Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com Crianças 07.10.2015

Pregnant Woman. Louise Bourgeois, 2009.

Pregnant Woman. Louise Bourgeois, 2009.

O tema da imagem e do corpo na relação mãe e filha foi trabalhado dia 07 de outubro por Cristina Drummond e Andréa Eulálio no NPPcri,  evidenciando a relação que um sujeito tem com seu corpo e com o gozo feminino a partir do conceito de falasser.

A importância desse tema revelou-se com o material trazido pelas colegas. Verificamos como o corpo que a imagem não encobre pode se desamarrar no encontro com o real, em distintos momentos da vida de um sujeito, e o ilimitado do gozo devastá-lo. 

Desde a Conferencia de Genebra sobre o sintoma,  Lacan sublinhou que o fundamental no sintoma de Hans não é a articulação significante, mas o encontro com o gozo sem sentido que invade seu corpo. Essa leitura não invalida a anterior que elucida o valor estabilizador de sua fobia, mas permite apreender que a saída de Hans na partilha sexual implicou uma relação com o gozo feminino.

Para Freud, a mãe é definida como Outro primordial ao qual a menina está inexoravelmente ligada e, para Lacan, ela pode ser uma devastação para a filha. Os semblantes fálicos que a menina encontra do lado do pai não drena todo o campo pulsional da mulher. Para além da castração e da falta fálica, é da mãe como mulher que ela espera mais substância que do pai; por isso a menina continua insistindo em resolver a questão da feminilidade pelo lado da mulher, esperando algo de alguém que é tão insubstancial e afetada quanto ela. O que é devastador é assim esse endereçamento e espera.

Interrogar sobre o que é uma mulher e tornar-se mulher são duas soluções distintas: histeria e feminilidade são dois modos diferentes de se posicionar em relação ao falo.

Pudemos apreender o quanto a devastação é um dado de estrutura, situada no campo da relação entre o sujeito e a mãe detentora dos poderes da palavra. Há uma linguagem privada entre a mãe e seu bebê, que Lacan denominou lalíngua: língua materna que deixa traços, marca a carne e permanece no registro do real. Diferentemente da linguagem articulada segundo as leis do significante – do NP -,   ela é composta pelo ruído enigmático e ilegível do gozo materno.

Andréa Eulálio remarca que, embora mãe e filha portem imagens semelhantes – o que lhes dá uma ideia de proximidade corporal e cumplicidade na experiência feminina -, a semelhança feminina entre a mãe e a filha é ilusória. Não há identificação resolutiva possível que dê suporte e alicerce ao corpo sexuado da mulher, a devastação faz cair a suposição de que a mãe possui um princípio de escritura de sua feminilidade passível de ser transmitido à filha.

Finalizamos o encontro delimitando em três casos clínicos, os efeitos da devastação na filha – a partir do silêncio, do insulto e da rejeição do Outro materno -, e o  tratamento singular dessas marcas de gozo no encontro com um analista.

Convidamos cada leitor do Portal Minas com Lacan a ler o texto apresentado por Andréa Eulálio – fruto de sua dissertação de mestrado -, a ser publicado tão logo no Almanaque On line!

Cristiana Pittella de Mattos