Permutação da Diretoria EBP-MG

Permutação da Diretoria EBP-MG

Henri Kaufmanner

Henri Kaufmanner

Assumir a diretoria da Seção, foi como passar a dirigir um veículo que já se encontrava em movimento. Aos poucos, fomos conhecendo os meandros de sua direção enquanto seguíamos, fazendo o caminho a percorrer. Foi ao longo do percurso que a realidade institucional tornou-se mais clara, e as mudanças, novidades e reparos passaram a ser executados em pleno movimento. Chegou, enfim, o momento de concluir, e ainda em movimento é preciso permutar..

Em um DR de avaliação do XX Encontro Brasileiro, fui convidado a gravar em vídeo uma pequena avaliação do que havia ali se passado. Hoje, a posteriori, percebo que na verdade, assinalei naquele pequeno vídeo,  as prioridades que me acompanharam desde o início e ao longo destes dois anos na gestão da Seção Minas, e que para mim, ao final do XX Encontro ficaram bem mais evidentes.

Primeiramente, a percepção de que caberia a diretoria fazer valer o lugar agalmático que a Seção Minas sustenta em sua história, lugar este conquistado pelo duro trabalho de nossos colegas ao longo dos anos, mesmo em tempos em que predominam as logicas da avaliação e da biopolítica. Nessa perspectiva  causar a transferência de trabalho dos jovens analistas que se aproximam de nossa Escola teria papel fundamental.

Há alguns anos, numa Reunião do Conselhos acontecida em Florianópolis, Eric Laurent, então presidente da AMP, dizia que o que lhe interessava era a aproximação decidida de psicanalistas responsáveis não unicamente pelo trabalho da Escola, mas pela sustentação da causa da psicanálise. Nessa observação há uma sutil diferença que para mim delineia os eixos para a atuação politica de uma diretoria da Escola.

Seguindo com as prioridades, era claro também que precisaríamos atuar no intuito de reforçar os laços da psicanalise com a cidade, avançando em nossas parcerias e na permeabilidade de nossa instituição aos seus problemas. E, como terceiro ponto, seria importante que nossa atuação pudesse, sem abrir mão da orientação do Ensino de Lacan, operar também a partir da especificidade da cultura e realidade social na qual nos inserimos.

Como veículo em movimento, a Seção Minas se faz a partir de um certo automaton. Se num primeiro momento isso parece facilitar as ações mais básicas referentes a seu funcionamento no dia a dia, o problema passa a ser como operar a partir dos furos, dos tropeços deste automaton  para ai inventar, criar, produzir alguma torção em sua direção, respeitando nossa inserção nos movimentos nacional e mundial da psicanalise de orientação lacaniana.

As questões relativas ao lugar da psicanálise no século XXI que reverberam em nossa associação mundial permitiu-nos localizar e trabalhar a partir das especificidades da Seção Minas, inseridos nos desafios desse novo tempo.

Como levar adiante o trabalho da Escola, como zelar pelo seu papel de transmissão e garantia da função do analista, sustentados em seus dispositivos, mas investindo numa estrutura institucional mais leve, mais advertida das novas apresentações da linguagem na contemporaneidade? Como atualizar nossa realidade institucional sem perder o rigor da Ética estabelecida por Lacan?

No transcorrer destes dois anos fomos percebendo que seria possível avançar, ancorados em nossos dispositivos, sem perder a dimensão ética do discurso da psicanalise e neste, a particularidade do lugar que o analista ocupa. O próprio funcionamento da Escola, capitaneado principalmente pelos dispositivos do Cartel e do Passe permitiu-nos esse esforço de invenção de um jeito próprio de fazer valer a psicanálise.

Não podemos desconhecer que as mudanças na cultura e nos sintomas exigem da ação lacaniana reconhecer uma nova realidade, um novo posicionamento diante da queda dos universais, da fragilidade dos semblantes, particularmente, naquilo que diz respeito, ao Sujeito Suposto Saber. Hoje, como já o foi anteriormente, é preciso que o analista se apresente na cidade, em sua função irônica, perturbando as defesas, desmistificando os semblantes e a dimensão religiosa da falsa ciência. O que acreditamos, é que as formas com que esta presença do analista pode se dar hoje em dia vai, muitas vezes, além daquelas com as quais contávamos outrora.

Assistimos a um avanço cada vez maior das praticas cientificistas ou daquelas que se nomeiam como psicanálise, mas que não se orientam pela ética proposta por Freud e Lacan. Muitas das vezes, estas práticas não passam de maquiagens do fundamentalismo religioso. Pareceu-nos importante ampliar os meios de disseminação de nossa peste, agindo para que nossa Seção ganhasse leveza de movimentos, fazendo-se presente em um campo mais amplo, instrumentalizada com as linguagens com as quais na contemporaneidade muitas vezes se “lala”, as vezes se fala e algumas vezes se conversa.

