Por Jacques-Alain Miller

Por Jacques-Alain Miller

O retorno da Blasfêmia (08/01/2015)
A Ilusão Lírica (11/01/2015)
O Amor pela Polícia (12/01/2015)
O Segredo de Charlie (14/01/2015)
O Perdão das Ofensas (17/01/2015)
Os valores da República (19/01/2015)
“Wolinski, Santo Súbito” (20/01/2015)
Cada qual com sua verdade (23/01/2015)
Dois post-scriptum (26/01/2015)

O retorno da blasfêmia

por Jacques-Alain Miller

 Dizem: “são uns bárbaros”. Sem dúvida. No entanto este terrorismo não é cego em absoluto, tem os olhos abertos, está dirigido. Não é mudo. Grita: “temos vingado o profeta Maomé!”.

No final do século passado imaginavam que conceitos como blasfêmia, sacrilégio, profanação, não eram mais que vestígios de um tempo passado. Nada disso. Temos de constatar que a era da ciência não fez desvanecer o sentido do sagrado; que o sagrado não é um arcaísmo. Sem dúvida não é nada real. É um fato de discurso, uma ficção, mas uma que há que manter unidos os signos de uma comunidade, a pedra angular de sua ordem simbólica. O sagrado exige reverência e respeito. A falta de o que se dá o caos. A certa altura Sócrates foi convidado a beber a cicuta. Em nenhuma parte, nunca, desde que há homens e estes falam, foi lícito dizer tudo.

Exceto na psicanálise, experiência muito especial, explosiva, que está apenas no início. Exceto nos Estados Unidos, mas a liberdade de palavra garantida pela Constituição está limitada por um sentimento muito particular de decência. É assim que a grande maioria da imprensa abstém-se de reproduzir as caricaturas de Maomé por consideração ao “grande sofrimento” dos muçulmanos. O mesmo princípio para o “politicamente correto”. O afeto doloroso salienta que a libido está em jogo aqui. Se o sagrado não é real, o gozo que se condensa aí é. O sagrado mobiliza êxtase e furores. Se mata e morre por isso. Um psicanalista sabe ao que se expõe quando provocamos no outro “o impossível de suportar” (Lacan). Por isso Baudelaire cita Bossuet, “o sábio só ri tremendo”, e atribui ao cômico uma origem diabólica. Ora, qual foi o maior operador das Luzes senão o riso? Maistre fala do “rictus” de Voltaire, Musset de seu “repugnante sorriso”. As doutrinas da tradição não foram refutadas, salienta Leo Strauss, mas expulsas pelo riso.

Charlie Hebdo era entre nós como o testemunho desta irrisão fundadora. Cabu, Charb, Tignoux, Wolinsky, não estavam destinados a serem da partida do cavaleiro de Ella Barre. Desde 1825, ninguém tentou entre nós restabelecer uma lei sobre a blasfêmia. Como é que chegaram a morrer como mártires da liberdade de imprensa? É porque universos de discurso separados e estanques há tempos, e agora mais se comunicam. Mesmo se interligam, enquanto que o sagrado de um é o “nada sagrado” do outro estão em antípodas. À exceção de rebobinar o filme dos tempos modernos a deportar a todas as partes os estrangeiros, a questão – questão de vida ou morte – será saber se o prazer pelo riso, o direito a ridicularizar, o desprezo iconoclasta, são tão essenciais ao nosso modo de gozar como o é a submissão ao Um na tradição islâmica.

Quanto ao debate jurídico, é complexo, e ocupa agora o conjunto das democracias ocidentais (ver sobre este tema o compêndio publicado há três meses pela universidade da Califórnia, Profano: Sacrilegious Expression in a Multicultural Word). Todos os anos desde 1999, se negocia na ONU sobre o tema, com a iniciativa da Organização da Cooperação Islâmica. Na Alemanha, na Áustria, na Irlanda, há leis que proscrevem atentar contra o sagrado. O Reino Unido esperou até 2008 para deixar de proteger a igreja anglicana da blasfêmia. A França se distingue pelo rigor da sua doutrina laica. Por quanto tempo mais? Isto não está escrito. “Hey França! Teu café se derrama”. O que é que realmente você quer mais? Conflito ou compromisso?

Escrito na quinta-feira, 8 de janeiro de 2015, enviado à redação de Le Point às 11 hs; Publicado no número especial do sábado 10 de janeiro.

Tradução de Silvia Baudini e revisão de Cristiane Barreto.

A ilusão lírica

por Jacques-Alain Miller

De Paris, 11 de janeiro de 2015, pela manhã

Quem teria acreditado? Quem diria?

França de pé como um só homem, ou uma só mulher. França que se voltou ou volta a ser uma. A República, Valente, intrépida, elegendo a resistência. Fim da auto-censura! Os franceses saem subitamente de sua depressão, de suas divisões, e inclusive, se acreditamos em um acadêmico, tornaram-se “Os soldados de An II”. Os franceses causando novamente a admiração do mundo. E o presidente Hollande, balançando a cabeça, recebendo com seu aspecto de primeiro comungante a uns poucos homens que têm em suas mãos o destino do planeta.

Por que precipitar-se a Paris desta maneira? Acredita-se que vêm reabastecer e reavivar seu poder, legitimá-lo, dar-lhe lustre. O mesmo planeta quase unido, unânime, tomado por um mesmo estremecimento, como formando uma só multidão, presa de uma pandemia emocional sem precedentes, com exceção talvez do dia da Vitória que pôs fim à Segunda Guerra Mundial, A Liberação de Paris, o 8 de maio de 1945.

França, a humanidade, parece que já não são mais abstração, parecem encarnar-se, encarnar-se frente a nossos olhos, em nossos corações, em nossos corpos. Então teremos conhecido a “a ilusão lírica”. Impossível localizar sem Freud e sua Psicologia das Massas, ou inclusive sua doutrina da cura. O acontecimento produz um corte; reconfigura o sujeito, ou melhor, o faz emergir de uma forma inédita. Contudo, as Bolsas, até o momento, não se moveram, diferente do 11 de setembro. Agora, é isso o que oficia hoje como prova do real. Enquanto elas não registram a sacudida, estamos no imaginário.

Tudo foi posto em movimento por três homens, nem um a mais, que deram sua vida em nome do Profeta. Contudo, para cobrir este entusiasmo universal, não é seu nome mas o de Charlie o que surge em seu lugar. Charlie! Uma página semanal que desde antes que sua redação fora exterminada, já estava agonizando por falta de leitores. O resíduo, o desejo de uma época do humor superado desde há muito tempo. É ali onde verificamos o que ensina a psicanálise, a potência que oculta a função do resto. Charlie morre assassinado quarta-feira; domingo ressuscita. Sua transformação, sua sublimação, sua Aufhebung, em símbolo universal. O novo Cristo. Ou para conservar a mesura, o Here Comes Everybody de James Joyce.

Devemos esse efeito aos três djihadistas, esses cavalheiros do Apocalipse, esses soldados do absoluto. Foram bem sucedidos nisto: aterrorizar, causar pânico em uma boa parte do planeta. Como escrevia ontem em um Twitter esse velho pícaro de Murdoch, “Big jihadist danger looming everywhere fron Philippines to Africa to Europe to US”. Cada um abrigará seu medo e sublimará o ardor atrás do número. O número é a resposta democrática ao Absoluto. Tem peso?

Nenhuma religião magnificou a transcendência do Um, sua separação, como fez o discurso de Maomé. Frente ao absoluto, nem o judaísmo, nem o cristianismo, deixam só a debilidade humana. Oferecem ao crente a mediação, o auxílio de um povo, de uma igreja, enquanto que o Absoluto islâmico não se mitiga, continua desenfreado. É o princípio do seu esplendor. A certeza está do seu lado, enquanto disputam a definição do Judeu, as igrejas protestantes brigam, o Vaticano mesmo é atingido com ditos como o papa tem “um Alzheimer espiritual”. Outro acadêmico intima ao Islã a se submeter à “prova da crítica” para alcançar sua verdadeira grandeza. Com efeito, tudo está ali. Quando as galinhas tiverem dentes…

Quando nos manifestamos, como faremos em algumas horas, nos dirigiremos a uma potência a que se trata de curvar-se. Os cortejos que em pouco tempo vão convergir na praça da Nação, não sabem, porém se preparam para celebrar o amo de amanhã. Qual é? “Porém me dirão, vamos, acabamos de honrar a República, as Luzes, aos Direitos do Homem, a liberdade de expressão”, etc, etc. Acreditam vocês verdadeiramente, responderia ao Sr. Putin, ao Sr. Viktor Orban, aos grandes deste mundo solidários desses “valores”? É muito mais simples, só existe um valor: a ordem pública, manter a ordem. E nisso os povos concordam com eles. O soberano bem do laço social. Não há outro. Se honra as vítimas, sem dúvida. Porém frente ao todo e em todas as partes, se conta com a polícia.

Pobre Snowden! Se queremos ser vigiados, escutados, espiados, se a vida tem que ser a esse preço. Lançam-se em servidão voluntária. Por que digo voluntária? Desejada, reivindicada, exigida. No horizonte, o leviatã, “Pax et Princeps”. Em uma época foi Roma, assinalava há tempos Ronald Syme, ou inclusive os republicanos consideravam como um mal menos “submission to absolute rule”. Houellebecq tem razão neste ponto: a tendência, hoje, contrariamente às aparências, não é a resistência e sim a submissão.

(On line em lepoint.fr)
Texto traduzido por Cristiane Barreto

O amor pela polícia

por Jacques-Alain Miller

 De Paris, noite de segunda dia 12 para terça dia 13 de janeiro de 2015

Sem dúvida, os policiais nunca foram tão festejados em Paris como ontem à tarde. Três dentre eles caídos no cumprimento do dever enquanto protegiam os agitadores de Charlie, assim como seus desenhos e bromas/tiradas. Se lhes agradecia o espírito de sacrifício. Ninguém pensou em imputar-lhes as falhas do dispositivo e os dezessete mortos que resultaram. Agradecia-se, pelo contrário, à instituição policial no sentido amplo, não somente “aos canas/tiras”, mas também aos gendarmes, aos CRS, a todos os agentes dos serviços de informação e de segurança. Sobretudo, contavam com eles para nos garantir frente às exações por vir. Experts de toda estirpe anunciavam com uma razão forçada, que os atentados que virão serão impossíveis de deter. O senso comum assentia. Cada um, valentão ou medroso, se reconhecia, se sentia, um branco em potencial, os judeus mais do que os outros. Quatro foram assassinados na sexta feira enquanto faziam suas compras. Praticavam ou ao menos respeitavam todo ou uma parte do antigo código alimentar sendo que algumas de suas prescrições sem dúvida precederam a Revelação feita a Moisés.

