PSICANÁLISE E LITERATURA (LITURATERRA): CLÍNICA DO PARLÊTRE E ESCRITA DO PONTO DE PERVERSÃO

Panorama geral do Seminário – 8 de agosto de 2016

Christiano Lima
(membro da EBP/AMP)

Neste seminário, trabalharemos em duas frentes a fim de articular estes dois campos análogos que são a Psicanálise e a Literatura: dois livros de Yukio Mishima que podem ser lidos como romances autobiográficos (se é que esta denominação tem algum sentido) – Confissões de uma máscara (1949) e Sol e Aço (1970), escrito pouco antes de seu autor cometer o suicídio ritual; e o ensino de Jacques Lacan. Não se trata de uma aplicação da Psicanálise à Literatura. Muito mais próximos estamos da interrogação de o que a Literatura tem a ensinar à Psicanálise. Se Psicanálise e Literatura podem ser tomados como campos análogos é porque partilham de um mesmo instrumento – a letra – para operar um savoir-faire com o real.

Lacan, ao longo de seu ensino, mostra-nos como a literatura é um importante operador para que a psicanálise possa cernir o real. Neste Seminário, investigaremos a articulação Psicanálise e Literatura a partir da escrita do ponto de perversão. Para tal, nos deixaremos ensinar pela obra de Mishima.

Tomaremos como eixo algumas formulações de Jacques-Alain Miller, escritas em 2011, em um prefácio ao livro de Philippe Hellebois intitulado Lacan lecteur de Gide. Este prefácio é posterior ao seminário O ser e o Um, título inicialmente dado a seu seminário proferido em 2010-2011. Para a publicação, Miller decidiu mudar seu título para L’Un tout seul. Neste pequeno texto à guisa de prefácio, Miller retoma e recoloca sob uma nova perspectiva tanto o texto de Lacan sobre o escritor André Gide de 1958, quanto seu próprio texto Sobre o Gide de Lacan (1988/1998).

            Então, passaram-se 30 anos entre o texto original de Lacan e o texto de Miller e 23 anos entre o comentário de Miller Sobre o Gide de Lacan e o prefácio do qual partiremos.

            Parece-nos um bom ponto a partir do qual podemos ler o que se produziu no Campo Freudiano nestes 23 anos. Neste tempo, vários seminários de Lacan tiveram seu texto estabelecido por Miller, inclusive aqueles que inauguram seu último ensino. De modo que, hoje, temos acesso a várias formulações que não haviam sido publicadas e/ou alcançado uma maior difusão. Em 2016, temos maior possibilidade de ler e destacar as linhas de força que orientaram o ensino de Lacan. Ensino principalmente oral em que podemos ver operar um verdadeiro work in progress com tudo o que isso implica de paradoxos, contradições, ideias que são tomadas e desenvolvidas em seminários posteriores, outras que não são retomadas e parecem ter sido abandonadas e /ou deixadas em suspensão. Este caráter algo errático do ensino de Lacan, assim como de todo trabalho intelectual que se fundamenta em uma práxis, é destacado por Miller em Uma introdução à leitura do seminário 6 (2013/2014). A Psicanálise, conforme já havia nos advertido Freud, é uma teoria da prática e não um sistema coerente de pensamento que constitui uma visão de mundo. Assim, parece-nos que uma leitura fecunda do ensino de Lacan não deve forçar uma coerência, procurando aplainar as idas e vindas características de uma teoria da prática. Deste modo, considero que o último ensino de Lacan não anula aquilo que habitualmente referimos como seu primeiro ensino, mas o reposiciona de modo radical.

            Consideramos que o Campo Freudiano tem feito com Lacan o mesmo que Lacan fez com Freud. Algo que pode ser localizado como Lacan contra Lacan, sem que uma proposição, só por ser a última, implique a derrocada de uma primeira formulação. Porém, se não implica a anulação da primeira formulação, necessariamente produz o efeito de reposicioná-la tendo em vista uma orientação da clínica psicanalítica a partir do real.

