Pontuações sobre a Supervisão por Elisa Alvarenga e Sérgio de Campos

Pontuações sobre a Supervisão por Elisa Alvarenga e Sérgio de Campos

Para Lacan (1967), um princípio de sua Escola é que o psicanalista só se autoriza por si mesmo, mas isso não a impede de garantir que um analista dependa de sua formação. O praticante, por sua vez, pode querer essa garantia, o que o faz ir além, tornando-se responsável pelo progresso da Escola e psicanalista da própria experiência.

Nesse sentido, tomando a supervisão como uma das bases de sustentação da formação do psicanalista, Elisa Alvarenga e Sérgio de Campos apresentam suas considerações, cada um a sua maneira, sobre a supervisão e sua função de “limpeza permanente no lugar do gozo”.

Isabela Silveira

Considerações sobre o passe e a supervisão do “parlêtre”

Elisa Alvarenga

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Elisa Alvarenga

Realizou-se em Paris, no dia 24 de janeiro de 2014, a Jornada “Question d’École”, promovida pela Escola da Causa Freudiana, sobre problemas cruciais da supervisão e do passe. Como dizia uma colega, algo mudou em nossa apreensão da supervisão: o espírito do Witz já não sopra apenas sobre o passe, mas também sobre a supervisão, termo que usamos em português para o que em francês e espanhol se diz “controle”.

Foi uma Jornada voltada para a maneira como se tomam as decisões na Escola e como a Comissão da garantia escolhe os AME. Se a Comissão do passe nomeia os analistas, a Comissão da garantia nomeia os praticantes, sendo a prática da supervisão essencial ao reconhecimento dos AME. No espaço que Jacques-Alain Miller chamou de “ultrapasse”, a supervisão tem como função manejar com o incurável, saber fazer com os restos sintomáticos, lutar contra a mestria terapêutica, desmontar as defesas e manter uma relação viva com o sujeito suposto saber.

O passe do falasser comporta uma parte de satisfação do passante, transmitida pelo passador, que é do corpo. Para além do lugar do des-ser, há o gozo do vivo. É preciso apreender como o passante se desprendeu do seu relato.

A atual Comissão do passe da ECF recebeu, através da secretaria, 34 demandas de passe, das quais 22 foram admitidas no dispositivo. O passe permanece portanto agalmático, com um bom efeito de desidealização.

Nota-se também uma mudança na performance dos passadores, que devem dar sua opinião e desprender-se de suas notas. O passador não tem orientações ou protocolo a seguir, e recebe sua nomeação como uma surpresa, quando é sorteado pelo passante. O passador é uma placa sensível, mas também relativamente limpa de seu próprio gozo, que capta a lógica da cura mas também os afetos que repercutem nele. Sua interposição é essencial para obter um relato que nenhum julgamento universitário permitiria obter.

Os AE nomeados falam da transferência fora de parâmetros conhecidos, cuja elasticidade mostra que os analistas são criativos para relançar e para terminar o tratamento. O sinthoma não é imaginarizável, ou um mero achado significante, mas está enraizado em um real, não equivalente a um S1 que nomeia. É preciso ingenuidade – maneira de crer em sua lalíngua – do passante, para que haja fulgurância na decisão da Comissão.

Por que falar, no que concerne a supervisão, também de “parlêtre”? A maneira como foram compostas as mesas sobre a supervisão nos permitiu ver um tensionamento entre a supervisão dos analistas que já terminaram suas análises e a daqueles que ainda estão em tratamento. No primeiro caso, trata-se de manter-se à altura do real em jogo, em resposta à prática contemporânea da psicanálise, fazendo apelo a um analista suposto mais experiente, numa dimensão de investigação. Quando o praticante ainda está em análise, a supervisão permite, por outro lado, um alívio em relação àquilo que dificulta e impede o ato. Em ambos os casos a supervisão é um modo específico da fala, diferente da associação livre. A fala na supervisão visa o bem dizer do caso, que leva ao falasser e responde à solidão do ato. Há um encontro com a castração, com um furo no saber, separação dos escritos, descolamento da cadeia significante e extração em relação ao sentido.

O ativismo do praticante, ligado ao seu fantasma, pode levá-lo a falar excessivamente a seu analisante. A sua fala deve ser rara para ter o devido efeito. Nesse sentido, a supervisão permite diferenciar o fazer pulsional superegóico do não agir característico do ato analítico, que permite ao paciente analisar-se à sua maneira. Portanto, calar e fazer semblante de objeto a leva o analista a escutar o gozo-sentido.

A principal novidade desta Jornada, a meu ver, foi postular que o analista sinthoma não estaria no mesmo lugar que o analista causa do desejo e verdade do analisante. Ele se separa dos discursos para colocar-se do lado do saber fazer aí do paciente, onde se desfaz de toda ideia de norma. O ato do analista inclui a presença do corpo, o que torna inconcebível a análise à distância. O corpo a corpo é fundamental na análise e também na supervisão.