Em resumo, abasteciam-se em um estabelecimento kosher. O certo é que os tweets #JesuisFlic, #Respect pour la police (Eu sou tira, Respeito pela polícia), pareciam repercutir infinitamente na rede social como em uma gigantesca câmara de eco.

Levada pelo mesmo impulso, a geração chamada de 68, a minha, aquela que gritou “CRS SS!” nas ruas da capital há meio século, mudou de lado completamente. Já não se reconhecia. Dir-se-ia que experimentava uma despersonalização, não grave: ligeira, agradável. Um “estranhamento”, para retomar o termo de Gide. “Surpreendi-me, líamos esta tarde no comentário de Libèration, desejando boa noite aos CRS que estacionam seu furgão e vigiam o edifício do Libé. E estive longe de considerar ridículos àqueles que, na marcha, que continuo chamando a ‘manif’, aplaudiam as forças da ordem, as quais não podiam acreditar serem festejadas dessa forma e se entusiasmavam de modo afável”[1]. (Luc Le Vaillan) Afluíam testemunhos dessa conversão à ordem pública.

Penso no Enterro do conde de Orgaz, de El Greco, essa “obra mestra, dizia Barres, com um sentimento árabe e católico ao mesmo tempo”[2]. Ele o resume assim: “É uma composição em duas partes: abaixo, o enterro do senhor de Orgaz; em cima, sua recepção na Corte celestial”. Sim, poderia crer-se que o massacre nos escritórios de Charlie teria sido duplicado, de algum modo, com o massacre metafórico, místico, dos “contestadores” de 1968. Por assim dizer, os kalashnikovs dos irmãos Kouachi haviam “metido-lhes chumbo no cérebro”. Não foi necessário mais que o assassinato sem rodeios dos “até o final” de Charlie para que esta classe da era chamada dos baby-boomers, tão privilegiada, acabe por entrever que seu conforto ou simplesmente sua sobrevivência, devia cada dia à existência e à devoção das forças da polícia que haviam vaiado na juventude. Muitos desses atordoados esperaram envelhecer para conhecer algo dos arcanos do mundo: como se mantém as Cidades, os Impérios, os Estados, o preço que se vincula a ordem, “as revoltas lógicas”, seu caráter efêmero, etc., etc., resumindo, tudo o que Lacan abarca com o nome, “discurso do mestre”.

Na verdade, os ex-contestadores perceberam há tempos, e a Revolução à qual viram uma razão de ser durante um tempo, não era, inclusive para eles, mais que um sonho. Às vezes, em maior grau, uma procuração, uma hipótese. Mas seu universo mental nem sempre estava em dia com a vida cotidiana. Acabam de ser obrigados a um aggiornamento sem delicadeza. Em sua defesa, há que se dizer que a polícia com a qual tiveram que se haver no seu tempo de juventude estava datada de antes do “suicídio francês”. Para retomar a terminologia de M. Zemmour, era uma polícia “viril”, treinada durante a guerra da Argélia. Ela mesma perpetrou em Paris um massacre memorável em 17 de outubro de 1961, antes de provocar no ano seguinte, em 8 de fevereiro, a morte de nove manifestantes franceses, comunistas na estação de metrô Charonne. Se é aceitável relembrar que foram os policiais franceses quem vieram buscar judeus (estrangeiros, como assinalou M. Zemmour) para conduzi-los ao Velódromo de inverno, seriam mais indulgentes com a juventude de 1968, que assimilava um pouco rapidamente as Companhias Republicanas de Segurança (CRS), criadas pelo socialista Jules Moch, às tropas de Heinrich Himmler.

Isto está longe, o tempo passou. O controle social segue agora por vias mais discretas, oblíquas. Salvo na juventude pobre de origem árabe ou africana, o ressentimento com a polícia não é o que era. Fica que o favor, o fervor, que a policia encontrou na população parisiense no último domingo, é um fenômeno inédito. Da ordem do nunca visto, sem dúvida, na História da França. Aquilo que se encontra em momentos privilegiados – diga-se isto sem cair em uma mitologia romântica à qual um De Gaulle jamais cedeu – é a osmose de uma população com o exército nacional destinado a protegê-la das agressões exteriores. Mas e o amor do povo pelas forças da repressão interior? Não vejo nenhum exemplo. Inclusive nos tempos de Ravachol e dos anarquistas. Haverá que procurar. Na espera, não vejo mais que uma explicação, é que o islamismo guerreiro é considerado pela população como um verdadeiro inimigo interior. A polícia tem como missão combatê-lo como o exército combate ou prevê as ameaças exteriores. Por outro lado, não dizem que a proteção dos edifícios judeus será em breve confiada aos militares? A partir do que, se concebo o que pode ter de chocante e de perigosa a expressão inimigo interior que foi utilizada pelo Primeiro Ministro, não parece infundada.

Falei acima das conversões dos ex-contestadores à ordem pública. A palavra conversão pertence nestes dias a Houellebecq, que a toma de Huysmans. Ele captou a tendência, para implicar ali o islã. Somente, atenção, este islã é totalmente oposto ao islamismo. Tal como o põe em cena em sua sátira, trata-se de um discurso que assegura a paz civil, a segurança dos bens e das pessoas, o emprego. E bem, àquilo ao que assistimos, com efeito, e que deixa estupefato pela sua amplitude, é uma conversão de segurança tão massiva como súbita da população francesa. França experimenta, podemos dizer, uma verdadeira flechada pela sua polícia.

Este enamoramento durará? Aqui é necessário remeter-se à estrutura do “tempo lógico”, tal como a desenvolve Lacan. A forma instantânea aparece primeiro. É o choque inicial, o insight, diz-se em inglês, a epifanía, no sentido secular popularizado por Joyce: “o instante de ver”. Logo a duração retoma seus direitos: o sujeito pensa, insiste, avalia, funciona, elabora, não se sabe quanto tempo lhe será necessário, por quais arrependimentos, quais tormentos, por qual dialética terá que passar. É o “tempo para compreender”.

Estamos aí. Os franceses pensam, se falam, escrevem, o país balbucia, está sendo percorrido por uma intensa atividade intelectual. Imagino que ocorre o mesmo com os outros países da Europa, mas em menor proporção. Nós somos uma grande potência, e, além disso, nos pegaram pelo pescoço. Isso concentra maravilhosamente a atenção. Todos, tantos como somos, estamos em liberdade condicional. Vivemos com o regime do imperfeito do lingüista Guillaume: “Um instante mais e a bomba explodia”. Sim? Não? Impossível sabê-lo. Em relação ao terceiro tempo, “o momento de concluir”, fica adiante.

Se admitirmos, a título de hipótese, que o fenômeno social ao qual assistimos, e do qual participamos, tem a estrutura do enamoramento, não é difícil precisar a qual tipo responde o objeto de amor em jogo. Confiemos nas indicações de Freud em sua obra intitulada “Introdução ao narcisismo” (1914). A polícia como objeto de amor parece estar eleita com o modelo primeiro “da mulher que cuida (da criança)”: a mãe, o grande Outro materno, que procura ajuda e proteção. O terror, o sentimento de desamparo que afligiu cada um depois do massacre de Charlie, tem como efeito precipitá-lo nos braços deste Outro. Este assume a figura de Israel para os judeus. Por hipótese, a sujeição coletiva é tecida assim, fio por fio, a partir da relação de cada sujeito com o Outro. É a lição de Freud em sua psicologia dos grupos.

Não é tudo. Como não supor que os massacres destes últimos dias induziram conversões islamitas? Estes massacres são feitos em parte para isso, para recrutar. Certamente, essas conversões permanecem invisíveis para nós, não se revelaram se não retroativamente, mas já podemos saber que a eleição do objeto de amor aqui é de outro tipo. É o tipo chamado narcisista. O sujeito ama a si mesmo como aquilo que gostaria de ser, o soldado do Absoluto, Rambo do Ideal, armado até os dentes, impenetrável pela dúvida, disposto a dar sua vida pela Causa, enquanto que, na vertente precedente, domina o Primum vivere.

Para terminar, porque foi longo, assinalaria que recorrer a Freud não nos impede reconhecer que a massa mobilizada no último domingo não tinha muito a ver com essas “multidões” do século XX descritas por Gustave le Bon, das quais analisa a estrutura na Massenpsychologie.

Não foi inclusive uma manifestação, mas somente uma “marcha”, para não dizer uma errância. Nem um discurso, nem uma palavra, nada. Todo mundo mudo. Como slogan, o famoso “Je suis Charlie”, que não tinha nada de “significante mestre” homogeneizando os sujeitos. Era mais bem uma espécie de “significante companheiro”, que dava a grande concentração seu ar de variada fauna. É o signo de um individualismo muito avançado que caracteriza nossas sociedades ocidentais, assinalava o historiador Pascal Ory no Le Monde. Podemos dizê-lo assim. Susana, uma amiga de Tel-Aviv, analista, o diz de outro modo. Seguindo o espetáculo pela televisão, escreveu-me na mesma noite: “Ver a primeira linha dos líderes, marchando, era para chorar. Enlaçando os braços, unidos na falta de metas. Creio que não somente perderam a esperança, pior: perderam o desespero”.

Contudo, desde Beirute, L’Orient le jour escreve: “Ontem a França voltou a tomar a Bastilha”. Hum.

Todos estão de acordo em dizer que a imagem que permanecerá desse momento histórico é François Hollande chorando abraçando o médico Patrice Pelloux. Acaricia-lhe o cabelo, o rosto. Balança-o.

Ao mesmo tempo, os sobreviventes de Charlie tem um ataque de riso: uma pomba acaba de arrojar seu excremento, manchando as costas do presidente.

Continuará

PS 1: a anedota da pomba está no Le Monde, Le Figaro, etc.; existe um vídeo.

PS 2: O Sr. Roland Rouzeau me recorda por e mail que o delito de blasfêmia existe ainda na Alsácia e em Mosela. Tomo nota.