            Dois exemplos talvez situem o que queremos dizer:

1°) quando Freud inicialmente descreve o Édipo, destaca o jogo afetivo que se produz no referido complexo. Amor e ódio são inicialmente percebidos, descritos, captados. Por quê? Porque a manifestação afetiva é obviamente a face mais visível do que está em jogo no tempo do Édipo. No entanto, Freud também destaca, ao longo de sua obra, a articulação entre a pulsão e a identificação, bem como a vetorização das ditas escolhas de objeto a partir daí. Esta face que podemos identificar como estrutural não anula absolutamente a dimensão afetiva presente no complexo. Mas reorienta a clínica, na medida em que demonstra que não se pode fiar nos afetos para a direção do tratamento. É esta dimensão estrutural que o primeiro ensino de Lacan ressalta ao orientar o retorno à Freud a partir do simbólico, ou seja, da Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953), nome do texto que Lacan considerava inaugural de seu ensino propriamente dito. Isto estava em Freud? Sim e não, podemos responder. Após a leitura de Lacan, parece-nos óbvio que sim. No entanto, sabemos que outras tendências dentro do campo psicanalítico não leram isto, o que produziu uma prática radicalmente diferente. Então, a dimensão estrutural não estava lá. É produzida pela leitura, pelo recorte que Lacan faz no texto freudiano.

O mesmo podemos dizer sobre a foraclusão enquanto conceito fundamental para se pensar a psicose no primeiro ensino de Lacan. A palavra estava em Freud, mas não o conceito. Hoje podemos até destacar três ou quatro passagens em que parece evidente que Freud fala da foraclusão como mecanismo específico da psicose por oposição ao recalque, por exemplo. No entanto, a evidência que lemos em Freud é o efeito da leitura de Lacan. Em Freud, não há evidência nenhuma. Isto só demonstra uma característica inerente ao simbólico. Uma leitura, um acontecimento produz seus antecedentes. O que não quer dizer que os antecedentes existiam antes, muito menos que tal ou qual leitura portaria uma necessidade intrínseca, ou seja, que dados tais elementos seria forçoso e inevitável concluir que …

2°) O segundo exemplo pode ser situado no próprio ensino de Lacan. Conforme Miller (2013/2014), o seminário 6 pode ser lido como primeira elaboração de uma teoria da fantasia em Lacan. O objeto é considerado imaginário e somente ao final do seminário, de modo bem discreto, insinua-se que talvez seja da ordem do real. Mas isso não é absolutamente destacado, nem evidente. A segunda teoria da fantasia, elaborada anos depois, de modo mais evidente – por exemplo no seminário 14 – situa o objeto como real. Neste ínterim, foi necessária toda a construção do objeto a operada ao longo do seminário 10. De novo, podemos considerar que a face imaginária do objeto da fantasia é a que se evidencia primeiro, posto que a clínica da neurose destaca exatamente a caracterísca imaginária do objeto. O neurótico é aquele que se relaciona com um “falso objeto”, ou melhor, aquele que reveste o caráter real do objeto pelos semblantes extraídos do campo da Demanda do Outro, tanto em sua face simbólica quanto imaginária. É a dimensão da angústia, em que o objeto aparece desvestido dos semblantes, que permite à Lacan evidenciar a dimensão real do objeto. Isto quer dizer que o que se enunciou sobre o caráter imaginário do objeto da fantasia na sustentação do desejo (seminário 6) deve ser abandonado? Absolutamente. Mas certamente, reposiciona a dimensão do objeto e a operação clínica.

No entanto, ao ler o texto dos Seminários de Lacan, como nos adverte Miller (2013/2014), há outro aspecto a ser considerado: se “suas novas construções não anulam as antigas, [mas] as prolongam, (…) por vezes, as novas perspectivas apagam realces que as antigas evidenciavam e creio que, no que concerne à fantasia, é o caso” (p.29).

Vamos voltar a esta temática da fantasia, pois é justamente o que está em causa no texto do prefácio a que nos referimos e que aparece nomeada como “ponto de perversão”.

Por enquanto, sigamos mapeando o terreno. No que nos interessa mais de perto neste Seminário, parece-nos fundamental articular:

  • O que é enunciado por Lacan sobre os três tempos do Édipo no Seminário 5;
  • Os desenvolvimentos acerca da relação entre desejo e a demanda, bem como a estrutura da fantasia fundamental tal como aparece no Seminário 6 (primeira teorização de Lacan sobre a fantasia);
  • A função do Bem e do Belo como barreiras que funcionam como defesa em relação ao campo central do desejo / Das Ding (Seminário 7);
  • A relação entre o objeto a e a angústia (Seminário 10);
  • As formulações sobre a pulsão no Seminário 11;
  • O estabelecimento de uma segunda teorização sobre a lógica da fantasia no Seminário 14;
  • A teoria dos discursos como aparelhamento do gozo (Seminário 17);
  • O discurso, o semblante e a escrita (Seminário 18);
  • O reino do Um, localizado no Seminário 19;
  • A teoria do gozo formulada no seminário 20;
  • A Clínica Pragmática ou a clínica do funcionamento que decorre das formulações sobre o sinthoma no Seminário 23.

