#qqpega 16 – ENTREVISTA COM XAVIER ESQUÉ, VÍDEO DE RUA II E MUITO MAIS…

Boletim da XX Jornada da EBP-MG “Jovens.com; Corpos & Linguagens”
02 e 03 de setembro de 2016

Caros colegas,
Ainda restam algumas vagas para nossa XX Jornada. Caso ainda não tenha feito sua inscrição, garanta seu lugar e se inscreva o quanto antes. Para quem ainda não se decidiu se vai à Jornada ou perdeu o último boletim e não viu o programa, disponibilizamos novamente o link. Não fique de fora!

Dando continuidade às entrevistas com os colegas da AMP, nesta edição temos o prazer de publicar as respostas de Xavier Esqué – Presidente do próximo Congresso da AMP que acontecerá daqui a dois anos em Barcelona – a Sérgio de Campos: “desde a perspectiva psicanalítica, o que mais nos interessa é que ser jovem é o tempo de pôr a prova uma nova aliança entre a identificação e a pulsão”. Leia toda a entrevista em nosso blog.

Nesta recheada edição do Boletim #qqpega 16, trazemos duas contribuições de colegas que nos relatam suas experiências com a juventude. Cristiane Cunha traz os impasses e avanços no atendimento aos jovens no ambulatório Janela da Escuta; e os residentes e jovens psiquiatras nos falam de sua própria juventude à frente do Centro de Estudos Galba Velloso. (Leiam os textos logo abaixo deste editorial no blog).

Trazemos, na sequência, o Vídeo de Rua II, gravado no tradicional Edifício Arcangelo Maletta. Perguntamos aos funcionários, frequentadores dos bares, sebos e afins: “qual a marca da juventude?”.

Neste domingo, 14 de agosto, na coluna “Em dia com a psicanálise”, de Regina Teixeira da Costa, do caderno Cultura, do Jornal Estado de Minas, foi publicada uma chamada para nossa XX Jornada da EBP-MG. Confira este convite feito por Elisa Alvarenga, clicando aqui.

E, por fim, trazemos a entrevista com o MC João Paiva e suas rimas, baseadas no estilo Slam Poetry. MC João Paiva é professor, artista, ativista e morador da região do Barreiro.

Confiram as duas entrevistas logo abaixo deste editorial e, também, em nosso Blog.

Uma boa leitura!

Miguel Antunes
Coordenador do Boletim #qqpega

 

Adolescentes falantes

                                                                       Cristiane Cunha

No campo da saúde, há uma lacuna referente à adolescência. Ouvimos de alguns profissionais desse campo que os adolescentes não vão ao centro de saúde, não tem demanda, não falam e quando falam mentem.

Os adolescentes subvertem todos esses enunciados quando alguém em posição analisante quer ouví-los. Esse desejo pode se materializar na abertura de horários, na desburocratização do serviço, no convite para se sentar ao lado do adolescente, para escutar o que ele tem a dizer, além das demandas da família, da escola, da saúde, do socioeducativo. Seguindo Lacadée (2011), trata-se de oferecer uma outra possibilidade de tradução para aquilo que já foi nomeado como o pior, resgatando o gosto pelas palavras, por uma linguagem nova. Com Freud (1910), somos instigados a jogar a vida, não empurrando o jovem para a morte.

No laboratório Janela da Escuta (CIEN), recebemos os encaminhamentos dos adolescentes com transtornos alimentares, de aprendizagem, de conduta, de humor, sem adesão aos tratamentos, com deficiências, com doenças incuráveis, infratores, monstros.Essas nomeações revelam o Outro do adolescente, marcado pela segregação. A equipe interdisciplinar, com a orientação lacaniana, tece a rede que abriga aquilo que escapa às práticas protocolares, regidas pela objetividade e pela lógica da avaliação.  Médicos, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, artistas, acolhem o adolescente e quem o acompanha: familiares, agentes socioeducativos, outros jovens. Durante toda a manhã, há oficinas de arte e atendimentos que se pautam pela singularidade do caso. A partir dos impasses do caso, a equipe que se constitui em torno deste se desloca para o território: escolas, quilombos, centos de saúde, ocupações, unidades do sistema socioeducativo, para o trabalho artesanal de construção do caso e da rede, sob medida. A interlocução preserva o lugar central no qual o saber do adolescente pode emergir e nos guiar, na clínica e na cidade.

