Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com crianças 26.08.15

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com crianças 26.08.15

A Tópica do imaginário em Lacan

 Autora: Inês Seabra Abreu Rocha

A problemática da constituição do eu está presente desde os primórdios da psicanálise. A partir da leitura dos textos freudianos, relendo o artigo Sobre o narcisismo:uma introdução[1],  Lacan avança suas investigações acerca da subjetividade humana ao elaborar a tópica do imaginário. Segundo Miller (1987) [2] a psicanálise lacaniana nos mostra que o sujeito não existe  previamente, como a linguagem que o preexiste, ele terá que se constituir, Introduzir a dimensão imaginária na experiência analítica foi a novidade do ensino de Lacan.

O Estádio do espelho, que tem a duração entre os seis e dezoito primeiros meses de vida do bebê, foi constituído como um momento revelador: a primeira etapa da subjetivação humana consiste em reconhecer que o “eu é um outro” uma estranha e familiar imagem de si.

Para Lacan (1998) [3] o bebê habitado por pulsões autoeróticas que o fragmentavam, ganhará uma unidade corporal ao se ver no espelho: o que antes era caótico, se torna uma unidade. A imagem que o bebê vê refletida antecipa a noção de totalidade, fazendo com que ele assuma esta imagem como se fosse dele mesmo (ideal do eu). O ideal do eu terá sua matriz na assunção da imagem especular pelo infans e vemos aí surgir também sua matriz simbólica, uma vez que uma operação de substituição deverá ser realizada.

O ensino de Lacan ao incluir a lógica especular, aponta para um paradoxo: o reconhecimento de si terá em sua origem um desconhecimento, a constituição subjetiva implica na inscrição de uma alteridade, ou seja, se inscreve na relação do sujeito com o Outro.

Desse modo, o eu também se torna fruto de uma alienação, pois a imagem assumida não é correspondente à vivência do corpo fragmentado. Ao assumir esta imagem, o bebê ratifica sua dependência ao Outro. Será no olhar do Outro que a criança vai encontrar uma confirmação daquilo que ela vê no espelho. A partir de então, o bebê, com o espelho do olhar do Outro passa a identificar-se com a imagem refletida naquele olhar. Neste período do ensino lacaniano, o corpo se apresenta não como um corpo real, mas enquanto imagem totalizante.

Assim, o sujeito para constituir-se deverá alienar-se em um significante que vem do outro, mas antes, a uma imagem. Essa imagem que é assimilada pela criança será a matriz imaginária do eu, uma forma antecipada e ideal, que será tida como a imagem de si mesmo e irá assegurar a criança pelo resto de sua vida. Portanto, o ser humano está sempre preso e ao mesmo tempo embaraçado por essas imagens constituintes, originárias da fantasia que o sujeito irá construir.

Vemos que o narcisismo durante esse primeiro momento da formalização de Lacan está relacionado à apreensão da unidade corporal que acontece apenas a partir da realização de uma primeira identificação: a assunção da imagem especular. A alienação ocorre desde o início da vida subjetiva. Assim, para todo o ser humano, o reconhecimento de si, do corpo próprio, bem como a aquisição de uma imagem, só poderá ser adquirido a partir do desconhecimento e da alienação.

A lógica especular lacaniana admite a ideia de que antes do símbolo funcionar como um significante ou mesmo como um símbolo, é preciso que ele passe pelo imaginário. Com o Estádio do Espelho aprendemos que o primeiro símbolo do ser humano é uma imago ideal, a imagem especular que é externa e o faz precipitar na forma de seu corpo tanto como eu e também como sujeito. A fórmula “eu sou um outro”, diz da matriz simbólica do eu..

Desse modo, percebemos a importância da fase do espelho para o sujeito, uma vez que ela cumpre a função de instaurar o Outro como lugar simbólico.

Com o auxílio dos esquemas óticos, Lacan conseguiu demonstrar que o corpo do sujeito só lhe é acessível devido a sua posição imaginária diante do espelho.

O psicanalista vai testemunhar a invenção do Outro que irá fornecer as imagens para o sujeito, imagens estas que ele terá que se separar, capturas imaginárias que o sujeito deixará cair no decorrer de sua análise.

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução. Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 14)

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923). Cap.7: A identificação. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, v. 15. p. 60-68.

LACAN; Jacques. Escritos. O estádio do espelho como formador da função do eu. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 96 – 103.

LACAN, Jacques. Escritos. Observação sobre o relatório de Daniel Lagache: “Psicanálise e estrutura da personalidade”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 653.

[1] FREUD, S. Sobre o narcisismo: uma introdução. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v.14.

[2] MILLER, J.A. Percurso de Lacan. Conferências Caraquenhas. 1987.

[3] Idem.