O que há de novo no Campo Freudiano? Psicanálise do Falasser ou corpo falante (resenha)

Tempescritura: a escrita, (d)o tempo

Christiano Lima
(EBP-MG/AMP)

“Vou longe. Se o senhor já viu disso, sabe: se não sabe, como vai saber? São coisas que não cabem em fazer idéia”. — João Guimarães Rosa, no livro “Grande Sertão: veredas”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

Arnaldo Antunes (imagem retirada do Facebook)

A experiência analítica me fez secretar uma frase enigmática: “Escrever é enfiar o tempo no buraco da palavra”. Uma frase que me ultrapassa. Por isso, pra mim, constitui um tema de pesquisa e o norte de minha fala de hoje. Adianto que o tema do Seminário do próximo semestre também se relaciona com esta frase. Parece-me ter captado algo fundamental que merece ser trabalhado, desdobrado, escrito. É uma pesquisa no sentido forte do termo, pois não sei onde vai levar, onde se chega a partir disso. Sigo o fio do que emergiu na contingência do encontro propiciado pela experiência analítica porque pra mim, hoje, esta é a única pesquisa que importa, a única escrita que merece este nome. Escrever tem necessária relação com o que não se sabe. Aliás, a função da escrita só emerge em articulação com o real em causa. Sempre escrevi a partir de um estado de urgência subjetiva e agora é também o caso. Tentativa de fixar algo que pode escapar no momento seguinte. Claro, já escrevi pro Outro, sob a demanda do Outro, mas não é desta escrita que falo aqui. Isso já traz uma distinção: a escrita articulada ao Outro, à demanda do Outro – quer seja ela a escrita acadêmica, um texto de ocasião para um jornal ou periódico ou uma carta de amor escrita à pedido – difere da escrita do real, que me parece estar em causa em “enfiar o tempo no buraco da palavra”. Esta é uma escrita topológica em que o tempo é concernido.

Para fins de trabalho, proponho tomar de empréstimo de Barthes (2013) o termo escritura para designar esta escrita que tem relação com um “texto-limite”, texto-borda, texto-gozo que se relaciona com o furo no saber. Tentarei manter o seguinte procedimento: o termo escritura será reservado para quando a prevalência é o texto-gozo e escrita para quando o acento estiver colocado na relação do texto com o discurso do Outro, com a demanda e com uma  narratividade que implica outro uso do tempo que não a inserção deste no buraco da palavra. No entanto, advirto, com Barthes (2013): trata-se de margens e não de extremos que não se tocam. O “riocorrente” (James Joyce em Finnegans Wake) da língua produz escritas e escrituras.

Ocorre que uma escrita só se sustenta pela escritura que há nela:

“O brio do texto (sem o qual, em suma não há texto) seria a sua vontade de fruição [(jouissance, gozo)]: lá onde precisamente ele excede a procura, ultrapassa a tagarelice e através do qual tenta transbordar, forçar o embargo dos adjetivos – que são estas portas da linguagem por onde o ideológico e o imaginário penetram em grandes ondas” (Barthes, 2013, p.20).

Assim, a escritura é contraintuitiva, aponta para o que está fora do campo representacional, faz vacilar a estabilidade da realidade enquadrada pela fantasia.

Teremos, ao longo deste Seminário, que trabalhar a relação entre a escrita do ponto de perversão (trata-se de escrita ou escritura? Ou algo que se situa entre as margens da escrita e da escritura? Por enquanto, tendo a pensar na segunda hipótese) e a escritura do real. Este aspecto é central para a pesquisa que pretendo empreender aqui. Por ora, deixemo-lo em suspensão.

Tomemos agora o texto de Lacan (1971/2003) intitulado Lituraterra (Lituraturre), publicado originalmente na revista Littérature e posteriormente compilado em Outros Escritos. Logo na abertura, Lacan adverte que não se trata de um neologismo. É uma palavra dicionarizada que remete à “lino, litura, liturararius” (p.15). No entanto, Lacan a evoca pensando na equivocação colocada em marcha por James Joyce quando este escreve “a letter, a litter”. A troca de uma vogal, faz a carta advir lixo. Deliza-se de carta (letter) para lixo (litter). Lembremos que litter porta os sentidos de liteira, maca, padiola, material usado para absorver urina e fezes de animais, estrume de curral, húmus (em uma floresta, por exemplo), ninhada e lixo.