Uma ação política a partir do inconsciente, mesmo em tempos de Parlêtre , convoca-nos a operar num espaço bem heterogêneo e diversificado como os que as novas tecnologias nos oferecem. Se o discurso do psicanalista é o avesso do discurso do mestre, com o avanço do capitalismo e a torção produzida no discurso do mestre por este avanço, há que se apostar na função provocadora do analista, para que sua presença produza um corte nos efeitos do discurso do capitalismo, desfazendo a holófrase do par significante S1S2, enxame de nomeações segregadoras vindas do Outro social, ou permitindo a restauração da ordem de um vazio ali onde os objetos tamponam a divisão do sujeito. O psicanalista, de seu lugar no discurso, é, podemos dizer, um profissional da divisão, e ampliar as possibilidades e os efeitos que a incidência de sua presença é capaz de produzir, mesmo que em alguns momentos isso se de a partir da virtualidade, parece-nos um bom caminho.

Por conseguinte, ocupamo-nos ao longo destes dois anos em buscar contatos com a cidades, permitir uma aproximação maior dos jovens analistas de nossa seção, e também, buscar um acento de brasilidade em nossos temas, naquilo que designo como um Lacan a brasileira, que não é nem ruim da cabeça, nem doente dos pés.

Foi esta direção que nos fez escolher  “Psicanálise e Ciência: o real em jogo” como tema de nossas jornadas em 2013, e, em conjunto com a Diretoria da EBP, escolher Trauma nos Corpos e Violência nas cidades como tema do XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano que se realizou no ano passado. Por esta mesma orientação, optamos por manter na estrutura dos dois eventos o convite a que outros atores não psicanalistas participassem dos mesmos, oferecendo-nos de seu lugar outro, elaborações que nos aliviassem da repetição do mesmo. Lembro, que já no Seminario II, Lacan quando discutia o lugar da psicanálise a partir de suas referências a Doxa e a Epistéme, alertava aos analistas para não se deixarem enganar pelos efeitos de saber, e a decantação do mesmo, que a psicanálise poderia produzir.

Trilhando na direção da cidade, realizamos em parceria com a Estação do Saber, durante nossa jornada, o Encontro de Twiteiros de Minas Gerais. Ali foi realizada e transmitida, em tempo real pela internet, uma mesa redonda composta por alguns colegas de Minas e do Brasil, psicanalistas e não psicanalistas. Esta mesma parceria nos permitiu ao longo de 2013 , uma vez por mês, na sexta feira a noite, levar a palavras dos colegas psicanalistas de nossa Seção e de outras seções da EBP, a um shopping de Belo Horizonte, onde pudemos nos ocupar de temas da contemporaneidade. Obviamente, o engodo do objeto que é o analista não favoreceu a que o referido shopping se interessasse por nosso produto no ano seguinte. Em 2014 buscamos outros contatos com a cidade, e entre estes esforços esta a seção de cinema comentado, em parceria com o cinema 104. Esta atividade é, contudo, ainda incipiente.

Apoiados na ideia de que o artista se antecipa a psicanálise, abrimos espaço para uma presença maior da arte em nossa Seção. A arte toca o real por sua própria dimensão artística. Podemos dizer que desde Duchamps  ela atravessou o espelho da beleza passando a fazer uso dos restos e nos mostrando o estilhaçamento das imagens.  Ampliamos assim, as discussões sobre arte e cultura e suas relações com a psicanálise e criamos  nossa revista digital Derivas Analíticas. Nossa revista de psicanalise, arte e cultura tem ótima qualidade, e encaminha-se para seu terceiro número tendo uma boa visitação na Internet. Além da Derivas, durante o XX Encontro Brasileiro, oferecemos ao colegas e a cidade de Belo Horizonte uma bela é contundente exposição da Artista Leila Danziger, que tinha como título “O Que desaparece e o que Resiste”. Convém assinalar, que durante sua permanência em BH, por mais de 3 semanas, a exposição foi visitada por usuários de diversos serviços de atenção à saúde mental e escolas públicas de Belo Horizonte. Essas visitas foram guiadas por monitores que puderam nos relatar o valor desta experiência.

Ao longo desses anos nossa seção contou com a presença de diversos colegas, psicanalistas ou não, de Minas, do Brasil e do mundo, que permitiram um intenso debate, e diversos eventos extremamente ricos e vivificantes.  Há que se destacar entre outros, as duas Jornadas de Carteis que contaram a sua vez com a presença de Romildo do Rego Barros e Bernardino Horne.