Publicado 13/01/2015 às 11h37 no lepoint.fr

Tradução ao Espanhol: Silvia Baudini

Tradução do espanhol: Paola Salinas


[1] Tradução livre.

[2] Tradução livre.

O segredo de Charlie

por Jacques­-Alain Miller

De Paris, quarta-feira, 14 de janeiro de 2015; texto expedido às 8h

Na Argentina, titica de pomba dá sorte. Foi o que me informou minha amiga Graciela, que se bronzeia na praia: “Aqui, se uma pomba caga em alguém, é sinal de sorte”. Aceitemos isto como augúrio. Sabemos que o presidente crê na sua sorte. Em suma, estamos na merda, é bom sinal.

Graciela, que leu meus cursos, se pergunta senão haveria aí uma “resposta do real”, uma manifestação dos Deuses. Os Romanos, são supersticiosos, não teriam deixado de acreditar nisso. E não nos esqueçamos de que Jesus, uma vez batizado, viu o céu se abrir, “e o Espírito Santo desceu sobre ele em uma forma corpórea, como uma pomba” (Lucas, 3: 21). Teria, então, uma titica divina,o papel de “Ampola Sagrada”[1]? Teria a Av. Voltaire função de catedral de Reims? E o presidente da República seria agora o Ungido do Senhor?

As afinidades do Espírito Santo com o objeto anal não estão mais por descobrir.

Lacan, evasivo, cita o artigo de Ernest Jones sobre a fecundação da Virgem Maria pela orelha, que põe dito Espírito Santo como análogo ao peido. Nenhuma blasfêmia: a tese é anatomicamente fundada, uma vez que a boca e o canal anal correspondem às duas extremidades do tubo digestivo. O sopro espiritual é parente do gás intestinal, a fala se pareia com o excremento.

Vê-se que a psicanálise em seus verdes anos não era sem afinidade, e reciprocamente, com o espírito das tiras de Charlie.  A escatologia é o mais puro de sua inspiração desde o Hara-Kiri do professor Choron. O fio atravessa seus diversos avatares, anarquista, ecologista, esquerdista, neoconservador. “Jornal besta e maldoso”? “Jornal irresponsável”? São aproximações. O de que se trata na verdade, é isto: Charlie tem uma missão neste mundo, revogar qualquer sublimação para honrar a pulsão.

Deste modo, essa folhinha que não é folha de videira, teremos entendido – tem seu lugar na história dos costumes. Calcemos nossas botas de sete léguas afim de percorrer bravamente a sequência dos séculos. Aceleradamente, como em um desenho animado.

As aventuras da pulsão

1. O mundo antigo greco-­romano estava muito mais próximo da pulsão do que nós, conforme destacaram Schopenhauer, Nietzche, Freud, e os outros. Depois veio o discurso cristão. O título de Peter Brown diz tudo: a renúncia à carne. Virgindade, celibato e continência no cristianismo primitivo. A cristandade retrocede às fontes Greco-romanas no Renascimento. Segue-se uma nova aliança entre a religião e a carne. É um dos motivos da revolta protestante, que, contudo, em outro plano, também dá lugar à carne, mesmo que seja pelo casamento dos pastores. Não se deve negligenciar o gosto de Martin Luther King pela escatologia. Teria ele dito: “Eu sou Charlie”?

2. Aí está o divisor de águas. O protestantismo terá austeridade, a Igreja Católica o prazer dos sentidos, que decidiu mobilizar no Concílio de Trento, visando à propagação da fé. O século XVII teve grandes deslocamentos de população: “Great Migration” dos puritanos ingleses para as colônias americanas (80.000 pessoas); diáspora dos huguenotes após a revogação do Édito de Nantes (400.000). O século XVIII na França? Talleyrand, nascido em 1754, dirá mais tarde: “Aqueles que não conheceram o Antigo Regime nunca poderão saber o que era a doçura de viver”.

3. Napoleão, digamos, é a ordem moral. A Santa­ Aliança o estende a toda a Europa. Há, em seguida, para dar o tom Queen Victoria. Galhofa: tendo lido o livro de Lytton Strachey com o mesmo título, Lacan diz que ela foi a condição sine qua non de Freud. A Belle Epoque desemboca na carnificina de 14. Seguem os Anos loucos etc. À Liberação, o totem, é O Tabu, rua Dauphine, esquina da rua Christine. Últimas guerras coloniais. Em 1960, Hara-Kiri aparece. Xixi, cocô, bilau e xereca. Ufa! A gente respira. Respira miasmas, mas o odor também é vivificante como o dos queijos de Jerome K. Jerome. A gente o Grande Charles e a Tia Yvonne (apelido popular da sra. De gaulle).

4. Digam-me, vocês que vão (ou não vão) à exposição de Sade no Museu d’Orsay, e que leem, na coleção Pléiade, que na época um livreiro de Saint ­Germain ­des ­Près os conduzia para detrás da loja para passar-lhes os pequenos volumes azuis de Justine e Juliette, impressos por Pauvert em papel barato. A gente não corria grande risco, mas, enfim, gozava a conta-gotas do frisson do proibido. Na mesma época, os jornais de esquerda eram mutilados quando falavam da tortura na Argélia; eles eram publicados com grandes espaços em branco. A censura era tão familiar que estava personificada: desde os anos 1870 ela se chamava “Anastasie”. Era uma espécie de bicho-papão feminino, armado com duas grandes tesouras (castração!). O cúmulo foi alcançado no dia em que, sob o empenho da sra. De Gaulle, mobilizada, digamos, pelas religiosas da União das superioras maiores, o ministro da cultura proibiu o filme lançado por Jacques Rivette sobre A religiosa, de Diderot.

5. Era 1966, ano em que foram lançados os Escritos de Lacan. Nesse tempo, vejam vocês, falar, escrever, isso contava, fazia reagir, como em tempos mais remotos. Se você se pegasse com o exército, a Igreja, mesmo através de Diderot, que contudo tinha sua estátua em Paris e sua Pléiade em Gallimard, do outro lado vinha a reação. O Outro moral ainda não se colocara entre os inscritos ausentes. O xixi, cocô, bundinha mantinham uma potência de transgressão. Tanto que o Outro dos anos De Gaulle e Pompidou respondeu presente, essa foi a grande época do professor Choron. Mas, na sequência, esse Outro foi desmantelado pedaço por pedaço. As etapas desse processo são retraçadas na recente soma de Eric Zemmour, cujo caráter por vezes desmesurado não apaga de modo algum o interesse documental. Na verdade, esse Outro nunca passou de um fantoche acionado por um bonequeiro genial. O General sabia e disse isso. Inclusive, uma de suas frases favoritas era, nas palavras de seu confidente, Alain Peyrefitte: “Eu sempre fiz assim. Isso sempre acaba acontecendo” (C’était De Gaulle, p. 171).

6. Charlie Hebdo, que continuou o trabalho de Hara-Kiri, estrangulado sobre o caixão do General, também morreu, mas de morte natural, em 1981, quando a esquerda chegava ao poder com Mitterrand. Depois de muito tempo o velho Outro neo-Gaullista, progressivamente desativado como Hal no filme de Kubrick, 2001, não respondia mais às provocações senão por um muxoxo, acompanhado de um dar de ombros que o mundo de língua inglesa isolou com o nome de “Gallic (ou French) shrug”, de tanto que isto lhes pareceu característico de nosso modo de ser. Difícil transgredir quando não há mais limites, ou não muitos. Ou então, teria sido preciso passar à injúria, à difamação, ao racismo, ao apelo ao assassinato. Quem matou Charlie? Para dizer em uma palavra, foi a permissividade. Essa palavra não está no dicionário Littré; ela só foi atestada pela língua em 1967; é traduzida do inglês “permissiveness”, 1947 (Le RobertDictionnaire historique de la langue française).

7. Do Charlie cuja redação acaba de ser exterminada, direi pouco. A publicação renasce, depois de uma solução de continuidade de onze anos, em 1992. A presença dos grandes antigos e a obediência à pulsão mantida sob a forma canônica xixi, cocô, bundinha, atestam que a retomada do título não foi uma impostura. Seus grandes feitos: voltar a publicar em 2006 as caricaturas dinamarquesas de Maomé; lançar em 2011 um número arrastando/zoando a carroça/Sharia (charriant la charia). Já no dia de sua publicação, o local foi incendiado; o diretor da redação, Charb, e dois outros desenhistas, receberam proteção policial. As ameaças islâmicas se multiplicaram. Em 2013, a revista digital, publicada pela Al­Qaïda na Península Arábica, divulga o nome de Charb na lista das personalidades procuradas por “crimes contra o islã” (Wikipédia). Na semana passada, no dia 07 de janeiro, aconteceu o massacre.

Três teses, um paradoxo

Nada nos primeiros 21 anos da revista permitiam pressagiar que a maior parte da redação cairia sob as balas de guerreiros islâmicos. Mas também, por que se obstinar a debochar dos valores sagrados da religião muçulmana, uma vez que o risco era patente e o perigo indubitável?

Há a tese nobre: eram combatentes da liberdade de expressão. Charb, que era comunista, disse isso em uma fórmula muitas vezes citada e que passará à posteridade: “Certamente isto parece um pouco pomposo, mas prefiro morrer de pé a morrer de joelhos”. Há a tese ignóbil, a de que Tariq Ramadan alardeava desde a noite da matança, em um diálogo em inglês com Art Spiegelman, o criador de Maus: era para fazer dinheiro. Por fim, há a tese, por assim dizer, clínica exposta por Delfeil de Ton na edição de ontem do L’Obs.

Antigo integrante de Charlie e amigo de Charb, DDT destaca em um texto perturbador a teimosia de Charb e sua responsabilidade: “Ele era o chefe. Que necessidade teve ele de arrastar a equipe para o exagero?” Ele lembra o que disse Wolinski depois do incêndio do prédio: “Acho que somos uns inconscientes e imbecis que se expuseram a um risco inútil”. Ele conclui: “Charb preferia morrer e Wolin preferia viver”. A gente se pergunta depois de lê-lo: «Charb suicida? Charb melancólico? De fato ele se apresentava como homem sem nada, sem nada a perder: “Não tenho filhos, nem mulher, nem carro, nem crédito”. Seria a jubilação semanária da fina equipe, para dizer ao modo de Mélanie Klein e Winnicott, uma defesa maníaca contra a depressão? Por trás da parada fálica, a pulsão de morte, era ela o segredo de Charlie?

