Núcleo de Psicanálise com Crianças 17.06.2015

Núcleo de Psicanálise com Crianças 17.06.2015

Imago materna: o que quer uma mãe hoje?

O encontro, sob a responsabilidade de Cristina Drumond e Rogério Paulino, aconteceu no dia 17 de julno. Foi a partir de uma citação do livro O Sono, de Haruki Murakami, na qual uma mãe se dá conta de que seu amado filho pode lhe parecer, por momentos, alguém que lhe é estranho, que Cristina situa a diferença que existe para cada mãe, de forma particularizada, entre a criança esperada, imaginarizada e aquela que se apresenta ao nascer, com o real de seu corpo vivo, que  ainda lhe é desconhecido. Esperaríamos que as imagens realizadas como necessárias segundo os protocolos médicos, durante o processo gestacional, modificassem o elemento discordante entre a criança imaginária  e a criança real em sua chegada ao mundo, aos olhos da mãe? Certamente nem se discutiu entre nós se o conhecimento prévio do sexo da criança modifica o elemento surpresa – menino, menina? – pois o encaminhamento da questão concluia que, por vêzes, ultrassons e outras imagens requeridas pela ordem médica tomam a forma de “uma invasão do real que reduz o feto a um organismo, um conjunto de carne e ossos”. Portanto, não se assegura que tais imagens prévias sejam elementos de simbolização da criança a nascer, para sua mãe. Nesse sentido, sabemos que cada criança é um filho adotado e, por sua vez, tal como Freud nos explicou em seu romance familiar, cada criança adotará seus pais, independentemente de que a filiação seja biológica.

Se, em seu tempo, Freud pode afirmar que a mãe é certíssima (o pai, incerto), agora os álbuns de família não comportam tantas imagens de mães, nomeadas conforme as modalidades de acesso à procriação oferecidas pelas técnicas da ciência e os consequentes e necessários arranjos jurídicos para a regulamentação atual dos termos familiares. Se recordamos tão brevemente tais questões foi para destacar o quanto nos servimos, junto aos comentários realizados por Cristina, das vinhetas clínicas apresentadas por Rogério, alinhadas por uma característica comum: eram situações de crianças adotadas ou que remetiam à questão da adoção. E aquelas mulheres que os adotaram, converteram-se em mães? Ou seja, é suficiente aspirar ao estatuto de “mãe” para sê-lo? Qual o lugar da criança, em cada vinheta, no desejo da mulher que a toma em adoção? Cristina tece seus comentários em torno dessas questões, localizando os termos gozo, desejo, fantasia e objeto.

Pelos fragmentos clínicos trazidos para o trabalho da noite, nenhuma imagem da criança magnífica, adotada como passível de completar a falta daquela que “não tem”, tampouco a imagem magnífica de uma mãe completa, se sustentaram sob o véu imaginário da harmonia. Os sintomas se manifestaram como rasgadura do véu.

Os presentes ainda tiveram a oportunidade de conversarem sobre a formulação – a ser desdobrada, certamente, em futuros encontros – de Cristina: Se Lacan trabalhou longamente em seus seminários 4 e 5 a separação entre mãe e mulher, ele foi aos poucos trazendo uma outra perspectiva que é aquela do ser. O que surge aqui é “não apenas a mãe para um sujeito, diz Christiane Alberti, mas a posição «ser mãe»”

A evocação que essa questão me traz, até o momento, diz respeito ao fato de que não basta ter um filho, dar à luz para “ser mãe”: a posição “ser mãe”, digamos assim, é da ordem de múltiplas funções junto àquele que nasce, porém, essencialmente, seria a de incarnar um Outro, um Outro que dá passagem à demanda, ao desejo , ao gozo e que transmita a língua materna. Parece-me indicativo dessa questão o recorte que faço do texto de Cristina:De fato, a psicanálise nos ensina que não há instinto materno e que ser mãe não tem nada a ver com a biologia. Além disso, as antigas identificações que pareciam dar lugar e consistência à mãe, veem a mãe reduzida no contemporâneo a não ser mais que um nome, um significante que tende a “irrealizar o corpo que ele designa[1].

Maria Rita de Oliveira Guimarães

[1] Alberti, Christiane, “Introduction”, in: Être mère, Paris: Navarin, 2014, p. 8.