Núcleo de Psicanálise e Direito 09.06.2015

Núcleo de Psicanálise e Direito 09.06.2015

Pichação: a guerra das imagens no espaço da cidade

“Pichação: a guerra das imagens no espaço da cidade” foi o tema apresentado por Josiane Soares e que teve como ponto de partida o trabalho desenvolvido por ela e Alessandro Santos em um aglomerado de Belo Horizonte em que o Programa Controle de Homicídios Fica Vivo! foi instalado em 2004. Aglomerado surgido a partir da ocupação “autorizada” por representantes governamentais, porém, com a perversidade de ser uma região geologicamente condenada para habitação, considerada área de risco e marcado desde o início da sua constituição pela guerra e disputa territorial.

É neste contexto que o Fica Vivo! se instala e colhe as consequências desta constituição equivocada e politicamente perversa. Uma comunidade marcada pelas divisões territoriais, rivalizadas em seus espaços delimitados por estas guerras. Uma praça, símbolo desta rivalidade, marcada por depredação, pichação e sem interesse do poder público por transformá-la de fato em um dispositivo público que pudesse ser apropriado pela comunidade, foi a escolhida da comunidade para sofrer a intervenção desta política de prevenção que estava chegando e se instalando neste território.

Josiane relata que foi programado um dia de evento para a inauguração desta nova praça. Além das intervenções urbanísticas realizadas pela prefeitura (instalação da pista de skate, restauração de bancos e equipamentos de ginástica) aconteceram apresentações de oficinas do programa como dança-de-rua, música e um novo grafite marcando, delimitando um território não mais pela segregação, mas que a partir de então agregasse. Na sequência, a partir de um novo episódio nas proximidades desta praça que não mais passou incólume ou corriqueiro pelos moradores, discutiu-se sobre segurança pública. Triplo homicídio seguido da truculência indiscriminada da PMMG à procura dos autores. Bastava ser morador ou circular nas proximidades deste local. Círculo de debates, reuniões e seminários foram pensados para que situações como esta não se repetissem a partir de então.

Estava inaugurada neste espaço territorial, uma política que ofertasse aos seus usuários espaços de inclusão e circulação na cidade, promovendo laços com estes jovens que antes eram ignorados. Dentre estes vários espaços de ofertas de estabelecimento de laços sociais, as intervenções de grafites sempre tiveram um destaque considerável, já que promoviam uma intervenção visual endereçada ao olhar do outro e podendo, em muitos dos casos, promover uma intervenção entre o que é pichação e grafite. Em uma destas articulações entre Fica Vivo! e o sistema socioeducativo, mais especificamente unidades de cumprimento de medida provisórias, foi estabelecida uma parceria que possibilitasse aos jovens um espaço de interseção entre a privação de liberdade e o meio aberto, considerando ser este momento de acautelamento um momento de “parada”, diferente da “atividade” que os jovens se encontram quando estão em liberdade e consequentemente, mais difícil de serem acessados. Na execução de um destes grafites, dois jovens da mesma região, porém rivais, estavam executando esta atividade quando foram abordados por uma técnica do Fica Vivo! que os acompanhava atentamente e os interrogou sobre esta rivalidade estabelecida por eles no território e quando se dera o início desta guerra. Nenhum dos dois soube responder e devolveram com uma pergunta: “Por que mesmo que estamos em guerra?”

Se pichar a quebrada tem um apelo de “levante” da mesma nem que seja pela segregação, até que ponto este picho pode funcionar como um tratamento da violência? Pichar, grafitar possui um apelo visual, estético, endereçado ao olhar do Outro, com mensagens direcionadas a este destino. Neste sentido, é possível ter tratamento no nível das imagens em detrimento da guerra literal?

Acrescido a isto, deixou-se como possibilidade de continuidade de investigação, interrogar o que conecta estes jovens identificados com a pulsão de morte nesta prática de pichação?

Sugeriu-se a orientação no texto de Miller disponível no link abaixo.

http://minascomlacan.com.br/blog/em-direcao-a-adolescencia/

Josiane Gomes Soares