Para ler o texto de Lacan, devemos manter presente que, em francês, lettre remete tanto a carta quanto à letra. Lacan joga com este equívoco em todo o texto. Aqui já aparece algo que Lacan desdobra anos depois no Seminário 23, de 1975-1976, que tem por objeto o sinthoma quando afirma que James Joyce, sem análise, foi “direto ao melhor que se pode esperar da psicanálise em seu término” (Lacan, 1971/2003, p. 15). Este melhor tem estreita relação com um savoir-faire com a letter/litter, ou melhor, com a letra e o dejeto. Miller (2010) contrapõe a salvação pelos ideais oferecidos pela cultura e pelas ideologias à salvação pelos dejetos que seria a marca distintiva da experiência analítica. Joyce alcançou a salvação pelos dejetos a partir de sua escrita, ou melhor, de sua escritura. Aqui já podemos cernir outro aspecto da escritura: relaciona-se com o gozo, com o dejeto, com o que não serve para nada.

Neste texto, Lacan se refere a partir da literatura, ou melhor, da dita história da literatura à questão dos restos. Diz ele: “A questão é saber se aquilo que os manuais parecem expor – ou seja, que a literatura é uma acomodação de restos – é um caso de colocar no escrito o que primeiro seria canto, mito falado, ou procissão dramática” (Lacan, 1971/2003). Este aspecto nos interessa particularmente, pois a história que se acomoda nos manuais implica um modo de acomodação dos restos e de organização do tempo. Surge um passado, um presente e um futuro. Literariamente: a origem, o clássico, o moderno, o contemporâneo e as vanguardas. A questão é que a história fixa um modo de organizar o tempo e faz surgir a ilusão de uma teleologia. É o que Lacan procura denunciar no próprio domínio do que supostamente seria estritamente científico – a biologia – quando afirma que “É incômoda a biologia que tudo dá a si mesma de princípio, notadamente a realidade da adaptação; nem falemos da seleção, esta uma franca ideologia, a se bendizer por ser natural” ( Lacan, 1971/2003, p.18). Parece-nos que é a ideologia que faz supor que são os melhores, ou mais adaptados que sobrevivem. Quando há ideologia, como disse Barthes (2013), a adjetivação (melhor/pior, neste caso) é a porta da linguagem que desemboca no imaginário. Pensar em uma teleologia histórica, metafísica, subjetiva é o avesso da escritura.

Assim, entramos na temática do tempo e no modo de tratamento deste que a temporalidade da fantasia implica. Obviamente, esta temporalidade é herdeira do Édipo. Barthes (2013) capta a estrutura em jogo quando afirma que

“se é verdade que todo relato (toda revelação da verdade) é uma encenação do Pai (ausente, oculto ou hipostasiado), [isso] explicaria a solidariedade das formas narrativas, das estruturas familiares e das proibições de nudez, todas reunidas, entre nós, no mito de Noé coberto pelos filhos” (Barthes, 2013, p.16).

Aqui, quando Barthes fala em revelação da verdade devemos ler que se trata da verdade tal como aparece no campo enquadrado pela fantasia, que implica a crença de que há A verdade e que esta será revelada. Esta crença tem a mesma estrutura do Pai. Para sustentar esta crença é necessário crer na fantasia, crer no Pai, crer na encenação. Por isso, não se pode ver que o pai está nu. A fantasia é o vel que protege o corpo do pai, que precisa se manter recoberto para sugerir que há o momento da revelação. Do encobrimento do Pai, com suas vestes simbólicas e imaginárias, com seus semblantes, depende a sustentação de uma organização da temporalidade a partir da seguinte ordenação: passado (como tempo da origem), presente (como tempo devedor do passado e à espera do futuro) e futuro (como tempo da felicidade e da revelação dA verdade redentora). Esta ordenação está presente tanto nas narrativas religiosas quanto na neurose obsessiva que Freud qualifica como religião particular do sujeito obsessivo. Assim, podemos dizer que a experiência de uma análise é subversiva, trata-se de desvestir o pai, desmontar os semblantes. A análise é um dispositivo de desmontagem da história em que o tempo ganha outra dimensão. A análise é anti-histórica e contraintuitiva. Voltaremos à questão da história e da temporalidade em outra ocasião.

