#qqpega 13

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Boletim da XX Jornada da EBP-MG “Jovens.com; Corpos & Linguagens”
2 e 3 de setembro de 2016
Caros colegas,

NOSSA JORNADA ESTÁ CHEGANDO! NO PRÓXIMO DIA 04 DE AGOSTO, AS INSCRIÇÕES AUMENTARÃO DE VALOR E NÃO SERÁ MAIS POSSÍVEL PARCELÁ-LAS,ENTÃO NÃO PERCAM ESSA OPORTUNIDADE E SE INSCREVAM!!!

Neste mesmo dia 04 de agosto, quinta-feira, às 20h30, na sede da EBP-MG, acontecerá o último Seminário Preparatório rumo à nossa XX Jornada, sob o tema: A Socialização sob a forma do sintoma. Para tal atividade, contaremos com as intervenções das colegas Cristina Nogueira e Márcia Mezêncio.

Cristina Nogueira trabalhará a partir do título “Delinquência e desejo anônimo” e nos enviou uma prévia de sua intervenção:

A ausência do pai na vida da maioria dos adolescentes que se envolvem em atos infracionais é muito significativa. Quando eles são convocados a falar, significantes sobre o pai ou daquele que poderia fazer um semblante paterno, vão surgindo como alguém que inspira violência, que os maltratou de maneira grave, gerando ódio e sentimento de impunidade. Costumam dizer a respeito dos primeiros atos infracionais cometidos que são dirigidos aos “boys” — aqueles que têm um pai que pode lhes dar “coisas de marca”, o que os adolescentes citados não têm. Qual a leitura da psicanálise sobre esse fenômeno?
Nem todo ato infracional gera uma saída pela delinquência ou fixa uma nomeação pelo ato. 

Muitas vezes, pode representar um apelo, um pedido, e não mais se repetir, sendo mesmo algo inerente à puberdade, conforme esclarece Freud (1916/1980). Trabalharemos nesse seminário preparatório da jornada “Jovens.com; corpos e linguagem” algumas articulações dessa leitura destacando o tema da identificação na puberdade e embaraços na construção do romance familiar a partir dos textos de Freud e Lacan. Um problema na “transmissão de um desejo que não seja anônimo” será o conceito lacaniano destacado sendo a hipótese central calcada na forma como impasses nessa transmissão favorecem a saída pela delinquência.
E Márcia Mezêncio também nos enviou seu argumento para a atividade desta quinta-feira:
“A constituição do sintoma na juventude: deriva e ruptura” foi o título que indiquei para minha intervenção no seminário preparatório do dia 04 de agosto. Esse título remete ao eixo de trabalho que se pretende explorar nesse seminário – A socialização sob o uso do sintoma – e traz ressonâncias de alguns textos trabalhados em função de minha prática profissional no acompanhamento de adolescentes em conflito com a lei, da preparação dessa jornada e de nossas publicações dedicadas ao tema, da investigação do Núcleo de Psicanálise e Direito do IPSMMG, que coordeno no momento.
Esse primeiro eixo pretende interrogar a juventude junto à lei e às bordas do social, considerando a destituição da tradição e o declínio do Nome-do-Pai, o que nos remete à deriva, à desorientação dos jovens em um mundo sem referências. Abordarei a clínica do ato (infrações, delinquência) a partir de situações e fragmentos que recolho em meu trabalho de supervisão de casos no serviço de acompanhamento de medidas socioeducativas da PBH.
Outra questão, também indicada pelo argumento da jornada, tem sido investigada pelo Núcleo de Psicanálise e Direito do IPSM-MG. Vimos nos debruçando sobre o que temos chamado de mal-estar nas identificações e nos deparamos justamente com os territórios da juventude demarcados pelas turmas, gangues e torcidas, ou com os jovens adeptos de práticas de risco, diante dos quais nos indagamos se o perigo e a morte sinalizam uma tentativa de inscrição ou uma ruptura com o Outro.

Como divulgado em outras edições do Boletim #qqpega, o rapper Flávio Renegado, será entrevistado durante a XX Jornada, e para quem ainda não o conhece, a colega Josiane Gomes Soares elaborou um “currículo” de nosso convidado.

Flávio Renegado ou Renê para os “chegados”. Apelido herdado do batismo no RAP. Rito de passagem necessário para ingressar nesta nova tribo.