A experiência da supervisão do ponto de vista do corpo falante inclui os afetos e embaraços que tomam o analista, que leva à supervisão este corpo afetado. O supervisor pode fazer cortes para reduzir estas vibrações, para que o analista se faça ao sinthoma e seja sinthoma do seu paciente. Saber fazer com o acontecimento de corpo recusa o gozo aí em jogo, no limite do incurável. O analista sinthoma evita escutar demais, vibrar, sob o risco de um gozo masoquista e de se fazer maltratar pelo paciente. O encontro da língua e do corpo, puro gozo fora do sentido, pode surgir como a única chave que valha para acolher a singularidade do seu paciente. O supervisor, pelo ato analítico, corta a emoção do analista, que está lá para subtrair a chave do sinthoma. A supervisão é uma limpeza permanente no lugar do gozo, permitindo ao analista sinthoma manter-se no lugar do Um que se reitera, para deixar o paciente ser no que ele tem de mais singular.

Essa maneira de pensar a supervisão me parece dialetizar a separação entre a supervisão durante e após a análise, já que o analista sinthoma não está totalmente livre de seus restos sintomáticos.

Por que a supervisão?

Sérgio de Campos

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Sérgio de Campos

A ideia de estudar a supervisão surgiu na reunião do Conselho da Associação Mundial de Psicanálise, em janeiro de 2014. No que concerne à Garantia, a AMP orientou examinar com ênfase especial nas várias Escolas como está sendo posta a prática da supervisão, ou seja, do controle.

Um rico dossiê sobre o tema foi elaborado pela FAPOL a partir das contribuições de colegas da EBP, da EOL e da NEL. Assim, a supervisão como uma exigência ética e um dos pilares da formação do analista necessita ter o seu debate continuamente aprofundado e ampliado na medida em que a EBP se consolida como uma Escola madura. Em virtude desse fato, o Conselho da EBP propõe que tenhamos uma Conversação sobre o tema da supervisão durante o próximo Congresso da EBP a ser realizado em Salvador, em abril próximo, com o intuito de aprofundarmos o debate dessa prática e colhermos seus efeitos em nossa clínica.

De pronto, coloco uma questão simples e ingênua. Sem perder de vista a análise pessoal e o estudo da orientação lacaniana como vértices da formação do analista, indago: por que a supervisão é um dos três princípios da prática analítica? Excetuando o período de graduação acadêmica, não é comum a prática da supervisão em outras profissões. Afinal, por que o analista necessita e deve recorrer ao controle de sua prática?

Certa vez, escrevi que existem três tipos de analistas praticantes quando eles operam fora de seu discurso. Os que erram, os que erram muito e os que erram sempre. “Os não-tolos erram”. O praticante erra quando flerta com o discurso do mestre, às vezes disfarçado de interpretação freudiana, ao se legislar pelas insígnias do Nome do Pai; o analista praticante erra muito quando coloca a doutrina analítica a serviço de um S2, como agente do discurso universitário no particular da clínica estrutural, assemelhando os casos uns aos outros; e erra sempre quando opera com sua divisão no discurso histérico, nas diferentes formas de ajuda. No entanto, operar com o discurso analítico não é garantia de ausência de falhas ou equívocos. A psicanálise tem no cerne de sua prática o isso falha, ça rate, isso rateia. Miller em “Uma fantasia” ressalta que o rateio na prática analítica se trata de um leimotiv e não apenas de um aspecto contingente, em razão dessa falha atestar a relação do sintoma com o impossível. Assim, o controle é condição sinequanon da boa prática analítica.

O discurso analítico não é natural. Insere-se somente nesse mediante uma “libra de carne” extraída da experiência analítica. O analista errará cada vez menos à medida que adotar estratégias como, por exemplo: recorrer constantemente à supervisão para esclarecer os pontos obscuros que causam impasses na clínica e que, não raras vezes, ele está implicado até o fio do cabelo; depois, se endereçar à Escola para a aquisição do saber, pois não há analista independente dela; e, por último, levar a própria análise tão longe quanto possível. Penso que não há vocação de analista, apenas discurso analítico, que deve ser aferido constantemente pelo desejo do analista e ajustado caso a caso pela supervisão.

No que concerne à supervisão, observam-se pelo menos três circunstâncias no modo de se submeter a essa prática. Na primeira delas, se encaixam os colegas que adotam um supervisor e se submetem de maneira regular a essa prática durante anos e décadas. Esse tipo de supervisão se realiza mediante o acompanhamento a longo prazo de um ou mais casos e se presta à construção do caso clínico ao colocar as claras a lógica da fantasia, ao isolar a queda das identificações, ao circunscrever o sintoma e ao destacar o objeto da pulsão e seu modo de gozo, evidenciando a direção da cura e colhendo o que o caso em questão ensina à psicanálise. Na segunda, juntam-se aqueles que têm mais de um supervisor, por vezes, vários concomitantemente, e que buscam a supervisão nos momentos de impasses na clínica, situações de urgências, de interrupção do tratamento, para esclarecimentos diagnósticos, entre outros. Por último, existem aqueles que se supervisionam com o próprio analista, o que de certa forma, facilita o supervisando se colocar de maneira mais íntima no real do jogo que produz os impasses e a necessidade de um controle. Por vezes, verifica-se na prática da supervisão uma mescla dessas três condições e tampouco poderíamos assinalar que há uma prerrogativa de uma modalidade em detrimento das demais. Com efeito, cada maneira peculiar de supervisão serve a um determinado propósito e a uma específica ocasião.

