Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com crianças

Núcleo de Pesquisa em Psicanálise com crianças

Crianças no hiperespaço

Prosseguindo na pesquisa suscitada pelo tema do VII ENAPOL “O Império das imagens”, o NPPcri contou com a contribuição de Lúcia Mello e Cristina Vidigal para colocar em discussão a pregnância das imagens, conforme constatamos hoje na clínica com as crianças e adolescentes. Em um texto intitulado “Crianças no hiperespaço”, as autoras partiram da interrogação sobre as implicações da onipresença da imagem no modo de satisfação destes sujeitos, ou seja, na produção dos sintomas, tais como eles se apresentam na atualidade. Uma primeira hipótese é que esta invasão maciça do virtual na vida destes jovens estaria na base tanto de um comportamento marcado pela inércia, pelo mutismo ou, em outro extremo, por um excesso de atuações.

Para entender melhor essa prevalência do virtual e como ele afeta os sujeitos que nele se mantém imersos, as autoras recorreram à teoria lacaniana sobre o corpo, na busca de elementos que pudessem clarear o que seria hoje esse “poder de penetração das imagens”. Para tanto, elas privilegiaram as declinações produzidas nesta teoria pela incidência dos três registros, imaginário, simbólico e real:

“a realidade virtual parece induzir acontecimentos de corpo e de linguagem, operar como novo ordenador no lugar do simbólico, remodelar os corpos pela ditadura do mais de gozo, produzir novos estilos de vida, novos vícios, além do embate estabelecido com a narrativa, com a história ficcional ou descritiva colocada em palavras, que ocupara, até então, um lugar preponderante na história da humanidade”.

Dito de outro modo, essa pesquisa tomou como ponto de partida pensar sobre os efeitos da fragilização do campo simbólico própria à nossa época e, dentre eles, destacar uma nova função do Imaginário como ordenador do real.

Neste percurso, as autoras tomaram como referência as escansões feitas por J.-A. Miller no ensino de Lacan para destacar a prevalência de cada um dos três registros ao longo de sua obra.

Deste modo, os seis primeiros seminários de Lacan têm, no campo do imaginário, sua principal referência, dando destaque à conferência “O Simbólico, o Imaginário e o Real”, de 1953.

Entretanto, como demarca Miller, haverá um segundo tempo no qual a predominância do registro simbólico se faz notar. Por exemplo, no período compreendido entre 1953 e 1964, Lacan irá relativizar o estádio do espelho, subordinando-o à ordem simbólica. A alienação anterior à imagem é substituída pela alienação ao Outro da cadeia significante como primeira operação de causação do sujeito. É o tempo do esquema óptico cujo pivô é o Ideal do Eu regulando as relações entre o sujeito e sua imagem. Nesse contexto, o imaginário passará a ser caracterizado pela inércia própria à fixidez libidinal ou “por sua natureza de sombras e reflexos”.

A questão que emergiu nesse ponto derivou da afirmativa de Miller : “no desastre do simbólico perdura o imaginário do real”. Neste caso, elas se perguntam, se a natureza do imaginário, sua inércia, é tributária tão somente de sombras e reflexos.

Para buscar respondê-la, elas se valeram de um comentário de Ram Mandil no qual ele delimita os distintos momentos da constituição do corpo na doutrina lacaniana: de acordo com as elaborações presentes no estádio do espelho, o corpo provém de sua imagem; em seguida, ele é repensado pelo esquema óptico no qual o sujeito só se vê no espelho a partir de um ponto simbólico situado fora da imagem, isto é, de um lugar onde lhe é dada a significação de sua imagem. Outro momento se encontra no seminário A Angústia no qual Lacan toma o corpo das zonas erógenas, do autoerotismo, constituído pelo corpo pulsional fragmentado e um segundo corpo como imagem real, refletida no espelho. Para além destes haveria um terceiro “que se projeta por trás do espelho plano, por meio do qual esse conjunto heterogêneo é transposto para o campo virtual, dando origem ao corpo imaginário”. Nesse terceiro tempo das elaborações sobre o corpo, Lacan introduz outro elemento: o olhar como objeto da pulsão ou objeto a. Ele destaca, na experiência do espelho, o encontro com este ponto não especularizável, ponto cego, o (-), correspondente àquilo que do real não se converte em imagem. Parte da libido, observa Lacan, não é investida na imagem ou na ilusão de i(a). Há um lugar deixado vazio aonde virá se situar o objeto a. É deste modo que, o corpo, capturado pelo olhar nesta montagem de i(a), pode ser percebido como uma unidade enquadrada pelo Outro.

A formalização progressiva do objeto a irá destacar a importância de sua extração do campo do Outro para pensarmos as estruturas clínicas. Sua extração resultará na incorporação do corpo simbólico e na inscrição no discurso, tal como ocorre nas neuroses. Assim o objeto a se coloca no cerne da experiência analítica e, por conseguinte, o poder das palavras, cede lugar à escritura, à letra, ao traço.

O período orientado pela topologia, pelos diversos enlaçamentos entre os três registros, colocará o real em evidencia. Nessa nova perspectiva, o sujeito não é apenas efeito da cadeia significante: o nó borromeano passa a ser seu suporte. Nesta via orientada pelo real, o significante não é mais causa da mortificação do gozo. O que se destaca é o corpo vivo, afetado pelo gozo e seus efeitos. Este Um-corpo, corpo de gozo, passa a ser, afirma Miller, a única consistência do ser falante, algo bem distinto do corpo unificado do estádio do espelho. E Miller ainda enfatiza que o laço com esse Um-corpo não se faz por meio do simbólico, mas pela via do imaginário: a adoração do Um-corpo torna-se a raiz do imaginário.

Em suma, este rastreamento da ideia de corpo em Lacan, tomou como ponto de partida o diálogo entre o sujeito e o Outro até o monólogo do Um sozinho, o que nos permite ampliar a noção de gozo. Ele passa a incluir os acontecimentos de palavra e de corpo próprios ao conceito lacaniano de falasser, que implica a indissociabilidade entre sujeito e gozo ou entre significante e corpo.

Essa mudança de perspectiva em Lacan permite afirmar que “Há um” como corolário do axioma “Não há relação sexual”, manifestando assim a contingência do que concerne a cada um. Se a clínica psicanalítica contemporânea não pode prescindir do diálogo do sujeito com o Outro ou, em outros termos, se ela passa pela narrativa que permite cernir os significantes que marcaram cada sujeito, não há, porém, como desconsiderar a clínica orientada pelo real. Esta última, em consonância com a nossa época, na qual o objeto a esta em posição de comando, é uma bússola indispensável para a abordagem dos novos sintomas caracterizados pelo rechaço do Outro e do saber. Tomá-la como referencia significa levar em conta as amarrações feitas por cada falasser no que concerne aos registros simbólico, real e imaginário. Desse modo, abrem-se possibilidades para avançar diante dos impasses que encontramos hoje na clínica tais como as novas parcerias de gozo com os objetos ofertados a partir do casamento do discurso capitalista com a ciência, parceiros estes que dispensam a parceria com o analista. Como um dos fragmentos clínicos apresentados nos permitiu perceber, eles têm por função fazer calar os sintomas, ou ainda, apagar os vestígios do encontro traumático do corpo com a língua, ocultando a condição de sujeito em proveito de corpos capturados pelo mais de gozo.

Patrícia Ribeiro