Se for preciso escolher entre essas três teses ou hipóteses, excluo de saída a segunda, pois, objetivamente, o interesse financeiro ali não estava à altura dos riscos corridos. Seria preciso supor em Charlie a paixão de Harpaon, e nada indica isto. É uma ignomínia do professor da Oxford University. A tese 3 merece consideração, mas se empalidece diante da primeira, uma vez que o heroísmo de um melancólico, assim como o de um psicótico, de um perverso ou de um neurótico, continua a ser um heroísmo.

Aqui, cuidado. Para que houvesse o que se chama de heroísmo, quer dizer, sacrifício por um ideal, é preciso que haja sublimação. Ora, defendi que Charlie era o anti-sublimação, que estava votado ao culto da pulsão, à exaltação do gozo. Contradição. É aí que uma frase de Erik Emptaz, na primeira página do Canard enchaîné, nos esclarece. Enquanto o órgão satírico se torna objeto das mesmas ameaças que Charlie, ele se compromete com seus colegas a “rir de tudo”, exceto da “liberdade de poder fazê-lo”. Esse é o ponto, e de fato ele se desdobra.

1) De quero rir de tudo, é impossível fazer gracejo com a liberdade de rir de tudo. Portanto, o riso para por aí. Não se ri da liberdade de rir de tudo, ela deve ser tomada a sério. Em outras palavras, quem quer rir de tudo não ri de tudo. 2) Debochar de tudo, inclusive de minha liberdade de fazê-lo, tem o mesmo resultado. Eu sacrifico minha liberdade de rir para acender uma vela para deus e outra para o diabo. Resumindo, para poder rir de tudo, devo me abster de rir de tudo. A posição 2 é cínica, A posição 1, chamo-a de heróica.

Talvez alguns entre os Charlie se acreditassem cínicos. Talvez até o fossem, mais ou menos. Mas o fato é que eram heróicos, e Charb sabia disso. Nós constatamos a posteriori. O erro de Deleil de Ton, me parece, é de nos pintar um Charb habitado por um “Viva a morte”. Contudo, o que disse acerta em uma fórmula totalmente diferente, que faz dele um verdadeiro “soldado do ano II”, e não de fachada: “A liberdade ou a morte”.

É a “… ou a morte” que é decisiva neste caso. Quem não coloca sua vida na balança do destino e não engaja seu ser, mas apenas seu talento, está de brincadeira, não é sério. O primado da vida está, doravante, tão bem ancorado nas sociedades ocidentais quanto no momento do caso da barragem de Sivens que custou a vida a Rémi Fraisse, em relação ao qual foi possível ouvir um responsável local do Partido Socialista proferir esta enormidade: “Morrer por ideias é uma coisa, mas mesmo assim é relativamente estúpido e besta”.

Não massacremos o infeliz. O que se entende não certamente o que ele quis dizer – que Rémi viera defender uma ideia, que ele não pensava expor sua vida, que lhe foi roubada por uma triste combinação de circunstâncias etc. Mas essa afirmação, de ser uma espécie de lapso, é ainda mais verídica. E já se vão vinte anos que Lipovetski publicava O crepúsculo do dever. Nada de espantoso em não hesitarmos a negar aos mártires de Charlie a qualidade de heróis, e a fazer deles, pelo menos em meias-palavras, imprudentes, para não dizer doidos. Correlativamente, pisoteamos seus assassinos.

Esses três homens, os terroristas, tê-los matado não nos basta. É preciso ainda que tenham sido loucos, doentes, e sobretudo bárbaros. São chamados de bárbaros aqueles aos quais se nega que pertençam a uma civilização digna desse nome. Saibamos de início reconhecer que nossos guerreiros vêm de um discurso diferente do nosso, não menos estruturado, não menos “civilizado”, mas civilizado de outro modo. E nesse outro discurso são eles também heróis.

Para os gregos da Antiguidade, bárbaro era aquele cuja fala lhes era ininteligível, donde esta expressão, formada pela reduplicação bar bar, como nosso blá blá. Bárbaro é aquele que não fala, mas faz barulhos com a boca. E, de fato, quando um dos irmãos Jouachi, ao saírem do massacre, e antes de entrar no carro, lança na rua, pausadamente, em voz alta e inteligível, por três vezes, o grito: “Vingamos o profeta Maomé!”, nós não ouvimos nada a não ser que o islã não tem nada a ver com isso e que se trata de brutos sanguinários e perturbados.

E por que não dizer, se é assim, “animais de duas patas”, como os romanos diziam dos hunos?

Continua…

Publicado em 15.01.2015 em lepoint.fr

Tradução: Teresinha N. Meirelles do Prado.

NOTA BENE

– O livro de Peter Brown foi publicado em 1988; ele saiu em francês pela editora Gallimard, em 1995.

– Sobre o caso de La Religieuse, consultar os Cahiers d’études du religieuxhttp://cerri.revues.org/1101

– O vídeo intitulado «ComicsLegendArtSpiegelman& Scholar Tariq Ramadan on Charlie Hebdo & the Power Dynamic of Satire» é visível no site Democracy now. URL:

http://www.democracynow.org/2015/1/8/comics_legend_art_spiegelman_scholar_tariq

– O responsável socialista pelo Tarn em vídeo:

http://www.lefigaro.fr/politique/le­scan/citations/2014/10/28/25002­20141028ARTFIG00107­sivens­mourir­pour­des­idees­c­est­stupide­juge­le­president­ps­du­tarn.php

– Sobre os bárbaros: de Bruno Dumézil, Les Barbares expliqués à mon fils, Seuil, 2010.

– Os dois irmãos, ao saírem do massacre de Charlie, foram identificados em um vídeo obtido pela agência Reuters. Ele se encontra na net desde ontem de manhã:

http://fr.euronews.com/2015/01/13/nouvelle­video­glacante­des­freres­kouachi­juste­apres­le­massacre/

– Enfim, espero voltar à tribuna publicada ontem em Le Monde, p.9, pelo Pe. Alain Renaut, que dá corpo, em termos certamente ainda muito gerais, disso que eu chamaria de via do compromisso, sob a forma dita de um «multiculturalismo temperado pela preocupação com o interculturalismo».


[1] “Sainte Ampoule”: objeto que guardava o óleo sagrado utilizado na unção dos reis da França por ocasião de sua coroação na catedral de Reims.

 

O perdão das ofensas

por Jacques-Alain Miller

De Paris, este sábado, 17 de janeiro de 2015, 10h

Victoria presenteou-me ontem de manhã com o número fresquinho que eu não conseguira comprar. Eu esperava me decepcionar. Pois bem, isto não aconteceu. Nada de transcendente, mas é uma façanha, dadas as circunstâncias. A capa é precisa. No papel brilhoso o verde se destaca muito bem. O sentido é outra coisa. Em Causeur – decididamente eu assinei – Elisabeth Lévy protesta contra o tema do perdão.

Os Judeus têm o rito do “Grande Perdão”, mas são criticados por uma longa, extremamente longa, excessivamente longa memória. Mitterrand se irritava com isso. Assediado pelo famoso «lobby judaico» que exigia um pedido de desculpas para Vichy, ele deixou escapar que eles estariam ali “depois de cem anos, talvez mais”. Esse movimento de humor do antigo cagoulard[1], ou amigo de cagoulards, normalmente senhor de suas emoções, rouba a cena em uma entrevista que podemos rever. Ali ele explica que, sendo funcionário de Vichy, ignorava tudo sobre o estatuto dos judeus.

Na psicanálise, em todo caso, não se perdoa. “O erro de boa-fé, escreve Lacan, é de todos o mais imperdoável”. O porquê, eu lhes expliquei em meu curso. Há também nos Escritos: “Por nossa posição de sujeito, somos sempre responsáveis, mesmo que chamemos isto de terrorismo, onde quisermos.” (p.873)  Ai, ai! Eis uma palavra que, pelos tempos que correm, presta-se a confusão. Isto quer dizer: você solta a verdade em um lapso, não pode apagá-lo, o que está dito, está dito. Você se desculpa por seu inconsciente? “Não fui eu, foi ele”? Precisamente, Freud ensina que seu inconsciente é você também, mais verdadeiramente você. Não há desculpa que valha. Nada te será perdoado. É também o que diz o Eterno Retorno de Nietzsche. E parece, nestes dias, que o Islã também não perdoa, ou, pelo menos, dificilmente perdoa as ofensas feitas ao Profeta. Um Rushdie, por exemplo, não perde por esperar.

Dadas as raízes cristãs da França, as pessoas não se acostumam com isto. Nunca perder a esperança no homem é nosso belo princípio. Busca-se sempre o meio pelo qual tocar o coração do Faraó. A história de Moisés mostra, contudo, que há circunstâncias em que as coceguinhas são inoperantes. Jamais perder a esperança no homem é nosso belo princípio. Hiroshima, em suma. Sempre pensei que foi a profunda cultura bíblica do puritanismo americano que havia formado a boa consciência do presidente Truman no momento decisivo. Se me lembro bem de sua biografia por David McCullough, na noite seguinte ele teve o sono dos justos. O que diria hoje a Corte Penal Internacional? Proporcionado? Desproporcionado?

Ah! Ia me esquecendo. Se eles assinaram o Estatuto de Roma, que definia a criação da Corte, os Estados Unidos não o ratificaram. A Bíblia, a Bíblia, lhes digo! E a Rússia fez do mesmo jeito. Mas nem a China nem a Índia sequer assinaram o Estatuto. Então, a Bíblia não é a única errônea. Mas, enfim, se a ONU tivesse existido nos tempos bíblicos, a história bíblica teria tido dificuldade de começar. Isto me faz pensar na frase de Renan pinçada por Lacan – decididamente, encontra-se tudo nos Escritos: “Felicitamo-nos que Jesus não tenha encontrado nenhuma lei que punisse o ultraje dirigido a uma classe de cidadãos. Os fariseus teriam se tornado invioláveis”. Sim, com nossas leis Jesus encontrar-se-ia sob custódia, como um Dieudonné.