Retomemos o texto de Lacan para situarmos o uso que ele faz da literatura. Critica aplicação da psicanálise á crítica literária quando afirma que o fato de a

“psicanálise estar pendurada no Édipo em nada habilita a se orientar no texto de Sófocles. [Assim como], A evocação de Dostoiévski por Freud não basta para dizer que a crítica dos textos, reserva de caça, até hoje, do discurso universitário, tenha recebido da psicanálise mais alento” (Lacan, 1971/2003, p. 16).

Para Lacan, não se trata de fazer crítica literária a partir da psicanálise como muitas vezes se faz no discurso universitário, mas de verificar o que “a psicanálise tem a receber da literatura” (Lacan, 1971/2003, p.17). A crítica ao discurso universitário e sua confusão característica também aparece no que diz respeito à ideia de origem; Lacan qualifica de universitária a confusão que decorre do fato de se colocar a questão acerca do que vem primeiro: a letra ou o significante? Afirma que não é pergunta que mereça ser colocada, pois desemboca em um discurso confusional. Em nossa leitura, tal confusão decorre de que o discurso universitário, articulado à fantasia, necessariamente pensa em uma temporalidade linear em que há um antes e um depois. Não se pensa, por exemplo, que o acontecimento posterior pode criar sua anterioridade por retroação.

Então, para Lacan, a pergunta é: o que a psicanálise pode aprender com a literatura? Não à toa, evoca o uso que fez em seu Seminário sobre “A carta roubada”, publicado – fora da cronologia dos textos – como abertura de seus Escritos. Neste texto, Lacan faz uso do conto homônimo de Edgar Allan Poe para aprender sobre o que se trata na estrutura colocada em ato pelo significante. Aqui Lacan destaca como a carta (lettre) produz efeitos nos personagens, nos leitores e sustenta o próprio conto de Poe, sem que se saiba nada sobre seu conteúdo. Significante sem significado, sem mensagem, mas que afeta e sustenta um texto. Em 1971, Lacan avança mais quando joga com o equívoco presente, em francês, na palavra lettre:

“É esse o relato bem-feito do que distingue a carta (lettre) do próprio significante que ela carrega. O que não equivale a fazer metáfora da epístola. É que o conto consiste em que se transmita como um passe de mágica a mensagem, com que a carta faz peripécias sem ela.

Minha crítica, se tem alguma razão de ser tomada como literária, só pode referir-se (…) ao que Poe faz, por ser escritor, para compor tal mensagem sobre a carta. É claro que, por não dizê-lo com essas palavras, não é de maneira insuficiente, mas de modo ainda mais rigoroso, que ele o confessa.

No entanto, essa elisão não poderia ser elucidada por meio de um traço qualquer de sua psicobiografia: mais faria ser obstruída por isso” (Lacan, 1971/2003, p.17).

Lacan afirma que o texto de Poe não pode ser elucidado por sua biografia, assim como seu próprio texto não pode ser esclarecido por sua vida. Convida, então, o psicanalista a aprender com a literatura e fazer do recalque uma “ideia menos psicobiográfica” (p.17). Propõe à psicanálise a “lettre comme en soufrance” (Lacan, 1971/2001, p.13) Termo vertido em português como “carta retida”, mas que também remete à letra à espera, em suspensão e também ao sofrimento. Lacan fala que indica assim o fracasso da letra/carta (lettre), ou seja, ponto em que faz furo. Assim, “se a crítica literária pudesse efetivamente renovar-se, seria pelo fato de a psicanálise estar aí para que os textos possam se medir por ela, ficando o enigma de seu lado” (Lacan, 1971/2003, p.17). O que a psicanálise conserva do texto é seu enigma, isso que faz enigma e é com este enigma que a psicanálise deve aprender e não procurar tamponar o enigma do texto com explicações. Lacan critica os próprios analistas por haver entendido mal suas formulações.

