embora tenha a função de localizar o gozo, a natureza narcisista da imagem é insuficiente para dar conta das experiências com o gozo.

 Com o avanço do ensino, Lacan restabelece a pulsão no campo escópico como um paradigma do objeto a – olhar -, e resignifica o estágio do espelho. A imagem comporta um vazio que é invisível.  O laço entre o simbólico, o imaginário e o real se faz através das zonas erógenas – boca, anus, falo, olhar, voz -, portanto, pelas experiências de gozo relacionadas ao corpo e não à imagem. Os objetos a quando estão compondo a unidade do corpo com a imagem adquirem um valor fálico, significante; mas quando não pertecem à imagem eles provocam angústia ou horror adquirindo valor de real. Em seu último ensino, Lacan retoma o valor do imaginário como suporte da consistência do corpo e tem a função de manter juntas as peças avulsas.
Que saídas os sujeitos encontram para fazer um corpo? como se utilizam das imagens para amarrar o corpo?
Três vinhetas clínicas animaram a conversação do NPPcri. Na primeira, a análise de uma adolescente permite a recolocação da esquize do olho e do olhar através de um enquadre para o olhar via fotografia. Na segunda, a construção de ficções em análise permitiu a uma menina tratar um distúrbio no campo do imaginário produzido pela intromissão no campo especular do objeto a. E na terceira, a análise permitiu a uma adolescente uma solução pelo imaginário após o fracasso do recurso do duplo.   
 
 Cristiana Pittella de Mattos