Continuando a mapear o terreno, destacamos nos Escritos, textos fundamentais que guardam relações íntimas com os Seminários. Sabemos que os Escritos podem ser lidos como uma espécie de precipitado, de algo que se decanta a partir do ensino oral de Lacan. Destacamos:

  • O seminário sobre a carta roubada (1955-1956), contemporâneo do Seminário 3, em que Lacan trabalha o conto de Edgar Allan Poe para situar a prevalência do simbólico, do significante sobre os efeitos de sentido e o significado (que se situam no registro imaginário);
  • A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud (1957);
  • De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose (1957-1958) em que podemos ler os esquemas L,R e I a partir dos quais Lacan procura situar o campo da realidade e suas transformações com o desencadeamento da psicose. Notemos que este texto é pouco anterior ao Seminário 6, onde fica demarcado como o campo da realidade é a fantasia.
  • Juventude de Gide ou a letra e o desejo (1958), também próximo do seminário 6, assim como A significação do falo (1958);
  • A direção da cura e os princípios de seu poder (1958). Último escrito antes do Seminário 6, que pode ser pensado, como veremos, como uma tentativa de resposta ao problema levantado na conclusão deste texto no tocante à interpretação. Lacan evoca o São João de Leonardo da Vinci para situar o caráter alusivo da interpretação. São João aponta seu dedo para outro lugar, para um lugar outro. Imagem evocada como análoga ao procedimento interpretativo em psicanálise. Ocorre que há algo que se depreende da experiência de uma análise que a interpretação como alusão não pode abarcar. Trata-se do ponto fixo que Lacan descobre no Seminário 6 quando afirma que “a própria fantasia é interpretação do desejo” (Miller, 2013/2014). Se, em A direção da cura, a interpretação pode ser pensada via alusão é porque Lacan está situando a metonímia que opera na diacronia da cadeia significante. A diacronia destaca o caráter metonímico do desejo ao mesmo tempo em que revela que o desejo não tem objeto. Assim, a alusão é a forma privilegiada de interpretação por situar o próprio deslizamento significante e a metonímia do desejo. No entanto, no Seminário 6, a dimensão sincrônica é evidenciada. Aí aparece algo que resiste à interpretação, cuja abordagem não se dá pela via interpretativa, mas pela construção em análise. Trata-se da fantasia como interpretação do desejo, ou seja, daquilo que se secreta quando se evidencia o corte que necessariamente há entre um significante e outro. A este corte, a fantasia é a resposta: articula o sujeito barrado que emerge entre os significantes com o objeto (no Seminário 6, principalmente em sua face imaginária). Assim, se o desejo é hiância que se abre no corte entre os significantes, o caráter opaco do desejo do Outro é interpretado pela fantasia. Aqui é o sujeito que interpreta. Em relação à fantasia, na direção do tratamento, não se trata da parte do analista de interpretação, mas de construção. Sobre este aspecto recomendamos a leitura do texto de Freud (1919), Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais.
  • Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina (1960) em que Lacan enfatiza o desdobramento do objeto erótico (amor/desejo) na mulher. A ideia já havia sido trabalhada em 1959 no decorrer do Seminário 6.
  • Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano (1960) em que Lacan destaca o prazer como barreira “quase natural” em relação ao gozo. Esta noção será útil ao lermos Mishima.
  • Posição do inconsciente, conferência pronunciada em 1960, mas escrita em 1964 (ao mesmo tempo em que Lacan trabalhava, no Seminário 11, as questões relativas ao objeto a e à pulsão). Lacan considerava este texto “o complemento e quase um novo ponto de partida do que ele abrira com seu texto inaugural ‘Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”” (Miller, 2013/2014, p.26).
  • Kant com Sade (1963), texto fundamental sobre a questão da perversão e do ponto de perversão.