Estou malévolo hoje. É o efeito Charlie. Ou antes, estou na vibesarcástica, áspera, “ahumana”, do lacanismo. Mas, afinal de contas, o Deus do povo judeu era bem “ahumano”. Isto não é o mínimo para alguém que é um Deus? Pois o Faraó estando endurecido e não querendo nos deixar ir, o Senhor matou no Egito todos os primogênitos desde os primeiros filhos dos homens até os primeiros filhos dos animais”. Por que os animais?, diria Houellebecq. Imaginem Jeova diante da Corte Penal Internacional, não fariam questão de sua liberdade, ele seria incriminado pela eternidade. François Regnault, meu caro amigo, saberia certamente escrever isto, entre o Tribunal des flagrants delires e o Lieeskonzil de Panizza. É verdade que o pobre Oskar, acusado de 93 contos de blasfêmias, pagou suas audácias com um ano em uma prisão da Baviera (1895-1896). Por outro lado, ele termina seus dias em um asilo, em decorrência de uma paranoia com alucinações auditivas.

Eu me lembro que Le concile d’amour foi encenado em Paris pouco depois de 68, com o figurino sensacional de Leonor Fini. Ela recebeu um prêmio. Se um teatro se aventurasse hoje a retomar essa peça, as pessoas sairiam às ruas de Paris. Lembramo-nos que O fanatismo ou Maomé o profeta, que deveria ser apresentado em Genebra em 1991, pelo tricentenário de Voltaire, não pôde acontecer, pois o município se recusou a subvencionar o espetáculo. Em 1742, também, as representações em Paris foram interrompidas depois da terceira noite, pois o parlamento julgara a peça perigosa para a religião. Contudo, retomada em 1761, ela produziu um “efeito prodigioso”, segundo o testemunho do conde de Lauraguais, que o relatou a Ferney. Para falar a verdade, acho maravilhoso que as Luzes conservem intacto no século XXI a sua carga subversiva. Quanto tempo antes que alguém nos peça para desmontar a estátua de Voltaire no vestíbulo do teatro da Comédia Francesa e a de Diderot na Av. Saint-Germain, devido ao desprazer que afetava os crentes?

Os incrédulos também sofrem. Deste modo, ficam bastante aflitos que o papa Francisco, que arrastava os corações na sua direção, tenha marcado esta quinta-feira, em uma conferência para a imprensa que aconteceu a bordo de um voo para as Filipinas, que a liberdade de expressão devia ser exercida sem, contudo, zombar da fé dos outros. Grande decepção entre as rãs, que não admitem que o escorpião tenha uma natureza. Nestes dias, elas chamam isto assim: “essencializar”. Todos existencialistas! Para fiar outras metáforas, o melhor dos papas, como a mais bela garota, só pode dar o que tem. Nicolas Sarkozy adora, dizem, repetir: “Não se muda as listras da zebra”. Não, vejam vocês, a Igreja profunda, a despeito do Vaticano II, não se reconciliou com o que o papa Francisco designava sem rodeios na quinta passada como “herança das Luzes”. O cardeal Scola, que era a minha aposta, por assim dizer, na última eleição papal, e aquele, ao que parece, de Bento XVI, pensa parecido e escreveu isso. Sempre acontece de a ala progressista ficar contrariada. Le Monde transmitiu a informação sobre o dito do papa em nota de rodapé, em um espaço bastante reduzido. E a que La Croix dedicou sua primeira página ontem de manhã? Duvido que adivinhem: ao vírus Ebola. Seu editorial era sobre os malfeitos de Boko Haram.

Há complicações na Igreja, enquanto que… quanta fanfarronice da parte desse Voltaire, se alguém pensa a respeito, quanta presunção, sem contar a ingratidão, de ter-se acreditado “em capacidade”, como dizem os socialistas, de esmagar quem ele chamava de infame! Suas alfinetadas a desinflaram. Depois de prejudicar no seu início o prestígio das tradições espirituais, parece que a perda de sentido induzida pelo sucesso da matematização da natureza, prepara de fato “o triunfo da religião” (Lacan). “Miséria do homem sem Deus”, volta-se sempre a esse ponto. Pascal não foi o único a ter medo do silêncio dos céus. A “cientofobia” se estende à medida que “o deserto cresce” (Nietzsche).

Errando na terra devastada do Rei pescador, a Waste Land, a humanidade morre de sede sem saber que está perto da fonte. Ela espera o aguaceiro divino, conforme a promessa de Ezequiel, 34:26: “Enviarei a chuva em tempo oportuno, e será uma chuva de bênção”.

Taí! Agora estou pregando, como Fabrício em Parma. Meu espírito malévolo se foi. Aconteceu algo assim a Charlie. Esvaído em sangue, ele se pôs a sublimar a pleno vapor. Um Maomé com uma lágrima no olho. Ele dá o braço a torcer, conforme indica o « Eu sou Charlie » pendurado no pescoço. Coroando a totalidade, um “Tudo está perdoado”, enunciado sem sujeito, como se viesse de nenhum lugar, à guisa de Mane, Thecel, Phares[2]. Isto é muito bonito, mas é um sonho de cristão, ou antes, de católico de esquerda: o islã veio em resipiscência unir-se à família das nações sob o cajado do Bom Pastor, e beija as pantufas do papa.

Nossos irmãos muçulmanos os entenderam mal. A gente compreende.

Continua

Nota

— Mitterrand e Elkabbach: youtube.com/watch?v=owFF0K9-jcs <http://youtube.com/watch?v=owFF0K9-jcs>

<http://www.facebook.com/pages/Lacanian-Ink/129658210419193>

Publicado em 17/01/2015 em lepoint.fr às 15h30.

Tradução: Teresinha N. M. Prado.

[1] N.T. Cagoulard: ativista integrante do grupo de extrema-direita chamado de Cagoules, originado nos anos 30 na França e de orientação anticomunista, antissemita, antirrepublicano e de tendência fascista.

[2] N.T. Referência: revelação feita ao profeta Daniel, por ocasião de uma orgia promovida pelo último rei da Babilônia, Balthazar, na qual foram utilizados os vasos sagrados que Nabucodonosor roubara do templo de Jerusalém. Diante dessa profanação, surge uma mão que traça com fogo, na parede, as misteriosas palavras: “Mane, Thecel, Phares” («Mené, Teqel e Parsîn», em hebraico), cujo significado é: contado, pesado, dividido, o que o profeta interpretou como uma condenação do reinado: “Teus dias estão contados, (…) teu reino será partilhado.” Estas palavras também são citadas por vários escritores, dentre eles Marcel Proust, em Sodoma e Gomorra.

Os valores da República

por Jacques-Alain Miller

De Paris, esta segunda-feira, 19 de janeiro de 2015, 8h

E a Companhia, faz o quê? Nunca se omitir de colocar a questão. Não para se orientar, pois habitualmente a gente encontra seus membros nos quatro pontos cardeais. Mas para tirar disso a lição.

Vejam. De um lado, o papa Francisco está próximo de nossos irmãos muçulmanos, ele partilha sua indignação, a cólera deles é sua cólera, a violência não lhe causa medo, «é normal», diz. Certamente, boxear não é matar. Passemos à França. A Companhia está lá, ao lado dos descrentes e devoradores de párocos. Sua revista,Estudos – estou renovando minha assinatura – publica em seu site as primeiras páginas de Charlie debochando do papa e dos cristãos. «há uma forma de derrisão que pode ser fecunda», destaca o padre Euvé, redator-chefe.

As caricaturas foram retiradas para evitar o pior, depois que o papa falou. Como teria sido diferente? A Igreja tem como doutrina oficial o ecumenismo. Ela aposta na solidariedade interconfessional dos crédulos. O papa que faz gafes, quero dizer, o douto Bento XVI, mostrou em seu tempo o que era difícil de citar, sem pensar o pior, proposições pouco amenas sobre Maomé sustentadas por um imperador bizantino do século XIV: por assim dizer, «acabaram com a raça desse viado». Gato escaldado tem medo de água fria. Desde então, sobre o Profeta, parou de papear (papoter) para o pontificado(à lapapauté)! E depois, seria pedir demais que um papa abençoasse a blasfêmia à francesa.

Mas, igualmente, quem não sabe que aí perto o Vaticano é imunizado? Ao passo que o último Maomé de Charlie, seu Maomé compassivo, seu «Maomé conosco!» foi acolhido no mundo muçulmano como se vê que ele é, não se tem a lembrança de que a longa série de primeiras páginas anticlericais do Hebdo tenha provocado a menor reação do povo cristão. Cool, zen, indiferente, desinformado, ele zomba de seus zombadores. Não se pode excluir, certamente, que no futuro, despertos de seu sono dogmático pelos potentes clamores maometanos, os integralistas de Civitas não se mostrem zelosos. Por ora, no entanto, é difícil ver os católicos, mesmo iluminados, fazerem algo tão forte quanto o que fizeram os irmãos Kouachi.Mas quem sabe?

Admiro a Companhia de Jesus por manterem as duas extremidades da cadeia. Pode-se chamar os dois matadores de “babacões” ou de “doentes mentais” (mas será que é politicamente correto?), não se pode desqualificar com tamanha desenvoltura um bilhão e setecentos muçulmanos que exprimem de diversas formas o profundo desprazer que lhes causam as travessuras de colegial desse diabinho de Charlie. Não se encontra mesmo um número suficiente de imãs “com capacidade” de reeducar a juventude muçulmana da França para lhe inculcar “os valores da República”, agora vamos assumir a reeducação da comunidade Ummatem seu conjunto? Seria presunçoso.

A tarefa, contudo, não teria assustado nossos «Grandes-cabeças-moles[1]» do século XIX, que não estavam todo o tempo a choramingar, longe disso, sem ofensa a Lautréamont. Guizot, Edgar Quinet, Hugo, esbanjavam fórmulas como: “A França guia a humanidade”, a França “mãe dos povos”, “iniciadora do gênero humano”, “educadora das nações”, “professora do mundo”. Os Saint-simonianos consideravam os Franceses um “povo realmente padre, e digno de iniciar todos os povos na comunhão universal”. A França de Michelet era “portadora da causa do progresso”, “a nave-piloto da humanidade”. Os escolares aprendiam no manual de Lavisse que “nossa pátria é a mais humana das pátrias”. Para Gambetta, a França era a “nutriz das ideias gerais do mundo”. A França, dizia Jules Ferry, deve exercer “sobre os destinos da Europa toda a influência que lhe pertence, Ela deve derramar essa influência sobre o mundo”. Enfim, Péguy, no final do século, casava a fé com a democracia, e exaltava um universalismo biface: “A França tem duas vocações no mundo, sua vocação de cristã e sua vocação de liberdade. A França não é apenas a filha mais velha da Igreja, ela é inegavelmente uma espécie de padroeira e de testemunha (e frequentemente de mártir) da liberdade no mundo”.