Aos psicanalistas, propõe o contraste entre verdade e saber. Afirma que os analistas reconhecem na verdade seu ofício quando, “na berlinda, é pela verdade deles que espero. Insisto em corrigir meu tiro por um saber em xeque – tal como se diz figura en abyme –, o que não é o xeque, o fracasso, do saber” (Lacan, 1971/2003, p. 17, 18). O saber em xeque é o correlato da lettre en soufrance, pois implica a relação do saber com o furo. Não se trata de que o analista esteja dispensado de dar mostras de saber, como se interpretou em um dado momento do ensino de Lacan. Este aponta o contrário, pois o saber em xeque implica que se mostre o que se faz com o furo no saber. Lacan indica que desde os Escritos coloca a instância da letra como razão do inconsciente. Assim, devemos nos perguntar que razão é esta? Letra e inconsciente estão do mesmo lado da fronteira?

À ideia de fronteira que traz colada em si o sentido de que haveria uma homogeneidade entre territórios que só seria diferenciada a partir de uma marcação simbólica, Lacan propõe o termo litoral. Diz:

“Não é a letra …litoral, mais propriamente, ou seja, figurando que um campo inteiro serve de fronteira para o outro, por serem eles estrangeiros, a ponto de não serem recíprocos?

A borda do furo no saber, não é isso que ela desenha? E como é que a psicanálise, se justamente o que a letra diz por sua boca ‘ao pé da letra’ não lhe conveio desconhecer, como poderia a psicanálise negar que ele existe, esse furo, posto que, para preenchê-lo, ela recorre a invocar o gozo?”(Lacan, 1971/2003, p.18).

Destaquemos o que Lacan indica:

1°) A letra como litoral demarca um campo não recíproco de relações. No litoral, ao contrário do que evoca a fronteira, temos campos heterogêneos em articulação, ou seja, substâncias distintas. Relação de estrangeirismo.

2°) A letra é borda do furo no saber. Como borda, portanto, participa dos dois campos que desenha, ou seja, do saber e do furo. Do significante e do gozo.

3°) A instância da letra é razão do inconsciente. Dobradiça entre o saber estruturado como linguagem e furo que implica o real, causa do inconsciente.

No entanto, Lacan adverte que a relação entre letra e significante não deve ser pensada em termos do que seria primário: “Não se impõe o exame desse primarismo, que nem sequer deve ser suposto, mas do que da linguagem chama/convoca o litoral ao literal” (Lacan, 1971/2003, p.19). Se nenhum primarismo deve ser sequer suposto, parece-nos que isto se deve ao fato de Lacan estar pensando em outra temporalidade que não implica um antes e um depois. Esta outra temporalidade, “não autoriza fazer da letra um significante, nem a lhe atribuir, ainda por cima, uma primazia em relação ao significante” (Lacan, 1971/2003, p.19). De fato, não faz sentido perguntar por uma origem, pois seria o mesmo que perguntarmos se, no litoral, o que vem primeiro é a água ou a terra. Não há litoral sem água e terra. Dito de outro modo, não se deve colocar a questão que poderia ser enunciada: o que vem primeiro, o saber, o furo ou a borda? É que não há saber sem furo, não há furo sem borda, não há borda sem furo.

Referências bibliográficas

BARTHES, R. (2013). O Prazer do texto. São Paulo: Perpectiva.
CAMPOS, A.; CAMPOS, H. Panorama do Finnegans Wake. São Paulo: Perspectiva, 2001.
LACAN, J. (1956/ 1998). O seminário sobre “A carta roubada”. In: Escritos: Jorge Zahar.
________. (1971/2001). Lituraterre. In: Autres écrits. Paris: Éditions du Seuil.
________. (1971/2003). Lituraterra. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
_______. (1975-1976/2007). O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
MILLER, J-A. (2010/2011). A salvação pelos dejetos. In: Perspectivas dos Escritos e Outros escritos de Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.