Se apropriou do “Renegado” orientado pela possibilidade de propor temas, debates que discutissem os excluídos desde sempre no nosso contexto social, tais como negros, pobres e menos favorecidos.

Morador do Alto Vera Cruz, comunidade da zona leste de Belo Horizonte. Seu primeiro contato com a música se deu quando ia “trabalhar” com sua mãe com seu radinho de pilha. A mãe fazia faxina enquanto ele ouvia música e olhava a irmã mais nova. Ele diz: “beco é assim, todo mundo trabalha junto!”. O 2° contato se deu no seu percurso com a capoeira de angola em que localiza o seu encontro com instrumentos musicais. Nesta época, já iniciava suas primeiras composições musicais incentivado pelo seu mestre de capoeira. Através do break, reaproxima da música novamente e encontra no RAP o lugar da sua representação: “As músicas falavam o que eu vivia”.

Queria saber um pouco mais sobre o movimento HIP HOP (composto por 4 elementos: DJ, RAP, MC, BBOY. Mas teve que pesquisar! Em uma época em que não existia google e incentivado pelas pessoas que já se encontravam no movimento do HIP HOP a pesquisar, foi um bom encontro com a biblioteca. Encontro este que orientou o seu percurso. Afastou-se e aproximou-se da sua decisão de seguir com a música várias vezes. Com aproximadamente 15, 16 anos, cria o NUC – Negros da Unidade Consciente – onde desenvolvia trabalho enquanto educador social e tinha como missão formar cidadãos.

Porém, por questão de sobrevivência, levou muitos outros trabalhos em paralelo. Com 16 anos trabalhou como office-boy, com 18 iniciou seu percurso como educador social tendo sob sua responsabilidade 35 adolescentes. Com 22 anos, vê um jovem de uma das suas oficinas morrer assassinado e, diante do que ele nomeia como “impotência”, decide viver de música e fazer circular seu trabalho e as discussões que julgava necessárias para mudar este cenário.

Após o NUC, funda o “manifesto primeiro ato”. Encontro que reuniu: RAP, cantiga de roda, capoeira e samba”.

Teve influência musical de James Brown e Jorge Ben Jor quando ainda nem entendia de música, mas escutava este “’som” do traficante, seu vizinho, que possuía equipamentos de som muito potentes e escutava música sistematicamente, todos os fins de semana, com hora para começar e terminar. Conheceu a música, o balanço, o gingado. Com ele aprendeu a dançar o “soul”. Destas referências, destaca o seu encanto por estes que inventam um novo som.

Em 2008 lança “Do Oiapoque a Nova York”. Possui um destaque considerável em sua carreira. Revolucionário para o RAP nacional que dialogava com músicas densas. Música que destaca a mudança da sua vida e o faz entender o HIT. Além de possibilitar-lhe falar de amor pelo RAP num contexto machista em que as mulheres não existiam.

Partiu dos estreitos becos do Alto Vera Cruz para o mundo, realizando shows na Europa, Oceania e todas as Américas. O que contribuiu para a sua próxima produção.

Em 2011 lança o álbum “Minha tribo é o mundo”, momento em que estava vivenciando ser um “cidadão do mundo”.

Em 2014 lança “Suave ao vivo”.

Em 2015, lançou um EP com o título “Relatos de um Conflito Particular”, tendo como tema os sete pecados capitais, ilustrados em sete faixas.

Em 2016  “Outono Selvagem”  surge do sucesso do EP sobre os sete pecados e Renegado emerge em seus conflitos pessoais compondo outras sete músicas relacionadas às virtudes, contando a própria história.

Apresento-lhes Flávio Renegado, com quem tive o prazer de conviver enquanto ele construía o seu percurso, buscando uma bússola que o orientasse. Penso que será um bate-papo formidável nesta XX Jornada que se propõe conversar sobre “jovens.com: corpos e linguagens”.Finalizando esta edição do Boletim #qqpega 13, disponibilizamos mais duas entrevistas. A primeira realizada por Sérgio de Campos com o MC Panisset, que utiliza das rimas e improvisações para fazer sua arte. A segunda, realizada por Cristiana Pitella de Mattos com a colega da EOL, Nieves Soria Dafunchio que nos transmite como operar com os jovens numa clínica fundada na inexistência do Outro como defesa contra o real. Acessem as entrevistas no nosso Blog.

Boa leitura.

Miguel Antunes
Coordenador do Boletim #qqpega