Ademais, recorre-se à supervisão não raro quando a análise perde sua conotação de honey moon e entra numa aparente estagnação. Em razão da inércia, os efeitos terapêuticos se tornam raros, as revelações desaparecem e as surpresas minguam. Com certa frequência, precipitam-se as interrupções de análise nesse período. Prudência, paciência, perseverança e supervisão nessa hora são sempre bem-vindas. Este é o momento em que se coloca à prova o desejo do analista, visto que dessa posição podem surgir momentos fecundos. À medida que o sujeito privilegia a metonímia em detrimento da metáfora, o real se insere pouco a pouco na análise, evidenciando a repetição que destitui o valor do significante e ocasiona a perda de sentido. A repetição pode se configurar na transferência como um fractal, propiciando os actings out, particularmente, quando o praticante não ocupa o seu devido lugar. Logo, é conveniente que o analista esteja com o seu desejo em dia, afinado pelo controle, pois será necessária certa invenção para perturbar a defesa, operada a partir da sessão curta ou da interpretação como perturbação, com a finalidade de que a tyché venha à luz, pois ela, ao anular o automanton, fornece dinamismo ao processo.

Nos casos onde há estagnação, a supervisão terá a finalidade de esvaziar a contratransferência, de identificar o gozo que faz o praticante resistir, de neutralizar os restos sintomáticos do analista que possam estar interferindo na condução da análise, de polir o desejo do analista e de ajustar a capacidade de invenção do ato analítico, pois o mesmo não se ensina, se controla. Então, é necessário indagar, de acordo com Leonardo Gorostiza, sobre qual dose de saber é conveniente à prática da supervisão para não saturar a fenda da qual brota o ato analítico. Em virtude desse fato, a palavra “controle” realmente se torna mais pertinente e adequada à prática analítica do que supervisão. Aliás, os analistas da ECF, da EOL e da NEL adotam em uso corrente no vocabulário analítico o termo “controle”. Contudo, a nomenclatura psicanalítica do termo “supervisão” encontra-se bem estabelecida entre nós e não creio ser o caso mudá-la.

Análises que são conduzidas por um longo período e se avizinham de seu final, mas que circulam em torno do S(A/) sem jamais consentir com o sinthoma merecem ser investigas sobre qual elemento oblitera a passagem em direção à conclusão. Portanto, a supervisão se faz necessária para que se produza um esvaziamento de gozo no praticante, o que poderá proporcionar um savoir y faire, cujo escopo é promover, do lado do analisante, um deslocamento do inconsciente transferencial ao inconsciente real, com fins de visualizar o destino da letra como resíduo ilegível com o qual se inscreve o sinthoma.

Nesse ano de 2015, a EBP – Seção Minas inaugurará em sua programação uma nova atividade, sob a responsabilidade de Elisa Alvarenga, cujo título será “Arte da supervisão”, e que a princípio contará com quatro encontros anuais. Portanto, fica aí a nossa sugestão para as demais Seções e Delegações.

A guisa de conclusão, o Conselho da EBP orientou os demais Conselhos das Seções para que encaminhem as orientações, que organizem investigações e pesquisas sobre a indagação “por que a supervisão?” junto aos membros da EBP para que possamos a partir da enunciação de cada um, como supervisando e supervisor, experimentar uma excelente Conversação.

Referências consultadas
ALVARENGA, E., Presentation, Relatório da FAPOL, octubre de 2013.
ARENAS, A., Sobre la práctica del control en nuestras Escuelas, La NEL, Relatório da FAPOL, octubre de 2013.
CAMPOS, S., Passema, Testemunhos de um final de análise, Belo Horizonte: Scriptum, 2014.
CAROZ, G., Contribuición al informe de la Garantía, presentado en una reunión de la ECF. Reseña de las reuniones del Consejo de la AMP, janeiro, 2014.
GOROSTIZA, L., El arte del controle, Relatório da FAPOL, EOL, octubre de 2013.
MILLAS, D., Informe sobre el control en la EOL, Relatório da FAPOL, octubre de 2013.
MILLER, J.-A., Uma fantasia, Conferencia de Jacques Alain Miller, em Comandatuba, IV Congresso da AMP, 2004.
VELÁSQUEZ, F., Informe sobre el arte del controle en NEL, La NEL, Relatório da FAPOL, octubre de 2013.
SILVA, R. F., La cuestión de la supervisión toca la garantía, EBP, Relatório da FAPOL, octubre de 2013.
VERAS, M., Supervisão e contingência, EBP, Relatório da FAPOL, octubre de 2013.