Tomo de empréstimo este florilégio de M. Michel Lacroix (Éloge du patriotisme. Petite philosophie du sentiment national, Robert Laffont, 2011). Sem dúvida esse «messianismo francês», como ele o denomina muito justamente, tem hoje um acento delirante. Ele também tem um lado obscuro: foi o terreno do colonialismo.Colonialismo igualmente interior: ou você se assimila ou definha. Isto não impede que se tenha visto, na ocasião da marcha do 11 de janeiro, que esse discurso tingido de megalomania tinha ainda beleza a oferecer no universo. Ele explica, por um lado, a pandemia emocional. Pode-se inclusive sustentar que, por mais inflado que seja, ele faz parte do gênio francês. A França proveniente da Revolução só fez tomar o comando de nossos Reis, segundo a lógica evidenciada por Tocqueville, em matéria de política e de administração. «A exceção francesa» não é apenas um dispositivo de isenção fiscal em favor das obras do espírito. Ela designa o lugar distinto que a França adquiriu para si, no cristianismo e na modernidade, como «primeira filha da Igreja» (em detrimento ou por causa, de seus contatos com Soliman durante o reinado de François I, e com os protestantes alemães no reinado de Henrique IV, pela preocupação de enfraquecer a Casa da Áustria) e como «país dos Direitos do Homem» (apesar dos erros cruéis por demais conhecidos). «Dei gesta per Francos[2]» se conjuga, por assim dizer, com «Libertatis gesta», no mais puro espírito de Péguy.

Não haveria por que devolver o brilho a esses «valores da República» invocados estes dias como um mantra, ao passo que basta muitas vezes ver quem gira o moinho das preces para saber que estamos na impostura. De qual «República» se trata? Certamente não da Quinta. Não, assim como os revolucionários de 89 – Marx lembra isto no início de seu 18 Brumário – se identificavam com os Romanos da Antiguidade, nossas elites se divertem com ela, nesses tempos de crise, Terceira República.

Não resisto ao prazer de seguir mais uma vez o eloquente texto de Michel Lacroix. A Terceira República, diz ele, foi, notadamente no seu primeiro período, 1870-1914, “a era do patriotismo”.

«Em primeiro lugar, o Estado republicano considerava ser sua tarefa prioritária a manutenção do sentimento patriótico. Ele conduzia uma política ativa de incutir valores nacionais. Nossos governantes estavam convencidos de que a Prússia devia sua vitória sobre a França em 1870 aos seus professores. (…) A República francesa, nascida no dia seguinte à derrota, quis seguir o exemplo dado pelo inimigo. Para os franceses, como outrora para os prussianos, a reviravolta passaria, portanto, pela escola e as virtudes patrióticas constituíam a espinha dorsal do ensino. (…) Com a exceção de algumas vozes discordantes (os anarquistas e os marxistas, para quem «os proletários não têm pátria»), os homens de cultura partilhavam o credo patriótico. (…) Outro fator determinante: o “pacto social” recolhia a aprovação da maioria dos cidadãos. Certamente, a França da Terceira República não escapava aos conflitos de classe. (…) As injustiças sociais eram gritantes. Mas, globalmente, os cidadãos se reconheciam na sociedade e no Estado que a encarnava. (…) A escola permitia a ascensão social.»

Aí está, em suma, quem pinta o paraíso perdido da França de 2015. Esta só está adiante em um ponto: nos dias atuais Ravachol não tem herdeiros, e os marxistas, persuadidos de que os proletários são apátridas, não são mais legião. Não seria antes o Banco, e não a Classe, o que não teria pátria? Coloco a questão. De resto, retorno com força total à Terceira! Foi a panaceia que encontraram. O speech de Manuel Valls que lhe valeu a ovação unânime da Assembleia Nacional de pé, era a Terceira vintage. Esse Catalão, filho de artista-pintor tivera sagacidade ao escolher Clémenceau por figura tutelar e ideal do eu. Mas, desde antes de seu discurso, todos os deputados haviam cantado a Marseillaise em uníssono. Alguém assinalou que esse fato era inédito desde 11 de novembro de 1918. Isto mostra o quanto estavam abilolados.

Sim, as grandes figuras da Terceira República estão tentando reencarnar entre nós. Mas, assim como as seis personagens de Pirandello na admirável encenação de Demarcy-Mota no Théâtre de La Ville, com tradução e adaptação de François Regnault, eles têm muita dificuldade de encontrar atores «com capacidade» de sustentar seus papeis. Para falar a verdade, apenas um dentre nossos homens públicos vem diretamente da Terceira República. Os outros fingem. Quem é? O gato comeu sua língua? Esse viajante DoTempo é Plenel, meu amigoEdwy.

Eu o observo enquanto se inflama, trêmulo, fala alto, repreende, vitupera, em nome de uma República poderosamente idealizada, acerca da qual não se dirá que nunca existiu. Ela existiu, sim, mas no imaginário de nossos ancestrais, na conjunção dos séculos XIX e XX. Plenel, nosso supereu republicano! Não lhe atribuo esse epíteto em vão. O caso Edwy Plenel ajuda a entender por que Freud se ocupa de precisar que «o supereu da criança não se forma à imagem dos pais, mas antes à imagem do supereu destes». Definição pelo uso, que abre para a sequência dos séculos: «ele se torna o representante da tradição, de todos os julgamentos de valor que subsistem assim através das gerações».

Ao escutar Plenel tão veemente nestes dias, acreditaríamos ouvir um Hibernatus[3]ou um Homem com a orelha quebrada, congelado ou dessecado no tempo do caso Dreyfus, e que teria retomado as cores da vida em torno de 2006, na criação deMédiapart, do qual sou um assinante fiel desde o começo. Se coloco o cursor no caso Dreyfus, é por muitas razões, e em primeiro lugar porque o próprio Plenel situa seu panfleto mais recente, Pour les musulmans (La Découverte, 2014), sob a liderança de Zola, e precisamente de um artigo desse escritor, intitulado «Pour lês Juifs», publicado um ano e meio antes de J’accuse. Mas, sobretudo,o Caso foi o cadinho de um conceito da «Esquerda» que teria se mantido por um século, e do qual Plenel é hoje o defensor agudo.

Conhecemos a tese defendida por Jean-Claude Michéa em seus últimos livros, e ele enfrenta brilhantemente, em relação a esse ponto, Jacques Juillard, douto historiador das esquerdas francesas (para acompanhar a controvérsia em suas obras, ver La Gauche et Le Peuple, Flammarion, 2014). O caso marca o momento em que o movimento operário, que até então mantivera no limite a esquerda burguesa, veio confluir com ela para dar origem aos «intelectuais» e a esse mito da Esquerda que se degrada aos nossos olhos até tornar-se obsoleta. Os dois elementos desse puro produto de síntese política parecem de fato engajados em um inexorável processo de separação. Os operários votam na Frente National e os hipsters passam ao (social-)liberalismo, o que resta à esquerda? Fundamentalmente, uma pequena burguesia intelectual, funcionária e sindical, apaixonada por um fantasma que se esquiva de seus abraços. Se não tivéssemos Plenel para louvar a Esquerda de outrora, quem? Não vejo ninguém, nem sequer Mélenchon, que passou de mala e cuia para o ecossocialismo.

Questão «valores da República», por ora, vejo apenas um rival de Plenel. Criada em uma elite na qual a República era sobretudo «a mendiga», Marine Le Pen, a despeito de seu transformismo, de seus dons de camaleão, está ainda pouco segura de seu propósito. Nicolas Sarkozy? Sem o texto de Henri Guaino, como ele balbucia! Como parece perdido! Um personagem em busca de um autor, como em Pirandello. Alain Juppé, François Fillon etc.?Eles pagam o preço de sua boa educação: nenhum que saiba escalar o monte de estrume para lançar com convicção os cocoricós de rigor. Por caridade, não falaremos dos primeiros comungantes François Bayrou, François Hollande. Não, eu não vejo ninguém além de Valls que saiba manter a nota Clémenceau diante de Plenel, quebrando o barraco em Zola redivivus.

O primeiro‘fic’ da França contra o número 1 dos intelectuais de esquerda. Ambos impiedosos (e também minha cara Christine Angot) com Houellebecq ou Zemmour.Mas divergindo com relação a Dieudonné. É que um prioriza o grande medo dos Judeus em detrimento do mal-estar dos muçulmanos, ao passo que, para o outro, a islamofobia foi amplamente substituída pelo antissemitismo.

Continua.

Algumas referências

As afirmações do papa: a informação mais precisa é dada por i.media, que se apresenta como «agência de notícias em língua francesa especializada no Vaticano». http://www.imedia-info.org/depeches/on-ne-peutpas-insulter-foi-autres-assure-pape-francois-tout-louant-bienfaits-liberte-d-expression,32720.html

As afirmações do padre Euvé: http://www.lepoint.fr/societe/charlie-hebdo-l-audace-des-jesuites-de-la-revue-etudes-12-01-2015-1895848_23.php

A retirada das caricaturas: belo texto da redação de Estudos em seu site, sob o título «Repercussão». Disponibilizo por extenso ao final. Ler-se-á também com interesse o notável artigo de Laurent Wolf intitulado «Sade, um integralista da lucidez».

Os imams: ao ler no Le Monde de sábado o artigo de Ariane Chemin e Anna Villechenon, percebe-se que os futuros imams formados na Grande mesquita de Paris não estão exatamente destinados a ser, como foram no passado os professores, os «hussardos negros[4] da República». A expressão vem de Péguy: «Nossos jovens mestres belos como hussardos negros. Esbeltos; severos; contidos. Sérios, e um pouco trêmulos por sua precoce, por sua repentina onipotência.»

http://abonnes.lemonde.fr/societe/article/2015/01/17/a-la-grande-mosquee-de-paris-les-futurs-imams-vident-leursac_4558443_3224.html?xtmc=la_grande_mosquee&xtcr=1

«Dei gesta per Francos», ou seja, mais ou menos «a ação de Deus passando pelos Francos»: foi sob esse título que a primeira Cruzada foi narrada por Guibert de Nogent. Ver esse nome no Dictionnaire Du Moyen-Âge, PUF, 2002; várias referências.