Mantivemos a publicação regular de nossa revista Curinga, sendo que por razões de custo e transparência dos processos, optamos por nos arriscarmos como os editores do próximo numero. Numa primeira avaliação, teremos uma redução de custo de cerca de 30%, isso, com uma melhoria da qualidade editorial. Fica ainda para a nova diretoria, o problema de sua distribuição. Sabemos, contudo, que apesar dos esforços, ainda somos os grandes vendedores de nossas publicações.

Nesse campo, outra experiência importante que tivemos foi o funcionamento da livraria em nosso XX Encontro Brasileiro. Ele aconteceu sob nossa inteira responsabilidade,  sem qualquer terceirização. A Livraria Mineiriana participou como parceira fornecendo-nos uma estrutura de funcionamento, e em troca pode lucrar com as publicações que ela como livraria vendeu. A venda de nossas publicações reverteu-se em lucro unicamente para a Seção.

Nossa XVIII Jornada, Psicanálise e Ciência: o real em jogo, coordenada por Frederico Feu, a quem agradeço, repetiu o sucesso de nossas seguidas jornadas. Com a presença de François Ansermet, pudemos encontrar uma outra perspectiva para trabalhar a partir da psicanalise em sua relação com a Ciência, investindo na angustia do verdadeiro cientista, em sua diferenciação dos místicos da ciência, abrindo caminho para parcerias que não desconhecem que há um impossível em jogo. Para além dos avanços epistêmicos e transferenciais alcançados, a jornada teve como efeito a criação do REPciencia, que trafegando no espaço do recenseamento já estabelecido por Lacan na fundação de sua Escola, aglutina em nossa Seção aqueles que, sendo ou não sendo psicanalistas, se interessam em pesquisar essa interface entre a psicanalise e a ciência, tão presente hoje em dia em nossa experiência.

Realizamos em 2014 o maior Encontro de Psicanalise do Brasil. Com 1200 participantes e toda a riqueza e diversidade que apresentou, sob a coordenação de Fernanda Otoni, a quem mais uma vez agradeço, e a presidência de Marcelo Veras, a quem também agradeço. Creio que o XX Encontro Brasileiro apontou um interessante norte para nossos futuros eventos.  Gostaria também de ressaltar, que em sua organização, além do engajamento de diversos membros da Escola em Minas e no Brasil, tivemos a participação decidida nas diversas comissões de cerca de 50 colegas de Minas Gerais não membros, pelo menos ainda, de nossa Escola.

Na conclusão de nossos trabalhos em 2015, pudemos finalmente levar adiante a ideia de um Portal único na internet para a orientação lacaniana em Minas Gerais.  Anteriormente, o que era produzido em Minas estava disperso em 4 sites. Caberia ao interessado adivinhar onde procurar o que precisava. Mais uma vez, em parceria com o IPSMMG, inauguramos o Portal “Minas com Lacan”. Tal nome surgiu também como intenção de difundir a “grife” “…com Lacan” que já domina algumas publicações do nosso parceiro IPSMMG.

Nosso portal tem u comissão responsável, que na ausência de um nome melhor designamos por enquanto como “Redação”. Cabe a esta Redação manter nosso portal como um espaço virtual atualizado, vivo, e que reflita nossas conversas, nossa produção, nossa agenda e o que mais interesse em termos da orientação lacaniana em Minas Gerais.

Finalmente, na quinta feira passada, inauguramos o uso do sistema Webex nas atividades da Seção. O Seminário de Orientação Lacaniana, desde seu primeiro dia, passou a ser transmitido em ótima qualidade, em tempo real, para outras cidades de Minas Gerais.  O sistema Webex, é interativo, e não somente nos permite a transmissão como também a participação de todos os que assistem.

Para concluir, desejo a Sergio Campos e aos colegas da nova diretoria que assume uma ótima experiência. Como nos últimos meses já vimos trabalhando juntos na transição, pudemos perceber que  disposição não lhes falta.. Destarte, os efeitos da nova diretoria já podem ser sentidos em nossa seção.

Quero agradecer ao IPSMMG. Convivemos nestes dois anos com duas diretorias. Agradeço então a Elisa Alvarenga e Ana Lydia Santiago, respectivas diretoras, a chance de podermos ter sido bem mais que coabitantes.

Agradeço à comunidade analítica da Seção Minas, a poderosa máquina propulsora desse veículo, movida a desejo e Affectio Societatis, portanto “Flex”. Seu impulso não se faz sem solavancos, mas é fundamental, e seguir podendo escutar o ruído de sua propulsão é por demais estimulante.

Finalmente, meu profundo agradecimento a Helenice, Laura e Lúcia. Obrigado por fazerem de nosso percurso, uma viagem que apesar de todo o trabalho e esforço, fez-se sempre com prazer e alegria. Já estou com saudades.

Henri Kaufmanner,  26 de março de 2015