A metodologia em ato (termo cunhado por Antônio Teixeira) propõe uma desconstrução das nomeações impostas a esses jovens – negros, pobres, moradores da periferia ou das ruas, segregados pela escola, por eles mesmos. Da deficiência à potência, do monstro ao leitor, do doente incurável ao grafiteiro, pensando em exemplos vivos da clínica. Trata-se de instigar o adolescente a se deslocar das nomeações impostas que traçam seu destino para a morte, simbólica ou concreta. A inventar outros nomes, outras amarrações com a vida.

Um adolescente é descoberto por um profissional em uma ocupação, onde vivia com a família, mas recluso no seu quarto. Ele chega em silêncio no Janela da Escuta. Mas aos poucos fala sobre seu exílio e, ao falar, ele rompe o exílio. Algum tempo depois, sua casa é destruída em um incêndio. Ele diz que ter saído do quarto o salvou, que ele renasceu das cinzas.

Um adolescente chega, por sugestão de uma vizinha, após dois anos de reclusão no quarto, quase sem falar.  No laboratório Janela da Escuta, ele se dirige ao médico, e pede um exame para ver o que o come por dentro. Ele vem a cada semana com seu instrumento musical, e passa a se apresentar como o músico da equipe.

Um adolescente de 13 anos que está privado de liberdade chega algemado. Imediatamente, pedimos a retirada das algemas. Instigado a falar, ele diz que sua vida é longa, que dá um filme. E acrescenta: mas vou fazer um resumo. Ele bordeja o indizível, o que ele nomeia como raiva.

O desejo de aprender com os jovens anima também a pesquisa. Lendo sobre adolescência, decidimos ir até uma ocupação para ouvir os jovens. Um deles nos recebe; durante duas horas, o ouvimos falar sobre a cidade, sobre políticas. Da sua vida, surgem fragmentos: cresceu em uma ocupação, saiu cedo da escola. A escola não é um jogo da vida para ele, ela reproduz uma assimilação sem crítica de informações. Para ele, o professor deveria despertar o desejo de aprender, de pesquisar. Sobre a saúde, diz que é preciso menos tecnologia, menos consumo e mais cuidado. Ele nos fala sobre a convivência com a diversidade; na ocupação há várias tribos. Ele nos mostra as unhas pintadas e nos diz que é hétero, mas que às vezes usa esmalte e sai de saia com a turma trans. Todo mundo cabe na ocupação (até nós somos convidados a calçar um chinelo e dormir lá) desde que permaneça na orde. Ele articula ações e também viaja pelo mundo, que é grande, bonito e de graça. Quando me despeço, lhe digo que tenho muito que pensar depois de ouví-lo. Em um abraço, ouço: Não pense, viva!

Referências:

FREUD, S. Contribuições para uma discussão acerca do suicídio (1910). Rio de Janeiro: Imago, 1976. p.217-218. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.11).

LACADÉE, P. O despertar e o exílio: ensinamentos psicanalíti­cos da mais delicada das transições, a adolescência. Rio de Ja­neiro: Contra Capa, 2011.

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Centro de Estudos Galba Velloso:

jovens com desejo

Bruno Engler Faleiros
Lucas Boaventura
Raimundo Jorge Mourão
Vicente De-Nardin

A despeito dos seus mais de cinquenta anos de idade, pode-se afirmar que o Centro de Estudos Galba Velloso (CEGV) se manteve jovem. Território perene de psiquiatras em formação, o CEGV soube preservar ao longo do tempo a permeabilidade discursiva ao novo e às invenções – fazendo disso condições orientadoras e inegociáveis.