A «primeira filha da Igreja»: Lacordaire dixit, em um discurso em Notre-Dame-de-Paris, no dia 14 de fevereiro de 1841; ele comparava a singularidade francesa com a eleição do povo judeu. Ver a sábia intervenção, em 2013, do cardeal Barbarin diante da Academia das Ciências Morais e políticas:

http://lyon.catholique.fr/IMG/pdf/la_france_est_elle_encore_la_flle_ainee_de_l_eglise_cardinal_barbarin_15042013_v2.pdf

Repercussão

«O que esperávamos da revista Études? Certamente que ela tome o tempo da reflexão em relação aos acontecimentos trágicos surgidos na sede do Charlie Hebdo. Tomamos com franqueza a decisão de publicar em nosso site uma reação ‘a quente’. Para manifestar nosso apoio aos nossos confrades assassinados, escolhemos reproduzir algumas primeiras páginas da revista que se referiam ao catolicismo. Era um meio de afirmar que a fé cristã é mais forte que as caricaturas que se pôde fazer delas, mesmo que alguns cristãos tenham se ofendido com isto.

Sem dúvida, isto exigiria explicações mais amplas. Dizer que nós somos “Charlie”, com quem, não mais do que ontem não partilhamos da linha editorial, nem forçosamente do humor, quer dizer que a liberdade de expressão é “um elemento fundamental de nossa sociedade.” (Declaração da Conferência dos bispos da França do dia 7 de janeiro). A repercussão desses acontecimentos lançou o problema no que nos parecia caminhar sozinho. E isto nos entristece.

Querendo dar um fim às polêmicas, decidimos retirar o acesso à página que as fez nascer. Daremos em nossas colunas um grande lugar para as questões que esses acontecimentos levantam e aos comentários que eles suscitaram.

O interesse pela revista, manifestado nessa ocasião pela considerável ressonância que recebeu nossa inicativa, nos encoraja e nos engaja à prosseguir livremente nosso trabalho de reflexão». http://www.revueetudes.com/archive/article.php?code=16644

Publicado em 19/01/2015 no site lepoint.fr

Tradução: Teresinha N. M. Prado.

[1] N.T. Denominação farsesca de uma ordem literária equivalente à de mulheres tolas. Essa expressão aparece em uma carta do escritorDucasse, em 12 de Março de 1870, na qual ele escreve: “Lamartine, Hugo, Musset se transformaram voluntariamente em mulheres tolas. São os Grandes-cabeças-Moles do nosso tempo.”

[2] N.T. “Dei gesta per Francos” (“Atos de Deus pelos Francos”) – História da Primeira Cruzada, escrita pelo monge beneditino, historiador e teólogo Guibert de Nogent, terminada em 1108 e revisada em 1121. Era, em grande parte, uma paráfrase, em estilo mais rebuscado, da “Gesta Francorum”, obra de um autor normando anônimo. Fonte:http://pt.wikipedia.org/wiki/Guiberto_de_Nogent.

[3] Comédia franco-italiana em que um homem é encontrado vivo, congelado, por uma expedição científica no pólo norte, e é progressivamente reanimado.

[4] N.T. “hussards noirs”: nome popularizado por Charles Péguy, que designava os professores do ensino fundamental da rede pública de ensino na III República.

«Wolinski, Santo subito!»

por Jacques-Alain Miller

De Paris, esta terça-feira, 20 de janeiro de 2015, 23h

The Massacre at Paris! Título de Christopher Marlowe. O inglês deve a palavra ao francês. Cocoricó! Sua ocorrência ali é de 1580. A noite de São Bartolomeu é de 1572. É o assunto da peça. Chéreau a encenou no passado, eu havia feito a viagem de Lyon, era maravilhoso, ainda revejo as altas decorações híbridas de Richard Peduzzi (um amigo), misturando a revolução industrial com a Renascença.

O recente massacre em Paris faz o mundo inteiro cacarejar. Na época de Lacan, «o discurso universal», como ele o chamava, era considerado uma abstração, ou um postulado, uma espécie de ideia reguladora. Bom, de virtual que era, esse discurso se tornou aos nossos olhos atual, e até mesmo notícias. E aí, o que ele diz? Estamos muito longe desse «reinado dos fins» concebido por Kant, em que confluiriam todas as boas vontades. A famosa «voz da razão» que segundo Freud acabaria sempre por fazer-se ouvir – foi o ato de fé das Luzes – temos dificuldade de perceber seu murmúrio na barulheira ambiente. Quero que o filósofo encontre na leitura do diário a sua prece matinal, mas o clínico deve constatar que Clio é um personagem em busca de autor e que sofre da doença das personalidades múltiplas.

O presente caso é uma embrulhada. Terrorismo, islã, islamismo, islamofobia, morte aos judeus, liberdade de expressão, liberdade de pensamento, direito à blasfêmia, respeito das religiões, laicidade, choque das civilizações, suicídio francês, vontade divina, vontade de poder, valores republicanos, direitos do Homem ou do Umma… as opiniões puxam para direções opostas. Não encontro sequer alguém que se diga completamente de acordo consigo mesmo. Que confusão! Que cacofonia! E até, que z…na[1]! Isto parece uma cena de «baderna no saloon» de um Western à antiga.

Os tumultos na terra do islã eram esperados. Algumas mortes aqui e ali. As pessoas são resignadas. Ninguém conta mais. Mas, surpresa, eis que Vossa Santidade o Papa, não obstante em jejum, de repente ameaça, com seu falso ar de Fernandel, de «de dar um murro» em um camarada, como se diz em Courteline, se o infeliz, que nem pensa nisso, viesse a faltar com o respeito em relação à sua mãe. Era só piada, naturalmente, para se fazer entender. Muito latino isso, o apelo à mãe para significar o intocável. Isto se encontra também em Albert Camus.

E, para coroar tudo, a transfiguração de Charlie, jornal de merda, em símbolo de Espírito do Mundo (Weltgeist de Hegel), e até do Espírito Santo. Quando os judeus, largados à própria sorte, adoraram o velocino de ouro, isto já não era algo brilhante para um povo escolhido. Eis agora a metade da humanidade devota de um tipo de Troço sagrado. «Alô? Não, mas… alô o quê?» Será uma ópera-bufa? Un episódio de Pantagruel? De Signé Furax? De Monty Python? Ou apenas uma peça que o Príncipe das Trevas aprontou para nós? Quem agencia, quem cenariza tudo isso? Sade? Satã? Sollers? Se é a Providência, então quer dizer que Deus é Charlie!

Eu notava há alguns dias que a capa com Maomé em lágrimas deixava pressagiar a derrota da linha pulsional e dava início a uma virada sublimatória. Hoje estamos neste ponto. Ao redor dos túmulos, isso sublima a plenos pulmões, idealiza, estetiza até a morte. Vejam a capa de Elle. A pomba da paz segura em seu bico, em lugar de um ramo de oliveira, um lápis («E meu traseiro, é feito de nougat?»). A pálpebra abaixada, o pássaro branco sem olhar está totalmente em seu vôo («Descarrega sua titica!») Ela vem de um fundo azul claro, imaculado («SOS, canalha!»).

Estão fazendo abaixo-assinado pela entrada dos defuntos no Panteão. Pelo espírito da oferta mais alta, Arrabal reclama para eles o Prêmio Nobel. Espera-se agora os manifestantes na Praça São Pedro a escandir «Wolinski, Santo subito!» Dizem que amanhã um asteroide será batizado com o nome de Charlie, o qual, ceifado na Terra, renascerá deste modo «no campo das estrelas» (Victor Hugo) – e talvez até das stars, se Hollywood não ceder aos jihadistas.

Nada ilustra melhor a virada sublimatória de Charlie do que o relato que pudemos ler há três dias em Le Journal du dimanche. A viúva de Wolinski, a bela Maryse, entrou em seu escritório. «O cômodo estava nimbado por uma doce penumbra.» Ela localizou esse desenho, «pregado na parede com durex». Ela fez dele «o último desenho de Wolinski.»

Continua

Tradução: Teresinha N. M. Prado.

[1] N.T. Em francês: f…oir [foutoir].

Cada qual com sua verdade

por Jacques-Alain Miller

De Paris, esta sexta-feira, dia 23 de janeiro de 2015

Terei eu transposto os limites da decência? Minha amiga O. acha que sim. Ela não tem nada da heroína de Dominique Aury[1]. Mais do que o gosto por ser açoitada, ela tem o de manejar o chicote. Apreciando pouco minha verve satírica quando beira o obsceno, ela mostra ares de gênio do pudor na Vila dos Mistérios (Pompeia). Isto não é problema! Temos mais de uma corda em nosso arco, em nossa lira.

Vamos lá, marquês, pule!

Reencontro o adágio de Baruch de Spinoza: «Non ridere, non lugere, neque detestari, sed intelligere» – nem rir, nem chorar, nem detestar, mas compreender.

Se considero agora o encadeamento das coisas desde o massacre de 7 de janeiro, vejo um grande sismo no laço social, seguido de intensas emoções individuais e depois coletivas, e imensos movimentos das massas.O fenômeno se reparte pelo planeta de maneira desigual. O epicentro foi em plena Paris. A França arde. A Europa sente calor. Os Estados-Unidos mostram solicitude, mas estão quentes. A China, terra fértil em tremores de terra, onde foi inventado o primeiro sismógrafo (em 132 A.C.), está fria. A Índia também, se o Paquistão não estiver,pois o Umma é totalmente percorrido por ondas sísmicas, do Ocidente aos países muçulmanos.

Zoom na França. Um gigantesco esforço para reassegurar o território nacional e o espaço eletrônico, mobiliza e justifica o poder do Estado, com o conjunto de seus aparelhos de repressão. Convidada a desfilar atrás das autoridades, uma população assustada acorreu em massa. As pessoas marcham ou ficam imóveis, se aproximam, roçam-se. Puro gozo domitsein (de “estar junto”)

As pessoas sondam o futuro, reinterpretam o passado. Confessam seus temores, declaram sua raiva, não sabem a que santo votar-se. Imprecadores, homens da arte, homens das artes, homens de fé, homens de lei, psis, cada um coloca sua estrofe. Indignações ardentes, defensores febris, por vezes angústias pungentes. Em segundo plano, alguns judeus, como de costume, fazem as malas. As opiniões são sondadas: Charlie sim, Charlie não, Charlie, mas. Enquanto na China, um sismo significava que o Céu negava qualquer legitimidade ao Imperador, o presente tremor teria restabelecido a do presidente francês.