 

Nos Outros Escritos, destacamos, por sua relação com a literatura, a letra e a leitura, os seguintes textos:

  • Homenagem a Marguerite Duras, pelo êxtase de Lol V. Stein (1965);
  • O engano do sujeito suposto saber (1968);
  • A lógica da fantasia (1969);
  • Lituraterra (1971): em que Lacan desenvolve a noção de letra como borda do furo no saber.
  • Televisão (1973);
  • Prefácio a O despertar da primavera (1974);
  • Joyce, o Sintoma (1975-1979);
  • Prefácio à dição inglesa do Seminário 11 (1977).

Para encerrar esta panorâmica do percurso de nosso Seminário, trago as citações do Prefácio de Miller que nortearão nosso trabalho:

“Conforme a lógica mais íntima ao discurso analítico, há um coração da literatura, um nó (kern) do ser literário, e que não é literatura, mas lituraterra (lituraterre) – o ilegível, “não-a-ler”[1], o signo que se torna desejo, como papel impresso que serve para embalar o peixe (Miller, 2011, p. 8).

“Outra razão ainda explica a ileitura desse texto.

Lacan, sempre à frente de seu tempo, estava desta vez à frente de si mesmo: ele antecipou este reinado do um que desenvolverá bem mais tarde a partir da lógica. Quem era de fato André Gide?  – Senão um ser que se acreditava representativo ao ponto de querer erigir sua singularidade como paradigma. Mas de quê? Da pedofilia, da perversão? Nós entramos em sua obra como em um gabinete de curiosidades, de fato, de monstruosidades? Longe de fazer com se desvie o olhar, a perversão de Gide o atrai mais porque ele seria representativo da presença, em cada um de nós, de um ponto de perversão, para cada um diferente. Isto é o que, mais delicadamente, chamamos nosso modo de gozar. É isso que torna para nós tão difícil ‘fazer laço social’, tanto em nossa vida amorosa quanto em nossa vida cotidiana.

Gide testemunhou isso, que nosso modo de gozo, que nos singulariza, nos faz também a lei, uma lei de ferro, ao ponto que se pode duvidar de que aí haja um outro, senão pela via do semblante. Gide não cessou de representar essa falha existente entre amor e desejo onde se aloja o gozo. É por aí que Gide exige nosso interesse para além de sua insignificante singularidade (Lacan).

Ele constituiu lentamente, por sua obra, um público que devia segui-lo, dando-lhe assim um semblante de ser. Como todo mundo, ele não tinha necessidade de ninguém para existir, mas não podia dispensar o Outro para ser. Isso é o que mostrei em meu curso deste ano: o Um é a coisa do mundo melhor compartilhada, mas é o Um sozinho. Ele condiciona uma aspiração ao ser necessariamente decepcionante, porque não há relação sexual” (Miller, 2011, p.8,9).

No próximo Seminário, em setembro, partiremos da lógica da fantasia tal como evidenciada no Seminário 6, a fim de nos aproximarmos gradativamente das pontuações de Miller nas citações acima, bem como iniciar nosso percurso de nos deixar ensinar pela literatura de Yukio Mishima.

Rererências bibliográficas:

FREUD, S. (1919/1980). Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões sexuais. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmung Freud, Vol. XVII. Rio de Janeiro: Imago.

LACAN, J. (1966/1998). Escrtitos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

_______. (2001/2003). Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

MILLER, J-A. (1988/1998). Sobre o Gide de Lacan. In: Opção Lacaniana, n°22. São Paulo: Edições Eolia.

____________. (2013/2014). Uma introdução à leitura do Seminário 6. In: Opção Lacaniana, n°68-69. São Paulo: Edições Eolia.

___________.  (2011) Préface. In: Hellebois, Ph. Lacan lecteur de Gide. Paris: Éditions Michèle.

(Obs: os textos dos Escritos e dos Outros Escritos que consideramos mais fundamentais em nosso percurso estão indicados ao longo do texto, bem como os Seminários de Lacan que constituem pontos-chave).

[1] A tradução destes trechos do original francês é de nossa autoria. A Axpressão “pas-à-lire”: porta uma ambiguidade que se perde na tradução para o português. Em francês, podemos ouvir tanto “não-a-ler” quanto “passo-a-ler”.