Núcleo dePesquisa em Psicanálise com crianças 03.06.2015

Núcleo dePesquisa em Psicanálise com crianças 03.06.2015

O TRATAMENTO DO OLHAR PELA VOZ

O Núcleo de Psicanálise com Crianças se reuniu para conversar sobre a apresentação de pacientes realizada no CAPSI no segundo semestre de 2014 por Cristina Drummond.

Maria das Graças Sena e Sandra Espinha, a partir do tema proposto, “O Tratamento do Olhar pela Voz”, comentaram o que testemunhamos, naquela apresentação que muito nos ensinou, sobre as invenções das quais uma criança psicótica, uma menina de dez anos de idade, pode se valer para “se defender do real com o simbólico, quando a operação de separação que inscreve o objeto (a) como causa do desejo, na constituição do sujeito, não é efetivada e não se pode operar com esse objeto como semblante”.

Ainda segundo as autoras, o corpo do psicótico não é esvaziado da libido e o sujeito não pode escapar à vontade de gozo do Outro. O corpo e o gozo não se separam. O gozo não se encontra localizado em uma construção fantasmática e desloca-se à deriva.

O comentário teórico teve como ponto de partida a frase de Lacan, extraída do Seminário 23, o objeto (a) “é apenas um único e mesmo objeto”, reafirmando assim, o caráter de consistência lógica e de semblante que esse objeto passa a ter a partir do Seminário 20.

Na neurose, a extração do objeto (a) confere à realidade o seu enquadre e localiza o gozo em uma construção fantasmática que liga o sujeito à causa da sua divisão (S<>a). Na psicose, por sua vez, o objeto (a) não é extraído do campo da realidade e retorna no real. A psicose é a estrutura clínica na qual o objeto não é perdido e o sujeito o tem à sua disposição, no bolso, como diz Lacan.

A partir de sua experiência clínica com as psicoses, Lacan completou a lista freudiana dos objetos acrescentando-lhe os objetos voz e olhar. Esses objetos “manifestam-se sob uma forma separada, com um caráter evidente de exterioridade em relação ao sujeito”. No lugar da separação do objeto estão os fenômenos psicóticos do corpo, a não subtração do objeto (a) é correlativa à sua multiplicação: a voz e o olhar invadem o campo perceptivo.

Ao perceber as estratégias da paciente para evitar o olhar invasivo do Outro, a intervenção da entrevistadora ao dizer “eles não estão aqui para olhar, mas para escutar” propiciou um saber-fazer com esse afeto de vergonha que se manifestou durante o início da apresentação, favorecendo as estratégias desse sujeito de separar-se do lugar de objeto que esse olhar convoca. Quando não se pode recorrer ao véu do pudor, que esconde a falta fálica, surge a vergonha: afeto que denuncia a presença do olhar que não se vê e o surgimento do gozo escópico ligado ao supereu que vê, julga e condena.

Assim, ao longo da entrevista, identificamos os artifícios dos quais a menina se valeu para se proteger desse olhar invasivo: se posicionar de costas para o público ou mesmo usar o desenho como um escudo que fazia as vezes de um véu sob o qual a criança podia se esconder, modo de se defender face ao horror de se ver reduzida a objeto de gozo do Outro.

Foi possível também localizar outras intervenções da entrevistadora que favoreceram o efeito sujeito e o tratamento do gozo pela via do objeto voz como, por exemplo, quando a criança dava ordens, cantava, avaliava o desempenho de sua plateia, enfim, tomava a palavra para dirigir-se ao outro e, ao mesmo tempo, dirigi-lo, isto é, mantê-lo atento a seus vários jogos e truques.

Afinal, como nos diz Miller: “Se falamos tanto, se fazemos colóquios, se conversamos, se cantamos e se escutamos os cantores, se fazemos música e a escutamos (…) é para fazer silenciar o que merece chamar-se a voz como objeto pequeno a”.

A introdução de um objeto entre a criança e o público estabelece um jogo de negativização e localização do gozo fora do corpo: canetas são distribuídas para pessoas e a criança as escolhe. Suas cores determinam notas que ela atribui aos participantes. São truques do sujeito psicótico para manter o Outro à distância, simulando essa operação de separação, que não acontece, pela introdução de um objeto que circule entre ele e o Outro e que se separa um pouco de seu corpo e do Outro.

Nessa apresentação, podemos verificar o trabalho incessante da menina uma vez que a relação entre a imagem e o objeto não se processa metaforicamente, não é da ordem do semblante. Não se trata de uma imagem-véu, mas de uma imagem que dá consistência ao vazio, ou seja, a criação de um intervalo entre o sujeito e o Outro.

Foi o que presenciamos: uma menina com gestos e voz um tanto robotizados que pôde cantar, dançar e dar risadas conosco, e que, ao final da apresentação, confessa o efeito que esta teve sobre ela: “Perdi o medo de ficar nervosa”.

Tereza Facury