As primeiras ideias de criação de um centro de estudos foram semeadas no início da década de 1960, momento em que não havia residências médicas de psiquiatria em Minas Gerais. Todo o ensino dessa especialidade deveria ocorrer de maneira autodidata e os estudantes de medicina interessados em psiquiatria frequentavam os hospitais psiquiátricos, únicos dispositivos de assistência à saúde mental naquele período, na condição de estagiários.

Assim, experientes psiquiatras e jovens aprendizes pensaram na criação de um espaço que privilegiasse a transmissão de saber e a circulação do conhecimento de forma viva e independente – era tempo de compartilhamento de bibliografias, dado a escassez de acesso a informação. A atividade principal do CEGV nesse momento era a leitura, e os jovens psiquiatras se reuniam ao entorno dos clássicos: Ey, Schneider, Bleuler, Jaspers. Além dessas sessões literárias, o estudo era enriquecido e complementado pelas aulas das grandes personalidades da psiquiatria brasileira que conviviam no hospital.

Uma consequência direta desse ato de fundação do CEGV, atuação de jovens com desejo, foi a formalização do ensino de psiquiatria e a inauguração da primeira residência médica dessa especialidade em Minas Gerais. Ao longo dos anos, o Centro de Estudos soube manter seu lugar de vanguarda, com potência de provocar transformações importantes e históricas no campo da Saúde Mental mineira. Pode-se enumerar três marcos importantes nesse percurso: 1) O CEGV promoveu espaço para as primeiras investigações científicas envolvendo os psicofármacos em Minas Gerais; 2) possibilitou profundo debate e articulação sobre o que mais tarde se denominou Reforma Psiquiátrica; 3) construiu espaço de introdução e estudo contínuo da psicanálise na cidade.

Para sustentar seu lugar, o CEGV entendeu que deveria estar aberto para a contribuição de outros jovens: psicólogos, psicanalistas, filósofos, sociólogos, enfermeiros, etc. E assim, fez-se território da juventude psi, campo de encontro entre o extemporâneo e o contemporâneo. O CEGV soube incorporar um valor agalmático que faz função de causa para seus membros e tem força para girar os discursos.

O saber constituído, acabado, pronto, vindo do Mestre é colocado em questão. Para esses jovens o que está em jogo é a articulação de seus desejos com o não-saber que emerge diante do encontro com os pacientes e com as instituições psiquiátricas. Dessa hiância deriva algo que é tomado como causa para o trabalho que se materializa em múltiplas formas: leituras, debates, mesas-redondas, encontros, seminários, colóquios, congressos. O que demonstra uma atitude do desejo de experimentação – algo próprio à juventude.

Se já não estamos mais em um tempo em que para compartilharmos textos há a necessidade de encontros pessoais, e por isso a reunião de estudantes, há algo no século XXI que possa justificar a continuidade desse laço. O CEGV, em sua posição jovem – a de não-saber a priori, movido pela interrogação, contestação – fez de seu espaço um novo lugar de compartilhamento. Partilha da experiência de não saber e a possibilidade de construir um saber próprio, ao redor do furo discursivo. Daí um centro de estudos que possibilite uma experimentação compartilhada, outra marca da juventude.

Dessa maneira, o CEGV se fortaleceu com o passar dos anos, possibilitando um ponto extimo ao hospital psiquiátrico, rejeitando inúmeras tentativas de apropriação, seja de caráter pessoal ou institucional. Manteve sua autonomia, com seu funcionamento sem hierarquia entre membros, e que possibilita o acolhimento de cada um que ali comparece com o próprio desejo. Nesse ensaio coletivo de exercício da subjetividade, seus membros podem encontrar a maneira singular de se formar.

Nesse lugar da juventude, o CEGV viabiliza a cena para os encontros e desencontros, cópias e criações, que ocorrem nessa tentativa de extração da forma com que cada um conceberá sua profissão e ocupará um lugar no mundo.