As pessoas debatem todos os dias, e em todos os sentidos, e em todos os tons, do pró e do contra, do justo e do injusto, do bem e do mal. As bússolas se desorientam. Cada um tem a ideia da justiça, sem dúvida, e do bem e do mal. Trata-se de uma constante antropológica. Mas «cada cabeça uma sentença». «Cada qual com a sua verdade». Como se orientar no pensamento?

Comecemos por descartar, assim como tantos preconceitos, as noções relativas ao bem e ao mal, ao louvor e à difamação: elas jamais serão consensuais. Seria preciso que selecionássemos pelo menos uma verdade que pudéssemos pretender que se impõe a todo ser razoável. Uma verdade de ordem matemática, que faça brilhar uma outra ideia da verdade, que não seja moralista.

Ora, existe uma, e está na cara.

Publicado em lepoint.fr no dia 25 de janeiro de 2015.

Tradução: Teresinha N. Meirelles do Prado.

[1] Um dos pseudônimos da escritora Anne Cécile Desclos, que escreveu um romance erótico que envolve situações de sadomasoquismo (Histoire d’O – 1954) e cuja protagonista se chama “O”.

 

Dois post-scriptum

 por Jacques-Alain Miller

 Esta segunda-feira, dia 26 de janeiro de 2015, às 15:30

Quando escrevi este texto não tinha conhecimento do podcast crônica de Edwy Plenel, «Um jornalista deve ser spinozista», de 15 de janeiro, que cita o mesmo adágio. Faria então uma meia-volta pela sátira antes de voltar ao intelligere. Dou o ponto a Plenel. A sátira não passa de uma versão cômica da moral. Para Spinoza, a cilada, o impasse, em matéria política, é em primeiro lugar dar lição de moral aos homens. Uma vez que as pessoas se inebriam todos os dias com o sentimento do justo e do injusto, como ir «além do bem e do mal»? Fórmula de Nietzsche, que também gostava de Spinoza e seu adágio.

Não resisto ao prazer de citar o início do Traité politique de Spinoza (ver abaixo), colhido em Wikisource. E uma vez que estou aqui em Médiapart, gostaria de dizer como aprecio a análise de Christian Salmon sobre Maio de 68 versus 11 de janeiro. Também li a entrevista de Carine Fouteau com os presidentes da União dos Estudantes judeus da França. Judeu spinozista, eu não imaginava que as coisas haviam chegado a este ponto na França para meus irmãos fiéis à tradição. Será que devemos portar a estrela de Davi por solidariedade? Como essa família holandesa sobre a qual falava recentemente oThe Times of Israël (ver abaixo).

Spinoza

É a opinião comum dos filósofos que as paixões pelas quais a vida humana é atormentada são tipos de vícios nos quais caímos por falha nossa, e eis por que rimos disso, choramos disso, censuramo-los sistematicamente; alguns até decidem odiá-los, a fim de parecer mais santos que os outros. Também acreditam fazer algo divino e alcançar o cúmulo da sabedoria, quando aprenderam a celebrar de mil maneiras uma pretensa natureza humana que não existe em lugar nenhum e a denegrir a que existe realmente. Pois eles vêem os homens, não como são, mas como gostariam que fossem. Donde chegou-se ao ponto em que, no lugar de uma moral, mais frequentemente eles fizeram uma sátira, e nunca conceberam uma política que pudesse ser reduzida à prática, mas antes uma boa quimera a ser aplicada ao país da Utopia ou do tempo dessa era de ouro para a qual a arte das políticas era certamente para lá de supérflua. Chegou-se então a acreditar que entre todas as ciências susceptíveis de aplicação, a política era aquela em que a teoria mais difere da prática, e que nenhum tipo de homens é menos próprio ao governo do Estado que os teóricos ou os filósofos. — Traité politique, I, 1.

Nietzsche

Estou realmente estupefato, radiante! Tenho um precursor, e que precursor! Eu quase não conhecia Spinoza. Que eu me sinta atraído por ele neste momento vem de um ato “instintivo”. Não somente porque sua tendência global seja a mesma que a minha: fazer do conhecimento o afeto mais potente – encontro-me na sua doutrina em cinco pontos capitais; sobre essas coisas esse pensador, o mais anormal e solitário possível, é-me verdadeiramente muito próximo: ele nega a existência da liberdade da vontade; dos fins; da ordem moral do mundo; do não-egoísmo; do Mal. Se, evidentemente, nossas divergências são igualmente imensas, pelo menos repousam mais sobre condições diferentes da época, da cultura, dos saberes. In summa: minha solidão que, como do alto das montanhas, muitas e muitas vezes me deixa sem ar e faz jorrar meu sangue, é ao menos uma dualitude – Magnífico! – Carta a Franz Overbeck, Sils-Maria, em 30 de julho de 1881, trad.David Rabouin

Portar a estrela de Davi por solidariedade com os judeus

Diante da ascensão do antissemitismo nos Países-Baixos, os membros de uma mesma família decidiram usar uma estrela de Davi para mostrar sua solidariedade com a comunidade judaica de seu país.

Theo Klopstra e Gerja Warner, que não são judeus, assim como sua filha, decidiram portar a estrela de Davi em público porque têm “vergonha do que se passa em seu país”.

Quando Warner notou a ligeira elevação dos acontecimentos antissemitas, começou a encolerizar-se. Ela declarou ao Times of Israel que alguns membros da comunidade judaica retiram a mezuzá [pergaminho fixado à porta, geralmente em uma caixa] de suas portas e retiram também seus chapéus em público.

Nos Países Baixos (Holanda), uma sociedade também bastante tolerante, esse tipo de discriminação contra um povo específico deixa a família Klopstra furiosa. Os judeus, diz Warner, “têm uma história tão difícil, tendo sido perseguidos, maltratados e até assassinados para poder viver aqui”.

Os Países Baixos tiveram um aumento de 23% nos ataques antissemitas desde 2012, segundo o Centro de informação e documentação sobre Israel (CIDI). Em setembro, um judeu usando um kipá foi qualificado de “câncer judeu” e quase foi esmagado por um homem com uma moto. Incidentes similares, tais como o vandalismo de sites judaicos e as mensagens raivosas de Twiter são também mais frequentes do que antes.

Por falta de uma comunidade judaica local, a família Klopstra comprou colares ornados com a estrela de seis pontas em uma sinagoga de uma cidade vizinha.

Nos Países Baixos a comunidade muçulmana representa 6% da população total, logo atrás da França, que tem 7,5%. Os suportes holandeses ao Estado islâmico desfilaram em apoio aos cidadãos de Gaza e do Hamas durante o verão, em pleno conflito em Gaza.

“Devo dizer-lhes que não somos cristãos-novos com uma estranha afeição por seu país”, declarou Klopstra ao Times of Israël. Em vez disso a família assegura que está preocupada em mudar uma narrativa destrutiva e antissemita veiculada pela mídia europeia.

“Se amanhã um idiota vier dizer que o vírus Ebola foi feito em Israel, muitas pessoas acreditarão nele”, declarou Klopstra.

Usando seus colares com orgulho e respondendo às perguntas dos curiosos, a família Klopstra espera aumentar a tolerância às minorias e ajudar a lutar contra a ascensão de um sentimento antissemita em seu país.—The Times of Israël, Joëlle Millman, 19 de novembro de 2014.

Segundo post-scriptum, esta segunda-feira, dia 26 de janeiro de 2015, às 22h

Esse homem está por todo lado! Como o furão do bosque bonito! Como ele fez, meu amigo Bernard (Bernard-Henri Lévy), para encontrar-se na última quinta, depois de Krishnamurti e Elie Wiesel, a pregar diante da Assembleia Geral da ONU? [texto publicado em La Règle du jeu on line]. E como ele fez para encantar essa plateia de Excelências?

A resposta não é difícil: ele usa de uma bela prosa francesa, sonora, cadenciada, oratória, eufônica, e lança uma série de argumentos bem pensados, agudos, maravilhosamente ajustados, digno dos maiores advogados: Demóstenes talvez, mais do que Cícero. Simplesmente, ele fala a verdade.Admiro particularmente a quarta parte de seu discurso, quando enumera em um piscar de olhos os quatro estratos sucessivos do antissemitismo After Death: antissemitismo cristão; antissemitismo das Luzes; antissemitismo positivista; antissemitismo socialista. Cada uma dessas épocas ele encarna em uma figura que faz falar. Adoro quando coloca em sua boca uma frase, uma só, tão bem calibrada que pinta todo o seu sistema de pensamento. Foucault sabia fazer isso. É o grande teatro das ideias. É forte. É “trapu”[1], como dizíamos outrora na École normale, acerca de Althusser, para celebrar um belo “pex” (exposição) bem fundamentado.

Permito-me uma única ressalva, quando BHL volta ao presente. Acho um tanto complicada sua declinação de três enunciados visando Israel. Aos meus olhos, só há um que tem valor, a saber: os judeus roubaram a terra do povo palestino e trata-se de devolvê-la a eles. Mas deixemos. Voltarei a isso um dia.

Para falar a verdade, talvez o que mais admiro em Bernard é a desenvoltura com que se endereça a essas sumidades, a esses senhores do mundo, o respeito com que os trata, a seriedade, o tato e a refinada polidez que ele emprega aí, sem de modo algum tornar enfadonhas as suas afirmações. De minha parte eu me saio como um incorrigível “esquerdista” que, no lugar de nosso orador – e é bem por isso que, além da falta de talento, claro, não pretendo fazê-lo – pensaria no “jantar de cabeças” de Prévert, grande amigo de minha sogra Sylvia, faria caretas e seria incongruente. “A mais nobre conquista do homem foi o cavalo, disse o presidente… e se só sobrou um, eu serei aquele”. Não é mesmo uma atualidade?

Bom, intelligere sem gozação, ainda não cheguei a isso. BHL e Plenel estão ambos mais avançados que eu na carreira do spinozismo. A infelicidade é que eles não se ouvem. Como pode? Haveria água no gás da Razão? Pior, Amor intellectualis Dei?Se me permitem.

Tradução: Teresinha N. M. Prado.



[1] N.T. Argot, com sentido de complexo, difícil.